{"id":2591,"date":"2021-09-20T08:47:53","date_gmt":"2021-09-20T11:47:53","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=2591"},"modified":"2021-09-20T08:47:53","modified_gmt":"2021-09-20T11:47:53","slug":"um-amor-novinho-em-folha-e-em-letra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/um-amor-novinho-em-folha-e-em-letra\/","title":{"rendered":"Um amor novinho em folha \u2013 e em letra"},"content":{"rendered":"<h6>Paulo Carvalho &#8211; N\u00facleo de Estudos e Pesquisa sobre Psican\u00e1lise e Autismo (PE)<\/h6>\n<p>No tratamento de Martin \u2013 caso apresentado por Francisco Xavier &#8211; pudemos observar a opera\u00e7\u00e3o do desejo do analista \u2013 fun\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o se ocupar\u201d &#8211; na cl\u00ednica do autismo, naquilo que esse desejo implica de escans\u00e3o, de intervalo, e naquilo que essa escans\u00e3o confirma da rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito autista e a linguagem: n\u00e3o h\u00e1 pr\u00e9-verbal.<\/p>\n<p>H\u00e1, por sua vez, transfer\u00eancia, e isso nos atestaria essa separa\u00e7\u00e3o m\u00ednima: A-fah. A nossa hip\u00f3tese \u00e9 que atrav\u00e9s dessa brecha podemos falar de amor, do novo no amor, onde a transfer\u00eancia est\u00e1 remetida \u00e0s pr\u00f3prias inven\u00e7\u00f5es de que o autista \u00e9 capaz no seu trabalho cont\u00ednuo de criar bordas.<\/p>\n<p>Em \u201cAmor e Nome-do-Pai\u201d, Alexandre Stevens observa que, para Lacan, o amor n\u00e3o \u00e9 apenas narc\u00edsico, mas tem fun\u00e7\u00e3o de supl\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe.\u00a0 O aforismo \u201cs\u00f3 o amor permite ao gozo condescender ao desejo\u201d (<em>Semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia<\/em>) abre-nos as portas para pensar o amor como v\u00e9u em rela\u00e7\u00e3o ao real, ou seja, em rela\u00e7\u00e3o ao gozo (STEVENS, 2007, p. 49).\u00a0 O amor como v\u00e9u seria aquilo se interp\u00f5e entre <strong>gozo <\/strong>e<strong> desejo<\/strong>. Isto \u00e9, algo interposto entre o gozo do Um e campo do Outro, como veremos adiante.<\/p>\n<p>Lembro tamb\u00e9m que na primeira aula do semin\u00e1rio <em>Los divinos detalles<\/em>, Miller prop\u00f4s a seguinte par\u00e1frase \u00e0 conhecida m\u00e1xima freudiana<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> \u201ca\u00ed onde o Isso era, o eu deve advir\u201d:<\/p>\n<p>\u201c<strong>a\u00ed onde estava a tartaruga, o eu deve advir<\/strong>\u201d (MILLER, 2010,\u00a0 p. 25).<\/p>\n<p>Isto \u00e9, explica Miller, que a condi\u00e7\u00e3o (fetichista) primordial que atravessa a elei\u00e7\u00e3o do parceiro passa por uma ren\u00fancia:<\/p>\n<p>\u201c<strong>h\u00e1 que se renunciar a gozar sozinho, a gozar s\u00f3 do pr\u00f3prio corpo<\/strong>\u201d (id., ib., p. 30).<\/p>\n<p>Seria o amor, portanto, que permitiria ao gozo como tal, cont\u00ednuo \u2013 autista\u00a0 &#8211; consentir com o desejo, \u201ccondescender ao desejo\u201d. Ram Mandil (ao final de v\u00eddeo postado no canal do Enapol 2021 no Youtube<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>) tamb\u00e9m enfatiza essa descontinuidade introduzida pelo amor.<\/p>\n<p>Penso que Ram Mandil nos orienta a um deslocamento. Da perspectiva do amor narc\u00edsico &#8211; enquadre fetichista abordado por Miller na citada aula de <em>Los divinos detalles<\/em> &#8211; em dire\u00e7\u00e3o a uma nova perspectiva do la\u00e7o presente no <em>Semin\u00e1rio 20<\/em> &#8211; do amor como uma supl\u00eancia.\u00a0 Nesta orienta\u00e7\u00e3o, a descontinuidade no \u201cgozo da tartaruga\u201d &#8211; horizonte pr\u00f3prio da disjun\u00e7\u00e3o \u201camor ao seio\u201d e \u201cpalavras de amor\u201d \u2013 seria condi\u00e7\u00e3o para a transfer\u00eancia, esteja o sujeito na estrutura aut\u00edstica ou n\u00e3o.\u00a0 \u201cComo se cede alguma coisa do Gozo do Um para o campo do Outro\u201d, pergunta-se Mandil propondo que pensar o amor no autismo (no autismo do gozo) \u00e9 a quest\u00e3o fundamental que atravessa todos os eixos do Encontro.<\/p>\n<p>Esse deslocamento est\u00e1 no cerne do seu argumento \u201cNovo no amor<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>\u201d. No texto, Ram Mandil argumenta que o novo no amor implica \u201cnovas modalidades de lidar com o que se repete, ou ainda, \u00e0 possibilidade de conferir nova forma \u2013 sinthom\u00e1tica, dizemos \u2013 ao que se manifesta da aus\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d.<\/p>\n<p>Martin passaria assim do gozo cont\u00ednuo do Afah, \u00e0 escans\u00e3o A-fah, cedendo algo do Um inequ\u00edvoco, modo particular de inscri\u00e7\u00e3o da letra no autismo. Na sequ\u00eancia, o sujeito passa n\u00e3o apenas a suportar a presen\u00e7a do analista, mas tamb\u00e9m a se servir dela e dirigir-lhe palavras<\/p>\n<p>Segundo uma das teses de Patr\u00edcio \u00c1lvarez Bay\u00f3n em <em>El autismo, entre lalengua y la letra<\/em>, seria a partir de um intervalo como este que se inscreveria a letra no autismo. E \u00e9, nesse sentido, que a inven\u00e7\u00e3o no tratamento do sujeito autista nos ensina algo de original sobre o <strong>novo no amor<\/strong>.\u00a0 Amor \u201cnovinho em folha\u201d- e em letra.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Sobre este \u00faltimo ponto gostaria de trabalhar uma sequ\u00eancia de tr\u00eas par\u00e1grafos da \u201cConfer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma\u201d. No primeiro deles, Lacan introduz a ambiguidade de lal\u00edngua, de seu res\u00edduo \u201cmoterial\u201d nos sonhos, nos trope\u00e7os e \u201cem todo tipo de forma de dizer\u201d (LACAN, 1998, p.10).\u00a0 Neste primeiro par\u00e1grafo est\u00e1 a primeira vez que Lacan usa o termo <em>mot\u00e9rialisme<\/em>. Ele diz: \u201cNesse mot\u00e9rialisme que reside a tomada do inconsciente \u2013 quero dizer que o que faz que cada um n\u00e3o tenha encontrado outro modo de sustentar n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o que, h\u00e1 pouco, chamei de sintoma\u201d (id., ib., p.10).<\/p>\n<p>O par\u00e1grafo seguinte \u00e9 sobre o sintoma e mais precisamente sobre o \u201csentido do sintoma\u201d, sempre vinculado \u00e0 \u201crealidade sexual\u201d. \u201cO inconsciente\u201d, diz Lacan mais adiante na <em>Confer\u00eancia<\/em>, \u201c\u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o no sentido de que \u00e9 uma descoberta associada ao encontro que certos seres t\u00eam com sua pr\u00f3pria ere\u00e7\u00e3o\u201d (id. Ib., p. 10).<\/p>\n<p>Por fim, no terceiro par\u00e1grafo, Lacan exp\u00f5e uma discord\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Freud. \u201cEle acreditou poder enfatizar, notadamente, o termo autoerotismo, tendo em vista que essa realidade sexual a crian\u00e7a descobre, inicialmente, em seu pr\u00f3prio corpo. Permito-me \u2013 isso n\u00e3o me ocorre todos dias \u2013 n\u00e3o estar de acordo \u2013 e isso em nome da obra do pr\u00f3prio Freud\u201d (id., ib., p. 10).\u00a0 Ainda segundo Lacan, \u201co encontro com a pr\u00f3pria ere\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 absolutamente autoer\u00f3tico. \u00c9 o que h\u00e1 de mais h\u00e9tero\u201d (id., ib., p. 10). O gozo do pequeno Hans lhe \u00e9 desconhecido, e disso ele tem medo.<\/p>\n<p>Temos ent\u00e3o nesses tr\u00eas par\u00e1grafos da <em>Confer\u00eancia<\/em> o seguinte encadeamento:<\/p>\n<ol>\n<li><em>Mot\u00e9rialisme-lalangue<\/em>.<\/li>\n<li>Sintoma como modo de sustenta\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>O encontro com o gozo h\u00e9tero, com a realidade sexual (n\u00e3o autoer\u00f3tico), mediado pelo \u201csentido do sintoma\u201d &#8211; no pequeno Hans.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Pergunto se neste encadeamento, podemos vislumbrar algo sobre o tratamento \u201cdo autismo\u201d? Ter\u00edamos nessa constru\u00e7\u00e3o lacaniana um exemplo de \u201ccomo o sujeito se serve da conting\u00eancia para transformar isso numa ponte na sua rela\u00e7\u00e3o com o campo do Outro\u201d, como nos fala Ram Mandil em seu v\u00eddeo para o X Enapol?<\/p>\n<p>Se podemos falar de <em>realliza\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a><\/em> enquanto modalidade particular \u201cde encarnar no real o menos\u201d (BARROS,\u00a0 p.94)\u00a0\u00a0 &#8211; e do tratamento do gozo do corpo nos sujeitos autistas, poder\u00edamos tamb\u00e9m falar que o amor nessa estrutura vem tamb\u00e9m como supl\u00eancia \u00e0 caracter\u00edstica parassexuada da letra? Em outras palavras, podemos articular a s\u00e9rie<strong> realliza\u00e7\u00e3o &#8211; Um \u2013 letra \u2013 sexo \u2013 enigma&#8230;e amor<\/strong>\u00a0 no autismo?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas <\/strong><\/h6>\n<h6>BAY\u00d3N, P. A<em>. El autismo, entre lalengua y la letra<\/em>. Buenos Aires: Grama, 2020.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. \u201cA disseca\u00e7\u00e3o da personalidade ps\u00edquica\u201d. <strong>Novas confer\u00eancia introdut\u00f3rias sobre psican\u00e1lise<\/strong> (1933). In: <em>Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>, vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1980<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cConfer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>. S\u00e3o Paulo: Eolia, n. 23, 1993.<\/h6>\n<h6>MANDIL, R. <em>Novo no amor<\/em>. Terceiro argumento do X Enapol. Dispon\u00edvel em: http:\/\/x-enapol.org\/pt\/argumentos\/<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. <em>Los divinos detalles<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010.<\/h6>\n<h6>STEVENS, Alexandre. \u201cScilicet dos Nomes-do-Pai\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>. <em>Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>. S\u00e3o Paulo: Eolia, n. 50, 2007.<\/h6>\n<h6>BARROS, M. R. \u201cA quest\u00e3o do autismo\u201d In: MURTA; CALMON; ROSA (org.). <em>Autismo(s) e atualidade: uma leitura lacaniana<\/em>. Belo Horizonte: Scriptum, 2012<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> FREUD, Sigmund. \u201cA disseca\u00e7\u00e3o da personalidade ps\u00edquica\u201d. Novas confer\u00eancia introdut\u00f3rias sobre psican\u00e1lise (1933). In: <em>Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>, vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1980<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ram Mandil. Comiss\u00e3o Cient\u00edfica X ENAPOL. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=i-XmbVVoEeI<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> MANDIL, Ram. <em>Novo no amor<\/em>. Terceiro argumento do X Enapol. Dispon\u00edvel em: http:\/\/x-enapol.org\/pt\/argumentos\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Conceito de Jacques-Alain Miller proposto em \u201cA matriz do tratamento da crian\u00e7a do lobo\u201d, em que Miller comenta do caso Robert, de Rosine Lefort. O conceito \u00e9 retomado por Maria do Ros\u00e1rio Collier do Rego Barros no texto \u201cA quest\u00e3o do autismo\u201d, publicado no livro <em>Autismo(s) e atualidade: uma leitura lacaniana<\/em> (2012), organizado por \u00a0Alberto Murta, Anal\u00edcea Calmon e M\u00e1rcia Rosa.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Carvalho &#8211; N\u00facleo de Estudos e Pesquisa sobre Psican\u00e1lise e Autismo (PE) No tratamento de Martin \u2013 caso apresentado por Francisco Xavier &#8211; pudemos observar a opera\u00e7\u00e3o do desejo do analista \u2013 fun\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o se ocupar\u201d &#8211; na cl\u00ednica do autismo, naquilo que esse desejo implica de escans\u00e3o, de intervalo, e naquilo que essa&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2591","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-autismo","category-boletim-litoraneo","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2591","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2591"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2591\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2591"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2591"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2591"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2591"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}