{"id":4205,"date":"2024-03-05T07:44:07","date_gmt":"2024-03-05T10:44:07","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=4205"},"modified":"2024-03-05T17:05:11","modified_gmt":"2024-03-05T20:05:11","slug":"uma-noite-na-aldeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/uma-noite-na-aldeia\/","title":{"rendered":"Uma noite na aldeia"},"content":{"rendered":"<h6>Jos\u00e9 Augusto Rocha<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-4186\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/litoraneo13_003.png\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/litoraneo13_003.png 2251w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/litoraneo13_003-200x300.png 200w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/litoraneo13_003-683x1024.png 683w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/litoraneo13_003-768x1151.png 768w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/litoraneo13_003-1024x1536.png 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/litoraneo13_003-1366x2048.png 1366w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/p>\n<p>Ano de 1920. Um grupo de dez Potiguara, liderados por Manoel Santana, ent\u00e3o cacique-geral, partiu de navio em dire\u00e7\u00e3o ao Rio de Janeiro. Acossados pela tomada de seus territ\u00f3rios naqueles anos, alguns haviam presenciado cena horripilante de espancamento, seguido de pris\u00f5es ilegais, contra seus parentes, ap\u00f3s \u2013 vejam s\u00f3 \u2013 um grupo de ind\u00edgenas ser descoberto na cata do caranguejo em um coqueiral, o qual uma fam\u00edlia aristocr\u00e1tica havia se apossado \u00e0 revelia do direito. Lan\u00e7avam-se, por mais de 3 mil quil\u00f4metros, em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias para a sede do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o ao \u00cdndio (SPI). Fora algumas mudas de roupas, carregavam na mala o desejo de sobreviv\u00eancia, pois reclamavam prote\u00e7\u00e3o ao SPI, o \u00f3rg\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o respons\u00e1vel por acompanhar as quest\u00f5es dos ind\u00edgenas brasileiros.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio tem mais de um s\u00e9culo. De l\u00e1 para c\u00e1, como vimos, a quest\u00e3o ind\u00edgena ganhou tra\u00e7\u00e3o, dir\u00edamos at\u00e9, <em>movimento<\/em>. Apesar de muito esfor\u00e7o em contr\u00e1rio. Muito mesmo. Os Bororo, por exemplo, foram encontrados na d\u00e9cada de 30. L\u00e9vi-Strauss conhecera-os ap\u00f3s escutar do embaixador brasileiro em Paris que n\u00e3o havia mais \u00edndios no Brasil. Curiosamente, n\u00e3o fosse esse epis\u00f3dio ter sido realizado, talvez n\u00e3o tiv\u00e9ssemos o estruturalismo. Talvez. Ao menos, n\u00e3o ter\u00edamos a passagem presente nos <em>Escritos<\/em> que animara Lacan e fora recolhido das palavras de um Bororo: &#8220;eu sou uma arara&#8221;. Essa certamente, n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Movimento ind\u00edgena, hoje<\/strong><\/p>\n<p>Em <em>Momentos de Interc<\/em><em>\u00e2<\/em><em>mbio<\/em>, promovido pela Se\u00e7\u00e3o Nordeste, foi realizada a atividade <em>O Movimento Ind\u00edgena, hoje<\/em>, coordenado por Li\u00e9ge Uch\u00f4a e animado por mim e Cleyton Andrade. Tivemos o privil\u00e9gio de escutar um dos nomes e, portanto, das vozes que se fizeram ouvir para al\u00e9m do universo ind\u00edgena. Que, na verdade, fez os mundos ind\u00edgenas serem ouvidos para al\u00e9m do universo dos n\u00e3o ind\u00edgenas. Falo evidentemente do Cacique Caboquinho Potiguara. Do acontecimento que foi ouvi-lo. Pois para al\u00e9m de uma conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias em primeira pessoa, comp\u00f4s-se um retalho de pe\u00e7as soltas, esquecidas e, por vezes, segregadas de nossa forma\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria. Uma noite na aldeia, uma vez que ao falar em primeira pessoa Caboquinho falava dos Potiguara no plural.<\/p>\n<p>Duas quest\u00f5es, ao menos, saltam aos ouvidos. Quando perguntado acerca do que \u00e9 terra, a resposta de Caboquinho n\u00e3o separava o corpo ind\u00edgena do corpo da terra. Em outro momento, apesar das diferen\u00e7as, das geografias, das dist\u00e2ncias, disse-nos a todos ali presentes (e a mim em particular) que se \u00e9 Potiguara.<\/p>\n<p>Nas palavras que ouvimos do Cacique Caboquinho, extrai-se um saber operado pela for\u00e7a de um nome, a produ\u00e7\u00e3o de um saber ancestral que n\u00e3o se coloca como um discurso do mestre, mas no qual se aponta, se reitera e se <em>movimenta<\/em> um saber sobre o gozo que n\u00e3o se institui pela destrui\u00e7\u00e3o da terra, do corpo e do outro. E nisso psicanalistas e ind\u00edgenas se aproximam, pois para n\u00f3s o ponto de vista que interessa \u00e9 sempre o do outro. Em suma, ouvir o outro \u00e9 uma arte que o analista se permite realizar.<\/p>\n<p><strong>Reduzir ao tra\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>Lacan n\u00e3o estava muito animado quanto ao futuro. Dizia que este n\u00e3o seria cor de rosa e que n\u00f3s n\u00e3o hav\u00edamos visto as \u00faltimas consequ\u00eancias do racismo. Ao comentar a entrevista de Miquel Bassols, por ocasi\u00e3o do XX Congresso da EBP, Flavia C\u00eara (2014) acrescentou \u00e0 s\u00e9rie de sujeitos tidos como objetos \u2013 nomeados pelo autor, nos quais a viol\u00eancia mostra os dentes, a saber, a crian\u00e7a, a mulher, o louco \u2013 um quarto elemento. &#8220;Um quarto sujeito tomado como objeto&#8221;, acrescenta ela \u2013 os ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m lembrar, no plano do urucum e do jenipapo, que os anos 70 foram respons\u00e1veis pela deflagra\u00e7\u00e3o de lutas e reivindica\u00e7\u00f5es emancipat\u00f3rias, as quais faziam erguer as vozes dos pr\u00f3prios ind\u00edgenas em papel de destaque. O que parece se impor, desde sempre, \u00e9 como resolver a equa\u00e7\u00e3o que op\u00f5e o desejo de reconhecimento \u00e9tnico da nega\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia?<\/p>\n<p>A forma de la\u00e7o social que o Outro oferecia traduz-se em <em>\u00e9 preciso deixar de ser \u00edndio para ser brasileiro<\/em>. V\u00ea-se tal imperativo nas modalidades institu\u00eddas ao longo do Contato e nos projetos de na\u00e7\u00e3o. Reduzir os ind\u00edgenas ao seu tra\u00e7o \u00e9tnico era a primeira volta da segrega\u00e7\u00e3o; a segunda consistia em faz\u00ea-los deixar de ser \u00edndios em nome da civilizacao, ou seja, perder suas cosmologias na ades\u00e3o a uma monocultura nacional, como escreve Fl\u00e1via C\u00eara. Surpreendente \u00e9 que tenham, ao longo dos anos, afirmado e reafirmado \u2014primeiro com os corpos e em seguida com as palavras \u2014 a recusa. Ainda que muitos tenham sido apagados. O que pode ser sintetizado nessa passagem escrita por Marcelo Veras &#8220;a invisibilidade do n\u00e3o ser aloja muitos sujeitos em um campo de exclus\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Tal sentimento de despertencimento \u00e9 percebido nos versos de Eliane Potiguara: \u201ceu n\u00e3o tenho minha aldeia\/ minha aldeia \u00e9 minha casa (\u2026)\/ a maior heran\u00e7a ind\u00edgena \/ eu n\u00e3o tenho minha aldeia \/ (\u2026) porque minha heran\u00e7a foi tirada \/ sem d\u00f3 nem piedade\u201d. Como lembra Ettore Finazzi-Agr\u00f2, os ind\u00edgenas na cultura s\u00e3o a presen\u00e7a de uma aus\u00eancia. Com efeito, os trabalhos dos \u00faltimos anos t\u00eam insistido em refazer tal itiner\u00e1rio compondo cores onde havia somente dissabores. No recurso \u00e0 mem\u00f3ria e \u00e0 palavra, em suma, inscrevem novos significantes.<\/p>\n<p>Em meados de 1950, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa embrenhou-se \u00e0 procura dos \u00edndios. \u00c0 m\u00e3o um velho caderno servia-lhe de registro para recolher de ouvido, pois buscava entender o que os Terena ao seu redor falavam. Rosa prop\u00f4s-se a fazer um pequeno gloss\u00e1rio. O esfor\u00e7o de um dos maiores nomes da literatura brasileira para decifrar o que diziam aqueles \u00edndios esbarrava no rochedo da incompreens\u00e3o. Uma frase, em especial, percorria-lhe o corpo finalmente encontrando eco: <em>Na-k\u00f3 i-k\u00f3<\/em><em>?<\/em>, <em>Na-k\u00f3 i-k\u00f3<\/em><em>?, <\/em>queriam saber alguns ind\u00edgenas rindo aos que se encarregaram, H\u00f3-ye-n\u00f3 e Pedrinho, a respeito da aprendizagem de seu idioma por um estrangeiro \u2013 ou seja, <em>como <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>que vamos? como <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>que vamos?<\/em><\/p>\n<p>Um Rosa que, como dissemos, fazia um gloss\u00e1rio do que lhe chegava pelos ouvidos. A hist\u00f3ria do apagamento das l\u00ednguas ind\u00edgenas \u2014 o qual leva o nome de glotoc\u00eddio \u2014 \u00e9 um cap\u00edtulo \u00e0 parte; \u00e9 curioso, no entanto, notarmos o embara\u00e7o formado pelo mal-entendido. &#8220;Toda l\u00edngua s\u00e3o rastros de velho mist\u00e9rio&#8221;, ele escreve. Tais impasses n\u00e3o apenas n\u00e3o s\u00e3o transpostos como parecem, diante da impossibilidade em si mesma, gerar um movimento: como \u00e9 que vamos?<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Como os portugueses chamavam os nossos \u00edndios<\/strong><\/p>\n<p>Quando estive em Salvador, conheci o Museu de Armas do Farol da Barra. Um enorme cartaz em vermelho diz aos visitantes curiosos: &#8220;<em>Brasis<\/em> \u00e9 como os portugueses chamavam os nossos \u00edndios&#8221;. A rigor, nome e terra aglutinaram-se. N\u00e3o, contudo, sem uma certa dose de ironia a pairar no ar se lembrarmos os destinos em dissociar os ind\u00edgenas da terra em que vivem. Veross\u00edmil ou n\u00e3o, tal passagem pode nos fazer pensar por que os ind\u00edgenas, embora se permitam reunir-se neste universal, n\u00e3o cansem de dizerem seus nomes.<\/p>\n<p>Em um belo texto, Marcus Andr\u00e9 Vieira (2023) se interroga acerca do poder do nome. &#8220;Foi-se o tempo em que era possi\u0301vel contar com a certeza do furo, do sujeito suposto saber. E\u0301 preciso, com o nome, fazer furo. Nome, no sentido que lhe da\u0301 Lacan, de letra, litoral de <em>lali\u0301<\/em><em>ngua<\/em>, nome que em sua forc\u0327a iro\u0302nica ressoa e ri&#8221;. O poder do nome residiria, por extens\u00e3o, em o nome ser o &#8220;que vive no limite da imagem, para ale\u0301m do sentido e da posse, a partir do qual o Outro vive, se transforma, envelhece, rejuvenesce e, por na\u0303o ter imagem em si, pode ser o refu\u0301gio de todas as imagens&#8221;. Retoma, em suma, a for\u00e7a dos nomes amer\u00edndios &#8220;que vibram outro modo de lida com a terra&#8221;.<\/p>\n<p><em> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p><strong>Selvagens e civilizados<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um trabalho herc\u00faleo nesse exerc\u00edcio de retomar uma atividade tal qual assistimos. Algo de uma imperman\u00eancia, a inconst\u00e2ncia do corpo selvagem. Faltam as palavras.\u00a0 Certas experi\u00eancias n\u00e3o se dobram ao sentido: antes experimentam-se com o corpo, como num ritual de Tor\u00e9 ou uma an\u00e1lise. Em ambos os casos, falamos de uma experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Como formulou Lacan, a psican\u00e1lise pode ser uma chance de voltar a partir. Sairmos um pouco das amarras da civiliza\u00e7\u00e3o que em nome do bem produz o pior. Deslocarmo-nos um pouco para fora do eixo de n\u00f3s mesmos. Naquela noite, fomos todos um pouco ind\u00edgenas, um pouco psicanalistas. Viramos do acesso \u00e0s perspectivas, adotamos o ponto de vista do outro. Selvagens e civilizados. Isso e aquilo. Fomos, na verdade, todos um pouco Potiguara.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Augusto Rocha Ano de 1920. Um grupo de dez Potiguara, liderados por Manoel Santana, ent\u00e3o cacique-geral, partiu de navio em dire\u00e7\u00e3o ao Rio de Janeiro. 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