{"id":2792,"date":"2022-03-18T17:40:59","date_gmt":"2022-03-18T20:40:59","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=2792"},"modified":"2022-03-18T17:40:59","modified_gmt":"2022-03-18T20:40:59","slug":"do-desenho-ao-corpo-uma-licao-sobre-o-enigma-da-sexuacao-em-laerte-se","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/do-desenho-ao-corpo-uma-licao-sobre-o-enigma-da-sexuacao-em-laerte-se\/","title":{"rendered":"Do desenho ao corpo: uma li\u00e7\u00e3o sobre o enigma da sexua\u00e7\u00e3o em Laerte-se"},"content":{"rendered":"<h6>Karynna M. B da N\u00f3brega<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/h6>\n<blockquote><p>Eu n\u00e3o me considerava mais algu\u00e9m dentro da linguagem masculina. Laerte<\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Boletim-10.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2794\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Boletim-10-1024x681.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"399\" \/><\/a>O document\u00e1rio Laerte-se (2020), dirigido por Lydia Barbosa da Silva e Eliane Brum, em 1h e 40 minutos, exibe como a cartunista e chargista Laerte Coutinho tornou-se uma mulher, depois de cinco d\u00e9cadas como homem. Na primeira tomada de cena, Laerte apresenta uma vacila\u00e7\u00e3o em aceitar ou n\u00e3o fazer o document\u00e1rio, menciona n\u00e3o se sentir pronta. A diretora e roteirista prop\u00f5e um outro lugar para a realiza\u00e7\u00e3o da filmagem, para que haja o document\u00e1rio. Esse \u00e9 constru\u00eddo entre conversas, troca de olhares, desenhos, fotografias e sil\u00eancios.<\/p>\n<p>Circulando pela pr\u00f3pria casa, do sof\u00e1 da sala de estar \u00e0 cozinha e nos espa\u00e7os fora de casa, Laerte nos convida a conhecer o seu infinito particular. Interpreta que a morte do filho, foi uma fa\u00edsca para o in\u00edcio da transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. Menciona que vive a mudan\u00e7a corporal de uma maneira alegre, diferente de outros casos de trans que s\u00e3o marcados segundo ela, por uma afli\u00e7\u00e3o para com o corpo. Fala que contou com o apoio da fam\u00edlia e do Outro social. A m\u00e3e recebeu a not\u00edcia com humor, ofereceu saias se ela quisesse usar. Laerte desconfia que a m\u00e3e n\u00e3o entende o processo, j\u00e1 que ela \u00e9 bi\u00f3loga e a concep\u00e7\u00e3o de vida para a biologia segue uma outra l\u00f3gica. Diz que os filhos t\u00eam uma boa cabe\u00e7a, e a partir de um combinado com o filho, permite que o neto continue a chamando de vov\u00f4, tamb\u00e9m a manicure continua se referindo a ela, no g\u00eanero masculino e ela aceita.<\/p>\n<p>No document\u00e1rio, Laerte ora fala, ora desenha, exp\u00f5e as produ\u00e7\u00f5es e inven\u00e7\u00f5es, menciona como se d\u00e1 o processo criativo, como cuida do corpo de mulher fazendo as unhas, maquiando-se, provando vestidos, ela trabalha, cuida da casa, vai ao casamento da filha, a casa do filho, brinca com o neto e com os gatos. Enfim, mostra a rotina e o cotidiano com simplicidade e alegria. Com Laerte, a transi\u00e7\u00e3o se iniciou com a transforma\u00e7\u00e3o do personagem Hugo em Muriel, depois com o uso de roupas e acess\u00f3rios femininos que aconteciam nos finais de semana. Em seguida com a retirada dos p\u00ealos das pernas. Diante da nova imagem no espelho, experimentou uma sensa\u00e7\u00e3o genu\u00edna de alegria, e leveza. Ao tornar-se mulher: pulou de alegria.<\/p>\n<p>Laurent (2021) na confer\u00eancia proferida no ENAPOL- intitulada<em>: A promessa do novo no amor <\/em>\u00a0menciona a orienta\u00e7\u00e3o e indica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica dada por Miller de que esse ano fosse dedicado ao Trans. Revela que h\u00e1 um modo espec\u00edfico do gozo trans. Cito: \u201c&#8230;H\u00e1 uma paix\u00e3o pela autodetermina\u00e7\u00e3o do sexo, paix\u00e3o pelo <em>self made<\/em>, pela mudan\u00e7a, pela revers\u00e3o da mudan\u00e7a e querem inscrever esta possibilidade nas leis que permitem a mudan\u00e7a de estado civil, sem necessariamente acompanh\u00e1-la de um tratamento hormonal-cir\u00fargico&#8230;\u201d Com isso, Laurent esclarece a dimens\u00e3o do gozo da mudan\u00e7a. Na l\u00edngua portuguesa o prefixo trans indica o al\u00e9m de, o para al\u00e9m de, que remete a uma transi\u00e7\u00e3o, uma mudan\u00e7a por um lado e por outro remete a uma ultrapassagem de limite, a passagem para o outro lado.<\/p>\n<p>Em Laerte percebemos esse encantamento pela mudan\u00e7a, alegria e entusiasmo vivenciado por ela diante da nova imagem no espelho. No document\u00e1rio menciona que n\u00e3o fez terapia hormonal, nem cirurgia, contudo, \u00a0as vezes pensa em colocar peitos, n\u00e3o mudou o nome pr\u00f3prio e se nomeia como sendo uma mulher trans. Cada vez mais se sente uma mulher.<\/p>\n<p>Miller (2010, p.16) em <em>Mulheres<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><em> e semblantes <\/em>esclarece que: \u201c&#8230;s\u00e3o as mulheres que lembram aos homens que s\u00e3o enganados pelo semblante e que as mulheres s\u00e3o aquelas que s\u00e3o mais pr\u00f3ximas do real. \u201d As mulheres revelam que o falo n\u00e3o \u00e9 todo, h\u00e1 um gozo outro, al\u00e9m do falo.<\/p>\n<p>Em <em>Sobre a cl\u00ednica do corpo falante: sexua\u00e7\u00e3o, diferen\u00e7a sexual e rela\u00e7\u00e3o sexual<\/em>, revisitando Freud, Lacan e Miller, Santiago (2021) nos alerta sobre a quest\u00e3o do g\u00eanero e indica que tem rela\u00e7\u00e3o com o uso dos semblantes ofertados pela cultura e com o modo de gozar do <em>falasser,<\/em> efeito da resson\u00e2ncia da l\u00edngua que toca o corpo.<\/p>\n<p>Para Lacan em <em>O pior (2012)<\/em> gozar \u00e9 usufruir de um corpo e que, gra\u00e7as a marca deixado pelo significante que nos tornamos sexuados. Ao problematizar a dimens\u00e3o do gozo feminino se servindo da l\u00f3gica matem\u00e1tica e da filosofia, nomeia o gozo feminino como sendo duplo, uma dimens\u00e3o n\u00e3o toda sujeita a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, ou seja, relacionando para uma dimens\u00e3o significante e outra da puls\u00e3o (p.101). Assim, o modo de gozo feminino est\u00e1 para al\u00e9m da l\u00f3gica edipiana, escapa a significa\u00e7\u00e3o e remete a um saber fazer com o vazio. Em M<em>ais ainda <\/em>(1985) problematizou os modos de gozar apresentando uma distin\u00e7\u00e3o entre o gozo f\u00e1lico, que toca no significante e o gozo n\u00e3o todo f\u00e1lico, como sendo da ordem do Um: um saber fazer com o real.<\/p>\n<p>O que o document\u00e1rio Laerte-se ensina sobre o enigma da sexua\u00e7\u00e3o? Vimos que a transi\u00e7\u00e3o se deu a partir do personagem Hugo que se tornou Muriel, e do uso das vestes e roupas e acess\u00f3rios femininos. Primeiro foram as roupas, depois a retirada dos p\u00ealos, o despertar da nova imagem diante do espelho, a alegria e leveza diante da liberdade de ser mulher. A linguagem, a obra, o nome, o corpo e a casa s\u00e3o percebidos por ela como uma inadequa\u00e7\u00e3o. Metaforicamente diz que se serve das gambiarras. Laerte nos ensina que diante desse confronto com o real do sexual \u00e9 imposs\u00edvel tirar o corpo fora, mas que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. O que \u00e9 ser mulher? \u00c9 ter ou n\u00e3o ter peito? \u00c9 ter um nome? \u00c9 n\u00e3o ter p\u00eanis? O <em>falasser<\/em> encontra solu\u00e7\u00e3o singular para lidar com o gozo do Um, mostrando como cada um na sua singularidade possui um modo de gozar que n\u00e3o corresponde a dimens\u00e3o de uma\u00a0 normativa. Nas palavras da Laerte: \u201cA vida humana \u00e9 para ser boa, independente do g\u00eanero.\u201d<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:\u00a0 <\/strong><\/h6>\n<h6>SANTIAGO, J (2021) <strong>Sobre a cl\u00ednica do corpo falante: sexua\u00e7\u00e3o, diferen\u00e7a sexual e rela\u00e7\u00e3o sexual <\/strong>Em:<strong>\u00a0 <\/strong>https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2021\/sobre-a-clinicado-corpo-falante-sexuacao-diferenca-sexual-e-relacao-sexual\/<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0 (1985) <strong>O semin\u00e1rio Mais ainda<\/strong> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0 (2012) <strong>O semin\u00e1rio, livro 19&#8230;o pior<\/strong> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. (2021) Confer\u00eancia: <strong>A promessa do novo no amor<\/strong> apresentada durante o ENAPOL-\u00a0 <strong>O novo no amor. Modalidades contempor\u00e2neas dos la\u00e7os\u201d<\/strong> nos dias 8, 9 e 10 de outubro.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A <strong>Mulheres e Semblantes II <\/strong>Revista Op\u00e7\u00e3o Lacaniana Online n\u00ba 01 mar\u00e7os 2010 ISSN2177-2673 Em:\u00a0 http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_1\/mulheres_e_semblantes_ii.pdf<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Correspondente da Se\u00e7\u00e3o Nordeste- EBP. Professora Adjunta da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) Pesquisadora do Laborat\u00f3rio de Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (LAPSO\/ UFCG) Participante do observat\u00f3rio inf\u00e2ncias- FAPOL<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Em psican\u00e1lise h\u00e1 uma distin\u00e7\u00e3o entre o feminino e a mulher, o primeiro remete ao modo de gozo espec\u00edfico que se situa para al\u00e9m do falo.<sub>\u00a0 <\/sub><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karynna M. B da N\u00f3brega[1] Eu n\u00e3o me considerava mais algu\u00e9m dentro da linguagem masculina. Laerte O document\u00e1rio Laerte-se (2020), dirigido por Lydia Barbosa da Silva e Eliane Brum, em 1h e 40 minutos, exibe como a cartunista e chargista Laerte Coutinho tornou-se uma mulher, depois de cinco d\u00e9cadas como homem. 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