{"id":3282,"date":"2023-04-06T06:44:50","date_gmt":"2023-04-06T09:44:50","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=3282"},"modified":"2023-04-06T06:44:50","modified_gmt":"2023-04-06T09:44:50","slug":"tu-podes-saber","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/tu-podes-saber\/","title":{"rendered":"Tu Podes Saber"},"content":{"rendered":"<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-3276\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Noriko-Kuresumi-4-1024x773.png\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"377\" \/>Cl\u00e1udia Formiga<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h6>\n<p>\u201cTu podes saber\u201d, que escolhemos como t\u00edtulo desta I Jornada de Cart\u00e9is da Se\u00e7\u00e3o Nordeste, me ensejou uma reflex\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre <em>Saber<\/em> e <em>Poder<\/em>, tendo como pano de fundo a ideia de Lacan do cartel como \u00f3rg\u00e3o de base de sua Escola. Trata-se de um r\u00e1pido sobrev\u00f4o que, provocada por esse t\u00edtulo, me vi tentada a fazer sobre essa quest\u00e3o, que evidencia a import\u00e2ncia da pol\u00edtica do cartel na forma\u00e7\u00e3o do analista.<\/p>\n<p>Esse t\u00edtulo nos foi inspirado pela frase que sub-intitula a revista <strong><em>Scilicet<\/em><\/strong>, criada por Lacan em 1968, com o objetivo de ampliar os leitores da psican\u00e1lise para al\u00e9m do c\u00edrculo de sua Escola.<\/p>\n<p>\u201c<em>Voc\u00ea pode saber o que pensa a Escola Freudiana de Paris\u201d<\/em>, que a revista <strong><em>Scilicet<\/em> <\/strong>trouxe como estampa de capa em seu primeiro n\u00famero, sintetiza e expressa o esp\u00edrito que orienta a Escola de Lacan.<\/p>\n<p>Cristiane Alberti, em seu artigo \u201cLacan, homem de revistas\u201d,<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> discorre a respeito desse projeto de Lacan de difus\u00e3o da psican\u00e1lise, e esclarece as raz\u00f5es de um endere\u00e7amento privilegiado dado por ele \u00e0s revistas. Ela argumenta que essa escolha visava, por um lado, responder \u00e0 atualidade de seu tempo, em uma \u00e9poca em que criar ou participar de uma revista representava um \u201cato inteiramente social\u201d. E, por outro, que os textos curtos responderiam melhor ao movimento de Lacan, naquele momento, de desvencilhar a psican\u00e1lise do campo do inef\u00e1vel e do obscuro e de fazer da sua transmiss\u00e3o algo mais pr\u00f3ximo ao campo da cr\u00edtica e da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Segundo Alberti, \u201cEssa mudan\u00e7a de endere\u00e7amento (a um novo leitor, para al\u00e9m do c\u00edrculo de sua Escola) come\u00e7ou j\u00e1 em 1964. O interesse dos normalistas da \u00e9poca, al\u00e9m do p\u00fablico intelectual que afluia \u00e0 Escola Normal Superior, modificou o foco do discurso, tornando-se ensino de Lacan.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Como sabemos, nesse momento Lacan se encontrava \u00e0s voltas com as quest\u00f5es que o fizeram sair da IPA e criar a sua pr\u00f3pria Escola, quest\u00f5es que ele descreveu extensamente em seu artigo \u201cSitua\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise e forma\u00e7\u00e3o do psicanalista em 1956\u201d, ressaltando o distanciamento entre o discurso anal\u00edtico e o que, naquele momento, orientava a forma\u00e7\u00e3o e a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise no \u00e2mbito da IPA.<\/p>\n<p>Lacan se refere, nesse artigo, ao regime de saber vigente na IPA, em que o argumento de autoridade se apoiava no sil\u00eancio das \u201cSufici\u00eancias\u201d. A enfatua\u00e7\u00e3o dos analistas didatas, a ignor\u00e2ncia crassa, o psicologismo anal\u00edtico (todos esses, termos usados por Lacan para denunciar os deslizes na forma\u00e7\u00e3o de analistas praticada pela IPA), que ocorria em total discord\u00e2ncia com a radicalidade dos fen\u00f4menos descobertos por Freud e com os fundamentos da experi\u00eancia anal\u00edtica. Lacan observa \u201co paradoxo dif\u00edcil de conceber de (que) numa comunidade cuja incumb\u00eancia \u00e9 manter um certo discurso\u00a0 (\u2026)\u00a0 o sil\u00eancio impere\u201d.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Contr\u00e1rio a esse funcionamento da IPA, Lacan funda a sua Escola, cujo objetivo explicita desde o seu Ato de Funda\u00e7\u00e3o (1964) e o reafirma a cada nova formula\u00e7\u00e3o que fez (em 1967<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> e em 1980<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>), reiterando os seus objetivos e melhor precisando as raz\u00f5es de sua exist\u00eancia: a extens\u00e3o da psican\u00e1lise e a forma\u00e7\u00e3o do analista. Em sua proposta, Lacan esclarece que n\u00e3o s\u00f3 a Escola \u00e9 o lugar onde se produz o trabalho respons\u00e1vel por zelar pela forma\u00e7\u00e3o do analista, mas tamb\u00e9m que \u00e9 desse trabalho que depende a continuidade da psican\u00e1lise no mundo.<\/p>\n<p>Na Escola de Lacan, o desconforto causado pela aus\u00eancia de um t\u00edtulo vital\u00edcio (como o de analista didata, por exemplo) propicia a que um analista possa expor \u201cas raz\u00f5es de sua cl\u00ednica\u201d e contribuir com um saber, sempre singular, que orienta a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>E desde esse in\u00edcio, Lacan \u00e9 claro em atribuir ao dispositivo do cartel uma fun\u00e7\u00e3o de <em>\u00f3rg\u00e3o de base<\/em> de sua Escola. O cartel como <em>meio<\/em> para se produzir o trabalho necess\u00e1rio \u00e0 sobreviv\u00eancia da psican\u00e1lise, assim como para zelar pela forma\u00e7\u00e3o do psicanalista, na medida em que visa uma elabora\u00e7\u00e3o provocada pelo real e n\u00e3o pela suposi\u00e7\u00e3o de saber.<\/p>\n<p>Rodrigo Lyra, colega da Se\u00e7\u00e3o Rio, em um texto que tem como t\u00edtulo \u201cA lucidez atual do cartel\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, assinala muito bem esse aspecto, quando diz que o cartel passa a funcionar como uma esp\u00e9cie de \u201cant\u00eddoto\u201d \u00e0 instala\u00e7\u00e3o do discurso do mestre que imperava na IPA. Nesse sentido, diz ele, \u201co cartel inscreve a Escola em um movimento permanente de elabora\u00e7\u00e3o em torno de um ponto de imposs\u00edvel, com o qual\u00a0 se depara qualquer um que empreenda uma busca por saber.\u201d<\/p>\n<p>A refer\u00eancia que fazemos, ent\u00e3o, no t\u00edtulo de nossa Jornada ao d\u00edstico da revista <strong><em>Scilicet<\/em><\/strong> se dirige a essa rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca que existe entre cartel e saber. O \u201cTu podes saber\u201d entendido com um convite \u00e0 carteliza\u00e7\u00e3o, p\u00f5e em cena o desejo, convoca ao engajamento \u00e0 uma produ\u00e7\u00e3o em nome pr\u00f3prio e descolado da mestria.<\/p>\n<p>Em um artigo em que discute as crises no cartel<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, Bernardino Horne considera o saber como um elemento central na pol\u00edtica do cartel. Citando Eric Laurent, Bernardino afirma que os v\u00ednculos entre o saber e o poder sempre ocuparam a reflex\u00e3o de Lacan. Diz, ainda, que ao propor para sua Escola as formas institucionais que convinham ao discurso anal\u00edtico &#8211; cartel e passe &#8211; Lacan teria encontrado uma forma de inscrever em ato essa reflex\u00e3o.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>Em \u201cA dire\u00e7\u00e3o do Tratamento e os princ\u00edpios de seu poder\u201d vemos Lacan afirmar que \u201ca impot\u00eancia em sustentar autenticamente uma pr\u00e1tica reduz-se, como \u00e9 comum na hist\u00f3ria dos homens, ao exerc\u00edcio de um poder\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. Tal como em uma an\u00e1lise, o desejo do analista est\u00e1 no extremo oposto \u00e0 vontade de poder, podemos dizer que tamb\u00e9m o cartel ocupa um lugar de oposi\u00e7\u00e3o ao poder, na estrutura\u00e7\u00e3o da Escola.<\/p>\n<p>Assim, podemos dizer que, na Escola de Lacan, o cartel articula a epist\u00eame e a pol\u00edtica, ao convocar os analistas, no um a um, ao movimento cont\u00ednuo de constru\u00e7\u00e3o de uma rede de saber, mas tamb\u00e9m ao <em>saber fazer<\/em> com esse saber, que implica seguir em uma nova forma de la\u00e7o com o trabalho de Escola.<\/p>\n<p>A uma altura do seu texto, Bernardino lan\u00e7a a seguinte pergunta: qual a pol\u00edtica do cartel? E diz que uma resposta de Lacan a essa pergunta \u00e9: \u201c<em>Tu podes saber<\/em>, que preside a funda\u00e7\u00e3o da revista <strong><em>Scilicet<\/em><\/strong>, \u00e9 a pol\u00edtica do cartel\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p>Sejam todo(a)s muito bem vindo(a)s! Que tenhamos todos uma Jornada animada e produtiva! Que possamos com vivo interesse acolher e discutir os temas da psican\u00e1lise, a partir das elabora\u00e7\u00f5es e quest\u00f5es dos cartelizantes que seguindo a recomenda\u00e7\u00e3o de Lacan, hoje nos colocam \u201ca c\u00e9u aberto\u201d os seus produtos de cartel. Vamos a eles?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Atual diretora de Cart\u00e9is e Interc\u00e2mbios da EBP-Se\u00e7\u00e3o Nordeste.\u00a0 Membro EBP e AMP.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Alberti. C. \u201cLacan, homem de revistas\u201d <em>In<\/em>: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. no. 62. Dezembro 2011. pp. 3-7.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Alberti. Op. Cit. p. 6.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan, Situa\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise e forma\u00e7\u00e3o do psicanalista em 1956. In; Escritos. p. 480<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola\u201d. <em>In<\/em>: Outros Escritos. 1981. pp 248-264.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> \u201cD&#8217;Ecolage\u201d. Manual de carteis.Belo Horizonte. EBPMG. Scriptum. 2010. p.13.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>\u00a0 Lyra. R. \u201cA lucidez do cartel\u201d. Disponivel em: https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/2019\/09\/11\/dobradica-de-carteis-a-lucidez-do-cartel\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Horne, B. \u201cSobre a crise no cartel. H\u00e1 cartel sem crise?\u201d <em>In<\/em>: Cartel, novas Leituras. Noemi Brown (org). 2021. pp 103-112.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> \u00a0Idem. p. 106.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Lacan, J. \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamenro e os princ\u00edpios de seu poder\u201d <em>In<\/em>: Escritos. Rio de Janeiro. Zahar. 1998. p. 592<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Horne, B. Idem. p. 107.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cl\u00e1udia Formiga[1] \u201cTu podes saber\u201d, que escolhemos como t\u00edtulo desta I Jornada de Cart\u00e9is da Se\u00e7\u00e3o Nordeste, me ensejou uma reflex\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre Saber e Poder, tendo como pano de fundo a ideia de Lacan do cartel como \u00f3rg\u00e3o de base de sua Escola. 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