{"id":2505,"date":"2021-08-19T09:31:24","date_gmt":"2021-08-19T12:31:24","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=2505"},"modified":"2021-08-19T09:31:24","modified_gmt":"2021-08-19T12:31:24","slug":"e-tudo-menina-fazer-laco-fazer-familia-nos-arranjos-da-sexuacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/e-tudo-menina-fazer-laco-fazer-familia-nos-arranjos-da-sexuacao\/","title":{"rendered":"\u201c\u00c9 tudo menina!\u201d &#8211; fazer la\u00e7o, fazer fam\u00edlia nos arranjos da sexua\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h6>UNI DUNI T\u00ca &#8211; N\u00facleo de Estudos e Pesquisas sobre Crian\u00e7as e Adolescentes &#8211; Para\u00edba <a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a><br \/>\nRelatora: Sandra Conrado<\/h6>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2559\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/boletim_04_nucleo003-1.jpeg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"556\" \/><\/strong>Se Freud n\u00e3o tivesse estendido \u00e0s crian\u00e7as o direito ao trabalho com o inconsciente, como poder\u00edamos ter acesso ao que, do lado delas, a pergunta sobre o sexo j\u00e1 fixa muito precocemente: o encontro com a falta, com seus impasses e com a pergunta sobre quem s\u00e3o seus pais, com os quais elas tanto contam para se assentar na vida?<\/p>\n<p>Ao encontro da crian\u00e7a com seus pais chamamos de fam\u00edlia, encontro transit\u00f3rio que n\u00e3o vinga por muito tempo como \u201csua majestade, o beb\u00ea\u201d, se tivermos em mente o fracasso inscrito na ordem de um descompasso imposto \u00e0 crian\u00e7a na fun\u00e7\u00e3o de condensador de gozo, com o qual ter\u00e1 de se haver perante o casal parental.<\/p>\n<p>J\u00e1 est\u00e1 na sua pr\u00e9-hist\u00f3ria a marca de um desejo an\u00f4nimo, no qual, na sua hist\u00f3ria ela se ver\u00e1 capturada na forma de um mal-entendido. E experimentar\u00e1 nas suas futuras atua\u00e7\u00f5es as tentativas de se arranjar com um sintoma.<\/p>\n<p>Estamos em um mundo onde tudo existe, a rela\u00e7\u00e3o sexual, a mulher, em forma de projetos delirantes que tentam naturalizar o sexo como significante que nomeia a divis\u00e3o. Sabemos que esses projetos e suas tend\u00eancias ao propor o para\u00edso desejado, podem ser abalados. N\u00e3o pelo real que Freud e Lacan introduziram nos seus ensinamentos necessariamente, mas pelas pr\u00f3prias crian\u00e7as que parecem lidar com ele em seu desvelamento. Uma fam\u00edlia pode viver eternamente seu mal-estar diante desses projetos; outras podem se exasperar, mas o que ambas mant\u00eam \u00e9 um gozo desmedido onde as crian\u00e7as ocupam hoje o lugar de para al\u00e9m do objeto <em>a,<\/em> tornando-se \u201cfigurinhas\u201d terr\u00edveis, <em>debaixo do mesmo teto<\/em>, <em>at\u00e9 que a casa caia ou at\u00e9 que a morte os una<\/em> (parafraseando, aqui, Chico Buarque).<\/p>\n<p>Segundo Laurent, na sua Confer\u00eancia sobre A an\u00e1lise de crian\u00e7as e a paix\u00e3o familiar, \u201ca fam\u00edlia ideal \u00e9 uma fam\u00edlia sem crian\u00e7as, j\u00e1 que quando ela aparece, o c\u00edrculo familiar explode e se fragmenta\u201d.<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a><\/p>\n<p>Duas indica\u00e7\u00f5es preciosas de Laurent, ainda nesse texto: a primeira diz da posi\u00e7\u00e3o do psicanalista de proteger as crian\u00e7as dos del\u00edrios familiares e a segunda, a certeza de que podemos contar com elas (as crian\u00e7as) para seguir nossa orienta\u00e7\u00e3o no discurso.<\/p>\n<p>Se as novas fic\u00e7\u00f5es insistem em apagar o real do sexo, o encontro com o analista pode ajudar a crian\u00e7a a traz\u00ea-lo de volta, pois diferente do encontro com a fam\u00edlia, o psicanalista \u00e9 aquele que n\u00e3o abre m\u00e3o do real em jogo que o sujeito- crian\u00e7a ter\u00e1 que operar nas novas formas de se fazer fam\u00edlia, quando, sobretudo, segundo Laurent, \u201celas n\u00e3o t\u00eam mais um papai e uma mam\u00e3e, como os demais.\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a><\/p>\n<p>Joana, quatro anos, opera com o gozo de n\u00e3o seguir as regras, se reconhecendo como chata e pesada, significantes dos pais. Seus desenhos se limitavam \u00e0 m\u00e3e, ela e a analista. A m\u00e3e aparecia sempre grande e feia, segundo ela. O pai fica fora. A analista interroga: porque sempre esse desenho? Ela responde: \u201co meu pai disse que pode ser sempre ingual\u201d Ingual passa a ser o significante de refer\u00eancia ao pai. Joana n\u00e3o tem dificuldade de pronunciar igual. Ingual s\u00f3 aparece em alus\u00e3o ao pai. Brincar ingual ao meu pai, sentar ingual ao meu pai, etc. Na impossibilidade de ter filhos, o pai diz que Joana foi concebida por uma \u201cinsemina\u00e7\u00e3o no m\u00e9todo caseiro\u201d.<\/p>\n<p>Na falta de clareza do enunciado perante a analista, a m\u00e3e esclarece ser ele, o pai, um homem trans. Numa outra sess\u00e3o, Joana diz a analista que colocar\u00e1 o pai no desenho. A analista interroga: \u201cseu pai?\u201d Ela: \u201cN\u00e3o, o pai\u201d. \u201cO pai de quem, pergunta a analista?\u201d Ao que ela responde: \u201cN\u00e3o sei. Voc\u00ea tem barba?\u201d<\/p>\n<p>Surge o interesse de saber o que h\u00e1 por baixo das roupas de um cavalo de brinquedo e come\u00e7a a separar o que s\u00e3o homens e o que s\u00e3o mulheres. Ela \u00e9 sempre mulher e a analista \u00e9 sempre homem, as mulheres sempre grandes e os homens pequenos. Revela a analista ter visto o pai de biqu\u00edni. Surge uma inquieta\u00e7\u00e3o &#8211; parece querer saber (ou dizer?) &#8211; vivida nos jogos de quebra-cabe\u00e7a que n\u00e3o consegue montar. Faltam pe\u00e7as. Da interven\u00e7\u00e3o da analista de ser dif\u00edcil montar quebra-cabe\u00e7as quando faltam algumas pe\u00e7as, produz sonhos com drag\u00f5es e seus ovos e um medo de estar sozinha. Outras quest\u00f5es aparecem: medos de coisas que n\u00e3o sabe revelar, sonhos com coisas ruins, medo de quando era beb\u00ea e a queixa da m\u00e3e que n\u00e3o muda de casa. Sobre \u201ch\u00e1 coisas que n\u00e3o mudam\u201d, dita pela analista, ela revela um medo: \u201cestou com medo do meu pai, de dizer a verdade\u201d. Sobre a verdade, responde: \u201cde perguntar\u201d. Fala baixinho ao ouvido da analista que est\u00e1 com vergonha de mostrar um v\u00eddeo do pai.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia dessa sess\u00e3o constr\u00f3i uma fam\u00edlia: as barbes, o cavalo \u2013 seu beb\u00ea \u2013 ela e a analista (estas, primas), destacando que n\u00e3o tinham pai. Sobre n\u00e3o ter pai, ela diz que os filhos s\u00f3 t\u00eam m\u00e3e, revelando por fim: \u201c<em>\u00c9 tudo menina!<\/em>\u201d Ao construir essa fam\u00edlia Joana se apaz\u00edgua.<\/p>\n<p>O que se operou para essa crian\u00e7a? Joana encontrou em suas atua\u00e7\u00f5es uma forma de experimentar a diferen\u00e7a sexual para al\u00e9m da anatomia, ali onde ela encontra consequ\u00eancias na formaliza\u00e7\u00e3o de sua posi\u00e7\u00e3o de gozo como sintoma do casal parental. Joana afronta, disputa, cria conflitos e at\u00e9 obedece, mas n\u00e3o segue as regras. Algo fracassa. \u201c<em>O pai\u201d, <\/em>n\u00e3o seu pai, seria uma forma de Joana fazer vacilar um semblante que poderia sustentar seu desejo de menina?\u00a0 \u00c9 na analista que ela busca uma barba, \u00e9 na analista-menino que ela brinca de ser menina, \u00e9 no cavalo que ela procura o s\u00edmbolo f\u00e1lico, \u00e9 na presen\u00e7a da aus\u00eancia materna que ela desenha drag\u00f5es e ovos.<\/p>\n<p>O que Joana procura por baixo da roupa do cavalo? Um significante que possa organizar seu gozo? Um jogo de pe\u00e7as que ali est\u00e1 e n\u00e3o est\u00e1? Ou o que, da disjun\u00e7\u00e3o homem e mulher, possa ser operado por ela diante do que fracassa na imagem do biqu\u00edni? Qual \u00e9 seu impasse?<\/p>\n<p>Daniel Roy nos coloca uma pergunta: a identifica\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o est\u00e1 sempre em crise e nos alerta para a garantia de que a psican\u00e1lise possa fazer ressoar na pr\u00e1tica anal\u00edtica as inibi\u00e7\u00f5es, os sintomas e as ang\u00fastias, na medida em que eles possam ser muito bem respostas e defesas, face aos momentos de crise, em que se v\u00ea abalada a identifica\u00e7\u00e3o f\u00e1lica que sustentava as crian\u00e7as at\u00e9 ent\u00e3o.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a><\/p>\n<p>No final das contas, a queixa de Joana n\u00e3o \u00e9 necessariamente de seu pai trans, ela o ama, disputa o amor dele com sua m\u00e3e. A quest\u00e3o que se coloca e que no N\u00facleo nos propusemos a pensar segue a linha do que nos traz Daniel Roy: como contemplar o saber da crian\u00e7a sobre a diferen\u00e7a sexual diante dos semblantes que fracassam, pois que est\u00e3o sempre em crise? Como, no encontro com o analista, a crian\u00e7a pode se apaziguar no desejo do Outro criando, ela mesma, suas fic\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a sua identifica\u00e7\u00e3o sexual?<\/p>\n<p>Joana se arranja. <em>O pai<\/em> est\u00e1 l\u00e1, em algum lugar. O que em sua an\u00e1lise ela p\u00f4de operar foi a condi\u00e7\u00e3o de saber jogar com os significantes, onde, na partida com a analista ela \u00e9 sempre a menina que tem um beb\u00ea e uma fam\u00edlia de meninas. Segundo Brousse, \u201co sexo \u00e9 um efeito de dizer e com ele deixamos a pergunta: quais palavras, hoje, as crian\u00e7as escolhem para dizer de seu pertencimento? Elas t\u00eam teorias sexuais novas?\u201d <a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que acolher das novas teorias das crian\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mat\u00e9ria da sexualidade, t\u00e3o for\u00e7ada pelas novas conven\u00e7\u00f5es sociais em apagar sua diferen\u00e7a? O significante <em>in-gual<\/em> coloca Joana num impasse que ela mesma equivoca pelos efeitos da linguagem. Com seu <em>in,<\/em> negativiza o <em>igual <\/em>para operar suas pesquisas e constatar, na diferen\u00e7a sexual \u201c<em>\u00c9 tudo menina!, <\/em>seu pertencimento na fam\u00edlia.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> N\u00facleo de Estudos e Pesquisa sobre a Crian\u00e7a e o Adolescente Jo\u00e3o Pessoa-Para\u00edba<\/h6>\n<h6>Participantes: \u00a0Sandra Conrado (Coordenadora\/relatora), Aline Fonseca, Ana Claudia Vasconcelos, Andressa Guimar\u00e3es, Ariadne Meira, Gabriela Ramos, Isadora D\u00b4Andrea, L\u00e9a Vieira, Ligia Guimar\u00e3es, Marilia Moura, Paulo Medeiros, Shirley Lira, Ubiratan Pereira<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Laurent, E \u2013 Loucuras, sintomas e fantasias na vida cotidiana, Belo Horizonte, Sricptum Livros, 2011, p 38<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> Idem, p. 41<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> Roy, D &#8211;\u00a0 Quatro perspectiva sobre a diferen\u00e7a sexual &#8211; <a href=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2019\/11\/17\/o-buraco-negro-da-diferenca-sexual\/\">http:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2019\/11\/17\/o-buraco-negro-da-diferenca-sexual\/<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> Brousse, M-H \u2013 O Buraco Negro da Diferen\u00e7a Sexual<br \/>\n<a href=\"http:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2019\/11\/17\/o-buraco-negro-da-diferenca-sexual\/\">http:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2019\/11\/17\/o-buraco-negro-da-diferenca-sexual\/<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UNI DUNI T\u00ca &#8211; N\u00facleo de Estudos e Pesquisas sobre Crian\u00e7as e Adolescentes &#8211; Para\u00edba [i] Relatora: Sandra Conrado Se Freud n\u00e3o tivesse estendido \u00e0s crian\u00e7as o direito ao trabalho com o inconsciente, como poder\u00edamos ter acesso ao que, do lado delas, a pergunta sobre o sexo j\u00e1 fixa muito precocemente: o encontro com a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2505","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-litoraneo","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2505","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2505"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2505\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2505"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2505"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2505"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2505"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}