{"id":2973,"date":"2022-08-16T08:34:39","date_gmt":"2022-08-16T11:34:39","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=2973"},"modified":"2022-08-16T08:34:39","modified_gmt":"2022-08-16T11:34:39","slug":"comentarios-sobre-o-filme-girl","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/comentarios-sobre-o-filme-girl\/","title":{"rendered":"Coment\u00e1rios sobre o filme Girl"},"content":{"rendered":"<h6>Ondina Machado<\/h6>\n<p><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2993\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/003.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"690\" \/>Girl<\/em> \u00e9 um filme comovente. Trata da luta de Lara para se livrar da \u201cpequena diferen\u00e7a\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> que se apresenta como uma mancha na sua bela imagem de mulher. Ela vive o desencontro entre a sua identidade de g\u00eanero e sua imagem. Ela sabe que o falo \u00e9 \u201co significado maior, global\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> na partilha dos sexos. Encarado dessa maneira o \u00f3rg\u00e3o passa a ser significante, aquele significante que significa o sujeito para outro significante. \u00c9 justamente por isso que ela o rejeita. A cirurgia de redesigna\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, ent\u00e3o, daria conta de extirpar a mancha em sua imagem, o ap\u00eandice inc\u00f4modo que nega sua identidade. Mas nem todos vivem essa radicalidade.<\/p>\n<p>Alguns sujeitos trans encontram outros caminhos para fazer com que sua identidade de g\u00eanero seja reconhecida pelo Outro: modificam seu modo de vestir, requisitam um nome social que contemple sua identidade, usam o pronome de acordo. S\u00e3o provid\u00eancias que pode fornecer o reconhecimento pelo Outro, t\u00e3o ansiado, daquilo que j\u00e1 \u00e9 para ele uma verdade sobre seu ser.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os caminhos, cada um faz o seu:<\/p>\n<ul>\n<li>O uso de uma pe\u00e7a do vestu\u00e1rio feminino possibilitou, para um determinado sujeito, a constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria almejada. Ao chegar em casa, corre para o espelho para ver-se mulher.<\/li>\n<li>Para outro, foi necess\u00e1rio um segundo passo. A vestimenta masculina e o nome social n\u00e3o foram suficientes para harmonizar seu corpo e sua identidade. O tratamento hormonal trouxe-lhe, al\u00e9m da imagem, o sentimento de ter um corpo.<\/li>\n<li>Um terceiro precisou recorrer \u00e0 cirurgia, n\u00e3o sem antes fazer um trabalho de elabora\u00e7\u00e3o de sua identidade de g\u00eanero, percorrer os labirintos das identifica\u00e7\u00f5es, trilhar as vias dos S<sub>1<\/sub> do desejo do Outro. O resultado da cirurgia veio, ent\u00e3o, confirmar um sentimento \u00edntimo que o acompanhava desde muito jovem.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Cada \u00e9poca tem seu mal-estar, o fen\u00f4meno <em>trans<\/em> \u00e9 o mal-estar da nossa cultura, como nos indica Jacques-Alain Miller<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Contudo, para al\u00e9m do fen\u00f4meno cultural, h\u00e1 o sofrimento de cada um desses sujeitos que buscam dar sentido a sua exist\u00eancia sexual criando arranjos singulares. Para Lacan, o g\u00eanero \u00e9 um efeito de discurso, o que quer dizer que cada um pode se nomear como queira, levando em conta que toda nomea\u00e7\u00e3o depende de significantes que est\u00e3o no Outro. Ent\u00e3o, n\u00e3o basta nomear-se, h\u00e1 um trabalho simb\u00f3lico a ser feito, a interpreta\u00e7\u00e3o que cada um d\u00e1 ao encontro do significante com o seu corpo.<\/p>\n<p>Aqui comentaremos o trabalho feito por Lara, esclarecendo que o filme est\u00e1 baseado em uma hist\u00f3ria real. Tomaremos Lara nessa interse\u00e7\u00e3o entre o personagem e o sujeito.<\/p>\n<p><em><strong>A pequena grande diferen\u00e7a<\/strong> <\/em><\/p>\n<p>Lara faz parte de uma minoria que s\u00f3 aumenta. O descompasso da imagem corporal com a identidade de g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade. A novidade est\u00e1 na possibilidade tecnol\u00f3gica que torna poss\u00edvel essa adequa\u00e7\u00e3o, isso sim \u00e9 o pr\u00f3prio de nossos tempos. A chamada \u2018epidemia trans\u2019 est\u00e1 diretamente ligada ao discurso cient\u00edfico que, n\u00e3o s\u00f3 oferece, mas tamb\u00e9m incentiva as modifica\u00e7\u00f5es corporais.<\/p>\n<p>No caso de Lara, o g\u00eanero como discurso n\u00e3o deu conta da ang\u00fastia de portar, no real do corpo, aquilo que o discurso sexual toma como o universal do sexo masculino. For\u00e7ar pela cirurgia o reconhecimento do discurso sexual \u00e9, segundo Lacan, um erro<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. N\u00e3o que ele condene a cirurgia, mas enfatiza, que havendo ou n\u00e3o cirurgia, um trabalho simb\u00f3lico \u00e9 necess\u00e1rio. Algumas vezes, nessa constru\u00e7\u00e3o\/elabora\u00e7\u00e3o, uma solu\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria aparece. Da mesma maneira que o uso de calcinhas n\u00e3o encerra a quest\u00e3o sexual do primeiro sujeito que apresentei acima, o tratamento hormonal tamb\u00e9m n\u00e3o resolve para o segundo e, tampouco, a cirurgia elimina a ang\u00fastia do terceiro.<\/p>\n<p>O discurso sexual \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o que o social faz do corpo anat\u00f4mico. Sob o ponto de vista pessoal, o dado anat\u00f4mico n\u00e3o \u00e9 suficiente; o sujeito precisa consentir com a denomina\u00e7\u00e3o vinda do Outro social. E esse consentimento n\u00e3o \u00e9 um mero dizer Sim!, \u00e9 tamb\u00e9m um trabalho de integrar, o tanto que seja poss\u00edvel, o modo singular daquele sujeito ser aquilo que no Outro tem aquela denomina\u00e7\u00e3o. Ou seja, ningu\u00e9m \u00e9 homem, mulher, cis, trans, homo, hetero e todas as demais possibilidades de designa\u00e7\u00e3o de g\u00eanero da mesma maneira.<\/p>\n<p>Para a psican\u00e1lise, o g\u00eanero \u00e9 um acontecimento de discurso, j\u00e1 o gozo \u00e9 um acontecimento de corpo. Al\u00e9m deles, temos o discurso do amor, aquele que tenta fazer existir a rela\u00e7\u00e3o sexual, ou pelo menos serve de semblante \u00e0 rela\u00e7\u00e3o que \u201cn\u00e3o h\u00e1\u201d. Entendendo que n\u00e3o se trata de que n\u00e3o haja a rela\u00e7\u00e3o sexual, mas que o que h\u00e1 \u00e9 a \u201cn\u00e3o rela\u00e7\u00e3o\u201d, nesse caso, n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o entre o g\u00eanero e gozo, por exemplo, ou entre g\u00eanero e objeto, enfim. Na medida em que o \u201cn\u00e3o h\u00e1\u201d vale para todos, todos n\u00f3s temos algo de <em>trans<\/em>. N\u00e3o na intensidade do sofrimento dos que se veem compelidos a transicionar, mas todos n\u00f3s vivemos a experi\u00eancia de uma certa inadequa\u00e7\u00e3o. Para Lacan, o discurso do amor \u00e9 a maneira singular como cada um d\u00e1 conta do \u201cn\u00e3o h\u00e1\u201d.<\/p>\n<p><strong><em>A verdadeira mulher<\/em><\/strong><\/p>\n<p>No caso de Lara h\u00e1 uma dificuldade a mais no desencontro que vive entre identidade e imagem que diz respeito a sua voca\u00e7\u00e3o e seu desejo de ser bailarina cl\u00e1ssica. Mesmo com a puberdade de menino inibida, ela n\u00e3o deixa de ter um corpo atl\u00e9tico. O desafio \u00e9 enorme. A cena em que ela v\u00ea as meninas rebolando ao som de um Rap d\u00e1 a dimens\u00e3o do fosso que se abre entre o seu corpo e o ideal de um corpo de mulher.<\/p>\n<p>A\u00ed aparece outra quest\u00e3o: o que \u00e9 uma mulher? H\u00e1 uma ess\u00eancia de mulher?<\/p>\n<p>Hoje correu nas redes sociais uma tira da Laerte em frente ao espelho se maquiando e uma voz que grita: \u201cVoc\u00ea nunca ser\u00e1 uma mulher de verdade\u201d. Laerte p\u00e1ra de se maquiar e com aquele gesto que lhe \u00e9 caracter\u00edstico dos bra\u00e7os apoiados na perna e virados para fora do corpo diz: gente, e agora?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-2974 size-full\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/charge.jpg\" alt=\"\" width=\"243\" height=\"347\" \/><\/p>\n<p>\u00c9 um deboche, evidentemente. O que \u00e9 \u201cuma mulher de verdade\u201d? Existe isso? Alguns reduzem a mulher \u00e0 uma vagina e, assim, defendem pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0s \u201cmulheres com vagina\u201d. Seria o mesmo que fazer a equival\u00eancia entre o homem e o p\u00eanis.<\/p>\n<p>Bem, vejam que j\u00e1 voltamos ao in\u00edcio de nossa conversa, portanto \u00e9 hora de parar, n\u00e3o sem antes concordar com Miller quando diz que em rela\u00e7\u00e3o ao g\u00eanero, \u201ctodo mundo perde o norte\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 19: &#8230; ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012, p.16.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ibid., p.19.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> MILLER, J.-A. 2021, ano trans. Em: <em>Lacan quotidien<\/em>, n. 928, de abril de 2021. Acesso: https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/2021\/04\/lacan-quotidien-n-928\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, 2012, p. 17.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Miller, 2021.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ondina Machado Girl \u00e9 um filme comovente. Trata da luta de Lara para se livrar da \u201cpequena diferen\u00e7a\u201d[1] que se apresenta como uma mancha na sua bela imagem de mulher. Ela vive o desencontro entre a sua identidade de g\u00eanero e sua imagem. 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