{"id":2657,"date":"2021-10-28T09:08:17","date_gmt":"2021-10-28T12:08:17","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=2657"},"modified":"2021-10-28T09:08:17","modified_gmt":"2021-10-28T12:08:17","slug":"reflexoes-sobre-o-alem-do-principio-do-prazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/reflexoes-sobre-o-alem-do-principio-do-prazer\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es sobre o \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d"},"content":{"rendered":"<h6>S\u00e9rgio de Campos<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2658\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/litoraneo006_002.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"281\" \/><\/p>\n<p>No ano de 1920, ou seja, h\u00e1 pouco mais de cem anos, Freud provoca uma guinada na compreens\u00e3o do funcionamento do aparelho ps\u00edquico. At\u00e9 ent\u00e3o, ele considerava a d\u00edade prazer-desprazer, de modo que o sujeito evitava o desprazer e buscava, com ajuda do analista, reencontrar seu prazer de viver. Entretanto, o novo modelo de compreens\u00e3o contradiz o princ\u00edpio do prazer, visto que a cl\u00ednica evidencia sujeitos que n\u00e3o suportam serem aliviados de seus sofrimentos e t\u00eam reca\u00eddas, quando deveriam apresentar melhoras. Com base nisso, surgem as quest\u00f5es: por que alguns sujeitos reproduzem as experi\u00eancias traum\u00e1ticas e como explicar o masoquismo e o sadismo? Afinal, de onde vem a auto-destrutividade presente em grande parte dos pacientes?<\/p>\n<p>Nessa obra, Freud indaga o porqu\u00ea de o prazer e o desprazer atuarem sobre n\u00f3s de maneira t\u00e3o imperativa. Ele afirma que essa \u00e9 uma quest\u00e3o obscura, nebulosa e inacess\u00edvel. Todavia, nessa investiga\u00e7\u00e3o, o prazer e o desprazer s\u00e3o relacionados \u00e0 excita\u00e7\u00e3o, embora n\u00e3o vinculados e em uma suposta escala, de forma que o primeiro corresponde \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o da excita\u00e7\u00e3o e o segundo ao aumento da quantidade dessa, em um per\u00edodo de tempo espec\u00edfico, o que implica um determinado sentimento.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> Em suma, se, por um lado, o prazer gera uma estabilidade no aparelho mental; por outro, o desprazer suscita uma instabilidade, embora uma estimula\u00e7\u00e3o possa elevar o prazer de modo a aproxim\u00e1-lo a uma excita\u00e7\u00e3o completa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por uma finalidade econ\u00f4mica, o prazer se esfor\u00e7a para manter uma excita\u00e7\u00e3o t\u00e3o baixa quanto poss\u00edvel, de sorte que Freud o designou como decorrente do princ\u00edpio de const\u00e2ncia.\u00a0O princ\u00edpio do prazer est\u00e1 relacionado ao princ\u00edpio de perman\u00eancia no aparelho mental, cuja estabilidade opera como uma for\u00e7a reguladora de equil\u00edbrio, na medida em que a excita\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m constantemente em baixa, denotando uma economia de energia ps\u00edquica. Portanto, esse princ\u00edpio de const\u00e2ncia tem um efeito regulador contra o excesso, contra o gozo. Ent\u00e3o, qualquer aumento s\u00fabito e excessivo de excita\u00e7\u00e3o \u00e9 experimentado como adverso e, portanto, sentido como um misto de agrad\u00e1vel e desagrad\u00e1vel, de maneira concomitante, denotando o que poder\u00edamos designar de gozo. Freud busca esclarecer e distinguir as rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas e complexas entre o que denota o substantivo <em>genuss<\/em>, prazer extremo e excessivo que poder\u00edamos traduzir como gozo, e a palavra alem\u00e3 <em>lust,<\/em> que pode ser traduzida por prazer. Ademais, temos ainda o termo <em>unlust,<\/em> que \u00e9 o ant\u00f4nimo de <em>lust <\/em>e significa desprazer.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio do prazer tende ao princ\u00edpio de const\u00e2ncia que gera estabilidade, mas permite uma certa grada\u00e7\u00e3o quando o prazer se intensifica ami\u00fade. Assim, uma vez alcan\u00e7ado certo limite e ultrapassando-o, o aparelho mental se desvia dessa estabilidade, atingindo uma instabilidade. Ocorre que a margem de limite entre o m\u00e1ximo de estabilidade e o in\u00edcio da instabilidade n\u00e3o \u00e9 precisa. Logo, deduzimos que essa zona de sombra, pouco demarcada, \u00e9 onde se manifesta o fim do princ\u00edpio do prazer e o in\u00edcio do mais al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer, expresso como gozo, seja por um excesso de prazer que se mescla com o desprazer ou por algo que se manifesta essencialmente como um desprazer e \u00e9 experimentado, paradoxalmente, no masoquismo, como prazer.<\/p>\n<p>Pode-se aludir a um carro esporte em uma pista de corrida, na qual se experimenta a estabilidade em sua pot\u00eancia m\u00e1xima em raz\u00e3o da velocidade alcan\u00e7ada, at\u00e9 o momento em que ele subitamente perde a estabilidade e ganha uma total instabilidade. Esse ponto limite, pouco claro entre a estabilidade e a instabilidade do carro, depende do ve\u00edculo e das condi\u00e7\u00f5es externas, como a pista, o tempo, o \u00e2ngulo da curva, etc. Poder\u00edamos, por isso, questionar se condi\u00e7\u00f5es externas tamb\u00e9m influenciariam o aparelho ps\u00edquico.\u00a0O que se conclui \u00e9 que n\u00e3o existe margem de seguran\u00e7a para o gozo que ocorre no al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer, pois o seu limite \u00e9 sempre obscuro<em>.<\/em><\/p>\n<p>Pode-se destacar que h\u00e1 uma tend\u00eancia ao princ\u00edpio do prazer, embora essa inclina\u00e7\u00e3o seja contrariada por outras for\u00e7as e circunst\u00e2ncias, de modo que nem sempre o resultado final se mostre nessa dire\u00e7\u00e3o.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0A experi\u00eancia evidencia que o princ\u00edpio do prazer n\u00e3o domina os processos mentais e que ele at\u00e9 mesmo est\u00e1 em desvantagem em rela\u00e7\u00e3o ao al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer, que se manifesta, no fundo, de maneira dominante.<\/p>\n<p>Freud enumera v\u00e1rios elementos que inibem o princ\u00edpio do prazer, entre eles, o principal \u00e9 o princ\u00edpio de realidade. A autopreserva\u00e7\u00e3o diante do mundo externo \u00e9 o que substitui o princ\u00edpio do prazer pelo princ\u00edpio de realidade. No entanto, o princ\u00edpio de realidade n\u00e3o desiste da inten\u00e7\u00e3o de obter prazer, mas apenas aceita o adiamento da satisfa\u00e7\u00e3o, mediante o recalque, a sublima\u00e7\u00e3o, o abandono de uma s\u00e9rie de possibilidades, com a finalidade de, mais tarde, alcan\u00e7ar um prazer melhor, mais adequado e duradouro. Por \u00faltimo, \u00e9 necess\u00e1rio assinalar a toler\u00e2ncia tempor\u00e1ria ao desprazer como uma etapa no longo caminho pela busca do prazer. Ademais, o recalque pode transformar, por invers\u00e3o, o princ\u00edpio do prazer em desprazer, como nos casos de nojo e asco referidos \u00e0 sexualidade. Temos, ainda, como motivo do desprazer, puls\u00f5es inibidas, sublimadas e insatisfeitas.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2655\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/litoraneo006_003.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"281\" \/>A repeti\u00e7\u00e3o como brincadeira<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>\u00c9 no cap\u00edtulo II do texto <em>Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer <\/em>que Freud nos oferece um luminoso exemplo, no qual a repeti\u00e7\u00e3o aparece encoberta quando ele descreve o seu netinho, que brinca de maneira perturbadora, atirando objetos ao longe antes que algu\u00e9m possa impedi-lo. A crian\u00e7a, entusiasmada, emite um som, um fonema, como <em>ooooh<\/em>, que poderia ser entendido como <em>fort, <\/em>do alem\u00e3o, \u201cvai embora\u201d. Em seguida, em outro momento, a crian\u00e7a se diverte com um carretel atado a um barbante, arremessando-o sobre a borda de sua caminha e o fazendo desparecer por entre as cortinas, ao mesmo tempo em que emite o expressivo<em> ooooh<\/em>. Depois, puxa o carretel pelo cord\u00e3o e o sa\u00fada alegremente com a express\u00e3o <em>da<\/em>, \u201cal\u00ed\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>\ufffc.<\/p>\n<p>Freud verifica que a crian\u00e7a, a partir do jogo com o carretel, renuncia \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o ocasionada pela partida da m\u00e3e, sem protestar. Certamente, a crian\u00e7a sentira um desprazer com a partida materna, mas o sofrimento fora deslocado enquanto jogo, de sorte que ela possa conform\u00e1-lo ao princ\u00edpio do prazer. Contudo, o primeiro ato de arremessar o carretel tem um valor maior do que os dois atos agora integrados, com o final agrad\u00e1vel, visto que ele \u00e9 um \u00edndice de separa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do sujeito com o Outro<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a, ao arremessar o objeto, realiza a ren\u00fancia da puls\u00e3o, na medida em que ela encena a partida da m\u00e3e, com fins de alcan\u00e7ar o seu retorno, que agora est\u00e1 sob seu controle. Ademais, Freud detecta a compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o como um fen\u00f4meno infantil conexo ao princ\u00edpio do prazer e ao tratamento psicanal\u00edtico, embora a repeti\u00e7\u00e3o como evento cl\u00ednico possa se manifestar quase sempre coerente ao desprazer, como algo derivado da puls\u00e3o de morte, que dispensa o princ\u00edpio do prazer. As crian\u00e7as s\u00e3o capazes de repetir uma experi\u00eancia desagrad\u00e1vel na brincadeira, porque a repeti\u00e7\u00e3o traz consigo uma produ\u00e7\u00e3o de prazer de outro tipo, mais direta no que tange a passagem do al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer ao dom\u00ednio do princ\u00edpio do prazer.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Algumas crian\u00e7as, inclusive o neto de Freud, permanecem apenas no primeiro movimento, o de arremessar os objetos como manifesta\u00e7\u00e3o de raiva e \u00edndice de separa\u00e7\u00e3o, que implica o desejo de se vingar e se afastar do Outro. Enfim, nesse jogo, a crian\u00e7a experimenta um outro prop\u00f3sito que \u00e9 o de se deslocar da posi\u00e7\u00e3o passiva e desagrad\u00e1vel de objeto, de estar submetida ao desejo do Outro, para assumir uma posi\u00e7\u00e3o ativa, de senhor da experi\u00eancia, cujo dom\u00ednio da situa\u00e7\u00e3o independe da lembran\u00e7a, se era uma experi\u00eancia agrad\u00e1vel ou n\u00e3o. Assim, o desparecimento e o retorno do objeto, repetido v\u00e1rias vezes, implicam em um desprazer harmonizado com o prazer, o que poderia ser traduzido por gozo, inclusive porque o objeto \u00e9 tomado como propriedade da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Logo, uma experi\u00eancia desagrad\u00e1vel nem sempre se torna inapropriada para brincadeiras, pois a crian\u00e7a sai da condi\u00e7\u00e3o de objeto e assume a posi\u00e7\u00e3o de agente, de modo a deslocar o Outro para a posi\u00e7\u00e3o de objeto<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Enfim, o gozo \u00e9 uma mescla de quando o desprazer se imiscui com o prazer. Equivalente \u00e0s brincadeiras, as produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas dirigidas a uma audi\u00eancia tamb\u00e9m n\u00e3o poupam os espectadores, como nas trag\u00e9dias, de sorte que as experi\u00eancias mais penosas e sofridas podem ser sentidas por eles e pelo autor como altamente prazerosas<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2652\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/litoraneo006_004.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"281\" \/>Repeti\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito anal\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Freud come\u00e7a a notar que alguns pacientes n\u00e3o conseguem recordar do que os recalcou, mas eles repetem no seu comportamento o que deveria ser lembrado. Portanto, os sujeitos n\u00e3o se recordam das experi\u00eancias de desprazer, mas, premidos pela compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, repetem situa\u00e7\u00f5es dolorosas da vida nas rela\u00e7\u00f5es e no comportamento, o que provoca profundo mal-estar. Logo, essas situa\u00e7\u00f5es provocam um prazer dist\u00f3pico, fora do lugar, fora do padr\u00e3o ps\u00edquico do princ\u00edpio do prazer. Quando n\u00e3o rememoradas e quando acontecem durante o processo de an\u00e1lise, elas s\u00e3o atuadas no \u00e2mbito da transfer\u00eancia. Assim, a neurose primitiva passa a se configurar como neurose de transfer\u00eancia, de modo que o analista busca for\u00e7ar a mem\u00f3ria e manter dentro dos limites restritos a repeti\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito dos <em>acting outs<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><strong>[8]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n<p>Vale ressaltar que a compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma resist\u00eancia e que o inconsciente n\u00e3o resiste. A resist\u00eancia surge da consci\u00eancia, do eu, ou mesmo da parte do analista, como diz Lacan, e tem a influ\u00eancia do princ\u00edpio do prazer, cuja finalidade \u00e9 evitar o desprazer. Entretanto, a repeti\u00e7\u00e3o que implica o desprazer n\u00e3o contradiz o prazer, de modo que o desprazer ocorrido num sistema pode ser sentido como prazer em outro. De acordo com Freud, a sexualidade infantil \u00e9 fadada ao fracasso e \u00e0 extin\u00e7\u00e3o, em virtude de ser inadequada \u00e0 realidade. Essa impot\u00eancia provoca uma ferida narc\u00edsica e um dano irrepar\u00e1vel \u00e0 autoconsidera\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, fatores que contribuem para o sentimento de inferioridade dos neur\u00f3ticos. As explora\u00e7\u00f5es sexuais infantis n\u00e3o chegam a nenhuma conclus\u00e3o satisfat\u00f3ria, de modo que, mais tarde, o sujeito ir\u00e1 se queixar: \u201cn\u00e3o consigo realizar nada ou ter sucesso em nada\u201d.<\/p>\n<p>Os neur\u00f3ticos repetem na transfer\u00eancia situa\u00e7\u00f5es indesejadas e emo\u00e7\u00f5es penosas, que s\u00e3o revividas com as maiores estrat\u00e9gias<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Imaginam-se desprezados, reclamam que o analista lhes trata friamente, se mostram ciumentos com outros clientes, se sentem tra\u00eddos pelo analista, sentem que o analista foi ingrato para com eles, obrigam o analista a lhes ser severo, t\u00eam expectativas irreais de receber do analista uma aten\u00e7\u00e3o especial e todo reconhecimento. Todas essas situa\u00e7\u00f5es, premidas pela compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, s\u00e3o levadas ao fracasso e conduzem ao desprazer e ao gozo<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud assinala que, via de regra, nessas situa\u00e7\u00f5es, o sujeito \u00e9 sempre o autor e o respons\u00e1vel direto da experi\u00eancia. No entanto, de modo curioso, Freud ressalta que \u00e9 surpreendente quando o sujeito se encontra na condi\u00e7\u00e3o de ser objeto passivo da experi\u00eancia, sobre a qual ele parece n\u00e3o ter qualquer influ\u00eancia, de modo que ele se encontra imiscu\u00eddo em uma esp\u00e9cie de fatalidade ou de destino. Freud d\u00e1 alguns exemplos, como o de uma mulher que se casa tr\u00eas vezes e, logo ap\u00f3s, cada um dos maridos cai doente, sucessivamente, necessitando dos cuidados dela no leito de morte.<\/p>\n<p><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2649\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/litoraneo006_005.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"281\" \/><\/em><strong><em>Gerusalemme liberata<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Freud tamb\u00e9m localiza a repeti\u00e7\u00e3o na narrativa po\u00e9tica de <em>Gerusalemme liberata<\/em> \u2013 Jerusal\u00e9m liberta. Trata-se do grande poema \u00e9pico\u00a0do poeta italiano\u00a0que viveu no per\u00edodo renascentista, Torquato Tasso, publicado pela primeira vez em 1581. Esse poema foi traduzido para a l\u00edngua portuguesa em 1858 por Jos\u00e9 Ramos Coelho, respons\u00e1vel pelo acervo da Biblioteca Nacional e pela Torre do Tombo. O poema narra os acontecimentos da primeira Cruzada, onde os\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Cavaleiro\">cavaleiros<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Crist%C3%A3o\">crist\u00e3os<\/a> combatem os\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mu%C3%A7ulmano\">mu\u00e7ulmanos<\/a>\u00a0a fim de levantar o\u00a0cerco de Jerusal\u00e9m Tasso tomou de empr\u00e9stimo diversos caracteres do O<em>rlando Furioso<\/em>, de Ariosto, e se inspirou em elementos de obras de Homero e Virg\u00edlio<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. A obra \u00e9 composta em vinte cantos de extens\u00f5es diversas.<\/p>\n<p>O poema tem inspira\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, a partir das batalhas acontecidas, na idade m\u00e9dia, em torno de 1099. Na \u00e9poca O imp\u00e9rio Otomano\u00a0representava uma amea\u00e7a para o continente europeu. A particularidade essencial do poema \u00e9 o descordo entre o amor e o dever, no que concerne ao amor infeliz entre\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Tancredo_da_Galileia\">Tancredo<\/a>\u00a0e Clorinda &#8211; ele um crist\u00e3o e ela uma mu\u00e7ulmana<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>.<\/p>\n<p>Clorinda fazia parte do ex\u00e9rcito mul\u00e7umano e, por infort\u00fanio, Tancredo inadvertidamente mata sua amada num duelo, estando ela disfar\u00e7ada sob a armadura de um cavaleiro inimigo. \u201cMas eis que ressoa a hora em que o desterro da exist\u00eancia Clorinda deve largar. O poema de Torquato Tasso destaca: \u201cFere-lhe o belo seio o ferro agudo, e a veste de ouro ornada, de sangue enodando a pura neve, casto encerro, que os peitos lhe apertavam branda e leve ensanguentada\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. De acordo com Torquato Tasso, Clorinda, antes de morrer, perdoa Tancredo e solicita-lhe que seja batizada como uma crist\u00e3: \u201cVencestes amigo, eu te perdoo, concebe perd\u00e3o tamb\u00e9m, n\u00e3o ao corpo, que n\u00e3o \u00e9 nada, mas \u00e0 alma, por ela humilde pede, e no batismo a faze depurada\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o enterro, Tancredo, desolado, abre caminho numa floresta m\u00e1gica que aterroriza o ex\u00e9rcito dos cruzados. Ao abrir as veredas com sua espada, ele faz um corte em uma \u00e1rvore frondosa e altaneira. Contudo, para sua infelicidade, ele v\u00ea que \u00e9 sangue que escorre da incis\u00e3o no galho e que, do corte, al\u00e9m do sangue, sai a voz de Clorinda, cuja alma est\u00e1 aprisionada na \u00e1rvore, de modo que Tancredo a escuta lamentar, mais uma vez, que ele a ferira de morte, ela que \u00e9 sua amada<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio depreender com Freud que no poema <em>Gerusalemme liberata<\/em>, o romance de Tancredo e Clorinda acontece sob a forma de trag\u00e9dia para em seguida, se manifestar sob a modalidade da repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Enfim, ao levarmos em conta as hist\u00f3rias relatadas aos analistas, \u00e9 preciso ter coragem para constatar que existe uma compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, que sobrepuja o princ\u00edpio do prazer, embora na maioria das vezes essa seja de raz\u00f5es inexplic\u00e1veis. Essa inclina\u00e7\u00e3o se encontra nos sonhos que ocorrem nas neuroses traum\u00e1ticas e nas brincadeiras infantis<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>. Freud constata que os sonhos de ang\u00fastia ou os sonhos traum\u00e1ticos realizam o desejo do sentimento de culpa. As manifesta\u00e7\u00f5es de uma compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o apresentam, ent\u00e3o, um car\u00e1ter pulsional e atuam contra o princ\u00edpio do prazer, dando a apar\u00eancia de uma for\u00e7a demon\u00edaca em a\u00e7\u00e3o. Cada nova repeti\u00e7\u00e3o parece fortalecer a supremacia do que buscam<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>. Algumas pessoas se recusam a fazer an\u00e1lise por temer despertar essa compuls\u00e3o como uma esp\u00e9cie de poder demon\u00edaco. Enfim, Freud afirma que parece que a puls\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a inerente \u00e0 vida org\u00e2nica, a restaurar um estado anterior, e que ela equivale aos movimentos migrat\u00f3rios, baseados nos instintos de certas esp\u00e9cies de peixes, tartarugas e aves no per\u00edodo da desova<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>.<\/p>\n<p>De certa forma, a repeti\u00e7\u00e3o implica um sentido de mudan\u00e7a, alude \u00e0 diferen\u00e7a, ao novo, concernente \u00e0 puls\u00e3o de vida, que ruidosa e movimentada, perturba o estado de repouso. Por outro lado, no <em>Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em>, Freud constata que a repeti\u00e7\u00e3o tem um car\u00e1ter conservador, fixada no mais do mesmo da puls\u00e3o, resistente \u00e0 mudan\u00e7a e \u00e0 diferen\u00e7a, visto que conferimos que, na repeti\u00e7\u00e3o do id\u00eantico, o que se repete, no fundo, \u00e9 a ess\u00eancia do inorg\u00e2nico, ou seja, a puls\u00e3o de morte, cuja inclina\u00e7\u00e3o \u00e9 a de reencontrar o estado inanimado de repouso. Se, por um lado, a repeti\u00e7\u00e3o, quando ocorre nas crian\u00e7as, \u00e9 conexa ao princ\u00edpio do prazer, como nos casos das brincadeiras e das hist\u00f3rias que lhes s\u00e3o contadas pelos adultos; por outro, no caso dos adultos, as experi\u00eancias traum\u00e1ticas que implicam em repeti\u00e7\u00e3o s\u00e3o vivenciadas sob o princ\u00edpio do <em>Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em>.<\/p>\n<p>Enfim, quando essas experi\u00eancias traum\u00e1ticas permanecem no real, soltas ou dissociadas do simb\u00f3lico, elas se configuram como reitera\u00e7\u00e3o do ato. Contudo, quando as experi\u00eancias traum\u00e1ticas se articulam \u00e0 cadeia significante, podem ser subjetivadas no \u00e2mbito da repeti\u00e7\u00e3o num processo anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Freud usa a repeti\u00e7\u00e3o para explicar a puls\u00e3o de morte, visto que se trata de algo primitivo, mais elementar e pulsional que o princ\u00edpio do prazer, e que se expressa atrav\u00e9s da compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o. A repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das caracter\u00edsticas da puls\u00e3o que visa retornar ao estado anterior das coisas, ao estado inorg\u00e2nico.<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a> Logo, tudo que \u00e9 vivo, sem exce\u00e7\u00e3o, \u00e9 destinado a morrer por razoes internas, de modo que o objetivo da vida \u00e9 a morte e que voltamos \u00e0s coisas inanimadas que existiram antes de n\u00f3s. Assim, para Freud, a puls\u00e3o de morte nos conduz a retornar ao estado inanimado de nirvana. Em 1924, <em>O problema econ\u00f4mico do masoquismo<\/em> separa o princ\u00edpio de nirvana e o princ\u00edpio do prazer, permitindo supor que a puls\u00e3o de vida estivesse a servi\u00e7o da puls\u00e3o de morte. Freud retifica sua posi\u00e7\u00e3o e destaca que o princ\u00edpio de nirvana est\u00e1 presente na puls\u00e3o de morte, como a paz dos cemit\u00e9rios.<\/p>\n<p>\u00c0 guisa de conclus\u00e3o, nos prim\u00f3rdios e durante muito tempo, a subst\u00e2ncia viva era constantemente criada e morria facilmente, at\u00e9 que influ\u00eancias externas obrigaram a subst\u00e2ncia viva a divergir do curso original e a efetuar um desvio mais complexo antes de alcan\u00e7ar a morte. Esses descaminhos acabaram por criar uma puls\u00e3o de autopreserva\u00e7\u00e3o na subst\u00e2ncia viva, de modo que ela pudesse adiar o encontro com a morte<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>. Enfim, Freud destaca que a puls\u00e3o de vida e de morte compartilham uma oposi\u00e7\u00e3o no ser vivo, na medida em que essas duas polaridades conseguem se relacionar mutuamente, derivando e vivendo \u00e0s apensas uma da outra, assim como o amor e o \u00f3dio.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> FREUD, S. Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. <em>Edi\u00e7\u00e3o standard das obras completas de Sigmund Freud.<\/em> Rio de Janeiro: Imago, 1989, p. 18.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 20.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 26.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 27.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 29.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 28.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 29.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 32.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 34.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 35-36.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jerusalem_Libertada\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jerusalem_Libertada<\/a>, acessada em 23 de setembro de 2021.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a>TASSO, T. <em>Jerusal\u00e9m Libertada.<\/em> tradu\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Ramos Coelho, S\u00e3o Paulo: editora Literatura Cl\u00e1ssica, 2021, p. 292.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 294.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a><em> Ibid<\/em>, p. 295.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> FREUD, S. Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. <em>Edi\u00e7\u00e3o standard das obras completas de Sigmund Freud.<\/em> Rio de Janeiro: Imago, 1989, p. 36.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 37.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 52.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 54.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 54.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 56.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9rgio de Campos[1] No ano de 1920, ou seja, h\u00e1 pouco mais de cem anos, Freud provoca uma guinada na compreens\u00e3o do funcionamento do aparelho ps\u00edquico. At\u00e9 ent\u00e3o, ele considerava a d\u00edade prazer-desprazer, de modo que o sujeito evitava o desprazer e buscava, com ajuda do analista, reencontrar seu prazer de viver. 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