{"id":2593,"date":"2021-09-20T08:49:08","date_gmt":"2021-09-20T11:49:08","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=2593"},"modified":"2021-09-20T08:49:08","modified_gmt":"2021-09-20T11:49:08","slug":"afah-ahhh-fahhh-ahhh-faaa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/afah-ahhh-fahhh-ahhh-faaa\/","title":{"rendered":"Afah! Ahhh, Fahhh! Ahhh!, Faaa."},"content":{"rendered":"<h6>Francisco de Assis Xavier Neto &#8211; N\u00facleo de Estudos e Pesquisa sobre Psican\u00e1lise e Autismo (PE)<\/h6>\n<p>Atendo Martin desde 2016, ano que entrei no setor de autismo de uma institui\u00e7\u00e3o em que trabalho, um Centro Especializado em Reabilita\u00e7\u00e3o (CER). Martin chegou com 5 anos de idade, em nosso encontro, de in\u00edcio, se mostrou em franca defesa \u00e0 minha presen\u00e7a. Quando entrava na sala, logo largava minha m\u00e3o, limpando-a em sua roupa e dirigia-se para longe de mim. Sempre tapava os ouvidos quando lhe falava alguma palavra (o autista se defende da palavra. Para ele a palavra \u00e9 amea\u00e7adora e invasiva). Em sua \u201c<strong>Alocu\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0sobre as\u00a0<strong>psicoses<\/strong>\u00a0da crian\u00e7a\u201d, em uma Jornada organizada por Maud Mannoni, a respeito de um caso apresentado por Samy Ali, Lacan dir\u00e1:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cQuando uma crian\u00e7a tapa os ouvidos, ela est\u00e1 para alguma coisa que est\u00e1 sendo falada \u2013 j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 no pr\u00e9-verbal visto que se protege do verbo, o que atesta a sua rela\u00e7\u00e3o com o Outro e permite afirmar que o sujeito autista est\u00e1 na linguagem, ainda que n\u00e3o fale\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Considero essa defesa j\u00e1 como uma resposta, uma inven\u00e7\u00e3o do sujeito frente ao Outro amea\u00e7ador.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o do tratamento, nesse primeiro momento, seguiu outra preciosa orienta\u00e7\u00e3o que Lacan nos deixou, na Confer\u00eancia de Genebra sobre o sintoma (1975), em mais um dos poucos momentos em que falou sobre o autismo:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Eles n\u00e3o chegam a ouvir o que voc\u00ea tem a dizer-lhes, na medida em que voc\u00ea se ocupa deles.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 justamente o que faz com que n\u00f3s n\u00e3o os ou\u00e7amos. \u00c9 que eles n\u00e3o nos ouvem. Mas enfim, h\u00e1 certamente algo a dizer-lhes.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Esse n\u00e3o se ocupar deles, aponta para que lugar o analista deve se posicionar na cl\u00ednica do autismo. Mantive dist\u00e2ncia de Martin e tentei ser o mais d\u00f3cil poss\u00edvel, desviando meu olhar e calando minha voz estrondosa. Maria do Ros\u00e1rio Collier do Rego Barros, em um encontro de nosso grupo de trabalho sobre o amor no autismo para o X ENAPOL, ressaltou \u00e0 import\u00e2ncia de ser d\u00f3cil ao furo, retomarei isso adiante. Depois de um tempo, agora j\u00e1 atendendo sozinho, ele me chega fazendo um som repetidamente: \u201cAfa!\u201d e o fazia de forma enf\u00e1tica, forte e olhando para mim. Foi ent\u00e3o que comecei a fazer esse \u201cAfa!\u201d s\u00f3 que de forma diversa, incluindo um intervalo, primeiro fazia \u201cahh\u201d e em seguida o \u201cFah!\u201d com mais \u00eanfase.<\/p>\n<p>Para minha surpresa, Martin se p\u00f4s a fazer o mesmo logo em seguida, olhando para mim. Desde a\u00ed os atendimentos j\u00e1 come\u00e7avam com essas emiss\u00f5es sonoras. Introduzi varia\u00e7\u00f5es de tempo e de entona\u00e7\u00f5es, fiz um \u201cah\u201d mais longo, depois um \u201cfah\u201d com uma entona\u00e7\u00e3o mais forte e vice e versa e\u00a0 Martin me acompanhava, respondendo a esse primeiro esbo\u00e7o de estabelecer alguma conex\u00e3o. Em seguida, introduzi o corpo. Levantava os bra\u00e7os quando fazia o \u201cahh\u201d e s\u00f3 baixava quando Martin dizia \u201cfah\u201d. Os movimentos dos bra\u00e7os seguiam a entona\u00e7\u00e3o de Martin, \u00e0s vezes r\u00e1pida, com uma entona\u00e7\u00e3o forte, \u00e0s vezes lenta, com uma entona\u00e7\u00e3o mais sutil. A dist\u00e2ncia entre mim e Martin continuou.<\/p>\n<p>Certo dia, come\u00e7ando o atendimento depois de muito fazermos o \u201cah\u201d \u201cfah\u201d, Martin vem at\u00e9 mim e senta em meu colo. Sutilmente e bem baixinho fa\u00e7o \u201cahhh\u201d e logo em seguida Martin faz um \u201cfah\u201d bem forte. Me arrisco ent\u00e3o a emitir esse som mais alto e Martin segue fazendo o \u201cfah\u201d tamb\u00e9m em tom mais alto. Aumento ainda mais minha voz, chegando quase a gritar e Martin responde sem tapar os ouvidos, sentado no meu colo. A partir da\u00ed, Martin come\u00e7a a se aproximar mais de mim e a fazer gestos, sempre olhando para mim. Imito alguns desses gestos e introduzo alguns outros bem sutis e noto que Martin tamb\u00e9m imita esses gestos que introduzo.<\/p>\n<p>Certa vez me posicionou em um determinado lugar e come\u00e7ou a fazer movimentos para que eu o imitasse, como numa aula de aer\u00f3bica. Desde o in\u00edcio, Martin conduziu o tratamento, me apontando como eu deveria ficar, sem demandar algo dele, esperar ou \u201cquerer\u201d trat\u00e1-lo, ou cuidar dele. Ao fazer uma escans\u00e3o no que Martin trazia como defesa ao outro, essa emiss\u00e3o maci\u00e7a \u201cafa!\u201d, foi poss\u00edvel surgir algo da ordem de um espa\u00e7o, j\u00e1 t\u00e3o presente na dist\u00e2ncia que ele manteve de mim por um bom tempo. Mas isso apontou para um intervalo onde o sujeito pudesse se dirigir at\u00e9 mim, sentando no meu colo, suportando o som da minha voz sem ser invasivo ou angustiante. Martin passou inclusive a utilizar meu corpo nos atendimentos e, mais a frente, me dirigir palavras.<\/p>\n<p>O encontro com um analista produz efeitos no sujeito autista, sua presen\u00e7a cuidadosa, d\u00f3cil, respeitosa, cordial, faz advir algo da transfer\u00eancia e, portanto, algo do amor. Do amor n\u00e3o entendido como repeti\u00e7\u00e3o e sim como algo da ordem da inven\u00e7\u00e3o, da cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estar\u00edamos a\u00ed no terreno do que Lacan chamou de amor real? N\u00e3o s\u00e3o os autistas os que nos d\u00e3o a prova do que se pode inventar a partir do troumatisme, a partir do Um sozinho?<\/p>\n<p>No semin\u00e1rio \u201cOs n\u00e3o-tolos erram\u201d de 1973\/74, Lacan diz:<\/p>\n<blockquote><p>\u201co inconsciente n\u00e3o descobre nada, n\u00e3o h\u00e1 nada para descobrir no real, s\u00f3 que existe ali um furo, ent\u00e3o o inconsciente inventa. Todos n\u00f3s inventamos algo para tapar o furo no real, ali onde n\u00e3o existe o rapport sexual. Ali onde se produz um troumatisme Um inventa, inventa o que pode\u201d<\/p><\/blockquote>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias:<\/h6>\n<h6>Lacan, J.(1967\/2003) \u201cAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a\u201d in Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, p. 361-368.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975). \u201cConfer\u00eancia de Genebra sobre o sintoma\u201d, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, n.23, 1998, p.6-16.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0 O Semin\u00e1rio 21, in\u00e9dito, Os n\u00e3o tolos erram, aula de 19 de fevereiro de 1972.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco de Assis Xavier Neto &#8211; N\u00facleo de Estudos e Pesquisa sobre Psican\u00e1lise e Autismo (PE) Atendo Martin desde 2016, ano que entrei no setor de autismo de uma institui\u00e7\u00e3o em que trabalho, um Centro Especializado em Reabilita\u00e7\u00e3o (CER). 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