{"id":2796,"date":"2022-03-18T17:41:26","date_gmt":"2022-03-18T20:41:26","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=2796"},"modified":"2022-03-18T17:41:26","modified_gmt":"2022-03-18T20:41:26","slug":"o-patriarcado-como-uma-estrutura-elementar-do-sexismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/o-patriarcado-como-uma-estrutura-elementar-do-sexismo\/","title":{"rendered":"O patriarcado como uma estrutura elementar do sexismo"},"content":{"rendered":"<h6>Luis Francisco Camargo<\/h6>\n<p>O termo \u201cracismo estrutural\u201d est\u00e1 em voga. Para Silvo de Almeida,<\/p>\n<blockquote><p>\u201c[&#8230;] o racismo \u00e9 uma decorr\u00eancia da pr\u00f3pria estrutura social, ou seja, do modo \u201cnormal\u201d com que se constituem as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas, jur\u00eddicas e at\u00e9 familiares [&#8230;]. O racismo \u00e9 estrutural. [&#8230;], parte de um processo social que ocorre \u201cpelas costas dos indiv\u00edduos e lhes parece legado pela tradi\u00e7\u00e3o\u201d (ALMEIDA, 2020, p. 50).<\/p><\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2797\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Boletim-09.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"399\" \/>Lacan, em \u201cOs complexos familiares na forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo\u201d (1938), abordou a fam\u00edlia como uma estrutura hier\u00e1rquica que replica o modelo patriarcal, \u201co \u00f3rg\u00e3o privilegiado da coer\u00e7\u00e3o do adulto sobre a crian\u00e7a, coer\u00e7\u00e3o a quem o homem deve a etapa original e as bases arcaicas de sua forma\u00e7\u00e3o moral (LACAN, 2003, p. 30)\u201d. Para melhor ilustrar o lugar da fam\u00edlia, Lacan tomou a l\u00edngua materna como uma l\u00edngua estrangeira, a l\u00edngua do Outro, elemento fundamental na constitui\u00e7\u00e3o do sujeito e das suas rela\u00e7\u00f5es com a fam\u00edlia em seus diferentes tipos: patriarcal, matriarcal, adotiva, monoparental, homoparental, reconstitu\u00edda, nuclear, entre outras. Os valores morais de uma sociedade s\u00e3o transmitidos por estas institui\u00e7\u00f5es elementares. Por meio dessas estruturas, o discurso do Outro introjeta nas crian\u00e7as os valores, os costumes, a moral e os modos de gozar a vida. No entanto, as respostas de um sujeito \u00e0s introje\u00e7\u00f5es dos ditos do Outro s\u00e3o indetermin\u00e1veis, fruto do mal-entendido da linguagem e da rela\u00e7\u00e3o entre os sexos. Nessa \u00e9poca de seu ensino, Lacan trabalhava alguns conceitos formulados por Freud como a introje\u00e7\u00e3o, a proje\u00e7\u00e3o, a absor\u00e7\u00e3o e a expuls\u00e3o. A \u201cintroje\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre introje\u00e7\u00e3o da palavra do outro, o que introduz uma dimens\u00e3o muito diferente da de proje\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1985, p. 100). \u00c9 pela palavra do outro que nos s\u00e3o transmitidos os valores morais do Outro social. Para Lacan (1985, p. 195) \u00e9 justamente no momento do decl\u00ednio do complexo de \u00c9dipo que se produz o que chamamos de <em>introje\u00e7\u00e3o<\/em>. As introje\u00e7\u00f5es s\u00e3o constituintes do Supereu, inst\u00e2ncia coercitiva do Eu diante das demandas do Isso e mediadora entre o Eu a cultura.<\/p>\n<p>O que \u00e9 um complexo para a psican\u00e1lise? Freud elencou diversos: o complexo de desmame, o paterno, o materno, o da excre\u00e7\u00e3o, o de \u00c9dipo, o de castra\u00e7\u00e3o <em>etc<\/em>. A primeira teoria etiol\u00f3gica sobre as neuroses se encontra na \u201cComunica\u00e7\u00e3o Preliminar\u201d dos Estudos sobre a Histeria e pode ser resumida pela seguinte senten\u00e7a: <em>os neur\u00f3ticos sofrem de reminisc\u00eancias<\/em> (Cf. FREUD, 2016\/1893-95, p. 21)<em>.<\/em> Freud havia verificado que a ab-rea\u00e7\u00e3o de um afeto associado a uma mem\u00f3ria patog\u00eanica (lembran\u00e7a) dissolvia o sintoma. Tal mem\u00f3ria \u00e9 como um corpo estranho cuja penetra\u00e7\u00e3o fora efetuada no passado, mas que se comporta como um agente no presente (Cf. FREUD, op. cit., p. 20). Era o momento da teoria do trauma. Mais tarde, Freud acrescentar\u00e1 o fator \u201cpredisposi\u00e7\u00e3o. Esses sujeitos t\u00eam uma predisposi\u00e7\u00e3o de se traumatizarem, produzindo assim novos sintomas decorrentes de processos ps\u00edquicos estruturados pela introje\u00e7\u00e3o de valores sociais conflituosos com a demanda pulsional. Esses processos ps\u00edquicos s\u00e3o regidos por um ou mais tipos de defesas, das quais Lacan isolou tr\u00eas tipos determinantes da estrutura do sujeito: a nega\u00e7\u00e3o, a denega\u00e7\u00e3o e a forclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Do que os sujeitos se defendem? Os sujeitos se defendem primordialmente de duas coisas: 1) as mem\u00f3rias patog\u00eanicas (representa\u00e7\u00f5es) e; 2) as puls\u00f5es.<\/p>\n<p>Mais tarde, o progresso da terapia psicanal\u00edtica mostrou que n\u00e3o se tratava de uma mem\u00f3ria, mas de um complexo de mem\u00f3rias, de inscri\u00e7\u00f5es e reinscri\u00e7\u00f5es de acontecimentos. Essas mem\u00f3rias patog\u00eanicas infiltradas infectavam outras, por associa\u00e7\u00e3o de continuidade, de vizinhan\u00e7a e de semelhan\u00e7a, produzindo assim <em>complexos de lembran\u00e7as patog\u00eanicas<\/em>. Dois grandes complexos de mem\u00f3rias foram descritos por Freud, onde podem residir conflitos, o complexo de \u00c9dipo, momento em que o sujeito se confronta com o desejo do Outro, e o complexo de Castra\u00e7\u00e3o, momento em que o sujeito se confronta com a diferen\u00e7a sexual.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma doutrina que visa uma apologia ao \u00c9dipo e ao falo. Muito pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma experi\u00eancia que tem como objetivo as suas respectivas dissolu\u00e7\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 o Outro (do \u00c9dipo) e n\u00e3o h\u00e1 objeto primordial (o falo) que possa reparar a falta ou tamponar o furo do Outro. A cren\u00e7a no Outro e no falo \u00e9 o n\u00facleo das neuroses para Freud: \u201co complexo de \u00c9dipo \u00e9 considerado, com raz\u00e3o, o n\u00facleo das neuroses\u201d (FREUD, 2014, p. 363). O patriarcado e o falocentrismo s\u00e3o precisamente localizados na fixa\u00e7\u00e3o dos sujeitos nesses dois complexos, respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o da neurose e, principalmente, a forma\u00e7\u00e3o dos sintomas.<\/p>\n<p>As especula\u00e7\u00f5es evolucionistas de Freud visando explicar a repeti\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica dessas estruturas sociais foram baseadas na teoria biogen\u00e9tica de Haeckel sobre as recapitula\u00e7\u00f5es morfol\u00f3gicas dos organismos, identificadas pela express\u00e3o freudiana \u201ca ontog\u00eanese recapitula a filog\u00eanese\u201d. Na minha opini\u00e3o, se tratava de uma tentativa heur\u00edstica em explicar a repeti\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es na cultura, por exemplo, o patriarcado. Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil dissolver a cren\u00e7a no Pai todo poderoso? Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil desalojar essa cren\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es? O mito freudiano, baseado nas divaga\u00e7\u00f5es de Darwin em \u201cA descend\u00eancia do Homem\u201d, do qual Freud conclui que os totens s\u00e3o as representa\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas da introje\u00e7\u00e3o de um pai primitivo assassinado, em torno do qual se organizam as rela\u00e7\u00f5es dos cl\u00e3s e das fam\u00edlias, \u00e9 uma hip\u00f3tese (poss\u00edvel de ser falseada), mas constru\u00edda por Freud a partir do estado da ci\u00eancia do seu tempo. Critic\u00e1-lo pelo uso da teoria da recapitula\u00e7\u00e3o \u00e9 tomar uma posi\u00e7\u00e3o anacr\u00f4nica e descontextualizada. Conforme Stephen Hawking (2015, p. 21) &#8220;uma boa teoria deve satisfazer a dois requisitos: precisa descrever com precis\u00e3o um n\u00famero razo\u00e1vel de observa\u00e7\u00f5es, com base em um modelo que contenha poucos elementos arbitr\u00e1rios; e deve prever com boa margem de defini\u00e7\u00e3o, resultados de observa\u00e7\u00f5es futuras&#8221;. Naquele contexto, o uso da teoria da recapitula\u00e7\u00e3o para explicar o patriarcado descrevia com precis\u00e3o um n\u00famero razo\u00e1vel de observa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas para Freud, e explicava a recapitula\u00e7\u00e3o de uma estrutura elementar do parentesco.<\/p>\n<p>Essa propriedade de resist\u00eancia do patriarcado n\u00e3o seria hoje representada pelo \u00eaxito do projeto neopentecostal de domina\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es do Estado, denominado de <em>teologia do dom\u00ednio<\/em>? Essa teoria de Freud n\u00e3o nos permitiria compreender as causas do avan\u00e7o da religi\u00e3o, prevendo com boa margem os acontecimentos contempor\u00e2neos? A cruzada religiosa sobre o Estado Brasileiro, a ascens\u00e3o do nacionalismo (Brasil acima de tudo), a apologia ao patriarcado (Deus acima de todos), a escalada do sexismo (ataque as minorias sexuais), o desvelamento escancarado do racismo estrutural, em geral s\u00e3o interpretados por alguns psicanalistas por meio da teoria da identifica\u00e7\u00e3o e da recapitula\u00e7\u00e3o de Freud. Entendemos por recapitula\u00e7\u00e3o a repeti\u00e7\u00e3o de um passado remoto, no sentido em que alguns cientistas sociais apresentam tais fen\u00f4menos como um retorno do passado, um passado recapitulado.<\/p>\n<p>O patriarcado e o falocentrismo s\u00e3o estruturantes na nossa sociedade e, por conseguinte, para os sujeitos. Nesse sentido, a dissolu\u00e7\u00e3o do rep\u00fadio ao feminino na experi\u00eancia psicanal\u00edtica, express\u00e3o cunhada por Adler e adotada por Freud, \u00e9 uma das \u00faltimas cidadelas a ser conquistada em uma an\u00e1lise, o ponto de chegada, considerado por muitos psicanalistas, como uma das portas de sa\u00edda definitiva da neurose. Assim, podemos afirmar que o patriarcado e falocentrismo s\u00e3o alguns dos obst\u00e1culos a serem superados pelo falasser na experi\u00eancia da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>O texto de Cristina Buarque toca esse ponto e, talvez, seria adequado tratar o patriarcado como a estrutura elementar do sexismo. Na verdade, atacar e eliminar o patriarcado \u00e9 destruir o pilar central da cultura judaico-crist\u00e3. O decl\u00ednio do patriarcado \u00e9 uma consequ\u00eancia para cada analisante na experi\u00eancia da psican\u00e1lise, denominado de queda do Outro, cujo solu\u00e7\u00e3o se realizada definitivamente na dissolu\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia e na sa\u00edda de an\u00e1lise por meio do tratamento do gozo.<\/p>\n<p>Lacan destacou o poder da religi\u00e3o em uma entrevista em Roma. \u201cA religi\u00e3o n\u00e3o triunfar\u00e1 apenas sobre a psican\u00e1lise, triunfar\u00e1 sobre muitas outras coisas tamb\u00e9m. \u00c9 imposs\u00edvel imaginar qu\u00e3o poderosa \u00e9 a religi\u00e3o [&#8230;] A ci\u00eancia \u00e9 novidade, e introduzir\u00e1 um monte de coisas perturbadoras na vida de todos. [&#8230;] [a religi\u00e3o vai] dar um sentido a todas as reviravoltas introduzidas pela ci\u00eancia\u201d (LACAN, 2005, p. 65). N\u00e3o \u00e9 justamente isso que assistimos hoje, uma batalha entre ci\u00eancia e religi\u00e3o?<\/p>\n<p>Cristina Buarque apresenta um breve hist\u00f3rico dos movimentos feministas. Destaca que as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es feministas ocorreram na Fran\u00e7a durante a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, que tem como um dos principais nomes Olympe de Gouges (1748-1793), pseud\u00f4nimo de Marie Gouze, mulher feminista que escreveu a Declara\u00e7\u00e3o de Direitos da Mulher e da Cidad\u00e3 em 1791. De Gouges era companheira de Sophie de Condorcet e foi guilhotinada pelos Jacobinos devido aos seus escritos e atitudes pioneiras. Cristina nos apresenta em seu texto uma cr\u00edtica \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o francesa: liberdade, fraternidade e igualdade para os homens, mas n\u00e3o para as mulheres. Assim, Olympe de Gouges ao defender o direito das mulheres se torna a oposi\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o, acabando por se aproximar tamb\u00e9m do outro lado do espectro pol\u00edtico da revolu\u00e7\u00e3o, os girondinos.<\/p>\n<p>\u00c9 indiscut\u00edvel a domin\u00e2ncia masculina secular na nossa sociedade, a opress\u00e3o, a recusa e a segrega\u00e7\u00e3o do feminino nas institui\u00e7\u00f5es e na sociedade. A breve hist\u00f3ria dos movimentos feministas trazidas por Cristina me remeteu a esse termo, estrutura, para definir a indestrutibilidade do poder p\u00e1trio e androc\u00eantrico. Nesse sentido, pergunto se n\u00e3o seria adequado descrever essa m\u00e1quina segregativa do feminino como um sexismo estrutural?<\/p>\n<p>Em um dos textos fundamentais nos estudos feministas, o cl\u00e1ssico \u201cTr\u00e1ficos de mulheres (1975) de Gayle Rubin, encontramos uma cr\u00edtica sobre as explica\u00e7\u00f5es e as a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de afirma\u00e7\u00f5es feministas nos anos 70. Na \u00e9poca, Rubin apresentou tr\u00eas teorias populares que ainda hoje explicam a g\u00eanese da desigualdade sexual: 1\u00aa) a opress\u00e3o das mulheres decorre da agress\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o de uma masculinidade inata, logo o programa feminista deveria eliminar o sexo agressor ou implementar um projeto eug\u00eanico de modifica\u00e7\u00e3o do seu car\u00e1ter; 2\u00ba) o sexismo \u00e9 produto do capitalismo, assim uma revolu\u00e7\u00e3o socialista implicaria no desaparecimento da desigualdade, onde o trabalho dom\u00e9stico \u00e9 um elemento chave do processo de reprodu\u00e7\u00e3o do trabalhador de quem se expropria a mais-valia. Como s\u00e3o as mulheres que fazem o trabalho dom\u00e9stico, portanto, elas tamb\u00e9m se encontram na cadeia do processo de expropria\u00e7\u00e3o da for\u00e7a do trabalhador e; 3\u00ba) a derrota das mulheres, em \u00e2mbito global, \u00e9 decorrente de uma revolta armada patriarcal; tratar-se ent\u00e3o de convocar guerrilheiras amaz\u00f4nicas para depor o patriarcado (RUBIN, 2018, p. 14). Temos a\u00ed tr\u00eas teorias explicativas sobre a opress\u00e3o das mulheres: a primeira ressalta um machismo inerente ao homem; na segunda, a submiss\u00e3o das mulheres \u00e9 decorrente dos processos capitalistas; e na terceira, a opress\u00e3o feminina \u00e9 decorrente do patriarcado.<\/p>\n<p>Cristina ressalta pelo menos duas dessas teorias, a primeira e a terceira. Na primeira, se trata de um projeto eug\u00eanico: ensinar ou modificar o car\u00e1ter dos homens visando com que renunciem o poder e os privil\u00e9gios em torno do sexo. J\u00e1 a terceira teoria atravessa todo o seu texto. Cristina conclui que uma condi\u00e7\u00e3o <em>sine qua non<\/em> para construir igualdades, que inclua o debate da sexua\u00e7\u00e3o, tema desta jornada, \u00e9 reafirmar uma posi\u00e7\u00e3o feminista antipatriarcal. De certa forma, essa posi\u00e7\u00e3o toca diretamente a quest\u00e3o da sexua\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que para Lacan, a posi\u00e7\u00e3o dita masculina, a do homem, inclui o Outro da exce\u00e7\u00e3o, ilustrado por Freud pelo Pai de uma horda primitiva e escrito logicamente por Lacan (existe um <em>x<\/em> que n\u00e3o responde \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, \u03a6<em>x<\/em>) como o elemento da exce\u00e7\u00e3o que funda n\u00e3o s\u00f3 a ideia de Deus, mas tamb\u00e9m de A mulher (com A mai\u00fasculo). A ideia da mulher-toda \u00e9 ilustrada na entrevista de Andreina Gama quando menciona a <em>ditadura do feminino<\/em>, que pode ser traduzido como a ditadura d\u2019A mulher (ter peitos, quadris largos <em>etc<\/em>.). Trata-se d\u2019A mulher como exce\u00e7\u00e3o, como Ideal. O que ela nos traz \u00e9 que essa l\u00f3gica produz estragos e que o elemento da exce\u00e7\u00e3o para a psican\u00e1lise est\u00e1 no campo do masculino. Um par\u00eantese. \u00c9 importante destacar que tanto homem e mulher como masculino e feminino se tratavam para Lacan de identidades de g\u00eanero:<\/p>\n<blockquote><p>O importante \u00e9 isto: a identidade de g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o o que acabo de expressar com estes termos, &#8220;homem&#8221; e &#8220;mulher&#8221; [&#8230;]. Para compreender a \u00eanfase depositada nessas coisas, nesse caso, \u00e9 preciso nos darmos conta de que o que define o homem \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com a mulher, e vice-versa (LACAN, 2009, p. 30)<\/p><\/blockquote>\n<p>Trata-se a\u00ed de uma l\u00f3gica bin\u00e1ria introduzida pelo discurso do Outro. Lacan ir\u00e1 isolar o gozo suplementar, parte do gozo feminino, que propicia, logicamente, a sa\u00edda do binarismo e a abertura para o infinito, para o m\u00faltiplo, ilustrado atualmente pela sigla LGBTQIA+ e pelo termo <em>Queer<\/em>.<\/p>\n<p>Minha pergunta final \u00e9 sobre o Outro da exce\u00e7\u00e3o, sobre A mulher, sobre Deus. Lacan fez desse ideal de mulher um outro nome de Deus. Destituir o que Andreina Gama denomina de ditadura do feminino, o ideal d\u2019A mulher \u00e9 destruir Deus. Podemos ent\u00e3o formular a seguinte quest\u00e3o: um feminismo antipatriarcal n\u00e3o seria um feminismo antirreligioso? N\u00e3o seria isso o que a Igreja denominou na Idade M\u00e9dia de pacto das mulheres com o dem\u00f4nio, um ataque ao Pai?<\/p>\n<p>Assistimos hoje o avan\u00e7o do poder pastoral como representa\u00e7\u00e3o do p\u00e1trio poder. Esse \u00e9 um projeto que data os anos 1950, um projeto que nasce de uma renova\u00e7\u00e3o pentecostal, denominado por alguns autores de \u201cTeologia do Dom\u00ednio\u201d. Esse projeto de ocupa\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es do Estado pelos religiosos, com o objetivo de promover em parte a corre\u00e7\u00e3o das leis conforme as sagradas escrituras, nasceu concomitantemente com os movimentos feministas dos anos 1970. Por um lado, assistimos o avan\u00e7o dos movimentos das minorias, alavancados pelo paradigma do movimento feminista. Por outro, o avan\u00e7o do poder p\u00e1trio, realizado no Brasil principalmente pelos movimentos neopentecostais e cat\u00f3licos. Os movimentos feministas antipatriarcais exigir\u00e3o necessariamente uma mudan\u00e7a de interpreta\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o judaico-crist\u00e3. Eles encontram sempre a Igreja como um obst\u00e1culo, pois na sua base est\u00e1 a ideia do Pai todo poderoso.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/h6>\n<h6>ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. S\u00e3o Paulo: Sueli Carneiro; Editora Janda\u00edra, 2020.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. O desenvolvimento da libido e as organiza\u00e7\u00f5es sexuais. <em>In<\/em>. <em>Confer\u00eancias Introdut\u00f3rias \u00e0 Psican\u00e1lise.<\/em> Obras Completas, v. 13. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 344-365.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. Sobre o mecanismo ps\u00edquico dos fen\u00f4menos hist\u00e9ricos. <em>In. Estudos sobre a histeria <\/em>(1893-95). Obras Completas, v. 2. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 16-32.<\/h6>\n<h6>HAWKING, Stephen. Uma breve hist\u00f3ria do tempo. Rio de Janeiro: Intr\u00ednseca, 2015.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio, livro 1: Os escritos t\u00e9cnicos de Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed., 1985. (Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller)<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio, livro 18: de um discurso que n\u00e3o fosse de semblante. <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. (Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller)<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <em>O triunfo da religi\u00e3o, precedido de O discurso aos cat\u00f3licos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. (Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller)<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. Os complexos familiares na forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. <em>In.<\/em> <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro:\u00a0 Jorge Zahar Ed., 2003, p. 29-90. (Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller)<\/h6>\n<h6>RUBIN, Gayle. O tr\u00e1fico de mulheres. <em>In.<\/em> <em>Pol\u00edticas do sexo.<\/em> S\u00e3o Paulo: UBU, 2018.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luis Francisco Camargo O termo \u201cracismo estrutural\u201d est\u00e1 em voga. Para Silvo de Almeida, \u201c[&#8230;] o racismo \u00e9 uma decorr\u00eancia da pr\u00f3pria estrutura social, ou seja, do modo \u201cnormal\u201d com que se constituem as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas, jur\u00eddicas e at\u00e9 familiares [&#8230;]. O racismo \u00e9 estrutural. 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