{"id":2432,"date":"2021-07-14T07:22:23","date_gmt":"2021-07-14T10:22:23","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=2432"},"modified":"2021-07-14T07:22:23","modified_gmt":"2021-07-14T10:22:23","slug":"o-cartel-articula-a-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/o-cartel-articula-a-escola\/","title":{"rendered":"O cartel articula a Escola"},"content":{"rendered":"<h6>Cla\u00fadia Formiga<\/h6>\n<blockquote><p><em>\u201cO ensino da psican\u00e1lise s\u00f3 pode transmitir-se de um sujeito para outro pelas vias de uma transfer\u00eancia de trabalho\u201d (J. Lacan).<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Quando Lacan, por ocasi\u00e3o da funda\u00e7\u00e3o de sua Escola em 1964, prop\u00f5e o cartel como dispositivo privilegiado por meio do qual se deve realizar <em>o trabalho de Escola,<\/em> ele o posiciona no centro da forma\u00e7\u00e3o do analista. Quer dizer, no lugar em torno do qual se situa a pergunta <em>o que \u00e9 um analista<\/em>, pergunta cuja resposta aponta a um vazio de saber que convoca \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1980,<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> \u00e0s voltas com as novas quest\u00f5es que o preocupavam quanto \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do analista, Lacan aponta a esse lugar para o cartel, em sua proposta de retomada da Escola, cuja solu\u00e7\u00e3o (p\u00f3s dissolu\u00e7\u00e3o), nesse momento, passava por \u201crestaurar\u201d o cartel como \u00f3rg\u00e3o de base da Escola, \u201caprimorando\u201d o seu funcionamento. Em suas palavras:<\/p>\n<blockquote><p><em>(\u2026) dou partida \u00e0 Causa Freudiana &#8211; e restauro em seu favor, o o \u00f3rg\u00e3o de base retomado da funda\u00e7\u00e3o da Escola &#8211; ou seja, o cartel, cuja experi\u00eancia (&#8230;), eu aprimoro a formaliza\u00e7\u00e3o.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>E define, em seguida, uma composi\u00e7\u00e3o m\u00ednima e uma l\u00f3gica de funcionamento para o trabalho a ser a\u00ed desenvolvido. A composi\u00e7\u00e3o: um pequeno grupo, de car\u00e1ter transit\u00f3rio e sem l\u00edder, cujo produto deve ser \u201cpr\u00f3prio a cada um\u201d. Quanto \u00e0 l\u00f3gica de funcionamento, prop\u00f5e algo que diferencia fundamentalmente do funcionamento de grupo: a presen\u00e7a de um elemento <em>\u00eaxtimo<\/em> aos demais componentes do grupo, o <em>Mais-um, <\/em>cuja fun\u00e7\u00e3o, especifica: \u201czelar pelos efeitos internos da iniciativa e provocar a elabora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Como assinala Miller (1994)<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, trata-se, para Lacan, nesse momento, de resgatar, no trabalho de Escola a verdade da psican\u00e1lise, que \u201cao menos em sua dimens\u00e3o institucional\u201d havia se desviado em sua pr\u00e1tica, com a intrus\u00e3o do analista didata. Diz ele: \u201cO passe, como o cartel \u00e9, do ponto de vista institucional, uma m\u00e1quina antididata. E a Escola, com o cartel e o passe, (\u2026) visa resgatar a psican\u00e1lise dos didatas\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Trata-se, na l\u00f3gica do cartel, de um tipo de transfer\u00eancia \u00e0 Escola, transfer\u00eancia de trabalho, em que a mestria d\u00e1 lugar \u00e0 enuncia\u00e7\u00e3o e a uma produ\u00e7\u00e3o de saber que \u201cdescola\u201d (e faz decolar) a Escola.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Assim, se por um lado, podemos dizer que a experi\u00eancia do trabalho em cartel representa uma mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o importante na rela\u00e7\u00e3o com o saber, para aqueles que dele participam, por outro, o cartel tamb\u00e9m <em>articula<\/em> a Escola, no sentido em que, como uma dobradi\u00e7a, o cartel articula (une e separa) o dentro e o fora da Escola e permite que a\u00ed possa operar, <em>moebianamente, <\/em>as v\u00e1rias descontinuidades: do transitar entre os espa\u00e7os interno e externo, da rela\u00e7\u00e3o entre iniciantes e experientes, membros e n\u00e3o-membros&#8230;<\/p>\n<p>Na entrevista em que discorre sobre o tema dos carteis na Escola, Romildo do R\u00eago Barros nos permite desenvolver essa ideia quando prop\u00f5e ler o cartel topologicamente, \u201ccomo um instrumento que passa de uma face <em>produ\u00e7\u00e3o de saber <\/em>\u00e0 outra, <em>porta de entrada na Escola<\/em>, sem que se possa saber exatamente onde est\u00e1 o ponto de passagem\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Diz ele: \u201co interesse em participar da Escola \u00e9 j\u00e1 uma das facetas da decis\u00e3o de produzir saber\u201d, ao afirmar que o funcionamento da Escola deve transcender para o cartel, correspondendo este a uma \u201cparticulariza\u00e7\u00e3o\u201d daquela. Assim, o cartel, como <em>dobradi\u00e7a<\/em> que articula a Escola, se constitui como sua c\u00e9lula m\u00ednima, forma de la\u00e7o social em que predomina o discurso anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Na fun\u00e7\u00e3o de diretora de cart\u00e9is da Se\u00e7\u00e3o Nordeste senti-me convocada \u00e0 instigante tarefa de pensar essa articula\u00e7\u00e3o entre cartel e Escola, a partir da leitura que fiz dos textos de refer\u00eancia sobre o cartel e a forma\u00e7\u00e3o do analista.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> Reconhecer que o trabalho de cartel inclui o real em jogo na forma\u00e7\u00e3o do analista permitiu-me propor uma programa\u00e7\u00e3o de atividades que permita interrogar, em primeiro lugar, <strong>as rela\u00e7\u00f5es entre cartel e Escola. <\/strong>Esse ponto, escolhido como fio que atravessa a nossa proposta de trabalho com os cart\u00e9is, nos lan\u00e7a ainda uma s\u00e9rie de indaga\u00e7\u00f5es, relacionadas a fun\u00e7\u00e3o do cartel na Escola, tais como: <em>O que especifica o tipo de funcionamento proposto pelo cartel que o diferencia da forma\u00e7\u00e3o de grupos?<\/em> <em>\u00c9 poss\u00edvel dissociar cartel de Escola? H\u00e1 cartel sem um endere\u00e7amento de sua produ\u00e7\u00e3o? <\/em>Perguntas \u00e0s quais o contexto atual de isolamento em que estamos e mesmo os desafios trazidos pela cria\u00e7\u00e3o das novas se\u00e7\u00f5es na EBP vieram acrescentar, ainda, outras: <em>Que impacto tem o atual contexto de pandemia e de isolamento dos corpos sobre o trabalho de cartel? Qual a fun\u00e7\u00e3o do cartel no contexto da Nova Geografia? Qual a sua utilidade como forma de conter a dispers\u00e3o em meio \u00e0 profus\u00e3o de atividades on-line? <\/em>Quest\u00f5es que nos colocam desde j\u00e1 a trabalho enquanto permitem uma reflex\u00e3o sobre o sentido e os usos do cartel na Escola, em suas vertentes epist\u00eamica e institucional. Desenvolv\u00ea-las nos permitir\u00e1 contemplar as novas tonalidades conferidas ao cartel na atualidade.<\/p>\n<p>Com uma conversa\u00e7\u00e3o sobre o cartel, acontecida agora em 3 de julho, demos in\u00edcio \u00e0s atividades desta diretoria. A proposta de dar um <em>start<\/em> no trabalho de cart\u00e9is com um momento mais restrito, interno \u00e0 Se\u00e7\u00e3o, visando facilitar o encontro entre cartelizantes e proponentes a cartel, se cumpriu de forma muito satisfat\u00f3ria. Para essa ocasi\u00e3o, convidamos, um a um, cartelizantes e participantes das Associa\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em a nossa comunidade de trabalho e contamos com a valiosa contribui\u00e7\u00e3o da colega Cleide Monteiro, membro EBP\/AMP, cuja transmiss\u00e3o firme dos conceitos, aliada \u00e0 simplicidade, conseguiu iluminar, para um p\u00fablico atento de cerca de 80 participantes, aspectos importantes do cartel em sua rela\u00e7\u00e3o com a forma\u00e7\u00e3o do analista.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea sabe o que \u00e9 um cartel? Pra responder, n\u00e3o vale colar!<\/strong> A partir do t\u00edtulo instigante com que nomeou a sua fala, Cleide nos brindou com um percurso sobre o cartel na Escola de Lacan, que aludiu tanto a vertente de la\u00e7o social, que aponta \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dos efeitos de grupo, quanto ao cartel como estrat\u00e9gia de trabalho que enla\u00e7a o coletivo Escola \u00e0 enuncia\u00e7\u00e3o do ponto onde cada um se encontra em sua forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os momentos de<em> &#8216;\u201d<\/em>Acha-se cartel\u201d (t\u00edtulo inspirado na lista \u201cProcura-se cartel\u201d) tem como prop\u00f3sito acompanhar de perto o trabalho dos cart\u00e9is e facilitar a quem quer que deseje \u2013 membros, participantes das Associa\u00e7\u00f5es e frequentadores das atividades da Se\u00e7\u00e3o \u2013 a \u201ccarteliza\u00e7\u00e3o\u201d de um tema de interesse.<\/p>\n<p>Para esse primeiro encontro, uma novidade: a cria\u00e7\u00e3o de um <strong>Mural para\u00a0 os cart\u00e9is no whatsApp.<\/strong> Em lugar dos papeizinhos que antes enfeitavam as paredes de nossas sedes, agora tamb\u00e9m pelo aplicativo pode-se propor um tema de interesse e acompanh\u00e1-lo at\u00e9 o <em>match<\/em> da constitui\u00e7\u00e3o do cartel. A Paulo Carvalho e Rose Mooneyhan, que integram comigo a comiss\u00e3o de cart\u00e9is, meu agradecimento pela originalidade na execu\u00e7\u00e3o dessa ideia e tamb\u00e9m pela dedica\u00e7\u00e3o e entusiasmo com que v\u00eam contribuindo com o trabalho desta diretoria, e a K\u00e9sia Ramos e Bruno Senna, agrade\u00e7o o bel\u00edssimo v\u00eddeo que produziram, marcando com Arte essa ocasi\u00e3o. Por \u00faltimo, fa\u00e7o um convite ao trabalho. E ao trabalho em cartel! Que sigamos com a tarefa de manter viva a discuss\u00e3o sobre as quest\u00f5es que tocam ao cartel e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do analista, na aposta em que possamos recolher da\u00ed efeitos de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>Lacan, J. &#8211; \u201cAto de Funda\u00e7\u00e3o &#8211; 21 de Junho de 1964\u201d. Outros escritos. p. 242.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>Lacan, J. &#8211; \u201cD&#8217; \u00c9colage\u201d. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/carteis-e-intercambios\/apresentacao\/\">https:\/\/www.ebp.org.br\/carteis-e-intercambios\/apresentacao\/<\/a>. Acesso em 10.07.2021.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0 Lacan, J. &#8211; \u201cD&#8217; \u00c9colage\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>Miller, J-A. &#8211; \u201cO cartel no centro de uma Escola de psican\u00e1lise\u201d. Cartel, novas Leituras. Noemi Brown (org). S\u00e3o Paulo. EBP. 2021.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>Op. cit. p. 23.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>Ref. a <em>D&#8217; \u00c9colage<\/em>, t\u00edtulo em que Lacan brinca com a homofonia entre \u201cd&#8217;\u00e9colage\u201d (algo pr\u00f3ximo \u00e0 desescolariza\u00e7\u00e3o) e d\u00e8colage (de descolar, mas tamb\u00e9m de decolagem), nesse momento de \u201cdecolagem\u201d de sua Escola, em que ele prop\u00f5e para ela uma nova formaliza\u00e7\u00e3o.(cf. N.T).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>Barros, R. &#8211; \u201cOs cart\u00e9is na EBP\u201d (entrevista realizada por Rodrigo Lyra e Noemi Brown) In: \u201cCartel, novas leituras\u201d. Noemi Ibanez Brown (org.). S\u00e3o Paulo. EBP. 2021. p. 53.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a>A esse respeito, indico o livro \u201cCartel, novas leituras\u201d, colet\u00e2nea organizada por Noemi Brown (EBP\/AMP), que traz valiosas contribui\u00e7\u00f5es sobre o tema do cartel elaboradas por autores da EBP e da AMP.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cla\u00fadia Formiga \u201cO ensino da psican\u00e1lise s\u00f3 pode transmitir-se de um sujeito para outro pelas vias de uma transfer\u00eancia de trabalho\u201d (J. 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