{"id":3905,"date":"2023-09-18T17:11:37","date_gmt":"2023-09-18T20:11:37","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=3421"},"modified":"2023-09-29T09:22:23","modified_gmt":"2023-09-29T12:22:23","slug":"elephant","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/elephant\/","title":{"rendered":"Elephant<sup>1<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-4032\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_litoraneo011_006-scaled.jpg\" alt=\"litoraneo011_006\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_litoraneo011_006-scaled.jpg 2560w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_litoraneo011_006-300x200.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_litoraneo011_006-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_litoraneo011_006-768x512.jpg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_litoraneo011_006-391x260.jpg 391w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_litoraneo011_006-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_litoraneo011_006-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>Nohem\u00ed Brown<\/h6>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Agrade\u00e7o \u00e0 Se\u00e7\u00e3o Nordeste e \u00e0 Comiss\u00e3o de Cinema e Psican\u00e1lise da Fapol o convite realizado por K\u00e9sia Ramos, respons\u00e1vel pela EBP na dita comiss\u00e3o. Um convite desafiante para refletir a partir deste filme.<\/p>\n<p>O filme toca em temas muito atuais, dos quais, talvez, pelo impacto dos eventos recentes no Brasil, s\u00f3 poderemos localizar algumas quest\u00f5es e esbo\u00e7ar algumas pontua\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A pergunta de entrada \u00e9: o que podemos apreender do filme? E, talvez, encontrar uma brecha para abrir uma conversa poss\u00edvel para pensar alguns pontos candentes sobre esse o tema que toma a vertente de um sintoma social, os massacres nas escolas. Um tema que, para querer explic\u00e1-lo, podemos deslizar por uma l\u00f3gica que procure encontrar culpados e perder a dimens\u00e3o da complexidade da problem\u00e1tica. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas podemos cair em colocar o mal-estar no outro e, com isso, replicar a l\u00f3gica da segrega\u00e7\u00e3o. Nosso desafio, enorme \u00e9 o de poder ler um pouco desse novo real em jogo no \u00e2mbito da institui\u00e7\u00e3o educativa.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia tem tomado novas formas de mal-estar, justamente em um \u00e2mbito onde se transmitiriam ideais, valores culturais e sociais, isto \u00e9, nas escolas. E a pergunta que me surge de entrada \u00e9: por que nas escolas?&#8230; Talvez uma pergunta que conv\u00e9m neste momento deixar em aberto, mas j\u00e1 a colocar sobre a mesa. Falamos da declina\u00e7\u00e3o social da imago paterna, a declina\u00e7\u00e3o dos semblantes de autoridade, sabemos que o lugar de autoridade do professor est\u00e1 questionado h\u00e1 muito tempo. Mas o &#8220;por que nas escolas?&#8221; \u00e9 talvez a pergunta sobre o que encarna a escola hoje. Algo que vai al\u00e9m do imposs\u00edvel de educar.<\/p>\n<p>Mas vamos ao filme. Elefante. Parece um t\u00edtulo sem sentido.<\/p>\n<p>\u00c9 um filme forte na atualidade de sua tem\u00e1tica, mas n\u00e3o s\u00f3, tamb\u00e9m na forma como s\u00e3o apresentados cada um dos personagens. N\u00e3o h\u00e1 um protagonista, n\u00e3o fica claro quem \u00e9 o personagem central, mas isso n\u00e3o importa, isto o filme o bem deixa claro. Apresenta cada personagem com seus encontros, la\u00e7os, interesses, mas tamb\u00e9m com seus impasses. Isso \u00e9 muito interessante&#8230;<\/p>\n<p>Jonh, o menino, que tem que se fazer de adulto, diante de um pai irrespons\u00e1vel e alco\u00f3latra&#8230;<\/p>\n<p>As tr\u00eas meninas \u201cpopulares\u201d &#8211; Nicole, Jordan e Brittany &#8211; com suas quest\u00f5es com a imagem e o feminino, cada uma \u00e0 sua maneira, com seus impasses nas rela\u00e7\u00f5es, n\u00e3o pode namorar, se deve escolher sempre as amigas, mas com a bulimia como sintoma que as une e as silencia.<\/p>\n<p>Elias, o fot\u00f3grafo com seus interesses&#8230; mas com pais que n\u00e3o o deixam sair apesar da liberdade que parece ter.<\/p>\n<p>O menino que sofre <em>bullying<\/em>, Alex, cujo recurso \u00e0 arte s\u00f3 replica o mal-estar e a frustra\u00e7\u00e3o da qual padece.<\/p>\n<p>Kristen, a menina da biblioteca que tamb\u00e9m sofre <em>bullying<\/em>, mas sofre calada. Se esconde detr\u00e1s das roupas.<\/p>\n<p>O diretor, com todas as demandas institucionais, tem que lidar com esses impasses. E, em certos momentos, faz vista grossa.<\/p>\n<p>O que me pareceu muito interessante do filme s\u00e3o os recortes, a mesma cena passando desde o \u00e2ngulo de cada um. Vai dando sentido, entende-se o que acontece, mas ao mesmo tempo, n\u00e3o. N\u00e3o justifica nem explica.<\/p>\n<p>O diretor Gus Van Sant, neste filme de 2003, retoma o massacre no Instituto de Columbine, em 1999. O interessante do filme em sua constru\u00e7\u00e3o \u00e9 que apresenta a monotonia e a vida pacata em um instituto escolar, onde h\u00e1 algo que j\u00e1 n\u00e3o se percebe de t\u00e3o cotidiano. Os dramas cotidianos ser\u00e3o interrompidos de forma abrupta por um ato, que s\u00f3 no final do filme surge, mesmo que saibamos que vai a acontecer. Tamb\u00e9m \u00e9 interessante que o diretor n\u00e3o justifica a trag\u00e9dia, coloca em cena a complexidade do que est\u00e1 em jogo.<\/p>\n<p>Por exemplo, a facilidade na compra de armas, esperando em casa a entrega pelo correio. Os pontos de estranheza n\u00e3o tomam relev\u00e2ncia, n\u00e3o fazem quest\u00e3o, apesar de que chama a aten\u00e7\u00e3o do entregador que dois jovens estejam em casa no hor\u00e1rio do col\u00e9gio, n\u00e3o passa disso.<\/p>\n<p>A menina que n\u00e3o usa o <em>short<\/em>, mas como \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o usar. E a professora insiste sem querer saber nada mais.<\/p>\n<p>A bulimia, o <em>bullying<\/em> acontecendo na frente de todos, mas ningu\u00e9m v\u00ea. A viol\u00eancia, o <em>bullying<\/em> presentes na escola s\u00e3o naturalizados na vida cotidiana de um instituto educacional. Mas, tamb\u00e9m, naturalizado nos filmes, document\u00e1rios, <em>videogames<\/em>.<\/p>\n<p>Uma das coisas que me perguntava \u00e9 por que o nome <em>Elephant<\/em>, onde est\u00e1 o elefante no filme? Foi retomando resenhas que pude situar a express\u00e3o em ingl\u00eas \u201c<em>The Elephant in the room<\/em>\u201d, express\u00e3o que faz refer\u00eancia a algo t\u00e3o evidente, que est\u00e1 ali no meio da sala, mas que n\u00e3o \u00e9 visto. N\u00e3o \u00e9 a sutileza da <em>Carta roubada<\/em> de Edgar A. Poe que Lacan nos ensinou a ler, de colocar de forma velada o que n\u00e3o se quer ver. Neste caso \u00e9 o que est\u00e1 ali, de forma estrondosa, mas ningu\u00e9m quer ver. Fica muito clara na cena do menino, o bombeiro que presencia a agress\u00e3o de um colega para Alex&#8230; que ser\u00e1 uns dos agressores.<\/p>\n<p>Mas por que n\u00e3o se quer ver? Isso \u00e9 o que este filme nos retorna como sujeitos. Como se naturaliza a puls\u00e3o de morte sem querer saber dela, sem nenhuma media\u00e7\u00e3o poss\u00edvel pela palavra. A banalidade do mal, talvez possamos situar, a naturaliza\u00e7\u00e3o do mal e sua inconsequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Este filme n\u00e3o traz a ideia do doente mental que sai atirando, como muitas das leituras e filmes sobre incidentes como estes tendem a localizar. Mas, uma quest\u00e3o sobre os modos como a deteriora\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico se apresenta hoje no la\u00e7o social. O que fazer? \u00c9 a pergunta que talvez n\u00e3o possamos responder, nem conv\u00e9m responder rapidamente. Mas come\u00e7ar a ler o que est\u00e1 em jogo. N\u00e3o se trata de pura cr\u00edtica, mas de leitura.<\/p>\n<p>Por isso me pareceu interessante esse ponto sobre n\u00e3o saber bem quem s\u00e3o os protagonistas. N\u00e3o centra o protagonismo naquele que faz o ataque \u00e0 escola, d\u00e1 lugar as v\u00edtimas. Elas s\u00e3o tamb\u00e9m as protagonistas, tanto como os que sobreviveram e ter\u00e3o que lidar com o que presenciaram, ouviram ou fizeram diante da trag\u00e9dia. Nisto o filme \u00e9 muito sutil e interessante. N\u00e3o faz uma apologia, na tentativa de criticar ou explicar. Nisto vale destacar o document\u00e1rio sobre o nazismo que Eric e Alex assistem, ao mesmo tempo em que aguardam as armas. Esse document\u00e1rio para eles, mais do que explicar, termina sendo uma apologia, um orientador. Acho isso de uma delicadeza impressionante.<\/p>\n<p>Parece tamb\u00e9m que v\u00e1rios dos atores, todos desconhecidos, usaram seus pr\u00f3prios nomes. O que lhe d\u00e1 um toque de um realismo que perturba.<\/p>\n<p>Lendo diferentes resenhas sobre o filme, uma das leituras sobre o porqu\u00ea do t\u00edtulo \u00e9 a refer\u00eancia \u00e0 par\u00e1bola dos sete cegos diante do elefante, tentando descobrir o que \u00e9, a partir de \u00e2ngulos diferentes. Cada um fica com sua verdade, n\u00f3s como observadores, poder\u00edamos completar a cena. Pode at\u00e9 ser, mas d\u00e1 a ideia um tanto equ\u00edvoca de que se pode conhecer o todo atrav\u00e9s das partes. Mas \u00e9 justamente o ponto cego, do que escapa, do que n\u00e3o se v\u00ea, mas que se faz presente de forma maci\u00e7a o tempo todo no filme, o que, a meu ver, torna-o fundamental. N\u00e3o \u00e9 pela via das partes que se conhece, h\u00e1 um ponto cego, um ponto do qual n\u00e3o se quer saber e que est\u00e1 em jogo.<\/p>\n<p>Neste sentido, me parece relevante a reflex\u00e3o que Miquel Bassols<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, um analista espanhol, faz com rela\u00e7\u00e3o ao Bullying.<\/p>\n<p><strong>Uma ideia sobre o b<\/strong><strong><em>ullying<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O que \u00e9 o <em>bullying<\/em>? Bassols o coloca de uma forma interessante, \u00e9 um termo que tem passado ao discurso comum, atravessando l\u00ednguas e pa\u00edses, classes e tribos diversas. Podemos admitir este termo como um sintoma daquilo que h\u00e1 de inomin\u00e1vel de uma viol\u00eancia onde se esperaria a melhor consci\u00eancia pedag\u00f3gica, isto \u00e9, nas escolas. Parece-me interessante, porque nomeia algo do inomin\u00e1vel da viol\u00eancia no espa\u00e7o escolar. Ao coloc\u00e1-lo assim, de certa forma, o esvazia de sentido. Isto \u00e9, faz o contr\u00e1rio do que faz o discurso comum, que \u00e9 encher de sentido o que <em>bullying<\/em> quer dizer.<\/p>\n<p>Inclusive, traz a raiz do termo.<\/p>\n<p><em>Bully<\/em> \u2013 o mach\u00e3o, valent\u00e3o. Quem intimida, acossa ao mais fr\u00e1gil.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que, assim como <em>unheimlich<\/em>, <em>bully<\/em> tem outra conota\u00e7\u00e3o, que vem do holand\u00eas do s\u00e9culo XVI e tinha o sentido de amante, do querido ou querida, do cavaleiro feudal. \u00c9 no s\u00e9culo XX que tomou o sentido de abuso repetido, f\u00edsico ou verbal. Daquele que acossa, algu\u00e9m que se acredita com mais poder que seu objeto. Podemos considerar este deslizamento de sentido como pura conting\u00eancia, mas Bassols nos prop\u00f5e ver nisso a l\u00f3gica do inconsciente que imp\u00f5e os usos do significante e os efeitos sobre cada sujeito. Ele se pergunta: se o <em>bullying<\/em> seria uma manifesta\u00e7\u00e3o da demanda de amor que n\u00e3o se sabe de si mesma, que n\u00e3o se pode afirmar mais do que no abuso do poder exibido diante dos outros sobre seu objeto, igualmente imposs\u00edvel de reconhecer como objeto de amor? O <em>bully<\/em> precisa manter a qualquer pre\u00e7o o v\u00ednculo com o acossado no interior da l\u00f3gica de grupo. Uma forma de reconhecimento, com sua presen\u00e7a irredut\u00edvel, do v\u00ednculo que constitui ao grupo, a partir de uma segrega\u00e7\u00e3o que deve se manter no pr\u00f3prio interior. O <em>bullying<\/em> como uma l\u00f3gica de grupo que se sustenta porque em seu interior est\u00e1, como condi\u00e7\u00e3o para que se mantenha a segrega\u00e7\u00e3o. N\u00e3o coloca fora do grupo, mas no interior.<\/p>\n<p>O que fazer, ent\u00e3o? Essa \u00e9 a pergunta com a qual nos confrontamos diante deste fen\u00f4meno. Seja desde o lugar daquele que ensina, como do familiar, como do acossador ou o acossado. Bassols prop\u00f5e abordar a quest\u00e3o pela vertente negativa. Isto \u00e9, \u201cdesvitimizar\u201d a v\u00edtima, devolver sua condi\u00e7\u00e3o de sujeito ali onde participa sem querer nem saber, desde o lugar onde se joga a l\u00f3gica do grupo e suas tr\u00eas identifica\u00e7\u00f5es. Em outras palavras, interrogar os outros dois lugares de sujeito de gozo: o do acossador em sua demanda de amor-\u00f3dio e o do observador na satisfa\u00e7\u00e3o que o confirma como parte integrante da cena.<\/p>\n<p>A leitura de Bassols me parece interessante, pois permite localizar que a cena se sustenta entre tr\u00eas lugares, tr\u00eas identifica\u00e7\u00f5es das quais n\u00e3o se quer saber, para ler a l\u00f3gica da segrega\u00e7\u00e3o na manuten\u00e7\u00e3o de um la\u00e7o tir\u00e2nico.<\/p>\n<p>Retomando o filme Elefante, o diretor consegue nos colocar no lugar do observador, sem que percebamos de entrada. Nos faz participantes da cena.<\/p>\n<p>O filme nos coloca dentro da cena, vamos acompanhando a cada personagem. Vemos a situa\u00e7\u00e3o desde sua perspectiva, somos testemunhas dos impasses e dos atos realizados. A ideia de perspectiva \u00e9 interessante. O diretor usa belamente sua t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>O filme termina, justamente, com Alex procurando por Nathan, o bombeiro que foi testemunha da agress\u00e3o do colega, e o encontra na geladeira com a namorada. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o viu? Voc\u00ea viu, n\u00e3o quis saber, n\u00e3o quis dizer algo?\u00a0 Era t\u00e3o evidente e n\u00e3o quis ver\u201d \u00e9 o que est\u00e1 em jogo nessa cena silenciosa. Tinha um elefante no quarto, mas se fingia que n\u00e3o estava.<\/p>\n<p><strong>Na era do Show<\/strong><\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o mais para nossa conversa\u00e7\u00e3o: que valor tem a divulga\u00e7\u00e3o nas redes de uma trag\u00e9dia anunciada? O que chama a aten\u00e7\u00e3o&#8230; Isso n\u00e3o est\u00e1 no filme, mas sim em um dos autores do massacre no Instituto em Columbine. Ele tinha postado e criado um <em>blog<\/em> anunciando suas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A escola tem se tornado um cen\u00e1rio medi\u00e1tico de trag\u00e9dias. O uso das m\u00eddias como um massacre anunciado. Em redes se publicam pensamentos, inten\u00e7\u00f5es que de certa forma ningu\u00e9m v\u00ea. As vezes na modalidade de um testemunho. A ideia de regular as <em>f<\/em><em>ake <\/em><em>n<\/em><em>ews<\/em> e certos incentivos \u00e0 viol\u00eancia, por parte do Estado, parece ser uma forma de introduzir, um certo olhar jur\u00eddico &#8211; que \u00e9 um dos discursos que regulam a vida em sociedade &#8211; para esse elefante que ningu\u00e9m quer ver nas redes. Neste sentido, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a massacre, mas uma certa forma de inscri\u00e7\u00e3o do ato horr\u00edvel na rede. \u00c9 uma certa inscri\u00e7\u00e3o em um la\u00e7o atual &#8211; o virtual &#8211; que pode ser uma op\u00e7\u00e3o em certos sujeitos ou em momentos nos quais para um sujeito o la\u00e7o social est\u00e1 com serias dificuldades. Mario Goldenberg coloca uma hip\u00f3tese que podemos pensar e que me permitiu pontuar esta pergunta que me fazia sobre o valor do registro nas redes sociais: \u201ca realiza\u00e7\u00e3o de uma fugaz fama, pode ser qualquer uma, mas que em alguns sujeitos nos quais os la\u00e7os com os outros est\u00e3o perturbados, o discurso medi\u00e1tico lhe permite inscrever, mesmo que com um ato horroroso, sua exist\u00eancia\u201d.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 mais complicada, pois n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o registro. Hoje, o que temos acompanhado no Brasil \u00e9 o empuxo que alguns <em>sites<\/em> ou redes t\u00eam para este tipo de atos.<\/p>\n<p><strong>E a instala\u00e7\u00e3o de c<\/strong><strong>\u00e2<\/strong><strong>meras nas escolas, <\/strong><strong>\u00e9 <\/strong><strong>uma solu\u00e7\u00e3o diante disso que n\u00e3o se quer ver?<\/strong><\/p>\n<p>Parece uma ironia: isso que n\u00e3o se quer ver, se quer vigiar. Como se vigiar fosse de fato um olhar o insuport\u00e1vel. O olhar de vigil\u00e2ncia como uma resposta ao que n\u00e3o se quer ver, a isso que perturba o la\u00e7o, o que \u00e9 insuport\u00e1vel e est\u00e1 no centro do la\u00e7o social vem s\u00f3 reafirmar esse ponto de cegueira.<\/p>\n<p>Estamos na \u00e9poca da exig\u00eancia de transpar\u00eancia absoluta. Onde tudo pode ser visto, sabemos que a tecnologia avan\u00e7a neste sentido, contra a intimidade, a privacidade e o secreto. Que lugar para a opacidade, para isso que n\u00e3o se pode ver, mas que incomoda? Que se faz presente.<\/p>\n<p>Por outro lado, implica colocar os alunos ou professores sob suspeita, isto \u00e9, coloc\u00e1-los como sujeito suposto assassino, suposto criminoso. A quest\u00e3o que se faz presente \u00e9: seria uma solu\u00e7\u00e3o ou um empuxo a um lugar para quem est\u00e1 na fragilidade do la\u00e7o?<\/p>\n<p>E para terminar minha fala, quero trazer um ponto que espero possa abrir para a conversa. O que o filme traz s\u00e3o os diferentes modos do mal-estar na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, que tomam as formas mais diversas. Nos consult\u00f3rios nos chegam crian\u00e7as e adolescentes em sofrimento, mas o que se apresenta antes do sofrimento s\u00e3o atos. Extrair o sofrimento para que deles possa se fazer um trabalho anal\u00edtico \u00e9 um aspecto fundamental da cl\u00ednica. O sofrimento ou mal-estar muitas vezes se silencia atrav\u00e9s das classifica\u00e7\u00f5es TDAH, autismo, transtorno opositor etc. Torna-se uma resposta privilegiada para tratar o real que o causa. Diante dessas classifica\u00e7\u00f5es o sujeito fica mudo, oculto por tr\u00e1s da categoria nosol\u00f3gica, como testemunham as crian\u00e7as e pais que consentem a um outro encontro, com o analista diante disso que lhes perturba, lhes exaspera e lhes torna terr\u00edveis.<\/p>\n<p>Propor uma categoria fechada \u00e9 uma forma de impedir que o falasser, o sujeito e seu corpo falante testemunhe um real ao adotar um discurso pronto (<em>pr\u00eat-\u00e0<\/em><em>-porter<\/em>) para velar dessa forma sua singularidade. Esta opera\u00e7\u00e3o se refor\u00e7a no uso excessivo da medicaliza\u00e7\u00e3o na inf\u00e2ncia. O que me parece que o filme nos traz como pergunta fundamental \u00e9: como n\u00e3o ficar cegos frente ao mal-estar na inf\u00e2ncia que se apresenta nas institui\u00e7\u00f5es? Que elefante \u00e9 esse que est\u00e1 no meio da sala de aula, na fam\u00edlia, na vida? Essa \u00e9 uma quest\u00e3o que fundamental para que um trabalho cl\u00ednico com a crian\u00e7a e adolescente seja poss\u00edvel, mas tamb\u00e9m com os outros. Sabemos que quando nos dispomos a atender uma crian\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a crian\u00e7a ou adolescente. S\u00e3o os pais, os professores, os psiquiatras que tamb\u00e9m est\u00e3o no horizonte.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>1 Texto apresentado para a conversa\u00e7\u00e3o sobre o filme Elephant, por Nohem\u00ed Brown, convidada da atividade Cinema e Psican\u00e1lise.<\/h6>\n<h6>2 BASSOLS, M. Palabras preliminares. <em>In: Goldenberg, M. Bullying, acoso y tiempos violentos. Lecturas cr\u00edticas desde el psicoan\u00e1lisis de orientaci\u00f3n Lacaniana<\/em>. Buenos Aires: Grama, 2016, p. 9-11.<\/h6>\n<h6>3 GOLDENBERG, M. Violencia, escuela y la subjetividad contempor\u00e1nea. <em>In: Goldenberg, M.\u00a0 Violencia en las escuelas<\/em>. Buenos Aires: Grama, 2011, p. 11- 22.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nohem\u00ed Brown Introdu\u00e7\u00e3o Agrade\u00e7o \u00e0 Se\u00e7\u00e3o Nordeste e \u00e0 Comiss\u00e3o de Cinema e Psican\u00e1lise da Fapol o convite realizado por K\u00e9sia Ramos, respons\u00e1vel pela EBP na dita comiss\u00e3o. Um convite desafiante para refletir a partir deste filme. 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