{"id":2976,"date":"2022-08-16T08:35:49","date_gmt":"2022-08-16T11:35:49","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=2976"},"modified":"2022-08-16T08:35:49","modified_gmt":"2022-08-16T11:35:49","slug":"para-alem-da-imagem-movimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/para-alem-da-imagem-movimento\/","title":{"rendered":"Para Al\u00e9m da Imagem-Movimento"},"content":{"rendered":"<h6>K\u00e9sia Ramos<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2994\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/004.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"614\" \/>A pr\u00f3pria etimologia da palavra \u201ccinema\u201d \u00e9 a abrevia\u00e7\u00e3o de \u201ccinemat\u00f3grafo\u201d. \u201cCine\u201d, vem do grego e significa movimento, e o sufixo \u201c\u00e1grafo\u201d, aqui, significa, gravar. Assim, temos uma imagem em movimento gravado.<\/p>\n<p>No entanto, a cria\u00e7\u00e3o do cinema foi resultado do esfor\u00e7o de v\u00e1rios inventores que trabalhavam para desenvolver aparelhos para captar e projetar imagens em movimento. Destacarei alguns desses grandes inventores que presentearam a humanidade com esta fabulosa inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ado, em 1894, na f\u00e1brica comandada por Thomas Edison nos Estados Unidos, o cinetosc\u00f3pio era uma m\u00e1quina individual onde se assistia filmes de curta dura\u00e7\u00e3o. O invento s\u00f3 foi poss\u00edvel porque Edison criou uma pel\u00edcula de celuloide capaz de guardar as imagens e, assim, projet\u00e1-las atrav\u00e9s das lentes.<\/p>\n<p>Os irm\u00e3os Auguste Lumi\u00e8re e Louis Lumi\u00e8re eram filhos de um fabricante de materiais fotogr\u00e1ficos, cuja f\u00e1brica estava localizada na cidade Lyon, na Fran\u00e7a. Apaixonados por inventos e fotografia, desenvolveram o cinemat\u00f3grafo. Ao contr\u00e1rio dos outros aparelhos, este permitia gravar e projetar as imagens, tornando a atividade mais pr\u00e1tica. Posteriormente, pesquisaram e aperfei\u00e7oaram as primeiras c\u00e2meras fotogr\u00e1ficas, contribuindo para o surgimento da fotografia colorida. Atrav\u00e9s do cinemat\u00f3grafo, come\u00e7aram a realizar seus primeiros filmes que consistiam em captar imagens com o aparelho parado.<\/p>\n<p>No ano de 1895, em Paris, no \u201cGrand Caf\u00e9\u201d, foi realizada a primeira proje\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica tal qual conhecemos. Assim, em uma sala escura, foram projetados dez filmes de curta dura\u00e7\u00e3o como \u201cA chegada do trem \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de La Ciotat\u201d ou \u201cA sa\u00edda dos oper\u00e1rios da f\u00e1brica\u201d.<\/p>\n<p>No mesmo ano de 1895, Sigmund Freud publica, com Breuer, seu primeiro livro, <em>Estudos sobre a histeria<\/em>, uma apresenta\u00e7\u00e3o da teoria psicanal\u00edtica. Desse modo, a Psican\u00e1lise e o cinema nascem juntos. De um lado, a psican\u00e1lise interpreta a obra de arte e o artista por meio do segmento da psican\u00e1lise, arte e artista; de outro, Freud n\u00e3o ignora que o artista antecipa certas descobertas do analista. Sendo assim, o cinema, como s\u00e9tima arte, possibilita \u00e0 psican\u00e1lise discorrer, criticamente, seus conceitos e sua pr\u00e1tica, permitindo pensar sobre o homem e sua obra. E a psican\u00e1lise consente ao cinema, e \u00e0s artes em geral, desvelar muito sobre o sujeito contempor\u00e2neo e seu mal-estar.<\/p>\n<p>Encontraremos, tamb\u00e9m na teoria de Jacques Lacan, o desenvolvimento desse argumento, que considera a arte como saber que sempre antecipa a psican\u00e1lise, discorrendo sobre a fun\u00e7\u00e3o da arte de modos diferentes, ao longo de sua obra, depreendendo formas de pensar a arte em sua rela\u00e7\u00e3o com o real. Ensina-nos que a verdade tem estrutura de fic\u00e7\u00e3o, possibilitando pensar a psican\u00e1lise sob as lentes do cinema. Afinal, o discurso cinematogr\u00e1fico \u00e9 a pr\u00f3pria estrutura de fic\u00e7\u00e3o posta em ato atrav\u00e9s da encena\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o de significantes que se justap\u00f5em entre os cortes, enquadramentos, cen\u00e1rios, trilha-sonora e di\u00e1logos de uma trama, etc.<\/p>\n<p>Em outras palavras, a linguagem cinematogr\u00e1fica possui um modo de opera\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica; \u00a0assim como em um sonho, tudo o que se v\u00ea em um filme est\u00e1 articulado em uma cadeia simb\u00f3lica que comp\u00f5e a narrativa do filme. Nada que \u00e9 visto \u00e9 aleat\u00f3rio, casual, at\u00e9 mesmo o que foi deixado no making off, fora do enquadre, comp\u00f5e a cena tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O fato hist\u00f3rico \u00e9 que o cinema se constitui narrativo, apresentando uma hist\u00f3ria, conduzindo \u00e0 indaga\u00e7\u00e3o sobre o cinema-linguagem: \u00e9 uma l\u00edngua universal da humanidade? Ou mesmo, em que condi\u00e7\u00f5es o cinema deve ser considerado uma linguagem? Em meados de 1965, com a vig\u00eancia do estruturalismo, o cinema \u00e9 tomado como linguagem, fazendo uso de elementos semi\u00f3ticos e teoria do sujeito e do objeto, que s\u00e3o os aportes da psican\u00e1lise freudiana e lacaniana ao cinema.<\/p>\n<p>O que significa ver um filme sob as lentes do discurso anal\u00edtico? O que um filme pode nos ensinar sobre algo da psican\u00e1lise? Quest\u00f5es que norteiam adentrar no campo da montagem cinematogr\u00e1fica, testemunhar os <em>\u201c&#8230;impasses, paradoxos, contradi\u00e7\u00f5es e revers\u00f5es do labir\u00edntico universo humano, muitas vezes ilustrados, revelados nos filmes<\/em>\u201d como nos ensinou Stella Jimenez.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da imagem-movimento, tanto Sigmund Freud quanto Jacques Lacan trabalharam com a hip\u00f3tese de um inconsciente \u00f3tico, repleto de imagens, e privilegiaram a correspond\u00eancia entre as artes e a psican\u00e1lise, pois ambas se prestam a explorar os mist\u00e9rios da alma humana. E o cinema, esse \u201cdispositivo cinematogr\u00e1fico\u201d, uma tela sonora, onde est\u00e3o presentes os objetos lacanianos, o olhar e a voz, estetizados, que se entrecruzam, excitando notavelmente os sentidos, convocando estados de grande exalta\u00e7\u00e3o da alma e suas paix\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim, no dia 19 de abril de 2022, foi inaugurada a atividade do Cinema e Psican\u00e1lise, na Escola Brasileira de Psican\u00e1lise Se\u00e7\u00e3o Nordeste, ante minha coordena\u00e7\u00e3o. A proposta da atividade n\u00e3o s\u00f3 aplica a psican\u00e1lise ao cinema, como o cinema \u00e0 psican\u00e1lise. Mas, investigar e conversar sobre o que a s\u00e9tima arte p\u00f5e em evid\u00eancia atrav\u00e9s de suas cria\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Bibliografia<\/h6>\n<h6>A Imagem-Tempo, Gilles Deleuze. Editora Brasiliense, 1990.<\/h6>\n<h6>No Cinema Com Lacan &#8211; o que os filmes nos ensinam sobre os conceitos e a topologia lacaniana, Stella Jimenez, Editora Ponteio, 2014.<\/h6>\n<h6>A Interpreta\u00e7\u00e3o Dos Sonhos [1900], Sigmund Freud. Editora Companhia das Letras.<\/h6>\n<h6>Hist\u00f3ria do Cinema: Dos Cl\u00e1ssicos Mudos ao Cinema Moderno. Mark Cousins. Editora Martins Fontes, 2013.<\/h6>\n<h6>O Semin\u00e1rio, Livro 11 os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Editora Jorge Zahar, 1990.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>K\u00e9sia Ramos A pr\u00f3pria etimologia da palavra \u201ccinema\u201d \u00e9 a abrevia\u00e7\u00e3o de \u201ccinemat\u00f3grafo\u201d. \u201cCine\u201d, vem do grego e significa movimento, e o sufixo \u201c\u00e1grafo\u201d, aqui, significa, gravar. Assim, temos uma imagem em movimento gravado. No entanto, a cria\u00e7\u00e3o do cinema foi resultado do esfor\u00e7o de v\u00e1rios inventores que trabalhavam para desenvolver aparelhos para captar e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2976","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-litoraneo","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2976","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2976"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2976\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2976"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2976"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2976"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2976"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}