{"id":2434,"date":"2021-07-14T07:22:23","date_gmt":"2021-07-14T10:22:23","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=2434"},"modified":"2021-07-14T07:22:23","modified_gmt":"2021-07-14T10:22:23","slug":"o-testemunho-e-as-licoes-do-passe-na-secao-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/o-testemunho-e-as-licoes-do-passe-na-secao-nordeste\/","title":{"rendered":"O Testemunho e as Li\u00e7\u00f5es do Passe na Se\u00e7\u00e3o Nordeste"},"content":{"rendered":"<h6>Cleyton Andrade<\/h6>\n<p>Antes dos holandeses, o litoral nordestino, na faixa que ia do Rio Grande do Norte a Alagoas, contava com 162 engenhos de a\u00e7\u00facar, a sua maioria entre a v\u00e1rzea grande e o rio Formoso, em Pernambuco (Mello, 2012). A primeira explos\u00e3o econ\u00f4mica do Brasil Col\u00f4nia teve como eixo e centro, o Nordeste. Por\u00e9m, se houve ascens\u00e3o, houve queda do ciclo da cana de a\u00e7\u00facar. A riqueza e a queda se deram em torno dos engenhos, o que deixou sobre o solo, o baga\u00e7o da cana. Mas essa \u00e9 a hist\u00f3ria do Nordeste do a\u00e7\u00facar, dos engenhos, das capitanias e latif\u00fandios. Entretanto, podemos perguntar com Agamben: o que resta dos engenhos, no nordeste geopol\u00edtico de hoje? Por outro lado, \u00e9 poss\u00edvel perguntar com Lacan, e sob os efeitos do chamado realizado pela EBP por uma nova geografia: o que n\u00f3s, no Nordeste, podemos fazer com o baga\u00e7o da cana? Como n\u00f3s analistas fazemos e faremos com o resto? Afinal, creio que se Lacan n\u00e3o iria ser alheio aos engenhos e aos efeitos pol\u00edticos do discurso do mestre coronel, enquanto analista, se interessaria mais pelo <em>baga\u00e7o da cana<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse Nordeste que opera com o resto inassimil\u00e1vel, com o intraduz\u00edvel, que de fato interessa. O mesmo Nordeste, irredutivelmente <em>Litor\u00e2neo<\/em>, que nos move de um jeito <em>e<\/em> de outro. A literatura tamb\u00e9m opera no <em>litoral<\/em> (LACAN, 1971) entre as fun\u00e7\u00f5es referenciais e auto-refer\u00eanciais. A autorefer\u00eancia do <em>discurso<\/em>, e da pr\u00f3pria linguagem, pode ter a virtude de expor a materialidade da l\u00edngua e, com isso, produzir uma perda de sentido. Contudo, h\u00e1 tamb\u00e9m uma face que coloca a literatura da auto-refer\u00eancia em quest\u00e3o, em xeque (SELIGMANN SILVA, 2003). Uma das formas de nomear essa literatura que afirma seu compromisso com o real, \u00e9 a literatura do testemunho.\u00a0 O testemunho, aqui, visa resgatar aquilo que se coloca como mais aterrorizante no real, para apresent\u00e1-lo e n\u00e3o para represent\u00e1-lo. Imp\u00f5e-se, neste caso, uma interroga\u00e7\u00e3o a respeito das rela\u00e7\u00f5es entre literatura e realidade, evento, mem\u00f3ria, morte etc.<\/p>\n<p>Por um lado, escritores criativos podem produzir experi\u00eancias e sentimentos do infamiliar, a partir de contos fant\u00e1sticos, por exemplo. Por outro, resta questionar de que modo uma experi\u00eancia de ruptura com regimes representacionais da linguagem e inimagin\u00e1veis do ponto de vista \u00e9tico, est\u00e9tico e pol\u00edtico, se portam diante do tratamento po\u00e9tico. Tal como aquelas rupturas realizadas pelos campos de exterm\u00ednio nazista, ou mesmo pelo processo de escraviza\u00e7\u00e3o negra, ou pelos crimes das ditaduras, bem como pelas diferentes formas de excessos genocid\u00e1rios de posi\u00e7\u00f5es extremistas pelo mundo. Em outras palavras, como uma experi\u00eancia do trauma, do real, incapaz de ser representada pelo significante, pode se apresentar na literatura sem se reduzir a uma historiografia, a um regime de representa\u00e7\u00f5es, a uma cadeia de informa\u00e7\u00f5es? Ou ainda, como a literatura do testemunho, e mais especificamente o pr\u00f3prio <em>testemunho<\/em>, ao inv\u00e9s de tentar representar o real, pode, ao contr\u00e1rio, transmitir algo do real e do trauma?<\/p>\n<p>\u00c9 nesta dire\u00e7\u00e3o que a primeira atividade das <em>Li\u00e7\u00f5es do passe<\/em> na nova Se\u00e7\u00e3o Nordeste, contou com a presen\u00e7a e contribui\u00e7\u00e3o de Luc\u00edola Macedo na atividade \u201c<em>O testemunho, entre o po\u00e9tico e o pol\u00edtico<\/em>\u201d falando sobre o testemunho de Primo Levi, um sobrevivente do<em> lager<\/em>. Palavra em alem\u00e3o que designa os campos de exterm\u00ednio nazistas. Palavra mantida no original, sem tradu\u00e7\u00e3o, no testemunho de um sobrevivente italiano. H\u00e1 aqui uma materialidade que se imp\u00f5e no uso do termo alem\u00e3o n\u00e3o traduzido, embora traduz\u00edvel. H\u00e1 algo que o <em>testemunho<\/em> testemunha de um real que n\u00e3o se traduz pelo significante, embora tamb\u00e9m n\u00e3o recue diante do imposs\u00edvel que ele porta. Ao contr\u00e1rio: destaca o imposs\u00edvel. Confere um contorno de efeitos po\u00e9ticos justamente por apontar que h\u00e1, al\u00ed, algo irrepresent\u00e1vel, imposs\u00edvel de se traduzir.<\/p>\n<p>Tocados pelo testemunho como um modo de falar do encontro da linguagem com o real, as <em>Li\u00e7\u00f5es do passe<\/em> seguir\u00e3o agora a proposta de percorrer a doutrina do passe. Para isso, alguns enunciados de Lacan e Jacques-Alain Miller ser\u00e3o as pe\u00e7as para os coment\u00e1rios de colegas AMEs e AEs. Esse trabalho se prop\u00f5e a ser uma das maneiras de continuarmos a fazer, ao melhor estilo nordestino, do baga\u00e7o da cana, r\u00e9s do ch\u00e3o da atividade a\u00e7ucareira (Mello, 2012) a <em>causa<\/em> que move, o trabalho que anima, o entusiasmo linguajeiro que faz do Nordeste, ainda, sem anacronismo a\u00e7ucareiro, uma regi\u00e3o de extrema riqueza. Nesse sentido, a Se\u00e7\u00e3o Nordeste \u00e9 efeito do avan\u00e7o da EBP, na nova Geografia, bem como da hist\u00f3ria da diversidade e riqueza cultural que fez e ainda faz m\u00fasica, cordel, poesia, entre o m\u00faltiplo e o Uno.<\/p>\n<h6>Bibliografia:<\/h6>\n<h6>LACAN, J.. <em>Semin\u00e1rio livro 18: de um discurso que n\u00e3o fosse semblante<\/em> (V. Ribeiro, Trad.). Rio de Janeiro: Zahar, 2006.<\/h6>\n<h6>MELLO, Evaldo Cabral de. <em>O baga da cana: os ende a\u00e7ucar do Brasil holand\u00eas. <\/em>S\u00e3o Paulo:\u00a0 \u00a0Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.<\/h6>\n<h6>SELIGMANN-SILVA, M. (org). <em>Hist\u00f3ria, Mem\u00f3ria Literatura: O testemunho na Era das Cat\u00e1strofes.<\/em> p.59-88. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cleyton Andrade Antes dos holandeses, o litoral nordestino, na faixa que ia do Rio Grande do Norte a Alagoas, contava com 162 engenhos de a\u00e7\u00facar, a sua maioria entre a v\u00e1rzea grande e o rio Formoso, em Pernambuco (Mello, 2012). A primeira explos\u00e3o econ\u00f4mica do Brasil Col\u00f4nia teve como eixo e centro, o Nordeste. 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