{"id":4182,"date":"2024-03-05T07:34:28","date_gmt":"2024-03-05T10:34:28","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=4182"},"modified":"2024-03-05T17:06:02","modified_gmt":"2024-03-05T20:06:02","slug":"o-gadget-ideal-comentario-sobre-o-filme-o-homem-ideal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/o-gadget-ideal-comentario-sobre-o-filme-o-homem-ideal\/","title":{"rendered":"O gadget ideal: coment\u00e1rio sobre o filme O homem ideal"},"content":{"rendered":"<h6>Niraldo de Oliveira Santos<br \/>\nMembro da EBP\/AMP<\/h6>\n<blockquote><p>\u201cTodo amor se baseia numa certa rela\u00e7\u00e3o entre dois saberes inconscientes\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-4189\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/litoraneo13_007.png\" alt=\"\" width=\"346\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/litoraneo13_007.png 2336w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/litoraneo13_007-208x300.png 208w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/litoraneo13_007-709x1024.png 709w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/litoraneo13_007-768x1109.png 768w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/litoraneo13_007-1063x1536.png 1063w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/litoraneo13_007-1418x2048.png 1418w\" sizes=\"auto, (max-width: 346px) 100vw, 346px\" \/><\/p>\n<p>Gostaria de iniciar agradecendo a K\u00e9sia Ramos, Cleide Pereira e a todos os colegas da diretoria da EBP &#8211; Se\u00e7\u00e3o Nordeste, pelo convite para participar desta atividade, o que muito me deixou feliz e honrado! Alegria que tamb\u00e9m decorre do prazer de ter assistido ao filme \u201c<em>O homem ideal<\/em>\u201d (2021) para esta conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem p\u00f4de assistir \u00e0 s\u00e9rie de 4 epis\u00f3dios \u201cNada ortodoxa\u201d (2020) j\u00e1 teve acesso \u00e0 sensibilidade magistral com a qual Maria Schrader dirige suas produ\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Podemos iniciar com uma advert\u00eancia um tanto \u00f3bvia, mas que considero importante: utilizar o arcabou\u00e7o psicanal\u00edtico para discutir uma obra n\u00e3o passa de um exerc\u00edcio. Exercitar articula\u00e7\u00f5es \u00e9 uma forma um tanto l\u00fadica e ao mesmo tempo s\u00e9ria de nos utilizarmos da teoria freudiana e do Ensino de Lacan com finalidades muito espec\u00edficas, ou seja, tomar emprestado dos poetas, escritores e artistas a capacidade antecipat\u00f3ria e \u2018antenada\u2019 do que nos \u00e9 mais \u00edntimo: nossos medos, anseios, prazeres e ang\u00fastias. A aposta \u00e9 a de que participar deste exerc\u00edcio pode nos ajudar na discuss\u00e3o dos temas contempor\u00e2neos da nossa cultura, mas tamb\u00e9m visa afiar nossa escuta cl\u00ednica, contribuindo, em alguma medida, com a dire\u00e7\u00e3o do tratamento dos casos que atendemos. Afinal, Lacan nos adverte de que o psicanalista deve estar \u00e0 altura de sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>Em uma resenha do filme \u201c<em>O homem ideal<\/em>\u201d, escrita por Marlyana Lima para o Di\u00e1rio do Nordeste, a autora aborda o filme pela via do amor e da solid\u00e3o no mundo guiado por algoritmos e lan\u00e7a a pergunta: \u201cO que voc\u00ea faria se pudesse ter um parceiro perfeito, projetado sob medida pela Intelig\u00eancia Artificial?\u201d. \u201cEsse modelo de romance\u201d, continua Marlyana, \u201cque pode virar realidade num futuro n\u00e3o t\u00e3o distante, j\u00e1 fez sucesso em hist\u00f3rias emblem\u00e1ticas da telona. \u2018<em>Blade Runner<\/em>\u2019, \u2018<em>O Ca\u00e7ador de Andr\u00f3<\/em><em>ides<\/em>\u2019, \u2018<em>Ela\u2019<\/em>, \u2018<em>Ex-Machina<\/em><em>\u2019<\/em>, \u2018<em>O Homem Bicenten\u00e1rio<\/em>\u2019 e alguns epis\u00f3dios de \u2018<em>Black Mirror<\/em>\u2019 s\u00e3o bons exemplos de como esse argumento pode sustentar uma boa narrativa\u201d. Como \u00e9 poss\u00edvel perceber, mesmo para aqueles que n\u00e3o conseguiram assistir ao filme, a narrativa abre in\u00fameras e ricas possibilidades para uma conversa\u00e7\u00e3o. Esta apontada por Marlyana Lima \u00e9 mesmo o ponto central do filme de Maria Schrader, ou seja, o momento no qual a ci\u00eancia produz um <em>gadget<\/em> a servi\u00e7o da obten\u00e7\u00e3o de prazer, obten\u00e7\u00e3o da t\u00e3o buscada felicidade, por meio do par ideal no amor. Trata-se, portanto, nesta fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, de encontrar uma via de fazer existir a rela\u00e7\u00e3o sexual, aquela mesma que Lacan tantas vezes nos disse n\u00e3o existir. Assistir ao filme \u201c<em>O homem ideal<\/em>\u201d causa algum mal-estar no expectador? Ou causa identifica\u00e7\u00e3o com a personagem principal, que se utiliza de artif\u00edcios tecnol\u00f3gicos para lidar com a solid\u00e3o e os desencontros inerentes a todo ser falante? Torcemos ou n\u00e3o para que a parceria entre Alma e Tom funcione?<\/p>\n<p>Voltemos um pouco&#8230; A d\u00e9cada de 1960 foi marcada pelo intenso trabalho humano de produzir equipamentos que permitissem fazer viagens interestelares tripuladas e seguras. Enquanto a ci\u00eancia visava alcan\u00e7ar tal empreendimento, pairava no imagin\u00e1rio popular a amea\u00e7a de que as m\u00e1quinas pudessem ir al\u00e9m do programado, se tornassem aut\u00f4nomas e virassem o jogo, escravizando ou dizimando os humanos. O homem pisou na lua pela primeira vez em 20 de julho de 1969, durante a miss\u00e3o Apollo 11. O astronauta Neil Armstrong foi o primeiro a caminhar na superf\u00edcie lunar, seguido por Buzz Aldrin. Cerca de um ano antes, em 29 de abril de 1968, foi lan\u00e7ado no Brasil o filme \u201c2001 \u2013 Uma Odisseia no Espa\u00e7o\u201d, dirigido por Stanley Kubrick. \u201cQuando o Dr. Dave Bowman e outros astronautas s\u00e3o enviados para uma misteriosa miss\u00e3o, os chips de seus computadores come\u00e7am a mostrar um comportamento estranho, levando a um tenso confronto entre homem e m\u00e1quina que resulta em uma viagem alucinante no espa\u00e7o e no tempo\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. A partir da retomada do enredo de \u201c2001&#8230;\u201d \u00e9 poss\u00edvel constatar que se trata de um argumento que alimenta in\u00fameros filmes, s\u00e9ries e romances, n\u00e3o saindo totalmente de moda a luta entre humanos e humanoides.<\/p>\n<p>Mas a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica n\u00e3o retrata somente a poss\u00edvel vertente b\u00e9lica e amea\u00e7adora da Intelig\u00eancia Artificial; ela tamb\u00e9m avan\u00e7ou para um certo animismo em rela\u00e7\u00e3o aos rob\u00f4s, cativando-nos pela via da semelhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, o p\u00fablico p\u00f4de ouvir m\u00fasicas e ver os videoclipes no hardware em voga na \u00e9poca do lan\u00e7amento de cada \u00e1lbum, quer isso significasse assisti-los em uma TV ou ouvir um CD tocando em um Discman enquanto fazia corrida ou tomava banho. A tens\u00e3o entre o molhado e o seco, o corpo vivo e os dispositivos eletr\u00f4nicos prot\u00e9ticos cada vez mais m\u00f3veis, passavam uma ideia de perigo. O p\u00e2nico da possibilidade de o eletr\u00f4nico cair na banheira, prejudicando o corpo ou o equipamento, refletiu-se na discuss\u00e3o de Marilouise e Arthur Kroker<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> sobre o fen\u00f4meno da histeria masculina e da ang\u00fastia dos l\u00edquidos corporais numa \u00e9poca em que tudo parecia tornar-se el\u00e9trico. No trabalho da cantora islandesa Bj\u00f6rk, esse motivo foi apresentado com mais destaque no v\u00eddeo da m\u00fasica &#8220;<em>All is full of love<\/em>&#8220;, no qual rob\u00f4s, apesar de serem m\u00e1quinas el\u00e9tricas, mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es sexuais molhadas e sensuais, com l\u00edquidos corporais fluindo voluptuosamente sem causar curto circuitos<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. De l\u00e1 at\u00e9 aqui, n\u00e3o s\u00f3 perdemos o medo de utilizar os aparelhos eletr\u00f4nicos como passamos ao estatuto de depender deles para um n\u00famero incont\u00e1vel de coisas do cotidiano, a ponto de percebermos os aparelhos telef\u00f4nicos port\u00e1teis como praticamente extens\u00f5es do nosso pr\u00f3prio corpo. Deixemos esse aspecto em aberto, para retomarmos mais \u00e0 frente, e voltemos ao filme. \u201c<em>O homem ideal<\/em>\u201d<\/p>\n<p><strong>Artificialmente perfeito?<\/strong><\/p>\n<p>Alma (Maren Eggert), personagem principal do filme ambientado em Berlim, ap\u00f3s ser trocada por uma mulher mais jovem e em busca de verbas para avan\u00e7ar em suas pesquisas acad\u00eamicas (uma investiga\u00e7\u00e3o a respeito da presen\u00e7a da poesia em registros hier\u00f3glifos datados de 4.000 a.C.), aceita participar, em troca de fomento para suas pesquisas, de uma experi\u00eancia de conviver por tr\u00eas semanas com Tom (Dan Stevens), um humanoide totalmente desenvolvido a partir de caracter\u00edsticas propostas por Alma como sendo seu match ideal em todos os aspectos, desde os tra\u00e7os f\u00edsicos at\u00e9 os gostos mais sutis; al\u00e9m disso, o prot\u00f3tipo est\u00e1 programado para se ajustar, ou seja, aprender com a conviv\u00eancia, podendo ent\u00e3o se tornar o homem com quem ela poderia viver ou mesmo amar.<\/p>\n<p>O argumento para que Alma participe da experi\u00eancia, al\u00e9m do incentivo \u00e0 sua pesquisa, \u00e9 o de que ela deveria escrever um relat\u00f3rio ap\u00f3s a experi\u00eancia para contribuir com o debate acerca da presen\u00e7a destes humanoides em nosso meio: \u201cser\u00e1 permitido que esses seres se casem, trabalhem, tenham passaporte, gozem de direitos humanos, ou parte deles&#8230;?\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Destaco, a seguir, alguns di\u00e1logos entre Alma e Tom. Podemos separar o filme em tr\u00eas momentos cruciais: 1) Alma recusa os investimentos de Tom; 2) Alma cede e ocorre uma entrega; 3) Alma se depara com o estranho infamiliar.<\/p>\n<p>Em uma cena onde ela acorda e encontra o apartamento arrumado de modo impec\u00e1vel, livros organizados e catalogados, com um caf\u00e9 da manh\u00e3 impec\u00e1vel, segue o di\u00e1logo:<\/p>\n<blockquote><p>Alma &#8211; \u201cEu n\u00e3o vou aguentar&#8230; vou enlouquecer\u201d<\/p>\n<p>Tom \u2013 \u201cO amor n\u00e3o te interessa de jeito nenhum? E a ternura?\u201d<\/p>\n<p>Alma \u2013 \u201cInteresse zero\u201d<\/p>\n<p>Tom \u2013 \u201cE as borboletas no est\u00f4mago?\u201d<\/p>\n<p>Alma \u2013 \u201cN\u00e3o\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Em outro momento, ap\u00f3s Tom ter preparado o ambiente com velas, p\u00e9talas de rosa, champanhe. Ele tenta construir todo o clima. Ela recusa e n\u00e3o entra no clima:<\/p>\n<blockquote><p>Tom \u2013 \u201c97% das mulheres alem\u00e3s sonham com isso\u201d<\/p>\n<p>Alma \u2013 \u201cAdivinhe a qual grupo perten\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>Tom n\u00e3o entende.<\/p>\n<p>Alma \u2013 \u201cN\u00e3o se sinta mal se isto est\u00e1 al\u00e9m das capacidades do seu algoritmo; \u00e9 humano\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ap\u00f3s outras tantas maneiras de Tom tentar dar provas de que ele pode ser o homem ideal, agindo com perfei\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>Alma \u2013 \u201cVoc\u00ea n\u00e3o pode me surpreender ao menos uma vez? Voc\u00ea n\u00e3o consegue fazer algo estranho, algo idiota? Voc\u00ea n\u00e3o pode parar de fazer tudo certo?\u201d<\/p>\n<p>Tom \u2013 \u201cVoc\u00ea n\u00e3o sabe o que quer\u201d<\/p>\n<p>Alma \u2013 \u201cN\u00e3o, n\u00e3o sei o que quero. \u00c9 assim mesmo quando se \u00e9 humano (&#8230;). Voc\u00ea \u00e9 apenas uma extens\u00e3o de mim mesma\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o demora muito para que Tom, tendo percebido que havia algo em Alma que buscava o conflito e o desencontro, comece a deixa-la em falta. Frustrada ao perceber o n\u00e3o ineditismo de sua pesquisa acad\u00eamica, Alma toma um porre e, em meio \u00e0 embriaguez, insiste para transar com Tom pela primeira vez. \u00c9 somente no dia seguinte, sob efeito de forte ressaca, que percebe que Tom havia recusado sua demanda. A partir deste momento, seguido tamb\u00e9m de outras circunst\u00e2ncias onde Tom n\u00e3o estava onde era esperado, que Alma cede e se entrega ao amor. Vale lembrar que Tom foi programado para ter ere\u00e7\u00e3o ap\u00f3s beijar na boca, obviamente n\u00e3o tinha como ter orgasmos e n\u00e3o possu\u00eda cheiro de humanos.<\/p>\n<p>O per\u00edodo de relativa harmonia dura pouco, pois logo Alma se confronta com o \u201cestranho\u201d presente neste la\u00e7o:<\/p>\n<blockquote><p>Alma \u2013 \u201cIsso n\u00e3o est\u00e1 funcionando. Est\u00e1 dando tudo errado. Eu te cubro mesmo sabendo que voc\u00ea n\u00e3o sente frio. Eu saio do quarto na ponta dos p\u00e9s mesmo sabendo que voc\u00ea n\u00e3o dorme. Estou tentando fazer para voc\u00ea o ovo cozido perfeito embora voc\u00ea n\u00e3o se importe com o tempo de fervura do ovo. Estou atuando uma pe\u00e7a, mas n\u00e3o h\u00e1 plateia. Estou falando para mim mesma. Estou me tornando uma lun\u00e1tica, uma maluca\u201d.<\/p>\n<p>Tom \u2013 \u201cPor que voc\u00ea est\u00e1 chorando?\u201d<\/p>\n<p>Alma \u2013 \u201cEstou chorando porque a noite passada foi t\u00e3o (&#8230;)\u201d<\/p>\n<p>Tom \u2013 \u201cOs humanos n\u00e3o dizem: \u2018Para o amor n\u00e3o h\u00e1 limites\u2019?\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Ap\u00f3s esta retomada dos pontos centrais do filme, avan\u00e7o para a segunda e \u00faltima parte desta exposi\u00e7\u00e3o destacando dois pontos para a conversa\u00e7\u00e3o: a ci\u00eancia e a produ\u00e7\u00e3o de <em>gadgets<\/em>; e \u201cpara o <em>falasser<\/em> a sexualidade \u00e9 sem esperan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>A ci\u00eancia e a produ\u00e7\u00e3o de <\/strong><strong><em>gadgets<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>Na introdu\u00e7\u00e3o desta apresenta\u00e7\u00e3o, havia comentado como houve uma verdadeira mudan\u00e7a de paradigma na rela\u00e7\u00e3o dos humanos do nosso tempo com a tecnologia, fazendo com que possamos tirar proveito dela e da intelig\u00eancia artificial em v\u00e1rias \u00e1reas da nossa vida, da medicina \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica e privada. Isso fez com que pass\u00e1ssemos de um temor com o uso destas ferramentas para, em alguns casos, uma verdadeira depend\u00eancia. Devemos temer a produ\u00e7\u00e3o em larga escala dos equipamentos que vemos aparecer na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica?<\/p>\n<p>Lacan, em uma entrevista sobre a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, nos diz que \u201csem ci\u00eancia n\u00e3o existe fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> e acrescenta que o discurso cient\u00edfico desconhece o inconsciente<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. \u00c9 interessante observar que Lacan tamb\u00e9m refere, por outro lado, que a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 o que articula coisas que v\u00e3o muito mais longe do que a ci\u00eancia suporta como saber enunciado e que esse discurso tem algo a ver como o saber. A quest\u00e3o que ele coloca, nos diz Lacan, \u201c\u00e9 o da introdu\u00e7\u00e3o, pelo Outro (e n\u00e3o o outro), da diferen\u00e7a no campo do gozo\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>. Nesta entrevista, Lacan \u00e9 enf\u00e1tico ao dizer que s\u00f3 os corpos falantes podem ter uma ideia do mundo, e que a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica aponta para um mundo sem nenhum conhecimento al\u00e9m daquilo que ele sonha<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Mas, como sabemos, a ci\u00eancia fez uma bem sucedida parceria com o capitalismo. Em decorr\u00eancia desse casamento, as tecnoci\u00eancias produzem dispositivos, conhecidos na g\u00edria tecnol\u00f3gica como <em>gadgets<\/em>, criados para facilitar fun\u00e7\u00f5es espec\u00edficas no cotidiano, usando inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. Na confer\u00eancia \u201cO triunfo da religi\u00e3o\u201d Lacan, entre outros temas, aborda a ci\u00eancia e sua produ\u00e7\u00e3o e aponta para algo de extrema import\u00e2ncia, a via devoradora destes dispositivos: \u201cAt\u00e9 agora s\u00f3 temos como resultados <em>gadgets<\/em>. Manda-se um foguete \u00e0 lua, temos a televis\u00e3o, etc. Isso nos come, mas nos come mediante coisas que despertam em n\u00f3s. Por alguma raz\u00e3o a televis\u00e3o \u00e9 devoradora. (&#8230;) O humano se deixa comer\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Pouco depois, em \u201cA terceira\u201d, Lacan se questiona se os <em>gadgets <\/em>realmente tomar\u00e3o a dianteira, se seremos de fato animados por eles, no que ele mesmo responde: \u201cIsso me parece pouco prov\u00e1vel, devo dizer\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>. Se n\u00e3o se trata de os <em>gadgets<\/em> tomarem a dianteira, Lacan, ainda nesta confer\u00eancia, coloca-os de modo muito pertinente, como um <strong>sintoma<\/strong> para o ser falante. \u201c\u00c9 evidente que algu\u00e9m possa ter um carro como uma falsa mulher. As pessoas cuidam definitivamente para que isso <strong>seja um falo<\/strong>, mas s\u00f3 tem rela\u00e7\u00e3o com o falo porque \u00e9 o falo que nos impede de ter uma rela\u00e7\u00e3o com algo que seria nosso correspondente sexual, e que \u00e9 nosso correspondente parassexuado\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Retomando o que Lacan expos na confer\u00eancia \u201cO triunfo da religi\u00e3o\u201d, podemos constatar que ali Lacan enfatiza a religi\u00e3o, e n\u00e3o a ci\u00eancia, como o que possui mais chances de triunfar. Vejamos o que ele nos diz: \u201cPor pouco que a ci\u00eancia ponha de sua parte, o real insistir\u00e1, e a religi\u00e3o ter\u00e1 ent\u00e3o muito mais motivos ainda para apaziguar os cora\u00e7\u00f5es. A ci\u00eancia, que \u00e9 o novo, introduzir\u00e1 um mont\u00e3o de coisas perturbadoras na vida de cada um. Sem d\u00favida, a religi\u00e3o, sobretudo a verdadeira, tem recursos que nem sequer podemos suspeitar\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>. Por isso ele dizia que n\u00e3o se encontrava, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de <em>gadgets<\/em>, \u201cnem entre os alarmistas nem entre os angustiados\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Podemos destacar, a t\u00edtulo de resumo do que foi anteriormente exposto, as possibilidades de um <em>gadget<\/em> ocupar o lugar de sintoma ou de falo para um <em>falasser<\/em>. Como isso pode ser observado no filme \u201c<em>O homem ideal<\/em>\u201d?<\/p>\n<p><strong>\u201cPara o <\/strong><strong><em>falasser<\/em><\/strong><strong> a sexualidade \u00e9 sem esperan\u00e7a\u201d<\/strong><a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Para Lacan, \u201co desejo n\u00e3o tem objeto, salvo (&#8230;) aquele que chegou a significar, quer seja em um rel\u00e2mpago ou em uma rela\u00e7\u00e3o permanente, os confins da Coisa, ou seja, desse nada em torno do qual toda paix\u00e3o humana estreita seu espasmo de modula\u00e7\u00e3o curta ou longa e de retorno peri\u00f3dico\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a>. Em torno desse nada, o humano d\u00e1 in\u00fameras voltas ao longo da vida, mostrando que n\u00e3o h\u00e1 harmonia entre os sexos, n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Em nossa \u00e9poca, temos observado uma defla\u00e7\u00e3o do desejo e uma infla\u00e7\u00e3o do gozo; mesmo quando se trata do campo do gozo, h\u00e1 ainda aquele que se busca sua satisfa\u00e7\u00e3o (parcial) no campo do outro, ou seja, nos objetos por onde a puls\u00e3o faz seu circuito, mas tamb\u00e9m h\u00e1 o gozo do Um, um gozo autista, n\u00e3o balizado pela l\u00f3gica f\u00e1lica.<\/p>\n<p>Qual o apelo que estes <em>gadgets<\/em> ultra elaborados, em alguma medida parecidos com o Tom, ocupam em nossa cultura hoje? O que faz com que Tom seja um <em>gadget<\/em> diferente de um vibrador ultramoderno? E quanto \u00e0 experi\u00eancia com Alma&#8230; podemos dizer que ela \u00e9 um paradigma do sujeito contempor\u00e2neo? S\u00e3o quest\u00f5es abertas a partir do filme e que podem ser retomadas em nossa conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Alma \u00e9 uma mulher de meia idade que \u00e9 dividida; tem quest\u00f5es importantes a respeito da vida, do amor, da solid\u00e3o e da maternidade. Alma \u00e9 um sujeito em risco de extin\u00e7\u00e3o? Tem se manifestado cada vez mais na cultura a falta de interesse pela conquista, pelo amor (como temos not\u00edcias do que se passa no Jap\u00e3o, por exemplo); estas atitudes contempor\u00e2neas seguem junto ao isolamento social e \u00e0 solid\u00e3o, como tamb\u00e9m pela substitui\u00e7\u00e3o do encontro dos corpos pela pornografia digital<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a> ou aquisi\u00e7\u00e3o de objetos como as bonecas infl\u00e1veis.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma passagem breve na qual Alma se encontra casualmente com um senhor, Dr. Stuber, que havia adquirido um humanoide, Chlo\u00e9. Ali mesmo na rua, acompanhado de seu trof\u00e9u, Dr. Stuber fala para Alma que nem sabe descrever como est\u00e1 a vida dele: \u201cEu n\u00e3o tinha ideia de que era poss\u00edvel ser feliz (&#8230;). Ela \u00e9 mais gentil comigo do que qualquer humano j\u00e1 foi\u201d, diz ele. No Semin\u00e1rio 20, Lacan nos mostra a partir da t\u00e1bua da sexua\u00e7\u00e3o que, \u201cdo lado homem (&#8230;) esse $ s\u00f3 tem a ver, enquanto parceiro, com o objeto <em>a<\/em> inscrito do outro lado da barra\u201d<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>,\u00a0 e que toda a realiza\u00e7\u00e3o do homem \u201cquanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual termina em fantasia (havendo uma) correla\u00e7\u00e3o com as pervers\u00f5es\u201d<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><sup>[19]<\/sup><\/a>. Esse modo fetichista e feliz de se relacionar com um <em>gadget<\/em> ultramoderno pode predominar em nossa cultura, como um fetichismo generalizado?<\/p>\n<p>E quanto \u00e0 Alma&#8230; h\u00e1 algo em Tom que funciona como objeto causa de desejo para ela? Alma se angustia diante de um ser com quem passa a conviver e a investir amor e libido. Trata-se de um ser que n\u00e3o envelhece, n\u00e3o tem orgasmos, n\u00e3o \u00e9 um ser vivo e, portanto, n\u00e3o se angustia com a morte. Tom \u00e9 uma extens\u00e3o de Alma; em alguma medida um semelhante, fabricado a partir dela mesma, mas que, em espelho, a confronta com sua humanidade e finitude, tal como se passa com Dorian Gray e seu retrato no famoso romance de Oscar Wilde.<\/p>\n<p>Alma poder\u00e1 o amor mesmo nestas condi\u00e7\u00f5es? A este respeito, Lacan refere que \u201cas mulheres s\u00e3o conciliadoras, a ponto de n\u00e3o haver limites para as concess\u00f5es que cada uma faz a <em>um<\/em> homem: de seu corpo, de sua alma, de seus bens\u201d<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\"><sup>[20]<\/sup><\/a>.\u00a0 J\u00e1 no Semin\u00e1rio 23, Lacan diz que \u201co homem \u00e9 para uma mulher tudo o que quiserem, a saber, uma afli\u00e7\u00e3o pior que um sinthoma (&#8230;) trata-se mesmo de uma devasta\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><sup>[21]<\/sup><\/a>. Ser\u00e1 este o destino de Alma caso a parceria se mantenha?<\/p>\n<p>Finalizo com a indica\u00e7\u00e3o de que, ao tentar tamponar a falta com um <em>gadget<\/em> ideal, o real insistir\u00e1 pela via do sintoma, que triunfar\u00e1 como algo demasiadamente humano. E a psican\u00e1lise? Bom, como disse Lacan, \u201ca psican\u00e1lise n\u00e3o triunfar\u00e1, sobreviver\u00e1 ou n\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\"><sup>[22]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 155.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Nota da divulga\u00e7\u00e3o do filme. Acessado em google.com.br<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Escritores e palestrantes nas \u00e1reas de tecnologia e cultura. Eram editores da influente revista eletr\u00f4nica CTheory. Juntos lan\u00e7aram v\u00e1rios livros, dentre eles: \u201cTechnologies of the new real: viral contagion and death of the social\u201d. University of Toronto Press, 2021.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Biesenbach, K. Introduction. IN: \u201cBeyond delta\u00a0: the many streams of Bj\u00f6rk\u201d. The Museum of Modern Art, New York, 2015, p. 4-5.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Nesta semana, os legisladores da Uni\u00e3o Europeia concordaram com os termos de uma legisla\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica para regulamentar a intelig\u00eancia artificial. A legisla\u00e7\u00e3o incluiu proibi\u00e7\u00f5es ao uso de IA para \u2018pontua\u00e7\u00e3o social\u2019 \u2013 usar m\u00e9tricas para avaliar pessoas \u2013 e sistemas de IA que \u2018manipulam o comportamento humano para contornar sua livre vontade\u2019. O uso da IA para explorar pessoas vulner\u00e1veis devido \u00e0 idade, defici\u00eancia ou situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica tamb\u00e9m \u00e9 proibido. Espinoza, J. \u201cUni\u00e3o Europeia fecha acordo sobre regulamenta\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial\u201d. In: Folha de S\u00e3o Paulo. Acesso em 10\/12\/23: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/tec\/2023\/12\/uniao-europeia-fecha-acordo-sobre-regulamentacao-da-inteligencia-artificial.shtml\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/tec\/2023\/12\/uniao-europeia-fecha-acordo-sobre-regulamentacao-da-inteligencia-artificial.shtml<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Lacan, J. Entrevista sobre a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (1977). Revista Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, nr 80-81; maio de 2019, p. 9.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Idem. Lacan, J. 1977, p. 9-10.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Idem, Lacan, J. 1977, p. 10.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Idem, Lacan, J. 1977, p. 10.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> Lacan, J. El triunfo de la religi\u00f3n (1974): precedido de Discurso a los cat\u00f3licos (1960). Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2005, p. 93-94.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Lacan, J. A Terceira. (1974). Rio de Janeiro: Zahar, 2022, p. 59.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> Idem, Lacan, J. 1974, p. 60.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> Lacan, J. El triunfo de la religi\u00f3n. P. 93-94.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> Lacan, J. El triunfo de la religi\u00f3n. P. 79.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\"><sup>[15]<\/sup><\/a> Lacan, J. El triunfo de la religi\u00f3n, p. 94.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\"><sup>[16]<\/sup><\/a> Lacan, J. Discurso aos cat\u00f3licos, p. 59.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\"><sup>[17]<\/sup><\/a> Santos, N.O. Pornografia: a fantasia na prateleira. In: Carta de S\u00e3o Paulo. Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 S\u00e3o Paulo. Ano 23, n\u00famero 2, novembro 2016, p. 65-71.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\"><sup>[18]<\/sup><\/a> Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 86.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\"><sup>[19]<\/sup><\/a> Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 20, p. 93.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\"><sup>[20]<\/sup><\/a> Lacan, J. Televis\u00e3o. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 538.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\"><sup>[21]<\/sup><\/a> Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 98.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\"><sup>[22]<\/sup><\/a> Lacan, J. El triunfo de la religi\u00f3n, p. 78.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Niraldo de Oliveira Santos Membro da EBP\/AMP \u201cTodo amor se baseia numa certa rela\u00e7\u00e3o entre dois saberes inconscientes\u201d[1]. Gostaria de iniciar agradecendo a K\u00e9sia Ramos, Cleide Pereira e a todos os colegas da diretoria da EBP &#8211; Se\u00e7\u00e3o Nordeste, pelo convite para participar desta atividade, o que muito me deixou feliz e honrado! Alegria que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-4182","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-litoraneo","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4182","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4182"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4182\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4219,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4182\/revisions\/4219"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4182"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4182"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4182"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=4182"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}