{"id":2599,"date":"2021-09-20T08:53:34","date_gmt":"2021-09-20T11:53:34","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=2599"},"modified":"2021-09-20T08:53:34","modified_gmt":"2021-09-20T11:53:34","slug":"o-amor-entre-presenca-e-ausencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/o-amor-entre-presenca-e-ausencia\/","title":{"rendered":"O amor entre presen\u00e7a e aus\u00eancia \u00a0"},"content":{"rendered":"<h6>Ricardo Seldes<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2605 size-medium\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/litoraneo005_002-205x300.jpg\" alt=\"\" width=\"205\" height=\"300\" \/>Lacan disse de forma contundente: O \u00fanico que fazemos no discurso anal\u00edtico \u00e9 falar de amor. E agregou: isso j\u00e1 \u00e9 um gozo. Esta rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o evidente. Podemos sustentar que falar \u00e9 em si mesmo um gozo, responde ao princ\u00edpio do prazer, que desde Freud \u00e9 um gozo por outros meios.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre a palavra e o amor? Entre o dizer e o amor?<\/p>\n<p>No discurso anal\u00edtico, segundo Lacan, \u00e9 o amor o que permite ao sujeito coordenar seu gozo com uma experi\u00eancia significante<\/p>\n<p>O amor \u00e9 uma demanda, ainda que fique sem resposta. \u00c9 uma demanda que se dirige ao ser, mas a um ser inapreens\u00edvel porque n\u00e3o tem que responder. O amor se dirige a esse ponto da palavra em que a palavra se det\u00e9m. Quando o sujeito se encontra nesse ponto, tem duas possibilidades: ou tenta fech\u00e1-lo com falta de palavras, ou o fecha com um tamp\u00e3o.<\/p>\n<p>O que quer dizer que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual? Que quando se tenta apreender o corpo do Outro, n\u00e3o se apreendem mais do que pedacinhos e ainda que somando-os, n\u00e3o se chega a completar o corpo; talvez isso seja o que mais lastima a algumas hist\u00e9ricas quando se sentem objeto sexual da pervers\u00e3o do gozo masculino, o que separa pedacinho por pedacinho sem dar essa sensa\u00e7\u00e3o de unidade pr\u00f3pria que o amor outorga.<\/p>\n<p>O que falta \u00e9 sempre o essencial. O importante \u00e9 o que n\u00e3o se alcan\u00e7a dizer. Tomar ao corpo assim, por pedacinhos, e n\u00e3o complet\u00e1-lo nunca, permite seguir desejando para n\u00e3o estar satisfeito de si.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel satisfazer a demanda de amor? Aqui n\u00e3o h\u00e1 um g\u00eanero que demande mais que outro, nem sequer os que se percebem sem g\u00eanero espec\u00edfico, os n\u00e3o-bin\u00e1rios tampouco ficam isentos das demandas de amor. O que pode em qualquer caso chegar \u00e0 viol\u00eancia, contra si ou contra os outros. Captamos muitas vezes como h\u00e1 certas posi\u00e7\u00f5es sacrificiais seculares ou religiosas que implicam em si mesmas uma demanda de amor. Se n\u00e3o me amas, me sacrifico ou me sacrifico para que me ames. Veja se isso n\u00e3o \u00e9 um gozo!!!!.<\/p>\n<p>Outra demanda particular \u00e9 a demanda de presen\u00e7a. Podem ser palavras de amor, carinhosas, melosas, er\u00f3ticas, ou signos de que algu\u00e9m \u00e9 tudo para o outro. Ser a \u00fanica, o \u00fanico, base dos ci\u00fames, ou com certo deslocamento, como no fantasma de bate-se em uma crian\u00e7a: Se Batem em uma crian\u00e7a a quem odeio, logo eu sou querido ou querida.<\/p>\n<p>Se meu pai bate nessa crian\u00e7a, logo eu sou quem encarna sua prefer\u00eancia. Isso at\u00e9 chegar a \u201cse meu pai me bate \u00e9 porque eu importo a ele\u201d, logo, me ama. Nada est\u00e1 dito com todas as letras, sempre se tratar\u00e1 de poder chegar a uma interpreta\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o \u00e0 qual o sujeito aspira, ou, melhor dizendo, na qual o sujeito \u00e9 aspirado.<\/p>\n<p>O amor implica uma pergunta eterna, com a necessidade de um signo que vai variando,\u00a0 mas deve estar presente. Me amas? Como sei disso? Grande quest\u00e3o, o que se sabe do ato de amar? Quero tua presen\u00e7a, tuas palavras, teus objetos, teu click azul no WhatsApp; mas se vejo o click azul, quero uma resposta j\u00e1; e por que n\u00e3o me respondestes de imediato? Por que n\u00e3o atendestes meu chamado telef\u00f4nico? E ele, ou ela, ou quem quer que seja como queira chamar, encontra 12 chamadas seguidas. Presen\u00e7as excessivas, quase uma persecu\u00e7\u00e3o amorosa, ciumenta ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>A exig\u00eancia da presen\u00e7a pode ser infinita. Ainda, que na pandemia tenhamos tido a experi\u00eancia da sobrecarga dos que anteriormente se enlouqueciam por n\u00e3o obter esses signos permanentes. Quero sentir saudades suas, \u00e9 a nova demanda\u2026<\/p>\n<p>Por outra parte, quando a demanda de amor n\u00e3o fica satisfeita, uma poss\u00edvel resposta \u00e9 o \u00f3dio. Te odeio porque te amo, te odeio porque te necessito tanto; e porque te odeio tanto, ent\u00e3o te amo.<\/p>\n<p>A\u00ed \u00e9 preciso fazer uma diferen\u00e7a com a viol\u00eancia. O \u00f3dio n\u00e3o tem porque derivar em viol\u00eancia. A viol\u00eancia \u00e9 a satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte. Destaquemos, com efeito, que o advers\u00e1rio de Eros n\u00e3o \u00e9 o \u00f3dio, \u00e9 a morte, T\u00e2natos. H\u00e1 que diferenciar a viol\u00eancia e o \u00f3dio. O \u00f3dio est\u00e1 do mesmo lado que o amor. O \u00f3dio, como o amor, est\u00e3o do lado de Eros. \u00c9 a raz\u00e3o pela qual Lacan justifica falar de <em>odioenamoramento<\/em>, voc\u00e1bulo afortunado. O amor, como o \u00f3dio, s\u00e3o modos de express\u00e3o afetiva de Eros. O \u00f3dio est\u00e1 do lado de Eros, com efeito, \u00e9 um la\u00e7o com o outro muito forte, \u00e9 um la\u00e7o social eminente. O analista deve fazer um manejo particular do amor, do \u00f3dio e dos demais sentimentos. O discurso anal\u00edtico implica \u00a0a arma\u00e7\u00e3o de uma cena especial onde se escute um mon\u00f3logo para oferecer efeitos apaziguadores.<\/p>\n<p>Fa\u00e7amos um breve intervalo para evitar nosso desespero, uma palavra que se aproxima muito de algumas circunst\u00e2ncias amorosas, em ocasi\u00f5es \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para viver um grande amor, deve incluir a possibilidade do desespero. Em muitas ocasi\u00f5es, encontra-se uma erotomania mais ou menos manifesta. Como pode ser que n\u00e3o me ames? N\u00e3o pode ser que tenhas deixado de me amar\u2026<\/p>\n<p>O que \u00e9, que se ama quando amo em ti, algo mais que tu, e me leva a querer te mutilar?<\/p>\n<p>Uma breve passagem ainda antes de tentar entender o que significa que s\u00f3 falamos de amor no Discurso Anal\u00edtico. Passaremos pelo que demandamos a nossos neur\u00f3ticos, que falem. Lacan encontrou muitas formas divertidas, ir\u00f4nicas, esclarecedoras, acerca da regra fundamental que propomos aos que nos consultam, e que \u00e9 o sinal de um discurso que se afasta dos outros.<\/p>\n<p>O sujeito \u00e9 propriamente aquele que engajamos, n\u00e3o como dizemos a ele para encanta-lo, engajamos a dizer tudo mas, como assinala Lacan, n\u00e3o se pode dizer tudo, sen\u00e3o que o pedimos a dizer besteiras e esse \u00e9 o material com o qual vamos fazer a an\u00e1lise para entrar no novo sujeito que \u00e9 o do inconsciente.<\/p>\n<p>Nossas perguntas: O que o inconsciente sabe do sexo? Saber\u00e1 algo do amor? Podemos afirmar que o sujeito do inconsciente sabe ler e se n\u00e3o o sabe, pode aprender; essa \u00e9 nossa suposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o somos os \u00fanicos em tentar saber algo novo acerca do amor.<\/p>\n<p>Pensemos que o discurso filos\u00f3fico situa o amor em seu centro. Plat\u00e3o, Spinoza com seu <em>amor est titillatio, <\/em>o amor \u00e9 excita\u00e7\u00e3o, faz c\u00f3cegas, \u00e9 prazeroso. Toca o corpo.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo que vai mais al\u00e9m da condi\u00e7\u00e3o que se precisa para amar, enquanto que \u00e9 a linguagem se querem, podemos dizer \u00e9 a l\u00edngua, a materna, a que nos faz gozar desde os tempos nos quais sua press\u00e3o choca com nossos corpos. Gozamos porque temos um corpo e temos um corpo porque h\u00e1 esse encontro do significante que nos toca, nos atravessa sempre muito cedo ou muito tarde, em falta ou em excesso. Um corpo \u00e9 algo que se goza e \u00e9 a prova clara do vivente. E enquanto ele se encarna de maneira significante, esta \u00e9 sua causa.<\/p>\n<p>Tomemos um fil\u00f3sofo que se ocupou do amor, Schopenahuer, para quem o amor \u00e9 fundamental. Ele diz, n\u00e3o somente na literatura que consumimos, mas no mundo real onde junto com o amor \u00e0 vida, \u00e9 a mais poderosa e ativa das molas: \u00e9 o fim \u00faltimo de quase todo esfor\u00e7o humano; tem uma influ\u00eancia perturbadora sobre os mais importantes assuntos; irrompe a toda hora as ocupa\u00e7\u00f5es mais s\u00e9rias, \u00e0s vezes faz cometer bobagens aos mais engenhosos; n\u00e3o tem escr\u00fapulos em lan\u00e7ar suas frivolidades atrav\u00e9s das negocia\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e dos trabalhos dos s\u00e1bios; tem trejeitos para deslizar seus doces bilhetes e seus cachos de cabelo, at\u00e9 nas mesas dos ministros e os manuscritos dos fil\u00f3sofos, o que n\u00e3o lhe impede ser diariamente o promotor dos piores e confusos assuntos; rompe as rela\u00e7\u00f5es mais preciosas, quebra os v\u00ednculos mais s\u00f3lidos, escolhe por v\u00edtimas tanto a vida como a sa\u00fade. Tamb\u00e9m quebra \u00e0 riqueza, \u00e0 linhagem\u00a0 ou \u00e0 felicidade que faz do homem honrado um homem sem honra, um traidor, e que parece um dem\u00f4nio que se esfor\u00e7a em transformar tudo. Da\u00ed sua pregunta: Por que tanto ru\u00eddo? Por que esses esfor\u00e7os, essas explos\u00f5es, essas ansiedades e essa mis\u00e9ria?<\/p>\n<p>E n\u00f3s fazemos um ENAPOL, falaremos para tentar produzir um pouco de sil\u00eancio no ru\u00eddo que o amor faz em nossos consult\u00f3rios. Parece uma resposta do obsessivo, n\u00e3o o desminto.<\/p>\n<p>Para Lacan, o discurso filos\u00f3fico \u00e9 uma variante do discurso do mestre, o explicar\u00e1 enquanto o amor aponta ao ser, ao que na linguagem \u00e9 o mais enganoso, o ser que por pouco iria a ser, ou, o ser que por ser, surpreende. Est\u00e1 pr\u00f3ximo do significante <em>meser<\/em>, <em>m\u00eatre<\/em> \u00e9 hom\u00f3nimo do Mestre.<\/p>\n<p>Lacan n\u00e3o recha\u00e7a a filosof\u00eda,\u00a0 mas,\u00a0 sim\u00a0 a Hist\u00f3ria. Diz que a detesta pelas melhores raz\u00f5es, porque est\u00e1 feita para nos dar a ideia de que tem algum sentido. E \u00e9 a partir disso que esclarece a rela\u00e7\u00e3o da regra fundamental com o amor. Estamos frente a um dizer de outro que nos conta suas besteiras, seus apuros, seus impedimentos, suas emo\u00e7\u00f5es,\u00a0 onde se deve ler os efeitos desses dizeres. S\u00e3o esses efeitos dos dizeres os que agitam, removem, preocupam aos parl\u00eatres.<\/p>\n<p>Falar besteiras \u00e9 uma verdadeira improvisa\u00e7\u00e3o, algo que na \u00e9poca do zoom e dos chamados telef\u00f4nicos anal\u00edticos coloca os sujeitos em uma situa\u00e7\u00e3o mais dif\u00edcil que a de ir at\u00e9 o consult\u00f3rio onde j\u00e1 poderiam ir delineando algo do que diriam.<\/p>\n<p>Sabemos que muitas vezes s\u00e3o feitos esfor\u00e7os para chegar a tocar a esse personagem frio, \u00e0s vezes inhumano, que o analista faz semblante como objeto <em>a,<\/em> e os sujeitos experimentam amor e \u00f3dio que s\u00e3o muito. Seu objetivo: que os analistas mostrem seu compromisso com o que fazem.<\/p>\n<p>Do outro lado, o que Lacan chamou uma vacila\u00e7\u00e3o calculada da \u201cneutralidade\u201d do analista que pode valer para uma hist\u00e9rica mais que todas as interpreta\u00e7\u00f5es, ao risco da loucura que pode resultar disso. \u00c9 fundamental que isso conduza a algo, que sirva para que as consertem, para que eles se arranjem, para que cheguem a dar uma sombra de vidinha a esse sentimento dito de amor. \u00c9 necess\u00e1rio que isso ainda (mais ainda), dure e chegue \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o dos corpos. N\u00e3o haver\u00e1 outro efeito que o de levar a se reproduzir? Lacan responde que se h\u00e1 outro efeito que \u00e9 o escrito, esse \u00e9 outro efeito da linguagem.<\/p>\n<p>Lacan se perguntou sobre o sintoma anal\u00edtico e o definiu em termos de um processo de escritura. Na psican\u00e1lise e seu ensino o chamou de hier\u00f3glifos do deserto. \u00c9 uma letra sem seres humanos que restituam sua significa\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito interessante o problema porque questiona a pergunta do sujeito suposto saber que n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o um caminho, o caminho para que se possa admitir o inconsciente como saber sem sujeito.<\/p>\n<p>\u00c9 o amor o que permite ao sujeito condescender ao inconsciente como saber sem sujeito que \u00e9 o centro da experi\u00eancia anal\u00edtica. Isto \u00e9, que o amor \u00e9 o que permite coordenar seu gozo com uma experi\u00eancia significante. Um saber sem sujeito \u00e9 um saber sem Outro que n\u00e3o est\u00e1 no lugar do Outro. N\u00e3o h\u00e1 que redobrar o que o artif\u00edcio da palavra j\u00e1 faz, que \u00e9 localizar o saber no lugar do Outro.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 pensar o inconsciente em seu absoluto de significante antes que qualquer ser humano lhe restitua uma significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lacan precisa situar que\u00a0 o Outro \u00e0 \u00e9poca do Semin\u00e1rio 20, n\u00e3o \u00e9 somente o lugar onde a verdade balbucia o lugar dos equ\u00edvocos, do inconsciente. O Outro representa aquilo que est\u00e1 relacionado intrinsecamente com o que quem fica do lado da mulher. Por ser Outra na rela\u00e7\u00e3o sexual, inclusive para si mesma, a mulher tem rela\u00e7\u00e3o com o Outro enquanto que o homem tem com o Um, com o mesmo. H\u00e1 algo que relaciona o Um com o n\u00e3o-todo, de fato n\u00e3o todos os Uns s\u00e3o o mesmo.<\/p>\n<p>Tendo isto de base, o que significa que no discurso anal\u00edtico s\u00f3 se fala de amor?. E Lacan o relaciona com o discurso da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica, o grande produtor de gadgets, os que nos fazem perder o tempo.<\/p>\n<p>E \u00e9 nesse ponto do semin\u00e1rio 20 que Lacan decide retomar ao tema do amor cort\u00eas, do que j\u00e1 havia falado no 7.<\/p>\n<p>O amor cort\u00eas \u00e9 a inven\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, po\u00e9tica e musical pr\u00f3pria dos trovadores das cortes <em>ocitanas <\/em>do s\u00e9culo XI. Do occitano <em>Fin<\/em>\u2019<em>amors<\/em>, amor perfeito, esta literatura, que originalmente se dirigiu a um p\u00fablico de corte, passou a ser parte da vida de todos. Evocava ao mesmo tempo a cortesia requintada e o refinamento pr\u00f3prios da sociedade aristocr\u00e1tica, e seu contr\u00e1rio, uma crua maneira de utilizar os significantes referidos ao amor enquanto proibido e oculto, idealizado, humilhante e exaltante, excessivo e po\u00e9tico, er\u00f3tico e tamb\u00e9m duro, descarnado.\u00a0 \u00c9 um amor que exige ao homem ser amante e servil enquanto a mulher \u00e9 levada \u00e0 categor\u00eda de dominante e indulgente.<\/p>\n<p>Suas consequ\u00eancias perduraram durante centos de anos. Consistem essencialmente em despir ao amor de seu conte\u00fado sexual, procedimento pelo qual a rela\u00e7\u00e3o sexual deixa de ser imposs\u00edvel de ser inscrita, por isso mesmo de esquecer. Se ao contr\u00e1rio, partimos da afirma\u00e7\u00e3o que o gozo \u00e9 o obst\u00e1culo intranspon\u00edvel \u00a0para que a rela\u00e7\u00e3o sexual possa se inscrever de alguma maneira, isso assinalaria que o amor cort\u00eas \u00e9 um artif\u00edcio para v\u00ea-las com dito gozo. Um misterioso artif\u00edcio.<\/p>\n<p>Na busca de suas pe\u00e7as soltas, <strong>tentamos<\/strong> elucidar alguns dos mist\u00e9rios deste tipo de amor, esse modo particular de fazer v\u00ednculo com o outro, talvez com o Outro, para permitir ao sujeito sair de seu autoerotismo. Lacan disse que o amor cort\u00eas \u00e9 o amor como tal, em um estilo de la\u00e7o espiritual ainda que impuro.<\/p>\n<p>Se conhecem as letras de suas can\u00e7\u00f5es, de seus di\u00e1logos que n\u00e3o somente est\u00e3o inscritos em linguagem corrente, algo verdadeiramente in\u00e9dito para as artes da \u00e9poca, sen\u00e3o que incluem em suas met\u00e1foras e express\u00f5es refer\u00eancias das mais escatol\u00f3gicas, ditas de um modo muito inocente. A escolha da l\u00edngua se vinculou explicitamente com o p\u00fablico ao qual se apontava, o universo secular dos cortes\u00e3os para separ\u00e1-la explicitamente da literatura e da linguagem religiosa.<\/p>\n<p>Sinalizamos em outro texto, \u201cIndica\u00e7\u00f5es ao analista\u201d, a incid\u00eancia <em>linguajeira<\/em> dos trovadores e menestr\u00e9is <strong>\u00a0<\/strong>na vida laica, com sua incid\u00eancia evidente no gozo de sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>Segundo Denis de Rougemont, (1) a quem Lacan mencionou em mais de uma oportunidade, o casamento no s\u00e9culo XII se havia convertido, para os senhores, em um meio de enriquecimento e de anexa\u00e7\u00e3o de terras dadas em dote ou esperadas por heran\u00e7a. Quando o \u201cneg\u00f3cio\u201d ia mal, se repudiava \u00e0 mulher. Os abusos geravam infinitas querelas e guerras; em troca, o amor cortes\u00e3o opu -nha uma <em>fidelidade<\/em> independente do casamento legal e fundada somente sobre o amor. Chegava, inclusive, a declarar que o amor e o casamento n\u00e3o s\u00e3o o mesmo, quest\u00e3o n\u00e3o dif\u00edcil de demonstrar hoje em dia. O Romance n\u00e3o perdeu ocasi\u00e3o de rebaixar a institui\u00e7\u00e3o social, de humilhar o marido\u00a0 chamando-o de rei com orelhas de burro, sempre t\u00e3o facilmente enganado, para glorificar a virtude dos que se amam fora do casamento e contra ele. Esta fidelidade cortes\u00e3 apresenta seu tra\u00e7o essencial: se op\u00f5e tanto ao casamento como \u00e0 \u201csatisfa\u00e7\u00e3o\u201d do amor.<\/p>\n<p>Lacan estudou os trovadores e sinalizou que este amor surgiu em uma \u00e9poca na qual \u201cse fazia o amor com vigor, n\u00e3o se fazia disso um mist\u00e9rio, se falava cruamente\u201d. (2) Comenta um poema de Arnaud Daniel, um dos mais sutis e refinados dos trovadores que criou um <em>hapax<\/em>, uma inven\u00e7\u00e3o \u00fanica que, segundo Lacan, com grande delicadeza,\u00a0 transbordou os limites da pornograf\u00eda. Lacan se toma o tempo de ler esse poema em uma aula de seu semin\u00e1rio, na qual o cavalheiro recebe uma ordem de sua Dama de <em>emboucher sa trompette<\/em>, a ordem de abocanhar sua trombeta. Essa express\u00e3o no texto n\u00e3o tem um sentido amb\u00edguo. Essa ordem constitui uma prova com a qual se medir\u00e1 a dignidade de seu amor, de sua fidelidade, de seu comprometimento.<\/p>\n<p>A mulher idealizada, a Dama em posi\u00e7\u00e3o do Outro e do objeto ao mesmo tempo, permite sublimar com os significantes apropriados,\u00a0 o vazio da Coisa. O sentido corre inexoravelmente em dire\u00e7\u00e3o a certa insist\u00eancia cruel, ela, a Dama, a <em>Domnei<\/em>, o Outro Amo, parceiro inhumano, desloca o gozo at\u00e9 o gozo de palavras que s\u00e3o as que preenchem o amor cort\u00eas.<\/p>\n<p>Os textos revelam as correntes libidinais mais robustas em cenas onde os jardins e pomares povoam com sua decora\u00e7\u00e3o bela e festiva. Formam o espa\u00e7o onde os encontros proibidos dos parceiros jogam com o perigo, a sedu\u00e7\u00e3o e o encantamento em um ritmo sexual <em>interruptus<\/em>, o que nos revela o gozo dos prazeres preliminares com os que Freud ilustra o aumento de tens\u00e3o pr\u00e9via \u00e0 conclus\u00e3o sexual nos corpos. O amor cort\u00eas, em sua defini\u00e7\u00e3o de inacess\u00edvel, indica as habilidades que h\u00e1 que ter, para chegar a franquear a barreira e alcan\u00e7ar o lugar do gozo, evitando a concretiza\u00e7\u00e3o do ato sexual. Para Miller, Lacan demonstrou que, o que perturba os modos de gozo n\u00e3o \u00e9 o inacess\u00edvel da barreira, sen\u00e3o o imposs\u00edvel, o que alivia algo dessa concep\u00e7\u00e3o dura da zona reservada e atroz da mulher no lugar da Coisa. Trata-se pura e simplesmente de um impasse, n\u00e3o sem satisfa\u00e7\u00e3o j\u00e1 que se goza com o significante que segue sendo sua causa. O amor cort\u00eas nos mostra tamb\u00e9m a cara menos vis\u00edvel do la\u00e7o amoroso, a que logramos captar na experi\u00eancia anal\u00edtica do automaton, o que fixa e arma as condi\u00e7\u00f5es de amor e gozo de um sujeito. Ser\u00e1 logo que vir\u00e3o os encontros e os acasos \u00a0que os permitir\u00e3o, ou n\u00e3o. (3)<\/p>\n<p>A alcova e a torre, encobrem os amantes, a sua paix\u00e3o palavreira e elevam ao grau de parceria,\u00a0 a conquista do confinamento feminino por parte do amante, a quem ela lhe termina ensinando as \u201cboas maneiras\u201d de amar a uma mulher. O infinito \u00e9 o tempo destas rela\u00e7\u00f5es, sua aboli\u00e7\u00e3o \u00e9 produto da permanente exalta\u00e7\u00e3o do mundo sensorial feito de palavras, e a declama\u00e7\u00e3o permanente dos gozos poss\u00edveis, na virtualidade sem m\u00e1scara nem \u00e1lcool em gel: pura presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Rougemont se perguntar\u00e1 tamb\u00e9m por qu\u00ea preferimos a todo relato o de um amor imposs\u00edvel, o amor insatisfeito na perpetuidade; dois personagens: o poeta que repete sua queixa, oitocentas, novecentas, mil vezes, e uma dama que sempre diz que n\u00e3o? Se deseja o obst\u00e1culo, se \u00e9 preciso o criamos, o imaginamos. O amor n\u00e3o \u00e9 outra coisa que um dizer que faz acontecimento. Algo essencial em toda psican\u00e1lise, dado que o analista realiza um raro manejo dos sentimentos ao se fazer agente de seu discurso. Isso n\u00e3o somente n\u00e3o impede sen\u00e3o que provoca no analisante a busca do signo de amor, ou eventualmente de \u00f3dio, vivo, dentro de uma cena transferencial que, insistimos, \u00e9 sempre\u00a0 a dois.<\/p>\n<p>O amor cort\u00eas \u00e9 t\u00e3o herege como os trovadores que o elogiaram na \u00e9poca dos c\u00e1taros. Trata-se, assim mesmo, de uma posi\u00e7\u00e3o que respeita os semblantes, enquanto as boas maneiras s\u00e3o o semblante requerido em torno da falta: n\u00e3o h\u00e1 outras boas maneiras que as que rodeiam o furo, \u00edndice do real. Ali se destaca o signo de amor, a presen\u00e7a por excel\u00eancia, a pe\u00e7a essencial do amor cort\u00eas, o tesouro f\u00e1lico que acende o desejo, ef\u00eamero, quando n\u00e3o alucinado. N\u00e3o implica o sacrif\u00edcio profundo do nada que se demanda na prova de amor, \u00e9 delicado e sutil como um arco-\u00edris, entretanto produz efeitos reais. Deste modo compartilha com o real algo de sua qualidade, a erotomania assim o demonstra.<\/p>\n<p>O amor cort\u00eas tem seu pr\u00f3prio avesso, j\u00e1 que \u00e9 para os homens o \u00fanico modo de sair graciosamente da aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. Uma maneira muito refinada de supr\u00ed-la fingindo que somos n\u00f3s os que a obstaculizamos. (5) Ao seguir os rastros que os trovadores nos deixaram, encontramos algumas chaves nos textos que ficaram de seus ditos. O segredo \u00e9 um deles. A magia ser\u00e1 o outro. Para Rougemont, o objeto amoroso nunca \u00e9 dado sem um certo intermedi\u00e1rio, ao qual se chama <em>senhal<\/em>.<\/p>\n<p>A vantagem destes modos de se expresar salta aos olhos. A magia persuade sem dar motivos, inclusive na medida em que n\u00e3o os d\u00e1. E a ret\u00f3rica cavalheiresca, como toda ret\u00f3rica, \u00e9 a arte de fazer passar por \u201cnaturais\u201d as proposi\u00e7\u00f5es mais obscuras. Garantia do segredo e tamb\u00e9m da aprova\u00e7\u00e3o incondicional por parte do leitor do romance. A magia e a ret\u00f3rica cavalheiresca eram o material simb\u00f3lico com o qual se contava no s\u00e9culo XII para velar o que se devia revelar. O cavalheirismo \u00e9 a regra social que as sele\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo sonham em opor \u00e0s piores \u201cloucuras\u201d cuja amea\u00e7a sentem.<\/p>\n<p>A magia descobre uma paix\u00e3o cuja viol\u00eancia fascinadora n\u00e3o pode se aceitar sem escr\u00fapulos, dado que as palavras que se usam, os encantamentos e rituais, os feiti\u00e7os, po\u00e7\u00f5es e misturas tentam conquistar um real que possa com a natureza, a subjetividade e o gozo autoer\u00f3tico de quem se espera o amor.\u00a0 A psican\u00e1lise se assenta no significante como causa material enquanto a produ\u00e7\u00e3o do mesmo prov\u00e9m do analisante, n\u00e3o sem a participa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria da transfer\u00eancia. Esse significante que n\u00e3o significa nada, move mundos. A psican\u00e1lise se preocupa com os acidentes de significante que causam efeitos de sentido e tecem, ao redor do que nos passa, uma estrutura de fic\u00e7\u00e3o ver\u00eddica, ou seja, de verdade mentirosa.<\/p>\n<p>Por que o segredo? O segredo \u00e9 um saber que n\u00e3o se exp\u00f5e, \u00e9 um saber sob um v\u00e9u. H\u00e1 algo secreto da sexualidade para cada um e a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o-sexual \u00e9 secreta tanto para os que a realizam como para os que n\u00e3o. Lacan o referir\u00e1 a sua pr\u00f3pria cl\u00ednica: \u201c\u2026E um dos fins do sil\u00eancio que constituti a regra de mina escuta \u00e9 precisamente calar o amor. N\u00e3o trairei pois, seus segredos triviais e sem par\u201d.\u00a0 (8)<\/p>\n<p>Deixemos assim que o amor cort\u00eas mantenha seu hermetismo durante outros dez s\u00e9culos, para provocar um desejo de lhe arrancar algum dito \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o de analisantes, enquanto assegura a valida\u00e7\u00e3o do n\u00e3o sabido como interroga\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria no que nossa pr\u00e1tica tem de aleat\u00f3ria.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias:<\/h6>\n<ol>\n<li>\n<h6>de Rougemont, Denis &#8211; Amor y Occidente &#8211; Editorial Leyenda &#8211; Mexico, 1945<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Lacan, J &#8211; El Seminario Libro 7 &#8211; La \u00e9tica del psicoan\u00e1lisis &#8211; Paid\u00f3s -1988 p\u00e1g. 168<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Miller, J.-A. &#8211; El partenaire-s\u00edntoma &#8211; Paid\u00f3s &#8211; 2008 p\u00e1gs. 223\/228<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Miller, J.-A.- Donc La l\u00f3gica de la cura- Paid\u00f3s &#8211; 2011 &#8211; p\u00e1g. 236<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Lacan, J &#8211; El Seminario Libro 20\u00a0 A\u00fan &#8211; Paid\u00f3s 1981 -p\u00e1g. 85<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Laurent, E &#8211; De lo real en un psicoan\u00e1lisis , internet Revista consecuencias N\u00ba 11<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Miller, J-A. El ser y el Uno &#8211; Clase 6 &#8211;<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Lacan, J &#8211; 1\u00b0 Conferencia sobre la \u00e9tica del psicoan\u00e1lisis en Bruselas (9\/3\/1960)- in\u00e9dito<\/h6>\n<\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Daniela Nunes Araujo<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: Iordan Gurgel<\/h6>\n<h6>Estabelecimento: Margarida Assad<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo Seldes Lacan disse de forma contundente: O \u00fanico que fazemos no discurso anal\u00edtico \u00e9 falar de amor. E agregou: isso j\u00e1 \u00e9 um gozo. Esta rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o evidente. 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