{"id":2971,"date":"2022-08-16T08:32:43","date_gmt":"2022-08-16T11:32:43","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=2971"},"modified":"2022-08-16T08:32:43","modified_gmt":"2022-08-16T11:32:43","slug":"estar-a-sos-solidao-feminina-comentario-ao-filme-certas-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/estar-a-sos-solidao-feminina-comentario-ao-filme-certas-mulheres\/","title":{"rendered":"\u201cEstar a s\u00f3s\u201d, solid\u00e3o feminina. \u00a0Coment\u00e1rio ao filme Certas mulheres"},"content":{"rendered":"<h6>Graciela Bessa<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2992\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/002.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"627\" \/>Come\u00e7o agradecendo a K\u00e9sia Ramos, coordenadora desta atividade Cinema e Psican\u00e1lise da Se\u00e7\u00e3o Nordeste, como tamb\u00e9m \u00e0 diretoria desta Se\u00e7\u00e3o, o convite para comentar o filme Certas mulheres, escrito e dirigido por uma mulher, Kelly Reichardt. \u00c9 um grande prazer estar aqui com todos voc\u00eas.<\/p>\n<p>Confesso que o que me chamou a aten\u00e7\u00e3o ao assistir este filme pela primeira vez \u00e9 que se trata de um filme dos detalhes, das entrelinhas, dos olhares que se encontram e se perdem.<\/p>\n<p>Ele foi dirigido e escrito por Kelly Reichardt, baseado em contos da escritora Maile Meloy. O filme estreou em outubro de 2016 nos Estados Unidos, tendo sido indicado ao pr\u00eamio de melhor filme e melhor atriz, com Lily Gladstone, no Gotham Awards. <em>Certas mulheres<\/em> recebeu a premia\u00e7\u00e3o de melhor filme no London Film Festival; Lily Gladstone foi eleita melhor atriz coadjuvante no Los Angeles Film Critics; no New York Film Critics Circle, Michelle Williams foi eleita melhor atriz coadjuvante.<\/p>\n<p>O jornalista e cr\u00edtico de cinema Francisco Carbone diz o seguinte sobre esse filme:<\/p>\n<blockquote><p>Enquanto homem, por mais sensibilidade que tenha, jamais chegarei no alcance de leitura do feminino em todas as suas idiossincrasias. E se Kelly sempre teve sua vis\u00e3o focada em quest\u00f5es ligadas ao g\u00eanero a qual faz parte [<em>sic<\/em>], seu novo filme \u00e9 quase que exclusivamente um produto de interesse priorit\u00e1rio feminino, com um jogo que o transporta exclusivamente para o simples e o mundano das rela\u00e7\u00f5es femininas e seus desdobramentos.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>De modo r\u00e1pido e apressado, podemos nos deixar enganar ao tomar esse filme por um vi\u00e9s feminista, denunciando o modo hostil com que os homens tratam uma mulher, mesmo que essa hostilidade surja de modo sutil. Na primeira hist\u00f3ria, por exemplo, um cliente s\u00f3 aceita o veredito do advogado consultado por ser um homem, pois sua advogada lhe dizia a mesma coisa durante oito meses, e ele n\u00e3o lhe dava cr\u00e9dito. Temos a demonstra\u00e7\u00e3o de um velho clich\u00ea machista de ignorar a voz de uma mulher simplesmente porque \u00e9 uma mulher. Na segunda hist\u00f3ria, uma mulher em uma cena com dois homens \u2013 seu marido e Albert, um velho morador da regi\u00e3o \u2013 n\u00e3o \u00e9 ouvida. \u00c9 inquietante o modo como aquele senhor a ignora, e seu marido \u00e9 conivente com a hostilidade. A terceira hist\u00f3ria acontece num encontro totalmente contingente entre duas mulheres. O encantamento da fazendeira pela professora e advogada Beth Travis, representada por Kristen Stewart. \u00c9 uma hist\u00f3ria que se diferencia das outras: o encontro entre elas, o momento em que seus olhares se encontram. A cr\u00edtica feminista \u00e0 posi\u00e7\u00e3o masculina de \u201cgaranh\u00e3o\u201d surge na figura do professor substituto que, ao se apresentar, n\u00e3o deixa de dizer que \u00e9 um rec\u00e9m-divorciado, fala dirigida para a \u00fanica jovem da sala.<\/p>\n<p>No in\u00edcio desse semestre, precisamente entre 31 de mar\u00e7o a 03 de abril de 2022, aconteceu o Congresso Mundial de Psican\u00e1lise da AMP, cujo tema foi \u201cA mulher n\u00e3o existe\u201d. Esse aforisma lacaniano \u201cA mulher n\u00e3o existe\u201d quer dizer que n\u00e3o h\u00e1 um universal que englobe todas as mulheres, que exista ao menos uma mulher que saiba sobre seu ser de mulher. Embora A mulher n\u00e3o exista, existem mulheres, uma a uma, cada uma em sua inven\u00e7\u00e3o, cada uma em sua vers\u00e3o de mulher. Isso quer dizer que as mulheres n\u00e3o fazem conjunto, que se referidas ao conjunto ser\u00e1 sempre um conjunto aberto ao infinito. Ao chegar ao final do Congresso, tivemos a clareza de que o tema do feminino n\u00e3o se esgota, haver\u00e1 sempre retic\u00eancias, pois, quando se trata de dizer o indiz\u00edvel da mulher, h\u00e1 sempre um semidizer. \u00c9 preciso sempre um esfor\u00e7o a mais.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 composto por tr\u00eas hist\u00f3rias, aparentemente sem conex\u00e3o uma com a outra, a n\u00e3o ser por pequenos detalhes. Elas se passam no estado de Montana e todas t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com a cidade de Livingston. O amante de Laura Wells, protagonista da primeira hist\u00f3ria, \u00e9 o marido de Gina, da segunda hist\u00f3ria. Na terceira hist\u00f3ria, h\u00e1 dois elementos que fazem conex\u00e3o com as anteriores: a advogada professora mora na cidade de Livingston e o olhar de Jamie dirigido \u00e0 advogada Laura Wells quando ela chega a seu escrit\u00f3rio, acompanhada de seu cachorro. \u00c0 medida que formos avan\u00e7ando no coment\u00e1rio ao filme, perceberemos que h\u00e1 outros elementos que atravessam essas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>A primeira hist\u00f3ria se inicia com uma paisagem sombria, \u00e1rida. O sil\u00eancio \u00e9 rompido pelo som de um trem de carga. \u00c9 uma cena que evoca a solid\u00e3o, que n\u00e3o se dissipa com os amantes. Ela ainda na cama, ele j\u00e1 se arrumando, trocam algumas palavras, e ele sai. Nenhuma palavra de amor, nenhuma jura de amor eterno, nenhuma promessa de um outro encontro, nem um gesto de carinho. Ela permanece no quarto, recostada na cama, absorta, com um olhar distante, aparentemente perdido. Nesse encontro est\u00e1 presente a sua solid\u00e3o, que ser\u00e1 marcada em v\u00e1rios momentos da hist\u00f3ria. Vale ressaltar que n\u00e3o \u00e9 uma solid\u00e3o sofrida, um estar s\u00f3, que a lan\u00e7a para uma demanda de amor, mas um estar a s\u00f3s.<\/p>\n<p>O tema principal da hist\u00f3ria n\u00e3o acontece em torno do desencontro amoroso, mas entre uma advogada e um cliente que n\u00e3o aceita que n\u00e3o possa reivindicar o pagamento do seguro devido a um acidente de trabalho que o incapacitou a continuar trabalhando. Fuller \u00e9 um personagem que se vitimiza, abalado, perdido, raivoso. O homem trabalhador, competente, tal como foi lembrado pelo xerife pelos servi\u00e7os que fez, n\u00e3o existe mais. Se antes era um homem potente, agora n\u00e3o \u00e9 mais. A falta est\u00e1 de seu lado, a qual ele vive como degradante. \u00c9 um sujeito cuja dimens\u00e3o da fala se encontra no campo da comunica\u00e7\u00e3o, endere\u00e7ada ao Outro, visando reconhecimento e compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, Fuller est\u00e1 sempre demandando a sua advogada que aceite um convite para um caf\u00e9, que possa v\u00ea-la para conversarem, nomeia a consulta ao outro advogado como um encontro, \u201cent\u00e3o temos um encontro na sexta\u201d. Seria Fuller um machista que n\u00e3o d\u00e1 credibilidade ao que sua advogada lhe diz ao aceitar de pronto o veredito do outro advogado? N\u00e3o digo que esse vi\u00e9s n\u00e3o esteja presente, mas h\u00e1 a\u00ed uma sutileza, um pequeno detalhe que n\u00e3o podemos deixar passar.<\/p>\n<p>Fuller, ao n\u00e3o aceitar o veredito de Laura, pode prolongar durante oito meses os encontros com ela, pode ir ao seu escrit\u00f3rio, falar-lhe e tentar arrancar dela uma palavra a mais. N\u00e3o aceitar o veredito sustentava sua demanda de falar com ela. Depois que essa estrat\u00e9gia \u00e9 desfeita pelo advogado, ele rende o vigia do F\u00f3rum e pede a presen\u00e7a dela. Como n\u00e3o consegue ler, devido ao acidente, ela vai ler os depoimentos que falavam sobre ele. \u00c9 o depoimento de sua advogada, relatando o acordo que Fuller aceitou fazer com o empreiteiro, que o faz perceber que n\u00e3o h\u00e1 mais o que reivindicar ao Outro. \u00c9 quando se responsabiliza pela sua escolha. Depois que \u00e9 preso, ele envia uma carta para ela. Ap\u00f3s algum tempo, Laura lhe faz uma visita na cadeia. Ele a questiona por que nunca respondeu a carta que lhe enviou. N\u00e3o se trata mais de um homem com raiva, culpando o mundo pelo que lhe aconteceu. H\u00e1 um consentimento com sua perda. Ele lhe diz: \u201cFique tranquila, est\u00e1 tudo bem. Eu seria preso de qualquer forma\u201d. Agora, como n\u00e3o s\u00e3o mais poss\u00edveis os encontros, ele lhe demanda que escreva cartas, pode ser sobre qualquer coisa. Pouco importa o sentido que possa conter, mas que elas sejam escritas e cheguem a seu destinat\u00e1rio. Lacan, ao comentar o conto \u201cA carta roubada\u201d, de Edgar Alan Poe, nos prop\u00f5e que para o destinat\u00e1rio a carta ocupa o lugar do ponto cego e com isso mant\u00e9m a presen\u00e7a do que lhes escapa, e o que escapa \u00e9 da ordem do significante. \u00c9 o campo do sem-sentido que \u00e9 evocado por Fuller ao demandar uma carta, \u201cescreva qualquer coisa, n\u00e3o importa o qu\u00ea\u201d.<\/p>\n<p>Suponho que a cena final da primeira hist\u00f3ria nos d\u00ea a chave de leitura para as duas passagens anteriores do filme: a aceita\u00e7\u00e3o r\u00e1pida demais do veredito do advogado consultado e os longos oito meses em que ele ia regularmente conversar com sua advogada sobre sua situa\u00e7\u00e3o. De acordo com Lacan<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, a carta produz um efeito de feminiza\u00e7\u00e3o naquele que est\u00e1 em posse dela; uma vez que \u00e9 letra, sua import\u00e2ncia n\u00e3o se reduz ao sentido que possa levar. Poder\u00edamos pensar numa feminiliza\u00e7\u00e3o do personagem Fuller? O importante da carta\/letra \u00e9 que ela chegue ao destinat\u00e1rio.<\/p>\n<p>No trabalho apresentado por Gabriela Grinbaum numa das plen\u00e1rias do Congresso da AMP, ela colocava do lado das mulheres a fala e do lado dos homens o sil\u00eancio. Na primeira narrativa de <em>Certas mulheres<\/em>, o sil\u00eancio est\u00e1 do lado da personagem feminina. O amante termina, ela n\u00e3o se desespera: \u00e0 noite est\u00e1 deitada no sof\u00e1 com seu amigo fiel, assistindo a um programa de televis\u00e3o. Uma mulher de poucas palavras, uma mulher que est\u00e1 a s\u00f3s. A presen\u00e7a do seu olhar para o nada marca essa personagem. Com quem faz parceria? Fica claro que n\u00e3o \u00e9 com o amante nem com seu cliente.<\/p>\n<p>A segunda hist\u00f3ria tamb\u00e9m se inicia num cen\u00e1rio que evoca a solid\u00e3o, o sil\u00eancio interrompido pelo barulho das \u00e1guas do rio. Gina, interpretada por Michelle Williams, faz uma caminhada matinal nos arredores do local onde quer construir uma casa de campo. Nesta hist\u00f3ria, Gina \u00e9 uma mulher que se apresenta mais obstinada pelo que quer, mant\u00e9m seus posicionamentos, reclama do que lhe incomoda. Sua rela\u00e7\u00e3o com a filha adolescente \u00e9 tensa, e ela culpa o marido por faz\u00ea-la parecer como megera para a filha. Sua queixa do marido \u00e9 que ele n\u00e3o facilita as coisas para ela, seja com a filha, seja com Albert, um velho morador da regi\u00e3o que tem umas pedras da \u00e9poca da independ\u00eancia.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e e filha \u00e9 marcada por um descompasso: se a m\u00e3e diz para ela que n\u00e3o teve ningu\u00e9m para lhe dizer as coisas, por isso teve que descobrir sozinha, a filha interroga a m\u00e3e sobre o porqu\u00ea de lhe perguntar as coisas, uma vez que n\u00e3o acredita no que ela (a filha) lhe diz. Freud j\u00e1 apontava que a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e3e e filha \u00e9 marcada pelo ressentimento, pela decep\u00e7\u00e3o. Uma menina abandona a m\u00e3e como objeto de amor ao descobrir que a castra\u00e7\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o da feminilidade, \u00e9 o que faz com que dirija sua demanda de amor ao pai. N\u00e3o mais apoiado na concep\u00e7\u00e3o de que a diferen\u00e7a sexual se divide em ter o falo e n\u00e3o ter o falo, Lacan, em \u201cO aturdito\u201d, diz que a rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e e filha pode estar marcada pela devasta\u00e7\u00e3o, uma vez que a filha espera da m\u00e3e, como mulher, mais subst\u00e2ncia que do pai.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Isto quer dizer que h\u00e1 algo do feminino que n\u00e3o se resolve no campo do simb\u00f3lico, no campo das identifica\u00e7\u00f5es. A menina espera que, como mulher, sua m\u00e3e possa lhe dizer algo sobre essa satisfa\u00e7\u00e3o que se experimenta no corpo e n\u00e3o se tem palavras para definir, explicar.<\/p>\n<p>Um momento marcante na hist\u00f3ria \u00e9 quando ela e o marido est\u00e3o na casa de Albert para convenc\u00ea-lo a vender as pedras da \u00e9poca da independ\u00eancia. De um lado, est\u00e1 Albert, que ignora as coloca\u00e7\u00f5es de Gina, como se ela n\u00e3o estivesse ali; de outro, o marido, que n\u00e3o se posiciona frente \u00e0 hostilidade daquele senhor. Mas Gina quer essas pedras e n\u00e3o ir\u00e1 ceder; ao contr\u00e1rio, mant\u00e9m-se firme e encontra um momento em que ganha sua simpatia por um instante. Quando ele imita o canto das codornas e confessa como o interpreta, ela encontra a\u00ed uma brecha para tamb\u00e9m interpretar a resposta das codornas ao seu chamado. \u00c9 desse jogo de pergunta, \u201ccomo vai, como vai\u201d, e de resposta, \u201cestou bem, estou bem\u201d, que Albert escuta, ao menos uma vez, o que Gina tem a dizer.<\/p>\n<p>O desfecho dessa hist\u00f3ria \u00e9 um encontro com amigos no local em que a casa ser\u00e1 constru\u00edda para comemorar as pedras doadas por Albert. Ela conseguiu, mas continua parceira de sua solid\u00e3o. Na \u00faltima cena, Gina est\u00e1 sentada na carroceria de seu carro tomando vinho, com o olhar para o nada que a rodeia. Ela n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3, v\u00e1rias pessoas est\u00e3o presentes, mas est\u00e1 a s\u00f3s.<\/p>\n<p>Quem seria o parceiro dessa mulher? N\u00e3o seria a filha, nem tampouco o marido. Seu parceiro \u00e9 a solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Na terceira hist\u00f3ria, a diretora nos imp\u00f5e um cen\u00e1rio mais desolador: em pleno inverno, a paisagem coberta pela neve, uma fazenda cujos habitantes s\u00e3o os cavalos e um cachorro. \u00c9 a\u00ed que se encontra Jamie, uma jovem mulher que, desde crian\u00e7a, cuida de cavalos. \u00c9 um trabalho de inverno, \u00e9 o que responde \u00e0 advogada Beth Travis, quando lhe interroga sobre o que faz. Ser\u00e1 que a rela\u00e7\u00e3o de Jamie com a solid\u00e3o \u00e9 da mesma ordem que a de Laura Wells e Gina?<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria se desenrola a partir da conting\u00eancia de um encontro, marcado por um equ\u00edvoco homof\u00f4nico entre os nomes de duas cidades. Certa noite, andando de carro pela cidadezinha perto da fazenda, Jamie observa que algumas pessoas est\u00e3o entrando num col\u00e9gio. Resolve entrar tamb\u00e9m e se senta numa sala de aula. Logo em seguida, entra Beth Travis, uma jovem advogada que, por medo de n\u00e3o conseguir pagar suas contas, aceita este emprego: dar aulas sobre o direito dos alunos.<\/p>\n<p>Ao final da aula, Jamie lhe mostra onde pode comer algo antes de dirigir por v\u00e1rias horas at\u00e9 chegar \u00e0 cidade onde mora e, \u00e0s oito horas da manh\u00e3, come\u00e7ar a trabalhar num escrit\u00f3rio como advogada.<\/p>\n<p>As duas v\u00e3o \u00e0 lanchonete e conversam; ou melhor, Beth fala sobre sua vida, seus medos, inseguran\u00e7as, enquanto Jamie a ouve sem a interromper. \u00c9 nesta hist\u00f3ria que a presen\u00e7a do olhar \u00e9 mais fulgurante. Em seu olhar, \u00e9 poss\u00edvel testemunhar a paix\u00e3o que passa a nutrir pela professora. Essa cena se repete enquanto Beth vai at\u00e9 a cidade dar aula.<\/p>\n<p>No dia em que chega como de costume para ouvir sua professora advogada, de modo desconcertante, ela percebe que Beth n\u00e3o ir\u00e1 mais. Na imin\u00eancia de nunca mais v\u00ea-la, pega o carro e come\u00e7a a dirigir. Chega a Livingston ainda noite. Ao andar pela cidade, encontra alguns lugares com placas de escrit\u00f3rio de advocacia e, ao amanhecer, vai em busca de Beth. Ao encontr\u00e1-la, o que foi um encontro se descobre marcado pelo desencontro. Beth se mostra desconcertada com a presen\u00e7a de Jamie procurando por ela. N\u00e3o h\u00e1 nada a ser encontrado, o sil\u00eancio se faz presente entre as duas. Jamie retorna para a solid\u00e3o de sua fazenda.<\/p>\n<p>Ao encontrar a jovem advogada, Jamie por um tempo pensou que seria poss\u00edvel operar uma passagem do \u201cestar a s\u00f3s\u201d para um \u201cestar a s\u00f3s com\u201d pela via do amor. Ou seja, fazer representar sua solid\u00e3o no campo do Outro.<\/p>\n<p>\u00c9 um filme que abra\u00e7a a causa feminista? N\u00e3o. Pens\u00e1-lo sob essa perspectiva \u00e9 reduzir aquilo que ele aborda com tanta sutileza e beleza, em seus divinos detalhes. Em qualquer hist\u00f3ria, em qualquer di\u00e1logo, em qualquer encontro entre os personagens, o que se faz presente \u00e9 a impossibilidade da comunica\u00e7\u00e3o, s\u00e3o os limites do simb\u00f3lico. O pr\u00f3prio cen\u00e1rio em que as hist\u00f3rias acontecem apontam para isso. \u00c9 um filme que apresenta, de modo po\u00e9tico, a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual em sua forma mais radical atrav\u00e9s da solid\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um sentimento de solid\u00e3o, uma queixa de estar s\u00f3.<\/p>\n<p>Miquel Bassols<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> faz uma diferen\u00e7a entre o estar s\u00f3 e o estar a s\u00f3s. A solid\u00e3o representada pelo estar s\u00f3, uma solid\u00e3o enquanto sentimento, da qual o sujeito se queixa, aponta para o fato de que ele est\u00e1 confrontado ao insuport\u00e1vel do que lhe \u00e9 mais pr\u00f3ximo, o insuport\u00e1vel de sua verdadeira parceria, essa presen\u00e7a do objeto que \u00e9 uma presen\u00e7a que n\u00e3o pode ser negativizada. Diferente do estar a s\u00f3s, uma solid\u00e3o mais radical sem representa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel no lugar do Outro e que pode levar o sujeito a uma satisfa\u00e7\u00e3o em sua solid\u00e3o. O estar a s\u00f3s, segundo Bassols, \u00e9 um modo de renunciar \u00e0 solid\u00e3o que n\u00e3o tem outro horizonte que o autoerotismo da puls\u00e3o. Temos aqui uma solid\u00e3o n\u00e3o como fim, mas como meio para outra coisa. Ou seja, a solid\u00e3o como meio para aceder a essa zona de extimidade que \u00e9 o Outro gozo, um meio para obter um gozo suplementar. Nada perturba essas tr\u00eas mulheres em seu sil\u00eancio, tudo \u00e9 calma.<\/p>\n<p>Lacan, no semin\u00e1rio <em>Mais, ainda<\/em>, diz que a mulher parece estar muito mais a s\u00f3s na medida em que est\u00e1 mais em rela\u00e7\u00e3o direta com a radical alteridade de seu gozo.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Miquel Bassols nos esclarece que se trata a\u00ed de uma solid\u00e3o que n\u00e3o sabemos nada sobre ela, uma solid\u00e3o que \u00e9 ruptura de saber, que se apresenta quando o sujeito se confronta com o gozo feminino, esse gozo sem representa\u00e7\u00e3o significante, mais al\u00e9m do falo.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Termino este meu coment\u00e1rio com uma passagem do texto \u201cO aturdito\u201d que atravessa essas tr\u00eas hist\u00f3rias, demonstrando em cada uma de suas personagens uma satisfa\u00e7\u00e3o em sua solid\u00e3o: \u201c[&#8230;] mesmo que se satisfa\u00e7a a exig\u00eancia do amor, o gozo que se tem da mulher a divide, fazendo-a parceira de sua solid\u00e3o, enquanto a uni\u00e3o permanece na soleira\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> CARBONE, Francisco. O olhar desmontado. <em>Cineplayers<\/em>, 16 out. 2016. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.cineplayers.com\/criticas\/certas-mulheres\">https:\/\/www.cineplayers.com\/criticas\/certas-mulheres<\/a>. Acesso em: 03 abril 2022.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LACAN, J. O semin\u00e1rio sobre \u201cA carta roubada\u201d. In: LACAN, J. <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 13-68.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, J. O aturdito. In: LACAN, J. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 448-497.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> BASSOLS, M. Soledades. <em>Desescrits de psicoan\u00e0lisi italiana<\/em>, 16 nov. 2009. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/miquelbassols.blogspot.com\/search?q=soledades+II\">http:\/\/miquelbassols.blogspot.com\/search?q=soledades+II<\/a>. Acesso em: 06 abril 2022.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>\u00a0 LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 20: <em>Mais, ainda<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> BASSOLS, M. Soledades. <em>Desescrits de psicoan\u00e0lisi italiana<\/em>, 16 nov. 2009. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/miquelbassols.blogspot.com\/search?q=soledades+II\">http:\/\/miquelbassols.blogspot.com\/search?q=soledades+II<\/a>. Acesso em: 06 abril 2022.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> LACAN, 2003, <em>op. cit<\/em>., p. 467.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Graciela Bessa Come\u00e7o agradecendo a K\u00e9sia Ramos, coordenadora desta atividade Cinema e Psican\u00e1lise da Se\u00e7\u00e3o Nordeste, como tamb\u00e9m \u00e0 diretoria desta Se\u00e7\u00e3o, o convite para comentar o filme Certas mulheres, escrito e dirigido por uma mulher, Kelly Reichardt. \u00c9 um grande prazer estar aqui com todos voc\u00eas. Confesso que o que me chamou a aten\u00e7\u00e3o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2971","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-litoraneo","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2971","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2971"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2971\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2971"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2971"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2971"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2971"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}