{"id":4119,"date":"2023-12-22T06:08:04","date_gmt":"2023-12-22T09:08:04","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=4119"},"modified":"2023-12-22T15:43:40","modified_gmt":"2023-12-22T18:43:40","slug":"encontro-de-corpos1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/encontro-de-corpos1\/","title":{"rendered":"Encontro de corpos<sup>[1]<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Imagem-9.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-4120\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Imagem-9-807x1024.jpeg\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"317\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Imagem-9-807x1024.jpeg 807w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Imagem-9-236x300.jpeg 236w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Imagem-9-768x975.jpeg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Imagem-9.jpeg 818w\" sizes=\"auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/a>Cassandra Dias Farias<\/h6>\n<p>Tr\u00eas anos ap\u00f3s termos sido surpreendidos pelo imperativo do distanciamento, em que o contato entre os corpos passou a representar risco de vida; ap\u00f3s termos que inventar formas de continuar produzindo, sustentando uma cl\u00ednica, realizando atividades, semin\u00e1rios, cursos e jornadas atrav\u00e9s dos meios digitais; aprender a operar com plataformas, protocolos, dificuldades de acesso, o p\u00fablico na vida privada, enxurrada de <em>lives<\/em>, aus\u00eancia de fronteiras que nos possibilitaram a participa\u00e7\u00e3o em eventos nacionais e internacionais: a vida aconteceu diante das telas.<\/p>\n<p>A Psican\u00e1lise teve que se reinventar, a Escola de Lacan foi encontrando a maneira para que o horror da pandemia n\u00e3o paralisasse os psicanalistas e sua forma\u00e7\u00e3o. Mais do que nunca, foi preciso n\u00e3o recuar diante do real em jogo. Mais do que nunca foi preciso que a Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise e suas sete Escolas segurassem com firmeza o leme para conduzir o barco pela longa tempestade. Uma Odiss\u00e9ia, como aquela enfrentada por Ulisses, na trag\u00e9dia grega.<\/p>\n<p>Os pilares sobre os quais a Psican\u00e1lise foi forjada por Freud foram abalados: sess\u00f5es sem div\u00e3, realizadas no <em>face a face<\/em> intermediadas pelas telas &#8211; presen\u00e7a do objeto olhar entre analista e analisante &#8211; pagamentos via PIX retirando a materialidade desse objeto&#8230; e, nas atividades da Escola, o anonimato das c\u00e2meras fechadas. <em>Omnivoyeurs<\/em>, hiperconectados.<\/p>\n<p>Um novo real. Conforme j\u00e1 anunciado por Jacques Alain Miller, em 2012: \u201cH\u00e1 uma grande desordem no real\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>\u201cEu diria que capitalismo e ci\u00eancia se combinaram para fazer desaparecer a natureza e que o que resta do desvanecimento da natureza \u00e9 o que chamamos de real, quer dizer, um resto, desordenado por estrutura\u201d. <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Nunca experimentamos tanto a desordem no real quanto no in\u00edcio dos anos vinte desse s\u00e9culo, com a escalada do v\u00edrus em progress\u00e3o geom\u00e9trica. Inimigo invis\u00edvel e onipresente, <em>mutatis mutandi<\/em>, que seguiu seu tra\u00e7ado macabro, multiplicando as estat\u00edsticas de letalidade. Sustentado pelo avan\u00e7o do fascismo no mundo e de discursos extremistas que for\u00e7aram os psicanalistas a declararem uma escolha: n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda poss\u00edvel para a psican\u00e1lise fora da democracia.<\/p>\n<p>E aqui chegamos. Sobreviventes desse apocalipse chamado COVID 19 e da amea\u00e7a do fascismo, que ainda paira sobre n\u00f3s como uma sombra.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio atual traz de volta o horror da guerra e os limites do simb\u00f3lico em promover um pacto civilizat\u00f3rio frente \u00e0 puls\u00e3o de morte. Freud, ap\u00f3s ter atravessado duas guerras, termina os seus dias exilado de sua terra natal, fugindo do projeto obscurantista e delirante de exterm\u00ednio de um povo sobre o outro. \u201cO real \u00e9 o que retorna sempre ao mesmo lugar. O acento deve ser colocado sobre o \u201cretorna\u201d.\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Estamos diante daquilo que retorna.<\/p>\n<p>Em sua correspond\u00eancia com Einstein, em 1932, Freud deixa clara a sua posi\u00e7\u00e3o enquanto falasser pol\u00edtico: \u201cPenso que a principal raz\u00e3o por que nos rebelamos contra a guerra \u00e9 que n\u00e3o podemos fazer outra coisa\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Podemos acrescentar com Lacan, que profetizou a escalada do racismo: \u201cDeixar a esse Outro seu modo de gozo, eis o que s\u00f3 se poderia fazer n\u00e3o impondo o nosso, n\u00e3o o considerando como um subdesenvolvido\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>No entanto, a segrega\u00e7\u00e3o na ordem do dia se imp\u00f5e e amea\u00e7a o pacto civilizat\u00f3rio, revelando o real descarnado e sem lei, uma vez que: \u201c<em>Una raza se constituye por el modo en que se transmiten por el orden de un discurso los lugares simb<\/em><em>\u00f3licos\u201d<\/em><em>. <\/em><a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><em><sup><strong>[7]<\/strong><\/sup><\/em><\/a><\/p>\n<p>O simb\u00f3lico convulsiona e o real avan\u00e7a, sem lei, por entre a exuber\u00e2ncia do imagin\u00e1rio. A subjetividade da \u00e9poca provoca os analistas a uma leitura daquilo que se passa nos corpos e na civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Escola Morcego, esse ser amb\u00edguo, \u201cque tem asas anal\u00edticas, como se diz, e patas sociais\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>, \u00e9 o que nos faz chegar at\u00e9 aqui. A trazermos nossos corpos em novo movimento de retorno \u00e0s cidades, sem prescindir das telas que vieram para ficar, mas procurando conduzir nosso barco pelo mundo digital e navegar em meio aos discursos que recortam os tempos sem perder de vista a radicalidade do que constitui o fazer anal\u00edtico. \u201cEu sou aquele que digo que sou\u201d \u00e9 o grande <em>slogan<\/em> das pautas identit\u00e1rias que desconhece a exist\u00eancia do inconsciente.<\/p>\n<p>\u201cPero hay que decir que, para constituirse en analista, hay que estar muy mordido; mordido por Freud principalmente, es decir, creer en esa cosa absolutamente loca llamada inconsciente y que he tratado de traducir como el &#8220;sujeto supuesto saber&#8221;.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Sejam quais forem as condi\u00e7\u00f5es de navega\u00e7\u00e3o, \u00e9 a Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana que garante a Rosa dos Ventos, apontando a dire\u00e7\u00e3o do coletivo de psicanalistas. O Uno da causa anal\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 em nome dessa causa que se deu o trabalho em torno da III Jornada. Ao longo de seis meses, uma l\u00f3gica foi sendo constru\u00edda, norteada pela pol\u00edtica do Uno e sua rela\u00e7\u00e3o com o m\u00faltiplo no nosso territ\u00f3rio Nordeste. Buscando um movimento org\u00e2nico, de dentro para fora, a partir de cada passo dado no enla\u00e7amento das transfer\u00eancias decididas em um trabalho de Escola.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os agradecimentos a serem feitos.\u00a0 Mas vou concentrar em apenas um. No nome da Coordenadora Geral da III Jornada, Cl\u00e1udia Formiga. Dela partir\u00e3o as sauda\u00e7\u00f5es a todos que compuseram esse corpo Jornada.<\/p>\n<p>Mas, \u00e0 Cl\u00e1udia, que com seu desejo decidido e incans\u00e1vel, fez esse acontecimento ganhar vida e tornar-se poss\u00edvel, um agradecimento especial. Pela parceria cotidiana, pela comunica\u00e7\u00e3o di\u00e1ria \u2013 muitas e muitas vezes ao longo de um dia &#8211; pela sintonia, pelas elabora\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es que possibilitaram ir encontrando a l\u00f3gica de Escola e sua pol\u00edtica, desde as pequenas at\u00e9 \u00e0s grandes decis\u00f5es. Para cada impasse, uma inven\u00e7\u00e3o encontrada. Buscando a leveza e o humor. Foi colocando o corpo na partida que Cl\u00e1udia aceitou o desafio.<\/p>\n<p>E me ensinou que a rela\u00e7\u00e3o de um sujeito com a causa anal\u00edtica chama para si um lugar que n\u00e3o recua diante do real em jogo, inclusive no coletivo dos psicanalistas. E que, uma vez sendo assim, uma Jornada se faz.<\/p>\n<p>Portanto, sob as b\u00ean\u00e7\u00e3os do Le\u00e3o do Norte, s\u00edmbolo do povo pernambucano e dessa terra de frevo, maracatu e caboclinho, de tantas outras folias, de sotaque inconfund\u00edvel, bolo de rolo \u2013 patrim\u00f4nio imaterial de Pernambuco \u2013 de Chico Science e do movimento mangue beat, de Capiba, Alceu, Brennand e Kleber Mendon\u00e7a, do Homem da Meia Noite e da Mulher do Dia e tantas mais refer\u00eancias de uma cultura t\u00e3o rica, que a Se\u00e7\u00e3o Nordeste acolhe os corpos falantes na cidade do Recife para esses dois dias de trabalho, reafirmando a aposta na circula\u00e7\u00e3o do discurso anal\u00edtico e sua transmiss\u00e3o em meio \u00e0 loucura do mundo.<\/p>\n<p>\u201cQuando as teias da aranha se juntam, elas podem amarrar um le\u00e3o\u201d. Prov\u00e9rbio africano \u2013\u00a0 A confiss\u00e3o da leoa, Mia Couto.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Fala da diretora geral da Se\u00e7\u00e3o Nordeste na mesa de abertura da III Jornada.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> MILLER, j.A. \u2013 O real no s\u00e9culo XXI , Scilicet, p 23.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Id ibid, p29.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> LACAN, J. \u2013 A Terceira, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana 62, p 16<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> FREUD, S. \u2013 Por que a guerra? P 241, Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, Imago Editora.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>Televis\u00e3o<\/em>, p 58 \u2013 JZE Editor<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><em><sup><strong>[7]<\/strong><\/sup><\/em><\/a> MILLER, J. A. \u2013 Extimidad, p 57 \u2013 Paid\u00f3s Editora<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> MILLER, J. A \u2013 Quest\u00e3o de Escola: Proposta sobre a garantia, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online, n\u00famero 23<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> LACAN, J. \u2013Intervencion Conclusiva en El Tribunal de la EFP en Deauville. 01\/08\/1978<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cassandra Dias Farias Tr\u00eas anos ap\u00f3s termos sido surpreendidos pelo imperativo do distanciamento, em que o contato entre os corpos passou a representar risco de vida; ap\u00f3s termos que inventar formas de continuar produzindo, sustentando uma cl\u00ednica, realizando atividades, semin\u00e1rios, cursos e jornadas atrav\u00e9s dos meios digitais; aprender a operar com plataformas, protocolos, dificuldades de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-4119","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-litoraneo","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4119","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4119"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4119\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4136,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4119\/revisions\/4136"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4119"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4119"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4119"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=4119"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}