{"id":2809,"date":"2022-03-18T17:43:22","date_gmt":"2022-03-18T20:43:22","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=2809"},"modified":"2022-03-18T17:43:22","modified_gmt":"2022-03-18T20:43:22","slug":"existencia-e-escrita-do-um-novos-arranjos-contra-o-imperialismo-do-universal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/existencia-e-escrita-do-um-novos-arranjos-contra-o-imperialismo-do-universal\/","title":{"rendered":"Exist\u00eancia e escrita do Um: novos arranjos contra o imperialismo do Universal"},"content":{"rendered":"<h6>Elizabete Siqueira<\/h6>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2806\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Boletim-07.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"399\" \/>A dimens\u00e3o n\u00e3o segregativa da Psican\u00e1lise<\/strong><\/p>\n<p>A exist\u00eancia e a escrita do Um s\u00e3o sintagmas que aparecem em dois diferentes eixos de nossa Jornada. Tal presen\u00e7a produziu em mim o desejo de salientar a contraposi\u00e7\u00e3o do ensino de Lacan em rela\u00e7\u00e3o ao Universal e de como esse ensino fura antigos paradigmas segregativos. Meu objetivo \u00e9, portanto, frisar que a exist\u00eancia e o Um emancipam da ambi\u00e7\u00e3o de universalidade do Mestre e que os dois s\u00e3o produtos da voca\u00e7\u00e3o n\u00e3o segregativa e n\u00e3o classificat\u00f3ria de Lacan, que aparece desde sua tese de doutorado (Lacan, 1987). Foi uma descoberta importante perceber que eles t\u00eam tudo a ver com a experi\u00eancia anal\u00edtica e com a pol\u00edtica do inconsciente.<\/p>\n<p>Desde que Lacan (1981), no semin\u00e1rio 20, introduziu o real como constituinte do falasser, pode-se dizer que n\u00e3o h\u00e1 um programa pr\u00e9-estabelecido que organize a rela\u00e7\u00e3o entre os sexos. Por isso, na \u00faltima parte do seu ensino, ele foi al\u00e9m dos Ideais e do Nome-do-Pai, como met\u00e1fora da ordem simb\u00f3lica, ap\u00f3s observar que eles j\u00e1 n\u00e3o mais organizavam o la\u00e7o social, segundo a norma androc\u00eantrica, que j\u00e1 \u201cn\u00e3o podia representar a trama das identidades sexuais, nunca fixas nem normativas\u201d (Bassols, 2021, p.20). Vale, ent\u00e3o, destacar que o Mal-estar, em nossos dias, n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m o mesmo de outrora. Hoje, mais do que nunca, impera sua forma c\u00ednica. Com isso, quero dizer que a fase atual, massificada horizontalmente e globalizada do capitalismo, \u00e9 matriz da segrega\u00e7\u00e3o generalizada, fomentadora da dilui\u00e7\u00e3o da singularidade, na medida em que tem por base o recha\u00e7o do outro, sobretudo dos seus sinais de diferen\u00e7a e que a Psican\u00e1lise vai na contram\u00e3o dessa corrente generalizante, buscando, por seu lado, salientar suas formas e seus efeitos.<\/p>\n<p>Nossa era, como era de um capitalismo <em>\u201chard\u201d<\/em>, por assim dizer, da ci\u00eancia e da tecnologia, sustentado pela l\u00f3gica da acumula\u00e7\u00e3o infinita, elevou o objeto ao z\u00eanite (Lacan, 2003a), infinitizou-o e o levou a passar \u00e0 frente do \u00c9dipo e da Lei simb\u00f3lica, organizados pelo falo. Essa eleva\u00e7\u00e3o \u00e9 o resultado da incapacidade da ordem f\u00e1lica, para esclarecer, segundo as teorias <em>queer <\/em>(Fajnwaks, 2013), que nesse ponto concordam com a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, o que \u00e9 ser, por exemplo, um homem ou uma mulher. Uma das quest\u00f5es cruciais de nossos dias \u00e9 como homens e mulheres podem se encontrar se a lei simb\u00f3lica j\u00e1 n\u00e3o lhes diz, efetivamente, quase nada e o que predomina s\u00e3o os modos de gozar , mediante todos os recursos dispon\u00edveis no mercado de consumo. Essa quest\u00e3o coincide com os grandes apontamentos de Lacan em seu \u00faltimo ensino. Por isso, a cl\u00ednica mudou. Tornou-se muito mais pragm\u00e1tica do que estruturalista e os conceitos, com essa mudan\u00e7a, muito mais promissores, desidealizados, e, como tal, realistas, na medida em que abrem espa\u00e7o ao trabalho com a singularidade de cada sujeito. Ou seja,com o seu sinthoma, aqui entendido, como aquilo pelo qual existe no mundo e nele se faz reconhecer. \u00c9 uma cl\u00ednica que busca mais o que enla\u00e7a do que o sentido, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 outro acesso \u00e0 realidade, para o falasser, que n\u00e3o passe pelo seu pr\u00f3prio real.<\/p>\n<p><strong>A inacessibilidade do dois, o Um e a exist\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Um dos conceitos orientadores de nossa cl\u00ednica atual \u00e9 a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual (Lacan, 2012), efeito da barra\u00e7\u00e3o do Outro, que tem como consequ\u00eancia \u201ca impossibilidade da adequa\u00e7\u00e3o de si para si e de si para o outro\u201d (Biaggi-Chai, 2020, p.25), isto \u00e9, \u201c a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe\u201d (Lacan, 2003, p.454). A anatomia n\u00e3o \u00e9 o destino. Sabemos disso, desde que \u201cLacan introduziu o termo sexua\u00e7\u00e3o para indicar o elemento subjetivo de escolha\u201d (Alberti, 2021, p.5) da forma de se situar perante o sexo e o gozo, ambos ligados \u00e0 conting\u00eancia do encontro, ao acaso, ao Real.<\/p>\n<p>Nessa dire\u00e7\u00e3o, enfatiza-se que \u00e9 o conceito matem\u00e1tico da inacessibilidade do dois, que, de certa forma, serve a Lacan (2012) para embasar sua tese da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual, abordada no Semin\u00e1rio 19. Ali, diz ele: \u201c\u00e9 rigorosamente imposs\u00edvel considerar a c\u00f3pula de dois corpos como formando um s\u00f3\u201d (p.122). Isso, porque fazer dois \u00e9 imposs\u00edvel. Entre 1 e 2 h\u00e1 uma sequ\u00eancia infinita. N\u00e3o \u00e9 certo dizer, por exemplo, que 1+ \u00bd+1\/4 \u00e9 igual a dois, mas, sim, que essa soma tende a dois sem nunca chegar a ele. O n\u00famero tende a ser n, mas nunca vai ser n, se aproxima de n. Essa \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de limite em matem\u00e1tica (Berlinski, 2002).<\/p>\n<p>Lacan se utiliza dessa inacessibilidade matem\u00e1tica para articular a exist\u00eancia do Um com a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual. Para ele \u201ca pretexto de o corpo ser uma das formas do Um [&#8230;] \u00e9 rigorosamente imposs\u00edvel considerar a c\u00f3pula de dois corpos como formando um s\u00f3\u201d (Lacan, 2012, p. 122). Com isso Lacan est\u00e1 nos insinuando que o corpo \u00e9 uma das formas do Um, porque o corpo \u00e9 o lugar de um gozo que sonha com o infinito, ou seja, da puls\u00e3o e de seu solil\u00f3quio, que fala sozinha para dizer \u201cH\u00e1 um\u201d (Lacan, 2012, p. 132), portanto, o Um \u00e9 separado do dois na rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe e isso introduz o Real, haja vista que o gozo \u00e9 gozo do corpo pr\u00f3prio, gozo do Um. \u00c9 nessa mesma dire\u00e7\u00e3o que seguem as afirma\u00e7\u00f5es de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo\u201d (p.125) e de que\u00a0 \u201cnunca se viu di\u00e1logo levar \u00e0 coisa alguma\u201d (p.126) e de que\u00a0 na associa\u00e7\u00e3o livre, que n\u00e3o tem nada de livre porque advinda do Um, \u00e9 este que se tem de fazer falar.<\/p>\n<p>Lacan (2012, p.30) avan\u00e7a ao propor que o Um nem sempre tem o mesmo sentido. Existe o sentido do Um que nomeia o conjunto vazio que \u00e9 dois como ordinal, e, tamb\u00e9m, que h\u00e1 um car\u00e1ter b\u00edfido do Um, que \u00e9 diferente do Ser (estado permanente), que o ser \u00e9 sempre Um, mas que o Um n\u00e3o sabe ser como o ser.\u00a0 Nesse contexto, serviu-se dos v\u00e1rios sentidos do Um para mostrar como o Um se contrap\u00f5e ao imp\u00e9rio do Universal e de como foi da\u00ed que p\u00f4de deduzir\u00a0 a fun\u00e7\u00e3o da Exist\u00eancia (Lacan, 2012, p.130) esta nascida do \u201cmais fugidio do enunci\u00e1vel\u201d, que tem a ver com a economia libidinal de cada Um.<\/p>\n<p>Ora, aprendemos que \u00e9 precisamente com a proposi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia que Lacan (2012, p.135) vai mais al\u00e9m de Arist\u00f3teles e os particulares, quando ousou enunciar algo que patentemente falta \u00e0 referida l\u00f3gica (p.135): fez incidir a nega\u00e7\u00e3o sobre o quantificador universal. A consequ\u00eancia foi a proposi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia como aquilo que singulariza, que funda o sujeito como Um que fala e, como tal, fura o Universal e com ele a norma f\u00e1lica.<\/p>\n<p><strong>A l\u00f3gica n\u00e3o-toda<\/strong><\/p>\n<p>Lacan (1981) formaliza a l\u00f3gica n\u00e3o-toda, no Semin\u00e1rio 20 <em>mais, ainda, <\/em>fora do Universal f\u00e1lico e a partir do gozo feminino que recebe o estatuto de gozo como tal que fura o Todo. Elas n\u00e3o podem formar um conjunto fechado, universaliz\u00e1vel e, em sendo assim, s\u00f3 podem ser contadas uma a uma, atestando com isso a exist\u00eancia de Um que diz n\u00e3o ao Universal. Elas n\u00e3o se \u201cparatodizam\u201d (Lacan, 2003, p. 466), logo, por se fundarem n\u00e3o-todas, nenhuma delas \u00e9 Toda e s\u00f3 podem \u201cser tomadas uma a uma, cada nome de mulher valendo, em si mesmo, cumprindo a fun\u00e7\u00e3o de letra\u201d ( Baptista &amp; Monteiro,2021) como t\u00e3o bem nos ensinaram Baptista e Monteiro, na apresenta\u00e7\u00e3o do eixo 1 de nossa jornada. Vale ainda esclarecer que a dedu\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica do N\u00e3o-todo permitiu a Lacan deduzir o Um e a exist\u00eancia, bem como esclarecer o fato de que embora se conjuguem n\u00e3o se sobrep\u00f5em. Com isso quero dizer que o n\u00e3o-todo \u00e9 um conjunto aberto, que n\u00e3o se fecha, e que mais se aparenta \u00e0 s\u00e9rie. \u00c9 sem lei e, como tal, se perfila um a um, n\u00e3o se podendo prever qual ser\u00e1 o termo seguinte. Por ser assim, n\u00e3o d\u00e1 lugar a nenhuma exce\u00e7\u00e3o, que constitua um Universal, j\u00e1 que cada Um \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o <em>per se.<\/em> Essa \u00e9 outra e nov\u00edssima l\u00f3gica com estofo e f\u00f4lego para estar \u00e0 altura da \u00c9poca, de modo a poder \u201cacolher as mudan\u00e7as na sociedade, de maneira subversiva, sem deixar de question\u00e1-las\u201d (Ansermet &amp; Meseguer, 2021, p. 82).<\/p>\n<p>Na Cl\u00ednica, se aparecem sujeitos, que se afirmam do lugar do Todo f\u00e1lico, moldados pelo discurso capitalista que torna os ideais contabiliz\u00e1veis, abole a subjetividade e com ela a responsabilidade pelo modo de gozar pr\u00f3prio; eles aludem a um campo de \u201cinquietante estranheza\u201d (Freud, 1919-1976) de regimes de enuncia\u00e7\u00f5es que dizem respeito a nichos ideol\u00f3gicos que cristalizam segrega\u00e7\u00f5es e s\u00e3o prot\u00f3tipos de imposturas mentirosas e inquietantes, calcadas no \u201cbem\u201d, mas, que, na verdade, est\u00e3o a servi\u00e7o do Mestre, cujo \u00fanico objetivo, segundo Lacan (1992, p.11) \u00e9 \u201carrebatar do escravo sua fun\u00e7\u00e3o no plano do saber\u201d, em outras palavras, explorar, evidenciando que \u00e9 uma l\u00f3gica segregativa e , como tal, distinta da proposta do psicanalista.\u00a0 Aqui, uma pergunta se nos imp\u00f5e: o que um psicanalista teria a fazer com <em>Isso<\/em>? Pode-se pensar no papel da interpreta\u00e7\u00e3o que seria desinflar, interrogar, furar esse tipo de discurso, cujo objetivo \u00e9 ocultar a origem e a temporalidade dos seus movimentos associativos, para n\u00e3o deixar aparecer o singular da enuncia\u00e7\u00e3o que deixaria a descoberto tal inten\u00e7\u00e3o segregativa. Como nos indica Laia (2009) foi cada vez mais decisivo para Lacan fazer tal significante aparecer. Isso porque os senhores escamoteiam suas inten\u00e7\u00f5es mort\u00edferas. Por isso, Lacan (2003b) nos convida, com a perspectiva do discurso anal\u00edtico, a fazer face \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o de tais exce\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o pela via da varia\u00e7\u00e3o infinita, que criaria novos universais, e sim a partir de outra refer\u00eancia, a do Um. O que Lacan (1992) procurou nos mostrar foi que por tr\u00e1s dos <em>slogans<\/em> e palavras de ordem h\u00e1 um S1 de domina\u00e7\u00e3o escondido e que por isso tem valor interpretar a Cultura para faz\u00ea-lo aparecer (Laia, 2009), a fim de oferecer ao sujeito a possibilidade de encontrar um saber-fazer-com esse mal-estar, ao inv\u00e9s de aceit\u00e1-lo como natural.<\/p>\n<p><strong>O sujeito \u00e9 Um que fala<\/strong><\/p>\n<p>Lacan (2003b, p.480) diz que \u201crecorrer ao n\u00e3o-toda, ao ahomenosum [hommoinsun], aos impasses da l\u00f3gica \u00e9 mostrar as sa\u00eddas da Mundanidade\u201d. Isso pode ser lido como ligado \u00e0 mordacidade de Lacan em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s promessas libertadoras do liberalismo pol\u00edtico e outras engana\u00e7\u00f5es como o direito de ir e vir. Pelo contr\u00e1rio, sempre apostou na economia de cada subjetividade, articulada ao regime pulsional de cada Um.<\/p>\n<p>A Psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana j\u00e1 sabe que nenhum discurso \u00e9 imut\u00e1vel, porque foi o que nos ensinou Lacan (2003b), no texto antes referido. A estrutura de um discurso \u00e9 modific\u00e1vel por cortes, por isso, qualquer discurso do tipo \u201ceu a verdade falo\u201d, cuja finalidade \u00fanica \u00e9 excluir, precisa ser furado pelo real, a fim de descol\u00e1-lo das fic\u00e7\u00f5es, sejam elas pol\u00edticas, jur\u00eddicas ou de qualquer natureza asfixiante, para \u201cproduzir uma outra fix\u00e3o [fixion] do real, ou seja, do imposs\u00edvel\u201d (Lacan, 2003b, p.480), posto que toda verdade \u00e9, em si mesma, mentirosa. \u00c9 de bom alvitre introduzir a dimens\u00e3o interrogativa no cora\u00e7\u00e3o do imperialismo Universal do Mestre, a saber, ali onde houver o projeto de um fechamento no Todo poder da debilidade institucionalizada que favore\u00e7a regimes totalitaristas e fascistas em sua ess\u00eancia.<\/p>\n<p>Pode-se, ent\u00e3o, sugerir que, no ensaio po\u00e9tico-pol\u00edtico o\u00a0 Aturdito (Lacan, 2003b), o destaque dado por Lacan \u00e0 exist\u00eancia se op\u00f5e ao Universal c\u00ednico que busca foracluir a exist\u00eancia e o Um. O Universal busca desacreditar o singular \u201ca se compreender com todos seus equ\u00edvocos, o da originalidade, singular \u00fanico, indestrut\u00edvel. Isso se chama negligenciar, ignorar o real\u201d, nos ensina Biaggi-Chai (2020, p.26). Real, aqui, entendido como o que da realidade individual escapa \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o, acrescenta a autora referida. Lacan (1981) insiste sobre a exist\u00eancia do corpo pulsional e seu gozo sempre escapando do imperialismo do significante e do Todo simb\u00f3lico. N\u00e3o querer saber nada disso, ou seja, n\u00e3o querer saber nada do Real, implicar\u00e1 em seu retorno (Lacan, 1985) sob formas sempre imprevis\u00edveis e incalcul\u00e1veis. Por isso, a Psican\u00e1lise defende para cada Um, uma vida o mais pr\u00f3ximo do que lhe seja poss\u00edvel, em termos de ser e de fazer. Lacan chama sinthoma (2007, p.15) a esse poss\u00edvel de cada Um e Biaggi-Chai (2020, p.27) o entende como \u201ca resposta singular ao mist\u00e9rio do homem\u201d. Isso vai na contram\u00e3o do Universal, na medida em que autoriza a nele se inscrever de forma n\u00e3o segregativa. N\u00e3o esque\u00e7amos que segundo Lacan (2003b, p.480) \u201co normal \u00e9 mais uma norma masculina [m\u00e2le]\u201d. Por isso mesmo, Biaggi-Chai (2020, p.27) sublinha que a Psican\u00e1lise defende que um sujeito possa \u201csaber-fazer-consigo mesmo&#8230; isso abrindo a porta de um pragmatismo aceit\u00e1vel\u201d. Donde se pode deduzir que o Inconsciente seria o destino pol\u00edtico do regime de gozo de cada Um, por n\u00e3o perder de vista a economia libidinal, condi\u00e7\u00e3o de possibilidade para que uma inven\u00e7\u00e3o seja poss\u00edvel para lidar com esse gozo, haja vista que uma an\u00e1lise n\u00e3o visa produzir epifanias, mas, sim, inven\u00e7\u00f5es, ou seja, algo que permita lidar com o gozo de forma diferente da repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pelo que foi exposto, creio poder concluir com Lacan (1966-67[2008], p. 350)\u00a0 que: 1\u00ba) \u201c o inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica\u201d. \u00c9 a pol\u00edtica com a, no feminino, sob o regime do n\u00e3o-toda que n\u00e3o perde de vista o regime libidinal de cada Um, pol\u00edtica do sinthoma, e n\u00e3o que o inconsciente \u00e9 o pol\u00edtico porque teria valor de proposi\u00e7\u00e3o universal; 2\u00ba) que a Psican\u00e1lise, na medida em que esclarece o Mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, sob a \u00f3tica do regime pulsional de cada Um, prop\u00f5e sa\u00eddas, nada desprez\u00edveis, sim, mas nunca solu\u00e7\u00f5es, para aqueles que decidem nela apostar, fazendo-os passar pelos labirintos da fala, ou seja, pelo Outro, porque\u00a0 \u201cuma vez o Um estabelecido surgir\u00e1 necessariamente o Outro\u201d (Hasembalg-Coriabinu, 2016, p. 27).\u00a0 Por\u00e9m como nos ensinou Lacan, lido por Chai, de forma n\u00e3o segregativa, ou seja, sem passar para o fatalismo do supereu e seu imperativo de gozo, mas cuidando para que o n\u00e3o simbolizado do gozo, n\u00e3o retorne no Real, pois afinal o Real \u00e9 sem lei, e esse retorno tentaria impor o imperativo do supereu sob a forma de sintomas e passagens ao ato mort\u00edferas em sua grande maioria. Enfim, \u00e9 lidando com esse n\u00e3o simbolizado, \u00e9 dando um lugar a esse real sem lei, que verificaremos, em contraposi\u00e7\u00e3o ao Universal do Mestre, o quanto o que \u00e9 bom para Um n\u00e3o \u00e9 necessariamente bom para outro Um e isso tem a ver com o Novo amor, promessa do discurso anal\u00edtico, que tenta fazer um trabalho n\u00e3o segregativo com o resto inassimil\u00e1vel de gozo de cada um,\u00a0 \u00fanica forma de n\u00e3o se passar a \u201cuma deriva em dire\u00e7\u00e3o ao pior, colorida de cinismo\u201d( Miller, 2021, p.42).<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/h6>\n<h6>Alberti, C. (2021<em>). <\/em>Argumento Paris 2022. In <em>Site A grande conversa\u00e7\u00e3o Paris 2022<\/em> (pp. 1-5).<\/h6>\n<h6>Ansermet, F. &amp; Meseguer, O. (2021) Coda de Fran\u00e7ois Ansermet y Oma\u00efra Meseguer In Basssols, M. <em>La diferencia de los sexos no existe en el inconsciente, p. 82<\/em>. Buenos Aires: Grama.<\/h6>\n<h6>Bassols, M. 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Meu&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2809","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-litoraneo","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2809","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2809"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2809\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2809"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2809"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2809"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2809"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}