{"id":3280,"date":"2023-04-06T06:39:25","date_gmt":"2023-04-06T09:39:25","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=3280"},"modified":"2023-04-06T06:39:25","modified_gmt":"2023-04-06T09:39:25","slug":"aposta-no-passe-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/aposta-no-passe-hoje\/","title":{"rendered":"Aposta no Passe hoje"},"content":{"rendered":"<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-3277\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Noriko-Kuresumi-5-1024x769.png\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"376\" \/>Sandra Arruda Grostein<\/h6>\n<p>Caros colegas da Se\u00e7\u00e3o Nordeste da EBP: \u00e9 com muita alegria que estou hoje aqui com voc\u00eas para apresentar uma reflex\u00e3o sobre o Passe na EBP hoje.<\/p>\n<p>Dividi minha fala em tr\u00eas pontos:<\/p>\n<ol>\n<li>Breve hist\u00f3rico do Passe na EBP:<br \/>\nEste ponto obedece, de um lado, ao que aprendi no mestrado e doutorado em Hist\u00f3ria da Ci\u00eancia, isto \u00e9, que \u00e9 preciso ser fiel \u00e0s fontes e documentos e, de outro, ao que aprendo diariamente em minha forma\u00e7\u00e3o como psicanalista: que a mem\u00f3ria falseia. Por isso, vou recorrer a alguns relatos pautados em minha pr\u00f3pria viv\u00eancia como membro fundador da EBP, tendo participado do movimento lacaniano em S\u00e3o Paulo desde o final dos anos 70, e, finalmente, participado do dispositivo do passe em todos os lugares a ele reservados.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"2\">\n<li>Aposta no passe. Extrairei algumas ideias do livro organizado por Ana Lydia Santiago, composto por textos de J.-A Miller sobre o tema, e os primeiros testemunhos dos quinze AE nomeados at\u00e9 o momento do lan\u00e7amento do livro, isto \u00e9, de 1996 a 2017.<\/li>\n<li>&#8211; Passe em crise na AMP. Tratarei da suspens\u00e3o do dispositivo do passe na ECF, da leitura feita por Miller publicada na revista Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n\u00ba 85, e das considera\u00e7\u00f5es publicadas no livro \u201cComo terminam as an\u00e1lises\u201d.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Os oitenta n\u00fameros da Revista Correio s\u00e3o o principal documento que visa acompanhar a cronologia do passe na EBP. O registro mais antigo est\u00e1 no n\u00famero 3, de setembro de 1993, em uma entrevista realizada com Lilia Majoub \u2013 \u201cO passe em detalhes, a garantia e os avan\u00e7os da psican\u00e1lise\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, donde se pode retirar a resposta \u00e0 seguinte quest\u00e3o: por que o Passe \u00e9 considerado um ponto central na Escola de Jacques Lacan?<\/p>\n<p>Sua resposta se sustenta na garantia que a Escola pode oferecer para a sociedade, isto \u00e9, que seus membros s\u00e3o analistas confi\u00e1veis. Seja pela demonstra\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica, representada pelos AME, seja por estes analistas terem passado por um julgamento, do qual se destacam tr\u00eas pontos fundamentais:<\/p>\n<ol type=\"A\">\n<li>Julgar se houve uma verdadeira entrada em an\u00e1lise, atrav\u00e9s da forma\u00e7\u00e3o de um sintoma que constituiu uma demanda.<\/li>\n<li>Como esta demanda se articulou a um determinado analista.<\/li>\n<li>O percurso da an\u00e1lise, seu desenvolvimento, como a demanda evoluiu, quais foram os grandes momentos, as etapas, os pontos de virada, como as identifica\u00e7\u00f5es puderam ceder. Como as ins\u00edgnias \u00e0s quais o analisante est\u00e1 engajado tem a ver com o pai, e se as pode provar em seu discurso, isto \u00e9, sua rela\u00e7\u00e3o com o Outro.<\/li>\n<\/ol>\n<p>A t\u00edtulo de registro, o cartel do passe da ECF em 1993 era composto por \u00c9ric Laurent, Alain Merlet, J.-A Miller (+1), Genevi\u00e8ve Morel (passador) e Lilia Majoub (eleita pela Assembleia).<\/p>\n<p>Aqueles que queriam fazer o passe deveriam se dirigir \u00e0 secretaria do Passe composta por tr\u00eas pessoas que acolhiam o pedido a partir de um conjunto de entrevistas. Tratava-se de saber o porqu\u00ea da demanda de passe e diferenci\u00e1-la de uma ilus\u00e3o, de um acting-out ou at\u00e9 mesmo de um del\u00edrio. Majoub argumenta que h\u00e1 um trabalho cl\u00ednico a ser feito. Constatada a justeza do pedido, o passante sorteava os passadores.<\/p>\n<p>Este procedimento corresponde ao que se pratica hoje na EBP, com pequenas varia\u00e7\u00f5es, como o fato de a secretaria do passe ter deixado de existir como tal e o secret\u00e1rio ser escolhido entre os participantes do Cartel do passe.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo documento trabalhado \u00e9 o n\u00famero cinco do Correio, de dezembro de 1993, cujo texto escolhido \u00e9 o depoimento de Samuel Basz<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, presidente, \u00e0 \u00e9poca, da EOL.<\/p>\n<p>Ele diz que n\u00e3o h\u00e1 passe sem Escola nem Escola sem passe, pois o passe \u00e9 o lugar para se interrogar o que \u00e9 o psicanalista, j\u00e1 que n\u00e3o existe um conceito que abarque este termo.<\/p>\n<p>Portanto, o dispositivo do passe \u00e9 o que permite produzir um saber a respeito do que \u00e9 o psicanalista, exatamente o que a Escola n\u00e3o sabe.<\/p>\n<p>Na EOL, em 1993, havia uma Comiss\u00e3o espec\u00edfica para encontrar os meios para implementar o dispositivo do passe. Vale lembrar que a EOL foi fundada em 1992, dias antes da funda\u00e7\u00e3o da AMP, que com as outras tr\u00eas Escolas \u2013 ECF, Escola de Caracas e a Escola Europeia \u2013 deram in\u00edcio \u00e0 AMP.<\/p>\n<p>O outro texto escolhido foi publicado em setembro de 1994, no Correio n\u00famero 9 (ainda anteriormente \u00e0 funda\u00e7\u00e3o da EBP). Trata-se de um texto teoricamente consistente, um coment\u00e1rio feito por Serge Cottet<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> sobre o VIII Encontro Internacional do Campo freudiano cujo t\u00edtulo era \u201cComo terminam as an\u00e1lises\u201d. Ele prop\u00f5e que o passe for\u00e7a a dar forma \u00e0 confronta\u00e7\u00e3o da doutrina com os resultados, a partir da apresenta\u00e7\u00e3o do caso cl\u00ednico, diferenciando a l\u00f3gica do tratamento do ac\u00famulo de dados biogr\u00e1ficos. Ele diz: \u201cO passe fornece o melhor ponto de observa\u00e7\u00e3o para avaliar o desenvolvimento de uma an\u00e1lise. A decifra\u00e7\u00e3o lacaniana da hist\u00f3ria de uma an\u00e1lise robustece a oposi\u00e7\u00e3o entre efeito terap\u00eautico e efeito did\u00e1tico\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Conclui dizendo que fazemos parte de uma comunidade para a qual o analista n\u00e3o \u00e9 o produto de uma norma conhecida de antem\u00e3o, reproduz\u00edvel pelo automaton. O analista resulta a um s\u00f3 tempo do acionamento do Inconsciente e de seu encontro com a transfer\u00eancia da Escola sobre a doutrina.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo n\u00famero do Correio pesquisado foi o 12\u00ba, de agosto de 1995, logo depois da funda\u00e7\u00e3o da EBP, em abril deste mesmo ano.<\/p>\n<p>A entrada pelo passe proposta pela AMP foi institu\u00edda por voto secreto e un\u00e2nime de seus membros, reunidos em 1\u00ba de maio de 1995, onde se decidiu que a entrada na EBP dar-se-ia atrav\u00e9s do Passe de Entrada.<\/p>\n<p>O n\u00famero 25 do Correio traz um texto de Iordan Gurgel onde ele retoma a constitui\u00e7\u00e3o da Escola Una. Neste texto, cujo t\u00edtulo \u00e9 \u201cO Passe e a Escola Una &#8211; o futuro chegou!\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, ele ressalta a caracter\u00edstica da EBP de ter nascido j\u00e1 sob o regime do passe, atendendo, portanto, ao pressuposto de que para ser analista \u00e9 preciso se analisar: \u201c\u00e9 indispens\u00e1vel se submeter a uma an\u00e1lise. Poder-se ia dizer que com isto busca-se conciliar o Lacan radical da Carta aos Italianos (que toda entrada na Escola seja pela via do passe) com o Miller pragm\u00e1tico da pergunta de Madri (o passe que testemunhe a condi\u00e7\u00e3o de analisante)\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Do Correio 27 retirei o texto de Joseph Atti\u00e9, no qual ele desenvolve a ideia de que Lacan, ao conceber o dispositivo do passe na Escola, introduz a institui\u00e7\u00e3o no cerne da experi\u00eancia anal\u00edtica, isto \u00e9, a experi\u00eancia da Escola \u00e9 a experi\u00eancia anal\u00edtica duplicada por uma experi\u00eancia de transmiss\u00e3o<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>O AE pode ser definido como o analista da experi\u00eancia Escola, onde tem o privil\u00e9gio de ter-se balizado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia do seu pr\u00f3prio real. A Escola do passe, ent\u00e3o, segundo Atti\u00e9, designa a Escola atravessada pelo real do passe.<\/p>\n<p>Dando um salto no tempo, vamos para 2011 no Correio 69, em que Elisa Alvarenga<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> teoriza sobre o passe ao se perguntar, com Miller, se haveria identifica\u00e7\u00e3o ao sinthoma sem atravessamento da fantasia. Ela pergunta qual a diferen\u00e7a entre sinthoma e restos sintom\u00e1ticos.<\/p>\n<p>O pequeno a\/ (\u2013phi) \u00e9 a maneira mais elementar de representar essa conjuga\u00e7\u00e3o entre dois termos pertencentes a duas ordens distintas: o buraco do simb\u00f3lico e o tamp\u00e3o imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 esse o algoritmo do passe que prop\u00f5e Lacan: o fim da an\u00e1lise teria estas duas vers\u00f5es: ou aceder \u00e0 brecha do complexo de castra\u00e7\u00e3o (-phi) ou aceder ao objeto que a obtura (objeto pequeno a).<\/p>\n<p>Neste momento, Lacan d\u00e1 ao gozo o status do imagin\u00e1rio; j\u00e1 num outro momento, o n\u00facleo do gozo ser\u00e1 real.<\/p>\n<p>Ela atribui ao resto inelimin\u00e1vel, um caminho que vai do peda\u00e7o de real dos restos sintom\u00e1ticos, ao sinthoma como uma segunda vers\u00e3o do real, para al\u00e9m dos restos sintom\u00e1ticos<\/p>\n<p>Acreditava-se que a \u00faltima palavra era \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d, mas h\u00e1 o sinthoma. Ou seja, para al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o h\u00e1, h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o sinthom\u00e1tica pr\u00f3pria ao sujeito, que se trata de verificar no passe.<\/p>\n<p>A \u00faltima refer\u00eancia est\u00e1 na revista Correio de n\u00famero 77, no texto \u201cO Passe\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, de Maria Cec\u00edlia Galletti Ferretti. Neste, Cec\u00edlia relembra que o passe entendido como atravessamento da fantasia fundamental pressup\u00f5e que a opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica sobre a fantasia tem suporte em \u201cuma crian\u00e7a \u00e9 espancada\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>O texto aborda a frase \u201cuma crian\u00e7a \u00e9 espancada\u201d, como uma cadeia significante, e a fantasia como um acr\u00e9scimo a ela com um efeito de sentido e um efeito de gozo. Conclui que o passe do falasser n\u00e3o \u00e9 testemunhar sobre a travessia da fantasia; trata-se mais da elucida\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do falasser com o gozo e como foi poss\u00edvel, a partir disso, adquirir um saber com a parte do gozo que n\u00e3o se modifica no trabalho de an\u00e1lise. H\u00e1 algo no gozo que resiste \u00e0 an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Um vez feito este breve hist\u00f3rico do Passe na EBP, a refer\u00eancia para desenvolver o segundo ponto baseia-se na \u201cAposta no Passe\u201d, isto \u00e9, em manter o passe no n\u00edvel da aposta e n\u00e3o da consagra\u00e7\u00e3o. A refer\u00eancia \u00e9 um livro de mesmo nome<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, organizado por Ana Lydia Santiago, composto por alguns textos de Jacques-Alain Miller sobre o tema e pelos primeiros testemunhos dos quinze AE nomeados na EBP de 1996 at\u00e9 2018. Al\u00e9m destes AE nomeados, at\u00e9 o momento a EBP contou com mais tr\u00eas, cujos testemunhos n\u00e3o est\u00e3o a\u00ed publicados.<\/p>\n<p>O primeiro texto deste livro a ser comentado, \u201c\u00c9 passe?\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>, \u00e9 a interven\u00e7\u00e3o de J.-A. Miller pronunciada por ocasi\u00e3o das Jornadas da ECF, em abril de 2010, onde ele diferencia as respostas do passe diante do sim e diante do n\u00e3o.<\/p>\n<p>Se a resposta \u00e9 positiva, sim, h\u00e1 um passe, ent\u00e3o se tem um efeito propulsivo; j\u00e1 se a resposta \u00e9 negativa, h\u00e1 um efeito restritivo, isto \u00e9, ret\u00e9m-se o discurso.<\/p>\n<p>O passe n\u00e3o verifica a compet\u00eancia como analista daquele que pede para fazer o passe ou mesmo daquele que foi nomeado AE, isto n\u00e3o est\u00e1 em julgamento, pois o que se espera de um testemunho \u00e9 uma performance.<\/p>\n<p>Trata-se de uma performance que inclui a certeza antecipada \u00e0 qual \u00e9 preciso acrescentar um aspecto n\u00e3o elimin\u00e1vel para o passante, a saber, a aposta do passe, \u201caposta que nunca se est\u00e1 certo de ganhar\u201d.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/p>\n<p>Miller ressalta tamb\u00e9m que h\u00e1 uma cl\u00ednica do passe \u00e0 qual o analista, em sua posi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o teria acesso e, portanto, s\u00f3 poderia ser ouvida no dispositivo do passe. Uma cl\u00ednica do final da an\u00e1lise que n\u00e3o est\u00e1 ao alcance do analista exatamente no momento da b\u00e1scula da enuncia\u00e7\u00e3o, quando o analisante se p\u00f5e a falar para algu\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 o analista, isto \u00e9, para uma coletividade, e a isto o analista n\u00e3o tem acesso.<\/p>\n<p>O passe, portanto, \u00e9 sua interpreta\u00e7\u00e3o, a interpreta\u00e7\u00e3o do passante; n\u00e3o se trata de conte\u00fado ou de enunciados e sim da enuncia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesta mesma interven\u00e7\u00e3o, Miller formaliza os tr\u00eas passes:<\/p>\n<p>Passe 1: passe durante a an\u00e1lise quando se ultrapassa algum ponto sintom\u00e1tico espec\u00edfico.<\/p>\n<p>Passe 2: \u00c9 o pr\u00f3prio procedimento do passe como apresentado nas Escolas.<\/p>\n<p>Passe 3: O passe que se faz diante do p\u00fablico durante o testemunho.<\/p>\n<p>O passe 2 retroage sobre o passe 1 e o passe 3 sobre o passe 2.<\/p>\n<p>Ele conclui que \u201capesar dos impasses, dificuldades e paradoxos o passe permanece indispens\u00e1vel.\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a><\/p>\n<p>Para concluir, retomo o terceiro e \u00faltimo ponto retirado da Liminar do livro \u201cComment finissent les analyses\u201d e as Oito pontua\u00e7\u00f5es sobre o passe, publicada no Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n\u00ba 85, ambos de J.-A. Miller.<\/p>\n<p>Ele retoma Freud em \u201cAn\u00e1lise termin\u00e1vel e intermin\u00e1vel\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a> para dizer que a diferen\u00e7a dos sexos apresentada neste texto se revela ser uma separa\u00e7\u00e3o dos sexos. Neste ponto, ele diz, Lacan segue Freud e o traduz ao dizer: \u201co di\u00e1logo de um sexo a outro est\u00e1 interditado , portanto, n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d.<\/p>\n<p>A partir desta ideia, Freud coloca que no final da an\u00e1lise h\u00e1 um impasse condicionado pela hip\u00f3tese da exist\u00eancia de uma <em>rocha biol\u00f3gica <\/em>\u2013 a rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 feminilidade &#8211;\u00a0 que separa um sexo do outro, um real da biologia, imposs\u00edvel de ser ultrapassado.<\/p>\n<p>Lacan, atrav\u00e9s da experi\u00eancia anal\u00edtica, prop\u00f5e que a perspectiva pulsional promove uma sa\u00edda do impasse, verific\u00e1vel no final da an\u00e1lise, ao considerar que o objeto e finalidade da puls\u00e3o s\u00e3o inarticul\u00e1veis.<\/p>\n<p>Lacan recusa ent\u00e3o a concep\u00e7\u00e3o do obst\u00e1culo biol\u00f3gico no qual Freud se apoia para dizer de um impasse no final da an\u00e1lise, e abre a possibilidade de um passe que obedece \u00e0 l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Miller se expressa da seguinte maneira quanto a isso: \u201cTor\u00e7\u00e3o magistral: a quest\u00e3o do final da an\u00e1lise \u00e9 abordada por Lacan a partir da entrada na an\u00e1lise.\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a><\/p>\n<p>Finalmente, em 2021, durante as Jornadas da ECF, surge um momento de crise do passe a partir do mal-estar gerado na plateia por alguns testemunhos apresentados.<\/p>\n<p>Miller faz um levantamento de oito pontos a serem considerados nesta crise, publicados na Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n\u00ba 85:<\/p>\n<ol>\n<li>Pontos candentes \u2013 pode-se dizer que nos mantemos afastados.<\/li>\n<li>Homogeneiza\u00e7\u00e3o entre as Escolas \u2013 disfun\u00e7\u00f5es e suas eventuais solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o pr\u00f3prias a cada Escola.<\/li>\n<li>Regionalismo e localismo \u2013 a quest\u00e3o do \u00eaxtimo.<\/li>\n<li>Fazer ondas \u2013 produzir efeitos.<\/li>\n<li>Por que o AE? \u2013 discuss\u00e3o permanente mesmo depois de 40 anos de experi\u00eancia.<\/li>\n<li>Retifica\u00e7\u00e3o \u2013 um regulamento n\u00e3o pode remediar a falta de discernimento.<\/li>\n<li>O passe uma s\u00f3 vez?<\/li>\n<li>Eventualmente duas vezes.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Concluo dizendo que a ECF encontrou uma sa\u00edda para a crise atrav\u00e9s da forma\u00e7\u00e3o de um Col\u00e9gio do Passe. Algumas conclus\u00f5es podem ser tiradas, no entanto, ainda preliminares, \u00a0tanto no \u00e2mbito do Conselho da ECF, quanto da AMP.<\/p>\n<p>O que me parece fundamental \u00e9 retomar que o passe, o cartel, a Escola, s\u00e3o dispositivos psicanal\u00edticos sujeitos a revis\u00f5es e retifica\u00e7\u00f5es constantes. Em se tratando do passe, o mais importante a salientar \u00e9 que n\u00e3o se pode perder de vista seu car\u00e1ter de aposta que implica necessariamente risco e perda.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> MAHJOUB, L. \u201cO Passe em detalhes, a garantia e os avan\u00e7os da Psican\u00e1lise\u201d. In: <em>CORREIO, n\u00ba 3.<\/em> S\u00e3o Paulo: Setor Paulista do Campo Freudiano \u2013 Iniciativa Escola, 1993, p. 03.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> BASZ, S. \u201cA Escola na Argentina\u201d. In: <em>CORREIO, n\u00ba 5.<\/em> S\u00e3o Paulo: Correio Brasileiro do Campo Freudiano &#8211; Iniciativa Escola, 1993, p. 06.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> COTTET, S. \u201cCr\u00edtica de Textos\u201d. In: <em>CORREIO, n\u00ba 9.<\/em> S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 1994, p. 03.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ibidi.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> GURGEL, I. \u201cO Passe e a Escola Una: o futuro chegou!\u201d. In: <em>CORREIO, n\u00ba 25.<\/em> S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2000, p. 15.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> GURGEL, I. \u201cO Passe e a Escola Una: o futuro chegou!\u201d. In: <em>CORREIO, n\u00ba <\/em>25. S\u00e3o Paulo, Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2000, pg. 15<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> ATTI\u00c9, J. \u201cO institucional e o anal\u00edtico\u201d. In: <em>CORREIO, n\u00ba 27.<\/em> S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2000, p. 7.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> ALVARENGA, E. \u201cUma releitura do Passe\u201d. In: <em>CORREIO, n\u00ba 69.<\/em> Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2011, p. 85.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> FERRETTI, M. C. G. \u201cO Passe\u201d. In: <em>CORREIO, n\u00ba 77.<\/em> S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2015, p. 79.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Freud, S. (1919) \u201cUma Crian\u00e7a \u00e9 Espancada\u201d. In: <em>ESBOPC<\/em>, vol. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1969, p. 225<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> MILLER, J-A., \u201c\u00c9 Passe?\u201d. In. <em>Aposta no passe<\/em>. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2018, p. 117.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> MILLER, J-A., \u201c\u00c9 Passe?\u201d. In. <em>Aposta no passe<\/em>. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2018, p. 117.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Ibid.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Ibid, p. 123.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Freud, S. (1937) \u201cAn\u00e1lise termin\u00e1vel e intermin\u00e1vel\u201d. In: <em>ESBOPC<\/em>, vol. XXIII. Rio de Janeiro: Imago, 1969, p. 247<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> MILLER, J-A., \u201cLiminaire\u201d. In<em>. Comment finissent les analyses: Paradoxes de la Passe<\/em>. Paris: Navarin, 2022, p. 7.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sandra Arruda Grostein Caros colegas da Se\u00e7\u00e3o Nordeste da EBP: \u00e9 com muita alegria que estou hoje aqui com voc\u00eas para apresentar uma reflex\u00e3o sobre o Passe na EBP hoje. 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