{"id":3907,"date":"2023-09-18T17:11:37","date_gmt":"2023-09-18T20:11:37","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=3428"},"modified":"2023-09-29T09:20:11","modified_gmt":"2023-09-29T12:20:11","slug":"o-cartel-e-acao-lacaniana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/o-cartel-e-acao-lacaniana\/","title":{"rendered":"O cartel e a a\u00e7\u00e3o lacaniana<sup>1<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-4028\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_litoraneo011_002-scaled.jpg\" alt=\"litoraneo011_002\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_litoraneo011_002-scaled.jpg 1707w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_litoraneo011_002-200x300.jpg 200w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_litoraneo011_002-683x1024.jpg 683w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_litoraneo011_002-768x1152.jpg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_litoraneo011_002-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_litoraneo011_002-1365x2048.jpg 1365w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/h6>\n<h6>Fernanda Otoni Brisset<\/h6>\n<p>Boa noite aos colegas da Se\u00e7\u00e3o Nordeste. Li\u00e8ge Uch\u00f4a me convidou para falar sobre o cartel e a a\u00e7\u00e3o lacaniana. Fazer esse enlace exige-nos ler como a Psican\u00e1lise topologicamente, sem arredar de sua pr\u00e1tica, um por um, ou melhor, por isto mesmo, se infiltra na grande conversa\u00e7\u00e3o com a sociedade.<\/p>\n<p>Em seu curso <em>Un esfuerzo de poes\u00eda<\/em>, Miller coloca, lado a lado, \u201cA psican\u00e1lise e a sociedade\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>Por um lado, a psican\u00e1lise, a cl\u00ednica anal\u00edtica, a posi\u00e7\u00e3o do analista, o discurso do analista, e por outro lado a sociedade. Em outras palavras, n\u00f3s e o que tomamos como nosso Outro: a sociedade. Acaso \u00e9 esse um termo que elejo? \u00c9 mais um termo ao qual sou conduzido, porque fui levado a dizer que Lacan \u2013 e, com ele, o analista lacaniano \u2013 concebia sua posi\u00e7\u00e3o na sociedade como a de um exilado no interior.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Ao final dessa li\u00e7\u00e3o, que tem por t\u00edtulo <em>A\u00e7\u00e3o lacaniana<\/em>, ele pergunta:<\/p>\n<blockquote><p>Que sentido dar \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de extimidade do analista? \u00c9 sem d\u00favida uma posi\u00e7\u00e3o de exterioridade em rela\u00e7\u00e3o ao significante-mestre, de exterioridade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s exig\u00eancias da justi\u00e7a distributiva, mas essa posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel em qualquer regime social. Por este fato mesmo, a quest\u00e3o que se coloca \u00e9 saber o que, ao lado do ato anal\u00edtico, tal como Lacan definiu, pode situar-se como a\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica ou mesmo, ouso dizer, como a\u00e7\u00e3o lacaniana, para dar a este ato anal\u00edtico as consequ\u00eancias que ele pode ter na sociedade.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Ou seja, como um analista pode dar ao ato anal\u00edtico as consequ\u00eancias que ele pode ter na sociedade se a sua posi\u00e7\u00e3o na sociedade \u00e9 de exilado no seu interior? Como que esse ex\u00edlio alavanca a a\u00e7\u00e3o lacaniana? Faz algum tempo que tenho me dedicado a essa dobradi\u00e7a entre psican\u00e1lise em intens\u00e3o e em extens\u00e3o e pensei reunir um pouco desse esfor\u00e7o para conversar com voc\u00eas. O que nos exigir\u00e1 fazer um certo giro, uma curva, para pensar como tem sido a transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise em sua rela\u00e7\u00e3o com o Outro social, o que segue sendo o mesmo, o que muda em cada \u00e9poca e o que de sua mat\u00e9ria participa da movida dos ares dos tempos em que se v\u00ea instalada.<\/p>\n<p><strong>Comecemos pelo in\u00edcio<\/strong><\/p>\n<p>Freud previu que a psican\u00e1lise iria al\u00e9m do que acontece entre quatro paredes. Na confid\u00eancia entre dois parceiros, ela produz na sociedade o que ele chamou de \u201ctoler\u00e2ncia social in\u00e9dita, precisamente, no que diz respeito \u00e0s puls\u00f5es\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Miller, na entrevista <em>Lacan et la politique<\/em>, dir\u00e1 que \u201csua influ\u00eancia \u00e9 como um cont\u00e1gio, uma dilata\u00e7\u00e3o tranquila, a expans\u00e3o de um perfume, um esp\u00edrito invis\u00edvel [\u2026]. Alguma coisa teve lugar em Freud que \u00e9 da ordem do consentimento e n\u00e3o apenas da confiss\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. O mundo inteiro hoje considera a for\u00e7a das puls\u00f5es, consente com isso que se satisfaz de qualquer jeito, e de certa maneira \u00e9 esse saber que subsidia o campo publicit\u00e1rio, faz girar as engrenagens da sociedade de consumo etc. Ineg\u00e1vel a influ\u00eancia da psican\u00e1lise na revolu\u00e7\u00e3o que teve lugar no s\u00e9culo XX, cuja for\u00e7a se deve ao acontecimento Freud, o que sua transmiss\u00e3o pode elucidar sobre a sexualidade, por exemplo. Mas a revolu\u00e7\u00e3o anal\u00edtica n\u00e3o se fez levantando bandeiras nas ruas; ao contr\u00e1rio, foi desde seu interior, cochichando no ouvido dos pr\u00edncipes, tal como podemos ler na entrevista de Miller. Foi na forma de uma dilata\u00e7\u00e3o tranquila que a psican\u00e1lise contribuiu para mudar o mundo no s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XX as ideologias reuniam as marchas das massas com seus <em>slogans<\/em> \u201cPaz e amor!\u201d, \u201cSexo, drogas e rock and roll!\u201d, \u201c\u00c9 proibido proibir!\u201d. \u201cA queima dos <em>soutiens<\/em>\u201d em pra\u00e7a p\u00fablica, que nunca aconteceu, deu seu recado. \u201cIdeologia, eu quero uma pra viver!\u201d foi o refr\u00e3o cantado pelos caras-pintadas que marcaram no rosto as cores de um Brasil, sem Collor, em 1993, trinta anos atr\u00e1s. Muitos aqui nem se lembram disso. <em>Souvenirs<\/em> do s\u00e9culo XX, coisa do passado, mas podemos dizer que o perfume da psican\u00e1lise exalava no agito do movimento. Mas o mundo gira a roda do tempo e isso muda tudo.<\/p>\n<p>Hoje, estamos em uma nova era. Para falar do que se passa em <em>Terra brasilis<\/em>, as manifesta\u00e7\u00f5es de julho de 2013, diferentemente daqueles dos caras-pintadas da era Collor, levou uma multid\u00e3o \u00e0s ruas, cujas reividica\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram homog\u00eaneas em torno de um ideal de felicidade coletiva ou endere\u00e7ada a uma lideran\u00e7a que os atendesse. Ali, cada um marchava s\u00f3 com sua tabuleta, com ins\u00edgnias pr\u00f3prias, sem fazer refr\u00e3o, sem cren\u00e7a num l\u00edder \u2013 era a reuni\u00e3o na multid\u00e3o do conjunto de uns sozinhos, tal como acontece na atualidade da rotina do la\u00e7o social. Cada qual \u201cno seu quadrado\u201d, entregue ao autismo nativo do ser. Em 8 de janeiro de 2023, o que assistimos em Bras\u00edlia mostra como o fundamentalismo recuperou parte dessa multid\u00e3o desbussolada e a conduziu a praticar atos de b\u00e1rbarie, quebrando os monumentos da Rep\u00fablica, rasgando a Constitui\u00e7\u00e3o, numa express\u00e3o da mais pura desordem face aos semblantes que costuram a ordem e o la\u00e7o social.<\/p>\n<p>Uma leitura poss\u00edvel do estado da arte \u00e9 que o discurso capitalista, em sua alian\u00e7a com a ci\u00eancia, em escala mundial, acelera o sistema burocr\u00e1tico e tecnol\u00f3gico para a gest\u00e3o dos corpos. Essa acelera\u00e7\u00e3o impulsiona um mundo que n\u00e3o para para pensar, n\u00e3o tem tempo a perder e produz, por efeito, respostas prec\u00e1rias do ponto de vista simb\u00f3lico e ricas em produ\u00e7\u00e3o de dejetos, atua\u00e7\u00f5es e desenlaces. Objetos fabricados em s\u00e9rie s\u00e3o engolidos compulsivamente, buscando nesse consumo louco a tal da felicidade que se traduz no real dos corpos em compuls\u00f5es, depress\u00f5es, viol\u00eancia, acontecimentos de corpo e desamarra\u00e7\u00f5es diversas. A cl\u00ednica dos novos sintomas o comprova. Por outra volta, esses sintomas s\u00e3o recuperados pelo discurso do mestre, em sua vertente \u201ccientificista\u201d, para serem avaliados e contabilizados em manuais cada vez mais excessivos nos termos das suas classifica\u00e7\u00f5es, gerando uma produ\u00e7\u00e3o in\u00e9dita de institui\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00e3o segregativa para a conten\u00e7\u00e3o dos corpos ou uma infinidade de p\u00edlulas cuspidas pela ind\u00fastria farmac\u00eautica, cuja turbina n\u00e3o cessa, trabalha sem parar, nutrindo o projeto de uma sociedade de controle que se instala prometendo a distribui\u00e7\u00e3o da felicidade para todos.<\/p>\n<p>O mundo hoje n\u00e3o \u00e9 mais freudiano e alcan\u00e7ou, em pra\u00e7a p\u00fablica, o que Lacan explicita no Semin\u00e1rio 20: na verdade, h\u00e1 o gozo. Se o gozo se tornou, ent\u00e3o, um fator de pol\u00edtica, ser\u00e1 que a psican\u00e1lise deve conservar a mesma dist\u00e2ncia para com a pol\u00edtica, tal como ela se mantinha na idade das ideologias? Pergunta \u00e0 qual Miller responde: \u201cAcho que ela n\u00e3o poder\u00e1 assim fazer. O privado se tornou p\u00fablico. Estamos diante de um amplo movimento, um destino da modernidade\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Miller, em uma entrevista ao <em>P\u00e1gina 12<\/em>, nos lembra que n\u00e3o encontramos em Lacan nenhuma palavra que nos fizesse pensar que ele se entretinha com a ideia de alguma cidade radiante, fosse ela encontrada no passado ou vislumbrada em algum lugar futuro.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Sem nostalgia, mas tamb\u00e9m sem esperan\u00e7a. Podemos dizer que a identifica\u00e7\u00e3o cega, que tantas vezes inflama a massa ac\u00e9fala, tem sido efeito de uma pol\u00edtica totalit\u00e1ria que manipula os significantes-mestres como modo de capturar o sujeito num discurso homog\u00eaneo, r\u00edgido, sem mobilidade quanto \u00e0s singularidades. A l\u00f3gica das <em>fake news<\/em> segue essa toada. A pol\u00edtica democr\u00e1tica tampouco acontece sem o manejo dos significantes-mestres, mas os disp\u00f5e a favor da diversidade, da heterogeneidade, num esfor\u00e7o de tessitura de uma rede social plural, porosa \u00e0s diferen\u00e7as. Essa \u00e9 a aposta da democracia.<\/p>\n<p>Lacan concebeu o discurso do mestre como o avesso do discurso da psican\u00e1lise e da produ\u00e7\u00e3o em massa. Lacan entrega-nos uma posi\u00e7\u00e3o de reserva para com os ideais, os sistemas, as cren\u00e7as e as promessas. A for\u00e7a da psican\u00e1lise recolhe seus efeitos exatamente por destituir a cren\u00e7a na solu\u00e7\u00e3o universal, nos imperativos da tradi\u00e7\u00e3o, no pensamento \u00fanico, diluindo as identifica\u00e7\u00f5es em massa, sustentando a vitalidade de um furo operante por onde cada um pode recuperar o que lhe \u00e9 original na composi\u00e7\u00e3o de uma solu\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica, \u00fanica sa\u00edda para o falasser se colocar no conv\u00edvio ao lado de mais alguns outros. Ou seja, a experi\u00eancia anal\u00edtica leva o sujeito \u00e0 sua vacuidade primordial, a um saber fazer com os furos que a linguagem faz no corpo como modo de acessibilidade a uma satisfa\u00e7\u00e3o que seja s\u00f3 sua e de mais ningu\u00e9m. Sem predi\u00e7\u00e3o ou prescri\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que se verifica na intens\u00e3o da experi\u00eancia anal\u00edtica; \u00e9 o que nela se sabe e se experimenta.<\/p>\n<p>Portanto, l\u00e1 onde vigora a f\u00f3rmula para todos, a opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica subverte, para que possa acontecer por essa brecha a solu\u00e7\u00e3o de cada um, um respiradouro. Operar como \u201cpulm\u00e3o artificial\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[6]<\/sup><\/a> \u00e9 abrir lacunas para dar passagem no falar de um gozo singular, produzindo furos nos discursos da ci\u00eancia e o capitalista, respons\u00e1veis pela pol\u00edtica totalit\u00e1ria e segregativa de nossa \u00e9poca. Por essa via, o que se passa no <em>setting<\/em> anal\u00edtico, um por um, n\u00e3o permite ao analista recuar frente aos impasses que configuram o sofrimento humano em nossos dias, imposs\u00edvel de silenciar. Freud e Lacan jamais silenciaram.<\/p>\n<p>A nossa responsabilidade n\u00e3o se reduz ao que acontece entre quatro paredes, pois sabemos que, na forma singular de uma demanda de an\u00e1lise, enunciada pela ang\u00fastia de um sujeito que, dividido ou submetido, procura um analista, o que causa perplexidade e se manifesta na porta de entrada se encontra banhado no caldo da l\u00edngua de sua \u00e9poca. N\u00e3o \u00e9 sem o que j\u00e1 \u00e9 l\u00e1 e que nele toma a carne.<\/p>\n<p>Numa an\u00e1lise, trata-se disso; cada um tem que se haver com sua desordem mais \u00edntima, inconfess\u00e1vel e sem igual no <em>micromundo<\/em> onde cada um se encontra instalado. Como analistas, vive-se do of\u00edcio de operar para arejar os discursos, manter abertos os furos respirat\u00f3rios. O ato anal\u00edtico caminha em nome da liberdade de express\u00e3o e do pluralismo, condi\u00e7\u00f5es materiais para nossa pr\u00e1tica. Assim, o analista com sua a\u00e7\u00e3o, desde sua posi\u00e7\u00e3o de exilado no interior, instala a psican\u00e1lise como passageira an\u00f4nima no interior da grande conversa\u00e7\u00e3o da sociedade. A a\u00e7\u00e3o lacaniana, sopro que emana da fenda aberta desde o ex\u00edlio no qual se encontra um analista: presente, provoca for\u00e7amentos, fura, remexe, desloca, revira e afrouxa o tecido do la\u00e7o dominial para acolher o la\u00e7o social singular do falasser.<\/p>\n<p>Digamos, ent\u00e3o, fechando esse giro que fiz voc\u00eas percorrerem comigo, que na confid\u00eancia entre dois parceiros no particular da cl\u00ednica; ou quando um analista toma sua parte de responsabilidade nas institui\u00e7\u00f5es; ou quando sustenta sua posi\u00e7\u00e3o nos projetos cl\u00ednicos, ali est\u00e1 a a\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise infiltrada como passageira clandestina nos tecidos discursivos da cidade, nas universidades, no relatos de passe etc. Sabemos que a presen\u00e7a modesta e ativa de analistas nas conversa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas ou debates sobre quest\u00f5es de sociedade abre portas, respiradouros, principalmente onde a ordem de ferro de uma \u00e9poca desconhece o poder subversivo das inven\u00e7\u00f5es singulares.<\/p>\n<p>Trata-se, sobretudo, de fazer passar, o que, da a\u00e7\u00e3o lacaniana, \u00e9 suscept\u00edvel de transmitir a todos e de ter uma incid\u00eancia real.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Portanto, n\u00e3o reduzimos a psican\u00e1lise a compartimentos separados, do tipo &#8220;psican\u00e1lise que se aplica \u00e0 cidade\u201d ou \u201cpsican\u00e1lise que se pratica no consult\u00f3rio&#8221;. Cuidar desse enlace \u00e9 cuidar da forma\u00e7\u00e3o do analista e da sobreviv\u00eancia da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>L\u00e1 onde o psicanalista participa da grande conversa\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise com a civiliza\u00e7\u00e3o, definida como um princ\u00edpio do ato anal\u00edtico, a\u00ed se verifica a a\u00e7\u00e3o lacaniana tal como Miller a definiu, ou seja, fazer com que o ato anal\u00edtico e o ensino que se passa na experi\u00eancia analisante se infiltrem no tecido da sociedade, enquanto corte e costura. E essa a\u00e7\u00e3o tem consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Podemos verificar a instala\u00e7\u00e3o e extens\u00e3o dessa a\u00e7\u00e3o no trabalho de cartel? Leio a pergunta que Li\u00e8ge me fez ao colocar lado a lado essas duas ferramentas de reviramentos da Escola de Lacan: a a\u00e7\u00e3o lacaniana e o cartel, que deu t\u00edtulo \u00e0 nossa conversa esta noite.<\/p>\n<p><strong><em>Eu aposto <\/em><\/strong><strong>que sim!<\/strong> Quando um cartel acontece, a a\u00e7\u00e3o lacaniana se verifica. Vou tentar desdobrar essa ideia, antes de passarmos \u00e0 conversa entre n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>O cartel e a a\u00e7\u00e3o lacaniana <\/strong><\/p>\n<p>O salto a um cartel, sua procura, se faz em resposta a um impasse que interroga o sujeito em sua posi\u00e7\u00e3o, em seu saber fazer. N\u00e3o existe quest\u00e3o fora de \u00e9poca. Se ela \u00e9 original, ela acontece no instante de uma conting\u00eancia e toma o corpo de assalto; abre-se no tempo presente e faz corte no discurso do mestre. \u00c9 a eclos\u00e3o da <em>tiqu\u00ea<\/em> que rompe o <em>automaton<\/em>. A partir da\u00ed, cada um trata de colocar em palavras, formaliz\u00e1-la, dar-lhe forma ao encontrar-se junto a mais alguns outros. Em nossa Escola, esse trabalho se faz no cartel, tomando o texto de Freud, Lacan, Miller, Laurent e tantos outros, como um Outro, vibrando em encontrar ali as resson\u00e2ncias do que \u00e9 causa em si, na conversa\u00e7\u00e3o provocada entre 4 + 1.<\/p>\n<p>O cartel se forma desse encontro que se abre \u00e0 leitura do estranhamento que desassossegou o sujeito e pede sua decifra\u00e7\u00e3o. O impasse porta um real que procura se alojar num discurso a partir do furo essencial que o inaugura. \u00c9 por essa via aberta ao real que se passa \u00e0 aposta de que o trabalho em cartel ativa o germe que desabrocha um saber novo e se extende, se propaga como a dilata\u00e7\u00e3o de um perfume no tecido social. Por essa via, a subvers\u00e3o que acontece na experi\u00eancia anal\u00edtica ganha uma for\u00e7a cujo efeito de sua a\u00e7\u00e3o se verifica no terreiro onde cada um faz seus la\u00e7os, onde canta e ginga como um corpo falante. Isso mexe, isso bole.<\/p>\n<p>Portanto, levar adiante estrat\u00e9gias que engatem a inten\u00e7\u00e3o e extens\u00e3o em psican\u00e1lise, engajadas em ler o sintoma da \u00e9poca e como dele se servir, na vida de cada um e na vida das cidades, faz parte da nossa tarefa. O cartel lacaniano tem essa fun\u00e7\u00e3o dobradi\u00e7a. \u00c9 um dispositivo que nasce do imposs\u00edvel de ensinar, que toma de assalto cada um, despertando o desejo de falar mais sobre isso, provocando a elabora\u00e7\u00e3o e acolhendo a enuncia\u00e7\u00e3o que brota no lugar vazio do saber. O Mais-um \u00e9, assim, um zelador desse lugar cujo mestre foi dispensado. Ele provoca e encoraja a express\u00e3o de um saber novo e sua propaga\u00e7\u00e3o entre redes inquietantes e vibrantes, trabalhando a episteme conforme a atualidade da experi\u00eancia, na intens\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o de analistas orientados quanto ao real.<\/p>\n<p>Em \u201cTeoria de Turim\u201d, Miller esclarece que, \u201cNo momento mesmo em que Lacan institui uma forma\u00e7\u00e3o coletiva, suas primeiras palavras s\u00e3o para dissociar e p\u00f4r em primeiro plano a solid\u00e3o subjetiva\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[8]<\/sup><\/a>. O trabalho causado por tal solid\u00e3o \u00e9 o real fundamento de um cartel! Da solid\u00e3o e desconforto de uma quest\u00e3o instalada, quem se lan\u00e7a nessa conversa n\u00e3o sabe aonde vai chegar. Um saber imprevisto surge da inquietude de cada um e ressoa na forma de uma elabora\u00e7\u00e3o, uma cr\u00edtica, um debate, uma resposta: uma enuncia\u00e7\u00e3o que cai da ponta da l\u00edngua. Se cartel \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o de base para o trabalho da Escola, \u00e9 porque sua l\u00f3gica \u00e9 a de rede, horizontalizada e n\u00e3o pendurada no eixo magistral. Um pequeno grupo que se re\u00fane para conversar quando surge um impasse, com a condi\u00e7\u00e3o de se abster da rever\u00eancia ao mestre. Instala-se o furo, tal como o jogo da casa vazia. S\u00e3o 4 mais um vazio que permite que as pe\u00e7as se desloquem. O cartel provoca \u201cburacos na cabe\u00e7a\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[9]<\/sup><\/a>: para que nenhum Senhor encontre ali seu assento.<\/p>\n<p>Ao abrir esse caminho, antidid\u00e1tico e antiautorit\u00e1rio, Lacan fez do cartel uma <em>m\u00e1quina de guerra<\/em><a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[10]<\/sup><\/a> contra o discurso do mestre, lugar para elaborar as quest\u00f5es e o la\u00e7o da experi\u00eancia anal\u00edtica com seu tempo, oferecendo as condi\u00e7\u00f5es para ler o choque entre o um e o m\u00faltiplo, entre a causa anal\u00edtica e o sintoma social. O trabalho cartelizante n\u00e3o se acomoda \u00e0 rotina que faz dormir. O cartel, quem j\u00e1 teve essa exper\u00eancia, e muitos s\u00f3 entram de fato na Escola de Lacan com a entrada em um cartel \u2013 quem viveu essa experi\u00eancia de cartel sabe que ali, em cada um, se ativa um funcionamento que lan\u00e7a bombas de enuncia\u00e7\u00e3o, produzindo abalos in\u00e9ditos onde quer que o mestre ouse se instalar. O saber in\u00e9dito que brota na experi\u00eancia de um trabalho de cartel \u00e9 not\u00e1vel e transporta a mat\u00e9ria viva que divide, desloca, enuncia e comove com a for\u00e7a que subverte o discurso do mestre.<\/p>\n<p>Portanto, no tempo de corpos falantes capturados pelas <em>selfies<\/em> do imp\u00e9rio das imagens, da flui\u00e7\u00e3o inerte das redes sociais, do saber insensato das <em>fake news<\/em> e dos discursos fundamentalistas, com a l\u00f3gica do cartel mantemos aberta a passagem a um saber em condi\u00e7\u00f5es de furar o sufoco do pensamento \u00fanico. O cartel devolve a cada um o trabalho de sua enuncia\u00e7\u00e3o. Grande n\u00famero dos cart\u00e9is, hoje, na EBP, por exemplo, investiga a atualidade dos impasses cl\u00ednicos, sociais e epist\u00eamicos que incidem sobre a pr\u00e1tica lacaniana, debru\u00e7am-se sobre temas que buscam ler o que, em sua \u00e9poca, faz sintoma. S\u00e3o pequenos grupos subversivos que n\u00e3o se rendem a serem reduzidos a um grupo de estudo e, ao avesso, tomam esse encontro entre quatro <em>mais um<\/em>, como um aparelho de leitura do real.<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o desse espa\u00e7o de engajamento fulgurante participa da l\u00f3gica de uma comunidade dos que n\u00e3o fazem comunidade. Cartelizantes que se agrupam, sem l\u00edder, sem colar, para logo se descolarem. O tempo de sua a\u00e7\u00e3o e dissolu\u00e7\u00e3o \u00e9 sob medida. Re\u00fanem-se, trabalham e entregam o produto desse esfor\u00e7o \u00e0 comunidade anal\u00edtica, cujos efeitos se fazem sentir na cidade onde se instalam com seus corpos presentes na cena do mundo, dando o testemunho de uma produ\u00e7\u00e3o sem igual por onde o vivo acontece <em>en corps<\/em>. \u00c9 s\u00f3 isso, e n\u00e3o \u00e9 pouco!<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 mais a mesma, isso \u00e9 um fato. E o cartel segue sendo seu maior tesouro. Jovens e experientes analistas, n\u00e3o s\u00f3 membros, gravitam ao redor da Escola; cart\u00e9is funcionam sem mestres, sem estrelas-guia. A for\u00e7a que engaja cartelizantes nessa causa parte do desejo de leitura e elabora\u00e7\u00e3o de um impasse, uma crise, a partir do que ressoa como inomin\u00e1vel em cada um e n\u00e3o tem no mestre uma t\u00e1bua de salva\u00e7ao. Trata-se, sobretudo, de um princ\u00edpio para seguir adiante, ao bem-dizer a radical diferen\u00e7a, engajando-nos na conversa viva sobre os impasses e desafios da psican\u00e1lise face ao real contempor\u00e2neo e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do analista. Tal forma de engajamento s\u00f3 se al\u00e7a ao prescindir do pai e al\u00e7ar o lugar de mais ningu\u00e9m, no enlace entre a experi\u00eancia anal\u00edtica, o trabalho de Escola e as quest\u00f5es de sociedade, com consequ\u00eancias no la\u00e7o social. A base desse trabalho funda-se sobre um real em jogo. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que ser\u00e1 ao falar em nome pr\u00f3prio, largar m\u00e3o do mestre e provar o gosto da decolagem, a cada vez, que avan\u00e7amos na batalha que chamamos de a\u00e7\u00e3o lacaniana.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>1 Texto da convidada da Noite de Cart\u00e9is do dia 27\/06\/2023, Fernanda Otoni.<\/h6>\n<h6>2 MILLER, J.-A. Un esfuerzo de poes\u00eda. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2003. p. 159.<\/h6>\n<h6>3 Ibidem, p. 171.<\/h6>\n<h6>4 MILLER, J.-A. Entretien: Lacan et la politique. Cit\u00e8s, Paris, PUF, n. 16, p. 106, 2003.<\/h6>\n<h6>5 Ibidem, p. 108.<\/h6>\n<h6>6 Ibidem, p. 122.<\/h6>\n<h6>7 MILLER, J.-A. Anguille en politique &#8211; Jacques-Alain Miller em P\u00e1gina 12. 2012. Dispon\u00edvel em: https:\/\/ebpsp.wordpress.com\/anguille-en-politique-jacques-alain-miller\/. Acesso em: 27 jun. 2023.<\/h6>\n<h6>8 LACAN, J. Declaration \u00e0 France Culture. Le Coq-H\u00e9ron, n. 46\/47, p. 4-5, 1974.<\/h6>\n<h6>9 Declara\u00e7\u00e3o da Escola UNA, 2000.<\/h6>\n<h6>10 MILLER, J.-A. Teoria de Turim: sobre o sujeito da escola. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie, S\u00e3o Paulo, ano 7, n. 21, p. 6, nov. 2016. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_21\/teoria_de_turim.pdf. Acesso em: 27 jun. 2023.<\/h6>\n<h6>11 MILLER, J.-A. Cinco varia\u00e7\u00f5es sobre o tema da elabora\u00e7\u00e3o provocada. Texto traduzido por Stella Jimenez. Cf. 14 JIMENEZ, S. (org.). O cartel: conceito e funcionamento na escola de Lacan. Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1994. p. 1-10.<\/h6>\n<h6>12 MILLER, J.-A. Le cartel au centre d\u2019une \u00e9cole de psychanalyse. 1994. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.causefreudienne.net\/cartels-dans-les-textes\/. Acesso em: 27 jun. 2023.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernanda Otoni Brisset Boa noite aos colegas da Se\u00e7\u00e3o Nordeste. Li\u00e8ge Uch\u00f4a me convidou para falar sobre o cartel e a a\u00e7\u00e3o lacaniana. Fazer esse enlace exige-nos ler como a Psican\u00e1lise topologicamente, sem arredar de sua pr\u00e1tica, um por um, ou melhor, por isto mesmo, se infiltra na grande conversa\u00e7\u00e3o com a sociedade. 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