{"id":2964,"date":"2022-08-16T08:31:25","date_gmt":"2022-08-16T11:31:25","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=2964"},"modified":"2022-08-16T08:31:25","modified_gmt":"2022-08-16T11:31:25","slug":"o-analista-e-a-escrita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/o-analista-e-a-escrita\/","title":{"rendered":"O analista e a escrita"},"content":{"rendered":"<h6>F\u00e1tima Pinheiro<\/h6>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2995\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/005-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"765\" \/>\u201cO analista e a escrita\u201d, t\u00edtulo sugerido pela Cassandra para o nosso encontro \u2013 o qual gostei muito &#8211; fez sentir-me duplamente concernida: por minha pr\u00e1tica enquanto analista e, tamb\u00e9m, como escritora. Pensei, ent\u00e3o, trabalhar o la\u00e7o entre a psican\u00e1lise e a escrita a partir da poesia e dos efeitos produzidos por ela em minha po\u00e9tica.<\/p>\n<p>H\u00e1 um texto que me possibilitou pensar este percurso, que \u00e9 \u201cLer um sintoma\u201d de Jacques Alain Miller<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. E, porque o elegi? Porque ali a leitura, como \u00e9 apresentada por Miller, aponta para um saber ler, ler o sintoma. Nesse texto, Miller diz que Lacan costumava chamar o sintoma, de \u201cetecetera\u201d.\u00a0 Parece-me interessante a ideia de tomar o sintoma como \u201cetecetera\u201d, pois remete diretamente a dimens\u00e3o de resto, de <em>litter<\/em>, que implica a letra. E, \u00e9 pela vertente do etecetera, que trata da dimens\u00e3o do resto, que introduzo a poesia. Se a psican\u00e1lise se aproxima da poesia \u00e9 porque o que se espera do saber ler de um analista inclui um for\u00e7amento que perturba os sentidos adormecidos frente ao real, \u00e9 a\u00ed que a escrita po\u00e9tica pode remeter ao despertar.\u00a0 Movimentar a l\u00edngua \u00e9 o trabalho da poesia. O mais fundamental da l\u00edngua \u00e9 que ela se cria ao falar, e \u00e9 imperfeita, como Miller apontou: \u201cE \u00e9 um fato da l\u00edngua que ela permita falar para nada dizer, e dizer o que n\u00e3o se sabe, e mais ou menos o que se sabe\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>E eu diria, ainda, que fazemos a experi\u00eancia da l\u00edngua, como poetas, ali onde a linguagem encontra o seu limite, o indiz\u00edvel, \u201conde os nomes nos faltam, onde as palavras se quebram em nossos l\u00e1bios<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>\u201d. Heidegger, segundo Giorgio Agamben, afirma que se faz a experi\u00eancia da l\u00edngua l\u00e1 onde as palavras faltam, e ao faltarem as palavras \u00e9 a l\u00edngua que encontramos <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. A\u00ed entramos no campo po\u00e9tico, onde, como disse Caetano, se pode: <em>sentir a minha l\u00edngua ro\u00e7ar a l\u00edngua de Luis de Cam\u00f5es, onde gosto de ser e estar, &#8230;ao criar confus\u00f5es de pros\u00f3dia, e um profus\u00e3o de par\u00f3dias\u201d.<\/em>\u00a0 Os convido, ent\u00e3o, a fazer aqui e agora, uma experi\u00eancia com a l\u00edngua, a partir de algo de minha prosa, intercalada pelos sil\u00eancios e pelos meus poemas, quando a pr\u00f3pria l\u00edngua se deixa dizer:<\/p>\n<blockquote><p>O encontro existente entre a psican\u00e1lise e a escrita nasceu para mim de um furo no saber, surgiu como um acontecimento traum\u00e1tico.\u00a0 O acontecimento \u00e9 tudo o que sucede e possui um car\u00e1ter excepcional, n\u00e3o h\u00e1 acontecimento sem que este n\u00e3o se d\u00ea a partir do dizer de cada um, o que faz do acontecimento signo do real.<\/p><\/blockquote>\n<p><em>\u201cAo entrar na escola, aos seis anos, o inesperado me \u00a0tomou de jeito. O que at\u00e9 ent\u00e3o fora desenho, garatuja, em folhas de livro que eu adorava rabiscar, rasgar, colar, molhar &#8211; criando coisas d\u00edspares que eu costurava como se fosse tecido &#8211; algo inteiramente novo surge. Diante do caderno de caligrafia eu deveria desenhar as letras e n\u00e3o mais juntar os objetos, os dias, as cores, os bichos, as flores, as pedras. Eu deveria desenhar as letras copiando-as, o que me parecia totalmente fora do sentido das coisas. Com a letra \u201ca\u201d, vogal vagante e cifra de puro vazio, eu experimentei o mais inaudito, n\u00e3o conseguia desenh\u00e1-la, sua perna ora saia muito curta ora muito alongada, algo ali sempre escapava, como \u00e1gua. Desenhar a letra \u201ca\u201d era como se fosse segurar a \u00e1gua com as m\u00e3os, coisa imposs\u00edvel. Depois de me ausentar por alguns dias da escola, minha professora me interroga sobre o motivo de minha aus\u00eancia, e ao revelar a minha dificuldade de desenhar a letra \u201ca\u201d id\u00eantica \u00e0 do modelo, ela disse: \u201cMas cada um tem a sua letra a\u201d. Passado um tempo, escrevi sobre \u201cum gr\u00e3o de areia\u201d para um concurso nacional de contos infantis e recebi a not\u00edcia de que havia sido premiada. Minha professora, que tinha voz de \u00e1gua corrente, minutos antes da entrega do pr\u00eamio, sussurrou ao p\u00e9 do meu ouvido baixinho: \u201ca\u201d de areia . <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><strong>[5]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>Esse Um, o singular, contido na frase de minha professora como a impossibilidade de fazer todo (<em>pas -tout<\/em>): \u201ccada um tem sua letra a\u201d, foi reencontrado em um segundo tempo, ao me deparar pela primeira vez com o texto de Freud, o \u201cProjeto para uma psicologia cient\u00edfica\u201d, com a enigm\u00e1tica montagem do aparelho ps\u00edquico a partir das letras, e tempos mais tarde, com os textos de Lacan, quando pude depreender a for\u00e7a po\u00e9tica de sua transmiss\u00e3o. E, foi na experi\u00eancia, como analisante, que pude em um terceiro tempo, semear o gr\u00e3o do UM &#8211; mesmo sem nunca o ter encontrado &#8211; porque ele n\u00e3o \u00e9 cont\u00e1vel, ele se situa pela n\u00e3o &#8211; rela\u00e7\u00e3o, mas, no entanto, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Lacan o tenha chamado de <em>um dizer<\/em>, isto \u00e9: um dizer que pode ter consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>H\u00e1 outro testemunho, do escritor argentino Alan Pauls, que me parece tocar diretamente nesse ponto traum\u00e1tico de onde prov\u00e9m o sintoma, ele diz: \u201cO sintoma \u00e9 uma pedra sobre a qual trope\u00e7amos. Trope\u00e7amos com ele sem eleg\u00ea-lo, contudo, ele n\u00e3o se imp\u00f5e, exatamente, e n\u00e3o \u00e9 de todo alheio. Entre o sintoma e eu h\u00e1 uma esp\u00e9cie de afinidade secreta, uma esp\u00e9cie de compreens\u00e3o \u00edntima, silenciosa, um pouco abjeta, quando o sintoma simula desaparecer, eu ao inv\u00e9s de celebrar, me deprimo. Porque com o sintoma perco um gozo essencial, t\u00e3o essencial que n\u00e3o posso me entregar a ele. Queremos escrever &#8211; n\u00e3o nos curarmos, pois \u00e9 o sintoma um signo muito particular que temos com o mundo. Escrever \u00e9 seguir o rastro de nossos sintomas. Um falso m\u00e1rtir crist\u00e3o diria: abra\u00e7ar a pedra que trope\u00e7amos ou mais freudianamente pode-se dizer gozar dela\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<blockquote><p><em>o poeta \u00e9 extremo<br \/>\n<\/em><em>pega a palavra<br \/>\n<\/em><em>para nunca<br \/>\n<\/em><em>mais a soltar<br \/>\n<\/em><em>soltar<br \/>\n<\/em><em>soltar<br \/>\n<\/em><em>soltar<br \/>\n<\/em><em>soltar<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>A\u00ed, podemos dizer com Lacan, que o poeta se produz por ser devorado pelos versos\/vermes\/<em>vers<\/em>, que encontram em si o seu arranjo, sem se incomodar, isso \u00e9 patente, se o poeta sabe disso ou n\u00e3o<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0<em>um poeta n\u00e3o<br \/>\n<\/em><em>sentada no caf\u00e9, eu leio: \u201cum poeta n\u00e3o se faz com versos\u201d,<br \/>\n<\/em><em>de chacal.<br \/>\n<\/em><em>um poeta n\u00e3o, se faz com versos n\u00e3o,<br \/>\n<\/em><em>ele des\u00e1gua incessante como as tuias de caf\u00e9,<br \/>\n<\/em><em>transborda.<br \/>\n<\/em><em>ele n\u00e3o sabe que a guerra vai estourar daqui um minuto.<br \/>\n<\/em><em>s\u00f3 para transtornar, o poeta relampeia.<br \/>\n<\/em><em>n\u00e3o lhe interessa os parnasianos,<br \/>\n<\/em><em>o mazar suave das laranjeiras.<br \/>\n<\/em><em>enquanto a noite, aqu\u00e9m de um jazz mediterran\u00e9, \u00e9 cantata,<br \/>\n<\/em><em>o poeta com versos n\u00e3o se faz<br \/>\n<\/em><em>nem com decass\u00edlabos, ganz\u00e1, fuxico, nem com maracatus e maracas.<br \/>\n<\/em><em>o poeta faz.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>O que h\u00e1 de poesia, quando escrevo, remete \u00e0 dimens\u00e3o do indiz\u00edvel, que tento alcan\u00e7ar atrav\u00e9s do pr\u00f3prio fracasso de minha linguagem. S\u00e3o os cortes, a ruptura que realizo entre os significantes, as quebras de sentido, os saltos inesperados, que d\u00e3o a dimens\u00e3o do indiz\u00edvel e do sil\u00eancio, do vazio da letra. Essa experi\u00eancia toca a sonoridade de <em>lal\u00edngua<\/em>, t\u00e3o bem evidenciada por Lacan nos anos 70. Quando me refiro ao indiz\u00edvel, n\u00e3o me refiro ao n\u00e3o lingu\u00edstico, mas algo da pr\u00f3pria l\u00edngua que fala:<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0<em>o bule de ch\u00e1 fervendo n\u00e3o ouve a voz de nina simone,<br \/>\n<\/em><em>n\u00e3o ouve os flamboyants l\u00e1 fora,<br \/>\n<\/em><em>nem o mazar suave dos limoeiros.<br \/>\n<\/em><em>o bule de ch\u00e1 fervendo n\u00e3o v\u00ea o abismo n\u00f4,<br \/>\n<\/em><em>n\u00e3o v\u00ea o fulgor de dois olhos entre folhas t\u00edmido cicio,<br \/>\n<\/em><em>nem as cassiopeias em flor.<br \/>\n<\/em><em>dentro da x\u00edcara de argila,<br \/>\n<\/em><em>a voz ancorada de nina corre n\u00f4made,<br \/>\n<\/em><em>ofegante,<br \/>\n<\/em><em>que nem boca lundu,<br \/>\n<\/em><em>xucra voz de lumar\u00e9u:<br \/>\n<\/em><em>zumzumzum, ulula, me bebe de ch\u00e1.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Essa experi\u00eancia da linguagem que \u00e9 o poema, existe sem mim e antes de mim. O poema tem essa dimens\u00e3o de s\u00f3 aparecer quando eu desapare\u00e7o enquanto sujeito. Lacan tratou desse aspecto com muita propriedade, assim ele disse: \u201cN\u00e3o sou poeta, mas um poema. E que se escreve, apesar de ter jeito de ser um sujeito\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. \u00c9 interessante esse ponto: o poema tem cara de sujeito, focinho de sujeito, mas n\u00e3o \u00e9 sujeito. O sujeito s\u00f3 aparece entre significantes, mas se fa\u00e7o a experi\u00eancia radical da linguagem, se a partir do corte recolho os res\u00edduos, que aparecem a partir do vazio da letra, eu deixo a linguagem dizer, o cascalho, esse resto que se deposita da l\u00edngua, fazendo soprar o Koan, que Lacan chamou de <em>aboiement<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><strong>[9]<\/strong><\/a><\/em>, o latido, quando a interpreta\u00e7\u00e3o visa a poesia, ao se referir \u00e0 quebra da sem\u00e2ntica, quando se rompe com o ciclo infernal da cadeia poliss\u00eamica da linguagem.<\/p>\n<blockquote><p><em>(Sopro de Koan)<br \/>\n<\/em><em>\u00e9 surpreendente que se pe\u00e7a algo assim:<br \/>\n<\/em><em>ou se escreve uma prosa ou se escreve um poema.<br \/>\n<\/em><em>n\u00e3o se pode esquecer que durante anos eu escrevi<br \/>\n<\/em><em>entretida por pequenas coisas, sem for\u00e7ar as dificuldades.<br \/>\n<\/em><em>hoje escrevo como ave-do-para\u00edso, ao redor do rubro vivo da letra,<br \/>\n<\/em><em>sem ser invadida pelos sonhos.<br \/>\n<\/em><em>\u00e0s vezes, escrevo como se tivesse tempo,<br \/>\n<\/em><em>iluminando a sombra na fuga das horas.<br \/>\n<\/em><em>rasa, tateio o vigor selado do fonema,<br \/>\n<\/em><em>sopro de koan: furo e miragem,<br \/>\n<\/em><em>que o copo de cristal cintila na lua deitada.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>O koan \u00e9 o corte, algo que zomba da significa\u00e7\u00e3o, um saber- fazer com o gozo e o sentido, \u00e9 a via que se dirige para o confronto direto com o gozo e a puls\u00e3o. Contudo, o koan n\u00e3o se dirige para a absurdez, e sim para a isen\u00e7\u00e3o de sentido. Roland Barthes marca essa diferen\u00e7a com precis\u00e3o: \u201ca isen\u00e7\u00e3o de sentido \u00e9 um estado de sentido infinitamente mais dif\u00edcil de realizar, \u00e9 uma esp\u00e9cie de vazio de sentido, ou melhor, o sentido lido como vazio, o que n\u00e3o \u00e9 o caso do absurdo\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.\u00a0 O que est\u00e1 em jogo no koan (\u201cenigma quase insol\u00favel\u201d, em japon\u00eas) \u00e9 o vazio de sentido.\u00a0 O koan apresenta a solid\u00e3o de um significante \u00e0 solid\u00e3o de outro significante, como bem disse o poeta Fernando Jos\u00e9 Karl no posf\u00e1cio de meu livro sim, \u00e9.<\/p>\n<blockquote><p><em>xantungue do jinriquix\u00e1<br \/>\n<\/em><em>iluminando a sombra do entalhe<br \/>\n<\/em><em>clorofila osso areal<br \/>\n<\/em><em>n\u00e3o fere oceano da escuta<br \/>\n<\/em><em>s\u00f3 a noite lavada pelo vento<br \/>\n<\/em><em>ouve o sambaqui \u00edm\u00e3<br \/>\n<\/em><em>manchado de fogo<br \/>\n<\/em><em>que est\u00e1 nos dep\u00f3sitos de conchas<br \/>\n<\/em><em>o encontro no terra\u00e7o confundia<br \/>\n<\/em><em>arroz com ave maria<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>O praticante desta arte zen, o Koan, tem como princ\u00edpio abdicar de todo o saber pr\u00e9vio, assim como transcender os limites do dualismo l\u00f3gico, ao despertar um processo que permite ao praticante uma vis\u00e3o do verdadeiro funcionamento das coisas. O koan pode ser equiparado a um rel\u00e2mpago.<\/p>\n<blockquote><p><em>respira a x\u00edcara<br \/>\n<\/em><em>por 3 furos de ch\u00e1 azul:<br \/>\n<\/em><em>a baleia \u00e9 <\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>H\u00e1 na experi\u00eancia que se refere ao limite da linguagem, um esvaziamento, que remete \u00e0 letra, e me chega como um fluxo, do qual n\u00e3o domino, e que me faz encontrar o estrangeiro em mim, ao ponto de ap\u00f3s ler o que escrevi, achar que n\u00e3o fui eu que escrevi. \u00c9 como se uma Outra escrevesse em mim.: quanto mais perfuro a linguagem, mais o estrangeiro aparece em mim, marcando o ex\u00edlio que a escrita promove.<\/p>\n<blockquote><p><em>acorda, vida.<br \/>\n<\/em><em>se digo que me vi em tuas entranhas,<br \/>\n<\/em><em>entre claustros, plantas na varanda, de claridade uns barcos?<br \/>\n<\/em><em>dir\u00e1s que sonho uma encantada figa de osso,<br \/>\n<\/em><em>se digo que me vi dunas e p\u00e1ssaros<br \/>\n<\/em><em>entre \u00e2ncoras negras, ronco dos furac\u00f5es, sempre-vivas?<br \/>\n<\/em><em>mas n\u00e3o. algu\u00e9m serafim: acorda, acorda vida.<br \/>\n<\/em><em>e se te digo que as partes iluminadas daquele quarto ao meu lado<br \/>\n<\/em><em>e banzo e cavalo de palavras \u00e1vidos.<br \/>\n<\/em><em>dir\u00e1s que luar? mas manchadas de fogo. algu\u00e9m gritava:<br \/>\n<\/em><em>palavras: apenas rodelas de casca de laranja e o melhor do vento.<br \/>\n<\/em><em>acorda.<br \/>\n<\/em><em>ode profunda: vida.<br \/>\n<\/em><em>(poema sobre um poema de Hilda Hilst 1)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>O poeta \u00e9 aquele que n\u00e3o conhece sen\u00e3o o ex\u00edlio de si mesmo, habita o c\u00e9u que h\u00e1 em si, e abisma a l\u00edngua. As palavras do poeta v\u00e3o se juntando uma a uma por uma inst\u00e2ncia terceira, um narrador, estrangeiro e \u00edntimo. Suspenso no c\u00e9u, sob a incid\u00eancia da luz e. da sombra, o poeta se move em sil\u00eancio.<\/p>\n<blockquote><p><em>fechei os olhos e deixei meus bra\u00e7os soltos:<br \/>\n<\/em><em>minhas m\u00e3os eram azuis ao meio-dia<br \/>\n<\/em><em>me senti um peixe voador,<br \/>\n<\/em><em>sim, s\u00f3 as palavras podem imitar peixes-voadores<br \/>\n<\/em><em>no meio da piscina<br \/>\n<\/em><em>&#8211; ali na profundeza onde as palavras<br \/>\n<\/em><em>n\u00e3o alcan\u00e7am-<br \/>\n<\/em><em>fui fundo e precisei, como n\u00e1ufrago<br \/>\n<\/em><em>agarrar o sil\u00eancio pelos cabelos.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>\u201cA linguagem \u00e9 a \u00fanica ressurrei\u00e7\u00e3o para o que desapareceu. \u00c9 o que permite responder ao primeiro enigma: porque o \u00eaxtase do passado se tornou um \u00eaxtase da linguagem. A linguagem \u00e9 a casa para tudo o que n\u00e3o est\u00e1\u201d, diz Pascal Quignard<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Isso faz com que o poeta, nesse tempo de pandemia e de viol\u00eancia do Estado, onde mais que nunca, vivemos onde n\u00e3o somos, possa dar um passo \u00e0 frente, e tentar dizer o que o que n\u00e3o tem nome, e nem nunca ter\u00e1.<\/p>\n<blockquote><p><em>hoje na cidade de deus o caveir\u00e3o, o caveir\u00e3o na cidade sem deus. seria mais simples n\u00e3o morrer. o caveir\u00e3o hoje sem deus na cidade passou por cima de deus, o caveir\u00e3o. hoje na cidade de deus sem deus, o caveir\u00e3o passou por cima da rosa ave maria, o caveir\u00e3o passou por cima dela, ou\u00e7o o osso do cardume de a\u00e7o, o caveir\u00e3o. seria mais simples n\u00e3o morrer, habitar uma palavra, desejar ver o orvalho brotar entre as telhas. o caveir\u00e3o passou sem deus, o caveir\u00e3o na cidade de deus. sem deus o caveir\u00e3o passou por cima das casas, a crian\u00e7a cambaleou, inst\u00e1vel. \u00e9 guerra, sangue sem deus na cidade de deus.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>O sujeito do inconsciente n\u00e3o \u00e9 um poeta, mas as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente est\u00e3o constru\u00eddas ao modo do poema, com suas pr\u00f3prias met\u00e1foras e meton\u00edmias, que mostram a rela\u00e7\u00e3o singular que o sujeito mant\u00e9m com a puls\u00e3o, de como goza a vida.<\/p>\n<blockquote><p><em>linfa sambaqui<br \/>\n<\/em><em>restos de caramujo<br \/>\n<\/em><em>olhos de peixe<br \/>\n<\/em><em>lotados de azul<br \/>\n<\/em><em>as palavras s\u00f3 conhecem a sede<br \/>\n<\/em><em>durante o dia o rumor aflora<br \/>\n<\/em><em>agulhas de marear<br \/>\n<\/em><em>de noite a nudez da p\u00e9rola<br \/>\n<\/em><em>can\u00edcula<br \/>\n<\/em><em>com a resina de minha l\u00edngua<br \/>\n<\/em><em>furo oceanos.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>O poema, o poema absoluto, n\u00e3o existe, disse Paul Celan: o poema se faz a cada vez, uma \u00fanica vez, como t\u00e3o bem enfatizou Fabian Fajnwaks<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>, ao se referir\u00a0 \u201cao cada vez, uma \u00fanica vez\u201d, em sua rela\u00e7\u00e3o com a conting\u00eancia, esse cessar de n\u00e3o se escrever, que o poema apresenta sobre o fundo da impossibilidade. Seria, ent\u00e3o, esse o ref\u00fagio do poeta para habitar a l\u00edngua?<\/p>\n<blockquote><p><em>meu pai fais\u00e3o<br \/>\n<\/em><em>voz saudade quanta<br \/>\n<\/em><em>ah e minha m\u00e3e.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>Cavar a l\u00edngua, como Celan soube fazer com seus poemas, assim como cavava o ch\u00e3o do campo de exterm\u00ednio de Auschwitz, evoca o trabalho que Lacan descreve em <em>Lituraterra<\/em>: o sulco que a palavra opera sobre o gozo para fazer surgir <em>lal\u00edngua<\/em>, a partir dos efeitos produzidos pela chuva dos significantes sobre a plan\u00edcie siberiana.<\/p>\n<blockquote><p><em>Espuma: suor d\u00b4\u00e1gua que escreve o poema no mar de todas as \u00e1guas.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><strong>[13]<\/strong><\/a><\/em><\/p><\/blockquote>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <a href=\"http:\/\/www.lacan21.com\/sitio\/2016\/04\/16\/ler-um-sintoma\/?lang=pt-br\">http:\/\/www.lacan21.com\/sitio\/2016\/04\/16\/ler-um-sintoma\/?lang=pt-br<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Miller, J. A. Matemas 1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed.1996. p. 61.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Oliveira, C. A poesia e a filosofia face ao indiz\u00edvel: do <em>experimentum linguae <\/em>em Giorgio Agamben, In: Revista do Programa de Estudos P\u00f3s- Graduados em Literatura e Cr\u00edtica Liter\u00e1ria da Puc- SP. N. 24 de julho de 2020. P.160.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Agamben, G. Experimentum linguae \u2013 Conf\u00e9rence au coloque \u201cLacan avec les philosophes\u201d\/College international de philosophie de Paris. 1990.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Cesari, P &amp; Maxnuck, A. Feminino Manifesto, In: Flor d\u00b4\u00e1gua (F\u00e1tima Pinheiro). Rio de Janeiro: Nau Ed. 2921.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Alan Pauls- v\u00eddeo publicado em La_ falta_ que _ me_ hace : grupo p\u00fablico organizado por Carlos Rossi. Buenos Aires\/ Argentina.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Lacan, J. Outros Escritos, In: Radiofonia. Rio de Janeiro: Zahar Ed, 2003. p. 402.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Lacan, J. (Lacan. J. Rio de Janeiro: Zahar Ed. Outros Escritos, 1976\/2003, p.568.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Lacan, J. aula de 8 de maio de 1973, p. 157.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Pinheiro, F. sim, \u00e9. Curitiba: Ed. Blanche, 2020. p.121.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Quignard, P. Sobre lo anterior. \u00daltimo Reino II. Buenos Aires: El Cuenco de Plata, 2016.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Fajnwaks, F. Poes\u00eda \u2013 herej\u00eda de la lengua. Cita em diagonales. Revista online digital y audiovisual de Psicoan\u00e1lisis y Cultura. Argentina,<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Todos os poemas apresentados neste texto s\u00e3o de autoria de F\u00e1tima Pinheiro, extra\u00eddos de seu livro sim, \u00e9. Editora Blanche\/ 2020.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F\u00e1tima Pinheiro Introdu\u00e7\u00e3o \u201cO analista e a escrita\u201d, t\u00edtulo sugerido pela Cassandra para o nosso encontro \u2013 o qual gostei muito &#8211; fez sentir-me duplamente concernida: por minha pr\u00e1tica enquanto analista e, tamb\u00e9m, como escritora. 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