{"id":2799,"date":"2022-03-18T17:42:39","date_gmt":"2022-03-18T20:42:39","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=2799"},"modified":"2022-03-18T17:42:39","modified_gmt":"2022-03-18T20:42:39","slug":"a-voz-de-nao-todo-trans","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/a-voz-de-nao-todo-trans\/","title":{"rendered":"A voz de n\u00e3o-todo trans!"},"content":{"rendered":"<h6>Gabriella Dupim<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2807\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Boletim-08.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"399\" \/>Ao receber o convite para comentar os recortes da entrevista com Andreina Gama, coordenadora do eixo \u00b4Diversidade \u00c9tnico Racial, G\u00eanero e Orienta\u00e7\u00e3o Sexual\u00b4 da Funda\u00e7\u00e3o e da Associa\u00e7\u00e3o de Pessoas Travestis e Transexuais da Para\u00edba, realizada por integrantes do N\u00facleo de Estudos e Pesquisa sobre o Feminino, exibidos na I Jornada da Se\u00e7\u00e3o Nordeste em dezembro de 2021 algumas quest\u00f5es me inquietaram. Longe da pergunta, o que a psican\u00e1lise nos ensina sobre os <em>trans<\/em> me pareceu mais coerente o avesso: o que Um falasser <em>trans<\/em> pode nos ensinar?<\/p>\n<p>Posi\u00e7\u00e3o correlata ao do analista de tomar sua fala como um texto escrito, recolhendo um saber nos pr\u00f3prios ditos de Andreina, dignificando sua voz ao lugar de sujeito ao inv\u00e9s de objeto. Para al\u00e9m do universal dos movimentos identit\u00e1rios em defesa dos direitos dos <em>trans<\/em>, mais do que necess\u00e1rio e fundante, a psican\u00e1lise se interessa pelo que h\u00e1 de singular, pela voz de n\u00e3o-todo <em>trans<\/em>.<\/p>\n<p>Um corpo n\u00e3o \u00e9 representado por um peda\u00e7o, uma genit\u00e1lia, inaugura a fala de Andreina que gentilmente nos assegura que a psican\u00e1lise \u00e9 d\u00f3cil aos <em>trans<\/em>. O que \u00e9 o ser? Uma identidade de g\u00eanero que n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com sua identidade biol\u00f3gica. Lacan inventa um neologismo, o <em>parl\u00eatre<\/em> ou falasser, que \u00e9 o sujeito mais sua subst\u00e2ncia gozante. Quer dizer, aquilo que se articula a cadeia significante e o que est\u00e1 fora, que se sente e afeta o corpo, imposs\u00edvel de ser nomeado por estrutura.<\/p>\n<p>Mulher, travesti, orienta\u00e7\u00e3o sexual heterossexual, nome e g\u00eanero readequado, mas n\u00e3o fez readequa\u00e7\u00e3o da genit\u00e1lia. S1, S2, S3&#8230;, significantes m\u00faltiplos, L, G, B, T Q, I, a + &#8230; que identificam, nomeiam o falasser, no centro, ao mesmo tempo em que deixa aparecer nos intervalos os compassos dos pontos de aus\u00eancia de significa\u00e7\u00e3o, posto que se experimenta no corpo vivo, pulsante, com sua subst\u00e2ncia gozante jorrando fora da linguagem.<\/p>\n<p>Nem todos, ou n\u00e3o-todos <em>trans<\/em>, ojerizam a genit\u00e1lia com que nasceram. Assim como n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a sexual que se inscreva no inconsciente, nos ensina Lacan. O gozo \u00e9 do Um, singular a cada falasser. Cada qual se rearranja com seu corpo a sua maneira, n\u00e3o sem os tra\u00e7os que restaram desta aliena\u00e7\u00e3o inaugural ao Outro, proveniente da nossa condi\u00e7\u00e3o de existente antes mesmo de existir. O Outro da cultura, da filia\u00e7\u00e3o e do inconsciente, que muito embora pensemos que sejamos mais ou menos livres para escolher, a partir da l\u00f3gica do objeto <em>a<\/em>, podemos inferir que se trata mesmo de uma escolha for\u00e7ada.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o mostrou o amor que meus pais tinham por mim, nos indicando que a <em>trans<\/em>-forma\u00e7\u00e3o atendia a inscri\u00e7\u00e3o de um desejo que n\u00e3o foi an\u00f4nimo, produzindo marcas no falasser.\u00a0 Aos 11 anos exigia que o cabelo n\u00e3o fosse mais cortado e que suas roupas fossem Unissex, ratificando que toda demanda \u00e9 demanda de amor e que talvez a condi\u00e7\u00e3o da fantasia fosse ser amada como \u00fanica. Se antes o Unissex era a abertura para o n\u00e3o-binarismo, hoje cada um pode se <em>tra-vestir<\/em> como quiser de forma singular.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 entendimento do que \u00e9 um corpo travesti, transexual. N\u00e3o nasci f\u00eamea, mas me tornei mulher, e para tal era necess\u00e1rio atender a um padr\u00e3o de corpo feminino. Entrou na ditadura para se enquadrar em um estere\u00f3tipo universal, introjetando silicone nos quadris para parecer uma verdadeira mulher. De nada adiantou, continuou sendo degradada, chamada de <em>viado <\/em>travestido, uma vez que uma mulher n\u00e3o se define apenas pelos contornos do corpo. Se A mulher n\u00e3o existe, trata-se mesmo de uma impossibilidade estrutural por defini\u00e7\u00e3o. Para a psican\u00e1lise, a verdadeira mulher s\u00f3 existe na psicose, \u00e0quela, sem a barra, que encarna um todo feminino, um gozo Outro sem a media\u00e7\u00e3o do falo.<\/p>\n<p>O padr\u00e3o de beleza mudou, mas continua um novo padr\u00e3o, uma objetifica\u00e7\u00e3o do corpo feminino que nos obriga a se enquadrar como objeto fetiche para um homem: cabelos longos e lisos, salto alto, seios e quadris largos, a lista \u00e9 grande. Muito embora algumas transexuais tenham feito readequa\u00e7\u00e3o sexual buscando atender a esse enquadre, n\u00e3o \u00e9 raro que se arrependam, dizendo que as interven\u00e7\u00f5es no corpo de horm\u00f4nios, silicones e porque n\u00e3o, de uma vagina n\u00e3o as fez mais ou menos mulher.<\/p>\n<p>O que \u00e9 uma mulher? Certamente n\u00e3o \u00e9 uma vagina, embora uma grande Diva vermelha esteja cravada em terras pernambucanas fazendo vis\u00edvel a rachadura de onde todos adv\u00eam, tornando vis\u00edvel \u00e0 causa feminista, que deveria ser essa sim, universal, para-todos, pela inclus\u00e3o do n\u00e3o-todo no social como objeto agalm\u00e1tico e n\u00e3o mais degradado.<\/p>\n<p>Seria a testosterona, um dos nomes do viril? Como nos lembra Andreina, o horm\u00f4nio masculino tamb\u00e9m \u00e9 desejo, nos indicando que o falo n\u00e3o \u00e9 dispens\u00e1vel. \u00c9 preciso que este se inscreva para n\u00e3o se perder nas aus\u00eancias do n\u00e3o-todo. Se o falo \u00e9 para todos o n\u00e3o-todo pode ou n\u00e3o se increver, de forma contingente, experimentada a cada vez e de uma maneira Outra at\u00e9 mesmo para \u00e0queles que nasceram com um corpo biol\u00f3gico de mulher.<\/p>\n<p>A gente \u00e9 um CID! Essa afirma\u00e7\u00e3o coloca em evid\u00eancia que ao longo da hist\u00f3ria todos \u00e0queles que estavam fora da norma f\u00e1lica eram recha\u00e7ados e patologizados, a come\u00e7ar pelas mulheres que em sua maioria encarnavam o feminino que preferimos chamar de n\u00e3o-todo. O normal \u00e9 o patol\u00f3gico! Se considerarmos que quem dita as normas da sa\u00fade mental sempre esteve alinhado com o discurso do capitalismo. At\u00e9 que um dia resolveram n\u00e3o mais nos curar, uma vez que ser <em>trans<\/em> n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a. Foi preciso que em determinado momento da hist\u00f3ria houvesse uma virada na norma. Se recordar \u00e9 viver, porque n\u00e3o reviver o bom velhinho Freud, que contribuiu para tirar as hist\u00e9ricas e homossexuais da fogueira.<\/p>\n<p>No cinema, Alice J\u00fanior e Dani, mulheres pretas, <em>trans<\/em> da periferia, revelam a viol\u00eancia e segrega\u00e7\u00e3o cotidiana, at\u00e9 mesmo no meio art\u00edstico que muitas vezes se negam a representa-las n\u00e3o incluindo atrizes <em>trans<\/em> no elenco ou apenas as reduzindo a pap\u00e9is secund\u00e1rios. A nega\u00e7\u00e3o de estar nos espa\u00e7os, nos banheiros, a nega\u00e7\u00e3o de ser chamada no masculino, a nega\u00e7\u00e3o de gostar de futebol e ser classificada como macho.<\/p>\n<p>A palavra transexual foi feita para higienizar a travesti, que fica marginalizada, muitas vezes como pobre e prostitu\u00edda. Negar \u00e9 interditar de ex-sistir, \u00e9 fazer invis\u00edvel o gozo Outro, e porque n\u00e3o Outra. A luta da mulher travesti \u00e9 a mesma luta das mulheres que s\u00e3o violentadas. A estimativa de vida de travestis e <em>trans<\/em> \u00e9 de 36 anos, sendo o Brasil um dos pa\u00edses com maiores \u00edndices de homic\u00eddio a essa popula\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e0s mulheres, nos advertindo que as ins\u00edgnias do feminino mobiliza o \u00f3dio daqueles que tem avers\u00e3o ao n\u00e3o-todo mais al\u00e9m dos semblantes.<\/p>\n<p>O processo de empoderamento feminista tem ampliado o acesso de mulheres e <em>trans<\/em> \u00e0 cidadania principalmente atrav\u00e9s de medidas que visam \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de equidade entre g\u00eaneros. A despeito disso, a viol\u00eancia de g\u00eanero vem apresentando consider\u00e1vel recrudescimento, evidenciando a presen\u00e7a resistente de um \u00f3dio mis\u00f3gino. Esse \u00f3dio ao feminino, entretanto, n\u00e3o \u00e9 praticado apenas por homens, expressando-se igualmente como uma quest\u00e3o delicada mesmo entre e para as mulheres. Para a psican\u00e1lise, o \u00f3dio violento traz a marca de um excesso de gozo Outro, rebelde ao significante, deslocalizado no corpo e cuja falta de limites causa um empuxo \u00e0 infinitiza\u00e7\u00e3o. Tal gozo torna aqueles em posi\u00e7\u00e3o feminina mais vulner\u00e1veis \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>As portas que nos s\u00e3o abertas \u00e0 noite s\u00e3o as mesmas que s\u00e3o fechadas de dia. Fa\u00e7o ent\u00e3o um chamamento a nossa comunidade de psicanalistas. Uma tro\u00e7a, talvez um<em> slogan<\/em> para os psicanalistas no s\u00e9culo XXI. Sejamos, n\u00e3o-todos trans! Ratificando o discurso do analista sempre subversivo, avesso a qualquer tentativa de normatiza\u00e7\u00e3o, fazendo furo na fixidez do discurso neoliberalista que pretende classificar, contabilizar e avaliar os falasseres, reduzindo-os a um corpo universal meramente biol\u00f3gico, medicado e higienizado.<\/p>\n<p>Que possamos ser analistas cidad\u00e3os como nos instigou Laurent, nos ocupando das quest\u00f5es concernentes a nossa \u00e9poca, sustentando o desejo do analista em ato. Abrindo as portas e ouvidos, n\u00e3o recuando frente aos <em>trans<\/em>. E que estes possam assim, abrir suas coura\u00e7as e suas caixinhas de <em>pan<\/em>, assim como <em>Dora<\/em>, fazendo falar ao inv\u00e9s de calar o sintoma com p\u00edlulas da felicidade<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gabriella Dupim Ao receber o convite para comentar os recortes da entrevista com Andreina Gama, coordenadora do eixo \u00b4Diversidade \u00c9tnico Racial, G\u00eanero e Orienta\u00e7\u00e3o Sexual\u00b4 da Funda\u00e7\u00e3o e da Associa\u00e7\u00e3o de Pessoas Travestis e Transexuais da Para\u00edba, realizada por integrantes do N\u00facleo de Estudos e Pesquisa sobre o Feminino, exibidos na I Jornada da Se\u00e7\u00e3o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2799","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-litoraneo","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2799","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2799"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2799\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2799"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2799"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2799"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2799"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}