{"id":4482,"date":"2025-01-21T06:18:27","date_gmt":"2025-01-21T09:18:27","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=4482"},"modified":"2025-01-21T06:18:27","modified_gmt":"2025-01-21T09:18:27","slug":"os-abonados-do-inconsciente-e-seus-grampos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/os-abonados-do-inconsciente-e-seus-grampos\/","title":{"rendered":"Os abonados do inconsciente e seus grampos"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\">Jos\u00e9 Augusto Rocha &#8211; Participante da NPJ<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\">Cartel: O que h\u00e1 de novo no contempor\u00e2neo?, mais-um: Jos\u00e9 Augusto Rocha<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-4483\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/litoraneo_016_008-300x240.png\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/litoraneo_016_008-300x240.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/litoraneo_016_008-1024x819.png 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/litoraneo_016_008-768x614.png 768w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/litoraneo_016_008.png 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p><strong>Duas frases<\/strong><\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, gostaria de contar uma breve hist\u00f3ria aned\u00f3tica. Certa vez, James Joyce e Ezra Pound encontraram-se. &#8220;&#8216;Tenho trabalhado duro em <em>Ulisses<\/em>, disse James Joyce. &#8216;Escrevendo muito?&#8217;, perguntou Ezra Pound. &#8216;Duas frases&#8217;, disse Joyce. Pound, ent\u00e3o, percebeu que Joyce n\u00e3o estava gracejando. &#8216;\u00c0 procura do <em>mot juste<\/em>?\u2019; &#8216;N\u00e3o&#8217;, respondeu Joyce. &#8216;J\u00e1 sei as palavras. O que procuro \u00e9 a ordem certa delas na frase'&#8221;.<\/p>\n<p>A ordem certa das palavras parece corresponder a tudo aquilo, em alguma medida, que a escrita joyceana, sobretudo a partir de seus trabalhos mais marcantes, n\u00e3o \u00e9. Afinal, esse Joyce que constr\u00f3i a si mesmo<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, fabrica uma l\u00edngua, muito mais que uma linguagem, para se constituir, ou, mais precisamente, uma l\u00edngua para gozar do que para comunicar. A ordem certa, ali\u00e1s, pode ser descrita como um encadeamento significante enquanto a escrita joyceana, em si mesma, \u00e9 l\u00edngua de gozo. Joyce \u00e9 um caso paradigm\u00e1tico para pensarmos n\u00e3o apenas a rela\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e literatura, mas o pr\u00f3prio campo da cl\u00ednica. Foi Jacques Alain-Miller quem apontou uma pr\u00e1tica p\u00f3s-joyceana<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> como dire\u00e7\u00e3o \u00e0 psican\u00e1lise. Uma pr\u00e1tica em dire\u00e7\u00e3o ao <em>sinthoma<\/em>, que &#8220;n\u00e3o recorre ao sentido para resolver o enigma do gozo\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Gostaria, assim, de iniciar essa pequena comunica\u00e7\u00e3o lembrando que \u00e9 a respeito de Joyce que Lacan formula o termo <em>desabonado do inconsciente<\/em>. E que se h\u00e1 os desabonados do inconsciente, h\u00e1 os abonados. Gostaria, ent\u00e3o, de partir deste ponto. Os abonados do inconsciente e seus grampos.<\/p>\n<p><strong>Os abonados do inconsciente e seus grampos<\/strong><\/p>\n<p>Durante uma supervis\u00e3o, guardei uma observa\u00e7\u00e3o do supervisor: \u201ceste sujeito n\u00e3o tem uma boa rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente\u201d. Uma boa rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente n\u00e3o significa estar em dia com ele, nunca se est\u00e1, como lembrou Miller; aponta, ent\u00e3o, para uma rela\u00e7\u00e3o entre o inconsciente e o sintoma. O que estava em jogo naquele caso. E que me levou, neste caso, a essa quest\u00e3o no Cartel: <em>o que faz com que o sujeito se grampeie ao seu inconsciente? <\/em>A princ\u00edpio, \u201co inconsciente e o sintoma n\u00e3o pertencem a mesma ordem\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Ou seja, eles podem manter uma rela\u00e7\u00e3o, assim como tamb\u00e9m podem n\u00e3o manter. Se a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, \u00e9 porque ela \u00e9 grampeada, tal como duas folhas de papel, n\u00e3o porque o inconsciente e o sintoma sejam necessariamente a mesma coisa. O grampo \u00e9 <em>alguma coisa<\/em>, portanto, <em>alguma coisa<\/em>, acrescente-se, com valor. Podemos destacar, como o faz Miller, o que assume essa fun\u00e7\u00e3o de grampo: o pr\u00f3prio falo, o Nome do Pai etc.<\/p>\n<p>A Idade de Ouro da psican\u00e1lise, como descreve Miller, implicava na rela\u00e7\u00e3o entre o sintoma e a verdade, pois &#8220;o sintoma se oferecia ao deciframento&#8221;<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> sem maiores dificuldades. A tal Idade de Ouro corresponderia \u00e0 abertura, a esse momento inicial da Psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Lembremos, por exemplo, como Lacan localiza o falo como significante, cuja fun\u00e7\u00e3o reside em \u201cdesignar os efeitos do significado\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. \u00c9 isto, ali\u00e1s, que permite que se instale a \u201cpaix\u00e3o do significante\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. Contudo, ocorre que, em determinados casos, a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica n\u00e3o esteja instalada, muito provavelmente por haver uma invas\u00e3o do imagin\u00e1rio<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>. Nestes casos, talvez seja preciso um empurr\u00e3ozinho do analista. Algo que possa abrir, aos abonados, a experi\u00eancia com o inconsciente, a esse <em>inconsciente estruturado como linguagem<\/em>.<\/p>\n<p>O dado inicial, para Miller, contudo, n\u00e3o corresponde ao inconsciente, mas ao <em>sinthoma<\/em>, e duas considera\u00e7\u00f5es se fazem necess\u00e1rias. Primeiro que o <em>sinthoma<\/em> \u201cn\u00e3o \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente\u201d, somando-se a esta uma outra \u2014 o <em>sinthoma<\/em> \u201cdesigna precisamente o que o sintoma tem de rebelde ao inconsciente\u201d. N\u00e3o h\u00e1 deciframento, descoberta, revela\u00e7\u00e3o. Implicando &#8220;uma nova leitura do sintoma e um saber-fazer com a opacidade do gozo e com o real da puls\u00e3o, e nessa leitura podemos constatar que a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, t\u00e3o enraizada na pr\u00f3pria cl\u00ednica, sofre uma mudan\u00e7a radical, passando a decifra\u00e7\u00e3o do sentido para a leitura da letra de gozo&#8221;<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>. Portanto, uma psican\u00e1lise p\u00f3s-joyceana &#8220;\u00e9 uma pr\u00e1tica mais centrada no sinthome que no inconsciente&#8221;<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>. Ou seja, os abonados do inconsciente s\u00e3o levados &#8220;ao incur\u00e1vel, ou seja, ao sinthome, que estava l\u00e1 desde o princ\u00edpio&#8221;<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>. Cada um \u00e9 levado &#8220;\u00e0s inven\u00e7\u00f5es poss\u00edveis que cada singularidade vai tecendo, vai construindo em uma an\u00e1lise&#8221;<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><strong>E os desabonados?<\/strong><\/p>\n<p>Quanto aos desabonados do inconsciente, por onde abri este trabalho, ser\u00e1 necess\u00e1rio a continuidade do trabalho do Cartel. De todo modo, pode-se dar uma palavrinha ou duas antes de finalizar: desabonados do inconsciente n\u00e3o significa desabonados do <em>sinthoma<\/em>, com th. Fiquemos com este ponto.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> GARCIA, G. Joyce, construindo Joyce. <em>Revista Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> MILLER, Jacques-Alain. <em>Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 87.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> <em>Ibid<\/em>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> MILLER, Jacques-Alain. <em>Los signos del goce<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 1998. p. 366.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> MILLER, J. A. <em>Percurso de Lacan:<\/em> uma introdu\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Zahar, 1988, p, 78.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 667.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> <em>Ibid<\/em>. p. 695.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Cf. MALEVAL, J-C. <em>L\u00f3<\/em><em>gica del delirio<\/em>. Barcelona: Ediciones del sebal, 1998.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> GON\u00c7ALVES, N. Como ler um sintoma. In.: <em>O campo uniano:<\/em> o \u00faltimo ensino de Lacan e suas consequ\u00eancias. Goi\u00e2nia: Editora Ares, 2022, p. 102.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> TUDANCA, L. Abonados e desabonados. <em>XI ENAPOL<\/em><strong>.<\/strong> Textos de orienta\u00e7\u00e3o, 2023, p. 6.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> <em>Ibid. <\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> <em>Ibid.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Augusto Rocha &#8211; Participante da NPJ Cartel: O que h\u00e1 de novo no contempor\u00e2neo?, mais-um: Jos\u00e9 Augusto Rocha Duas frases Para come\u00e7ar, gostaria de contar uma breve hist\u00f3ria aned\u00f3tica. 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