{"id":4410,"date":"2024-08-05T05:48:25","date_gmt":"2024-08-05T08:48:25","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=4410"},"modified":"2024-08-06T06:24:42","modified_gmt":"2024-08-06T09:24:42","slug":"comentarios-sobre-o-texto-corpos-e-discursos-de-patricia-badari","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/comentarios-sobre-o-texto-corpos-e-discursos-de-patricia-badari\/","title":{"rendered":"Coment\u00e1rios sobre o texto Corpos e discursos, de Patr\u00edcia Badari"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00a0Maria do Carmo Dias Batista<\/em><\/p>\n<p><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4396\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/litoraneo_15_004.jpg\" alt=\"\" width=\"425\" height=\"283\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/litoraneo_15_004.jpg 425w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/litoraneo_15_004-300x200.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/litoraneo_15_004-391x260.jpg 391w\" sizes=\"auto, (max-width: 425px) 100vw, 425px\" \/>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O texto <em>Corpos e discursos<\/em>, de Patr\u00edcia Badari, \u00e9 sinuoso e envolvente. Em cada curva volta \u00e0 quest\u00e3o do corpo e sua liga\u00e7\u00e3o com o discurso, tema do XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano: <em>Corpos aprisionados pelo discurso&#8230; e seus restos.<\/em><\/p>\n<p>Elege a m\u00fasica e, sobretudo, o cinema como \u00edndices para atualizar a psican\u00e1lise, \u201ccoloc\u00e1-la em ato\u201d e inseri-la no contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Corpo, discurso, cinema, m\u00fasica&#8230;<\/p>\n<p>Vias privilegiadas de transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise, pois \u201ca verdade mais oculta se manifesta nas revolu\u00e7\u00f5es da cultura.\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Coteja o filme de 2022, <em>Crimes do Futuro<\/em>, de David Cronemberg, com o filme de 2023, <em>Oppenheimer<\/em>, de Christopher Nolan, designando-o como \u201cCrimes do Passado.\u201d Muito perspicaz a analogia constru\u00edda por Patr\u00edcia entre os dois filmes, \u201cCrimes do Futuro x Crimes do Passado\u201d. Primeiro, por romper com a cronologia \u2013 o passado vem depois do futuro \u2013 e tamb\u00e9m porque o passado (<em>Oppenheimer<\/em>) implanta o projeto Manhattan, no deserto de Los Alamos, deposit\u00e1rio de muitas aspira\u00e7\u00f5es de futuro. Ali, em setembro de 1942, foi criado o Laborat\u00f3rio Nacional de Los Alamos, dedicado aos estudos sobre armas nucleares e de onde partiram as bombas at\u00f4micas lan\u00e7adas sobre Hiroshima e Nagasaki, em 1945.<\/p>\n<p>Cronemberg faz os <em>Crimes do Futuro<\/em> referirem-se ao corpo e ao gozo. \u201cA cirurgia pl\u00e1stica \u00e9 o novo sexo\u201d, diz uma das personagens, quando toca com vol\u00fapia outro corpo com uma cicatriz cir\u00fargica aberta, deiscente. Os \u201cneo-\u00f3rg\u00e3os\u201d, tatuados, formam-se e se reproduzem a partir de causas obscuras, diferentemente dos \u00f3rg\u00e3os originais. As cirurgias para extirp\u00e1-los v\u00eam carregadas de erotismo e s\u00e3o o \u00e1pice do filme.<\/p>\n<p>Se somos \u201canimais doentes do pr\u00f3prio gozo\u201d, como diz J.-A. Miller<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, o gozo explicitado na tatuagem dos \u201cneo-\u00f3rg\u00e3os\u201d e no tato aponta magnificamente, no filme, para a pele como objeto pulsional a ser ainda melhor explorada pela psican\u00e1lise. Um novo objeto <em>a<\/em>?<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica, as hoje frequentes mutila\u00e7\u00f5es e cortes na pele, sub-rept\u00edcias manifesta\u00e7\u00f5es da puls\u00e3o de morte, e os casos de psor\u00edase, acrescentam exemplos \u00e0 pesquisa da pele como objeto causa de desejo.<\/p>\n<p>Patr\u00edcia cita a m\u00fasica <em>Tatuagem<\/em>, de 1973, de Chico Buarque: \u201cQuero ficar no teu corpo como tatuagem [&#8230;]. Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva [&#8230;].<\/p>\n<p>Antecipa\u00e7\u00f5es da arte&#8230; (da m\u00fasica, do cinema). Gostaria de comentar, a seguir, o ponto inicial do texto. A erotomania.<\/p>\n<p>Patr\u00edcia a discute a partir de uma certa generaliza\u00e7\u00e3o do conceito proposta por J.-A. Miller em <em>O osso de uma an\u00e1<\/em><em>lise<\/em>, onde define que \u201co parceiro-sintoma do falasser feminino tem a forma erotoman\u00edaca\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. A erotomania, como sintoma, praticamente constitui o feminino. Parece-me importante aferi-la com a erotomania na psicose, o del\u00edrio de ser amada, ou Doen\u00e7a de Cl\u00e9rambeaut, autor do conceito. Aqui h\u00e1 a certeza delirante de ser amada pelo Outro. O m\u00e9dico assistente, o governador, o rei, o presidente, o escritor renomado, essas figura\u00e7\u00f5es do Outro \u201ca\u201d amam.<\/p>\n<p>A extens\u00e3o do conceito de Cl\u00e9rambault permite afirmar: \u201co gozo feminino afeta a civiliza\u00e7\u00e3o como um todo, para al\u00e9m do la\u00e7o propriamente amoroso e sexual\u201d, como o faz Patr\u00edcia no texto.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s \u201csupostas comunidades de gozo\u201d, s\u00e3o discutidas pela autora como \u201cfixa\u00e7\u00e3o, repeti\u00e7\u00e3o e escravid\u00e3o do falasser ao significante-amo\u201d, a partir da pluraliza\u00e7\u00e3o dos Uns, correlativa \u00e0 queda contempor\u00e2nea do Outro. Por\u00e9m, \u00e9 preciso pensar se n\u00e3o seria justamente o significante-mestre comum o Outro das comunidades de gozo. O Outro existiria materializado na fixa\u00e7\u00e3o ao significante do gozo.<\/p>\n<p>Por que <em>supostas<\/em> comunidades? Porque Patr\u00edcia toma o Um + Um + Um + Um, plurais, mas isolados, enla\u00e7ados somente pelas pr\u00e1ticas sexuais comuns. Se inserirmos o significante-mestre no lugar do Outro, como no discurso hist\u00e9rico, ter\u00edamos, ent\u00e3o, uma comunidade de gozo propriamente dita?<\/p>\n<p>A segrega\u00e7\u00e3o pode estar justamente a\u00ed, nesse racismo de iguais, identificados ao significante comum, irm\u00e3os na raiz (ra\u00e7a) do corpo; \u201co racismo se enra\u00edza no corpo, na fraternidade do corpo\u201d, diz Lacan no Semin\u00e1rio 19<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Vale lembrar: a fraternidade se origina da segrega\u00e7\u00e3o. \u201cS\u00f3 conhe\u00e7o uma \u00fanica origem da fraternidade \u2013 falo da humana, sempre o h\u00famus \u2013, \u00e9 a segrega\u00e7\u00e3o. [&#8230;] Simplesmente, na sociedade, tudo o que existe se baseia na segrega\u00e7\u00e3o, e a fraternidade em primeiro lugar.\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Se \u201ca mentira \u00e9 a p\u00e9rola secretada pela concha da verdade\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> e se h\u00e1 mais de 23 diferentes cita\u00e7\u00f5es sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a verdade e a mentira nos semin\u00e1rios de Lacan, tratemos agora da \u201cverdade mentirosa\u201d, apontada por Patr\u00edcia no texto. H\u00e1 um mais-al\u00e9m da verdade, a mentira, uma n\u00e3o existe sem a outra. Entretanto, a \u201cverdade mentirosa\u201d \u00e9 uma proposi\u00e7\u00e3o do final do ensino de Lacan, mencionada no \u00faltimo de seus escritos [dos <em>Outros Escritos<\/em>], o <em>Pref<\/em><em>\u00e1cio \u00e0 <\/em><em>edi<\/em><em>\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1<\/em><em>rio 11<\/em>,<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> de 17\/05\/1976. Refere-se \u00e0 coragem em se arriscar dos AE [os esparsos disparatados], ao fazer o passe e testemunhar sobre a verdade, naquela altura sabendo-a mentirosa. \u00c0 verdade mentirosa, \u00e0 descren\u00e7a na verdade, chega-se sempre no final de uma an\u00e1lise e os AE t\u00eam por mister comprovar essa descren\u00e7a para o conjunto da Escola. O verdadeiro joga com o falso e a verdade e a mentira coexistem, por\u00e9m, a passagem do verdadeiro ao <em>real<\/em> \u00e9 o pulo do gato, anunciado pela \u201cverdade mentirosa.\u201d<\/p>\n<p>Para finalizar, gostaria de colocar uma quest\u00e3o sobre os corpos <em>attrap<\/em><em>\u00e9<\/em><em>s<\/em><a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> pelo discurso, parte do t\u00edtulo do XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, citado no in\u00edcio deste coment\u00e1rio. Os corpos est\u00e3o imersos no discurso, por\u00e9m, n\u00e3o podem nadar livremente, pois o discurso os captura e neles se agarra, gruda como areia (ou uma alga)&#8230; A met\u00e1fora da submers\u00e3o pode ajudar na diferencia\u00e7\u00e3o entre corpo e discurso. Diferen\u00e7a que, a princ\u00edpio, parece f\u00e1cil, pois corpo \u00e9 coisa e discurso \u00e9 palavra, mas, como falar do corpo sem as palavras? A areia se infiltra&#8230; Palavras e coisas lembram um belo livro de Foucault.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Palavras e coisas s\u00e3o o cora\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia humana. Diz Patr\u00edcia que o corpo preso, agarrado ao discurso do mestre faz sintoma. Podemos a\u00ed incluir a inibi\u00e7\u00e3o? E a ang\u00fastia? Inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia s\u00e3o o cora\u00e7\u00e3o da ex-sist\u00eancia do inconsciente.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> LACAN, J. \u201cA Psican\u00e1lise e seu ensino\u201d. In: <em>Escritos.<\/em> Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 460.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> MILLER, J.-A. \u201cComent\u00e1rio sobre <em>A Terceira<\/em>\u201d. In: <em>A terceira; Teoria de Lal\u00edngua,<\/em> Rio de Janeiro: Zahar, 2022, p. 74.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> MILLER, J.-A. <em>O osso de uma an\u00e1lise. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 2015, p. 94.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio \u2013 livro 19.<\/em> <em>Ou pior&#8230; <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, li\u00e7\u00e3o de 21 de junho de 1972, 2012, p. 227.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio \u2013 livro 17. O avesso da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, li\u00e7\u00e3o de 11 de mar\u00e7o de 1970, 1992, p. 107.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio \u2013 livro 16. De um Outro ao outro. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, li\u00e7\u00e3o de 12 de fevereiro de 1969, 2008, p. 170.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> LACAN, J. Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 569.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>LE SEMINAIRE livre XIX &#8230; ou pire. <\/em>Paris: Seuil, Chapitre XVI, 2011, p. 221.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> FOUCAULT, M. <em>Les mots et les choses.<\/em> Paris: Gallimard, 1966, p. 385. \u201cA psican\u00e1lise, de fato, liga-se de perto a essa fun\u00e7\u00e3o cr\u00edtica interior a todas as ci\u00eancias humanas. Atribuindo-se o papel de fazer falar atrav\u00e9s da consci\u00eancia o discurso do inconsciente, a psican\u00e1lise avan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o dessa regi\u00e3o fundamental onde se jogam as rela\u00e7\u00f5es da representa\u00e7\u00e3o e da finitude.\u201d Tradu\u00e7\u00e3o nossa.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Maria do Carmo Dias Batista \u00a0 O texto Corpos e discursos, de Patr\u00edcia Badari, \u00e9 sinuoso e envolvente. Em cada curva volta \u00e0 quest\u00e3o do corpo e sua liga\u00e7\u00e3o com o discurso, tema do XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano: Corpos aprisionados pelo discurso&#8230; e seus restos. 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