{"id":4266,"date":"2024-04-12T06:41:06","date_gmt":"2024-04-12T09:41:06","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=4266"},"modified":"2024-04-15T11:32:10","modified_gmt":"2024-04-15T14:32:10","slug":"no-caminho-de-toda-fala-a-opacidade-do-gozo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/no-caminho-de-toda-fala-a-opacidade-do-gozo\/","title":{"rendered":"No caminho de toda fala, a opacidade do gozo"},"content":{"rendered":"<h6>Cleyton Andrade (coordenador)<br \/>\nJos\u00e9 Augusto Rocha, Melissa Barboza, Samuel Nantes<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-4261\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/08.png\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"747\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/08.png 2258w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/08-201x300.png 201w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/08-685x1024.png 685w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/08-768x1148.png 768w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/08-1028x1536.png 1028w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/08-1370x2048.png 1370w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p>Todo falasser, no meio do caminho da cadeia significante, esbarra em uma pedra. Uma pedra que n\u00e3o se resume a um mero obst\u00e1culo. Uma pedra que n\u00e3o se dissolve no deciframento. Uma pedra&#8230; no meio do caminho.<\/p>\n<p>Nos tempos da pol\u00edtica da felicidade, do recrudescimento da extrema-direita e do fortalecimento da metrifica\u00e7\u00e3o encampada pelas TCCs, parece n\u00e3o caber pedras no caminho. A fim de resistir aos imperativos de normatiza\u00e7\u00e3o, aos apelos da ci\u00eancia e \u00e0s pol\u00edticas segregat\u00f3rias, a psican\u00e1lise encontra seu caminho justamente <em>no caminho das pedras<\/em>.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo nos dizeres de Lacan, afirma Jacques-Alain Miller<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, a certa altura, em seu curso <em>Todo el mundo es loco<\/em>, rebelde ao deciframento e \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o; algo que resiste e resta, tal qual uma repetida pedra no percurso de um poema \u2013 ou de uma fala.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Uma pedra: o objeto <\/strong><strong><em>a<\/em><\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Miller<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> inicia <em>El goce opaco del s<\/em><em>\u00ed<\/em><em>ntoma<\/em> resgatando a interpreta\u00e7\u00e3o lacaniana sobre o <em>cogito<\/em> cartesiano \u201cpenso, logo existo\u201d, \u201conde penso, ali sou\u201d. No entanto, para Lacan, a articula\u00e7\u00e3o entre ser e pensamento \u2013 dizer que <em>s<\/em><em>\u00f3<\/em> sou ali onde penso \u2013, limita o sujeito a existir no n\u00edvel da consci\u00eancia, de modo que no semin\u00e1rio 15 ele havia dito de antem\u00e3o: \u201cjamais se \u00e9 t\u00e3o s\u00f3lido no seu ser como quando n\u00e3o se pensa\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Temos, ent\u00e3o, o ensaio de uma mudan\u00e7a, pois as rela\u00e7\u00f5es entre fala e sentido, ou mais precisamente, entre significante e significado, no primeiro ensino de Lacan, encontram um lugar diverso do que vai culminar no <em>Ultim<\/em><em>\u00ed<\/em><em>ssimo Lacan<\/em>.<\/p>\n<p>Tal mudan\u00e7a inicialmente se verifica na constru\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em> \u2013 a pedra, como diz Miller<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, fazendo refer\u00eancia a um dos poemas mais conhecidos de Carlos Drummond<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> \u2013 um suplemento em rela\u00e7\u00e3o ao significante. Ou seja, o objeto <em>a<\/em> \u00e9 o que existe em todo caminho da fala e habita o corpo: \u201c\u00e9 o objeto no qual se condensa o gozo do corpo sob o efeito da fala. Ali o sujeito encontra o seu ser, mas fora do sentido\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>A dificuldade de todo corpo falante se encontra com o gozo, opaco e excessivo que a ele se apresenta. \u201cNo falasser, o gozo \u00e9 sempre um real: n\u00e3o est\u00e1 tudo bem\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. O sentido \u00e9 uma das formas onde o sentido gozado se encarna. Contudo, \u00e9 s\u00f3 a partir a exclus\u00e3o de sentido que nos aproximar\u00edamos da dimens\u00e3o do gozo opaco. Um\u00a0gozo que\u00a0inaugura, tal como afirma J\u00e9sus Santiago<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>, uma compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o ao indicar a impossibilidade de satisfa\u00e7\u00e3o e apaziguamento, cuja marca, por excel\u00eancia, \u00e9 n\u00e3o obedecer ao Princ\u00edpio do Prazer. O que se repete, em suma, n\u00e3o \u00e9 o mesmo, n\u00e3o \u00e9 o achado, \u00e9 o circuito percorrido.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Esculpir a pedra<\/strong><\/p>\n<p>O fora de sentido seria, portanto, da ordem da ruptura com o pensamento e estaria na contram\u00e3o do movimento de conquistas de deciframento do inconsciente; na contram\u00e3o, ent\u00e3o, do que Miller<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> chama de exalta\u00e7\u00e3o e excita\u00e7\u00e3o do sentido; na contram\u00e3o, enfim, de encontrar e decifrar um sentido para as manifesta\u00e7\u00f5es do inconsciente. Dito de outro modo, Lacan recusa o engodo da nitidez, do imperativo de tornar intelig\u00edvel o que parecia estar inintelig\u00edvel. N\u00e3o se trata de uma hermen\u00eautica para psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Logo, se o que resta, insiste e repete, \u00e9 indissol\u00favel, nos resta aprender com Drummond \u2013 fazer da pedra o pr\u00f3prio recurso do dizer, a esculpindo a partir da fala.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> MILLER, J-A.<em> Todo el mundo es loco.<\/em> Los cursos psicanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o de St\u00e9phane Verley. 1\u00aa ed. Ciudad Aut\u00f4noma de Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2015.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Op. Cit.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> LACAN, J.\u00a0<em>O Semin<\/em><em>\u00e1<\/em><em>rio livro 15: O ato anal<\/em><em>\u00ed<\/em><em>tico<\/em>. Vers\u00e3o an\u00f4nima em portugu\u00eas. 1967-1968, p. 83.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> MILLER, J-A. <em>O osso de uma an<\/em><em>\u00e1lise<\/em>. Semin\u00e1rio proferido no VIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano e II Congresso da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. Biblioteca agente, N\u00famero especial de agente. Salvador, 1998.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> ANDRADE, C. D. <em>No meio do caminho<\/em>. Biografia de um poema. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1967.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> MILLER, J-A. 2023. Coment\u00e1rio sobre A terceira. In.: LACAN, J. <em>A terceira<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Op. Cit.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> SANTIAGO, J. A disc\u00f3rdia da puls\u00e3o de morte e o sinthoma. <em>Correio Express.<\/em> Revista online da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. 2020. Discpon\u00edvel em https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/2020\/12\/24\/a-discordia-da-pulsao-de-morte-e-o-sinthoma\/?highlight=gozo%20opaco.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> MILLER, J-A.<em> Todo el mundo es loco.<\/em> Los cursos psicanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o de St\u00e9phane Verley. 1\u00aa ed. Ciudad Aut\u00f4noma de Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2015.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cleyton Andrade (coordenador) Jos\u00e9 Augusto Rocha, Melissa Barboza, Samuel Nantes Todo falasser, no meio do caminho da cadeia significante, esbarra em uma pedra. Uma pedra que n\u00e3o se resume a um mero obst\u00e1culo. Uma pedra que n\u00e3o se dissolve no deciframento. Uma pedra&#8230; no meio do caminho. 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