{"id":438,"date":"2026-08-04T08:07:29","date_gmt":"2026-08-04T11:07:29","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/?p=438"},"modified":"2026-08-04T08:07:29","modified_gmt":"2026-08-04T11:07:29","slug":"psicanalise-na-aldeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/2026\/08\/04\/psicanalise-na-aldeia\/","title":{"rendered":"Psican\u00e1lise na aldeia"},"content":{"rendered":"<h5><em><strong>Jos\u00e9 Augusto Rocha<\/strong><\/em><\/h5>\n<p>Como pensar nossa pr\u00e1tica para al\u00e9m do ref\u00fagio de uma \u201cextraterritorialidade imagin\u00e1ria\u201d, do analista longe da cidade e de seus impasses? Como recolher os efeitos psicanal\u00edticos instalados em espa\u00e7os, por vezes, \u00e0s avessas de uma anu\u00eancia com o estabelecimento do lugar anal\u00edtico? Recupero essas quest\u00f5es tendo no horizonte minha atua\u00e7\u00e3o na Sa\u00fade Ind\u00edgena. Uma institui\u00e7\u00e3o que tem por objetivo garantir o acesso \u00e0 sa\u00fade dos povos ind\u00edgenas. Uma institui\u00e7\u00e3o tomada por diversos discursos, desde o discurso m\u00e9dico at\u00e9 o discurso ancestral, ou seja, formas nas quais o saber mant\u00e9m rela\u00e7\u00e3o com o semblante, mas tamb\u00e9m, por sua vez, com o social e a cultura, modalidade imprescind\u00edvel para exist\u00eancia de grupos e comunidades inteiras de ind\u00edgenas. Durante nossas discuss\u00f5es no cartel, uma quest\u00e3o toca diretamente o ponto que procurarei articular aqui. Por que oferecer a comunidades ind\u00edgenas, a esses agrupamentos e coletivos, por vezes t\u00e3o heterog\u00eaneos entre si, a psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>Retomo uma conhecida passagem de Claude L\u00e9vi-Strauss. Nela, o antrop\u00f3logo comparava o xam\u00e3 ao psicanalista. A compara\u00e7\u00e3o sempre me inquietou por algumas raz\u00f5es. Em primeiro plano, reduzia o psicanalista ao xam\u00e3 pelo imagin\u00e1rio transferencial. Neste entre mundos, entre o universo ind\u00edgena e o n\u00e3o ind\u00edgena, resumia a pr\u00f3pria psican\u00e1lise a uma experi\u00eancia de enquadramento exclusivo do analista em seu consult\u00f3rio. Nestes termos, em suma, seria imposs\u00edvel uma psican\u00e1lise na aldeia.<\/p>\n<p><em>Instalar um lugar anal\u00edtico<\/em><\/p>\n<p>Os efeitos da psican\u00e1lise, contudo, n\u00e3o dependem de sua localiza\u00e7\u00e3o nem da clientela; dependem da implementa\u00e7\u00e3o de coordenadas simb\u00f3licas. Coordenadas simb\u00f3licas que considerem menos a primazia do simb\u00f3lico e mais o real em jogo do sintoma. A psican\u00e1lise, Miller nos chama aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 \u201cuma instala\u00e7\u00e3o port\u00e1til, suscet\u00edvel de deslocar-se para novos contextos\u201d e o psicanalista \u00e9 um \u201cobjeto n\u00f4made\u201d. Portanto, nem a psican\u00e1lise nem o psicanalista se limitariam ao horizonte de uma extraterritorialidade, desconectados do mundo. Se a instala\u00e7\u00e3o de um lugar anal\u00edtico independe de cartografias territoriais pr\u00e9vias ou ideais, n\u00e3o se deve confundi-lo com um lugar de escuta na qual n\u00e3o se implique a responsabilidade naquilo que se diz. Dito de outro modo, um lugar anal\u00edtico busca estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o entre a fala de quem sofre e o que se encontra fixado no gozo, favorecendo a via de um saber inconsciente no qual haja flexibiliza\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 posi\u00e7\u00e3o do sujeito e de seus S1.<\/p>\n<p>Caberia ao analista, enquanto objeto n\u00f4made, conectar o analisante a seu inconsciente. E este \u00e9 um ponto de interroga\u00e7\u00e3o, pois como pensar o lugar do analista e de sua fun\u00e7\u00e3o se as particularidades envolvidas diferem do que tomamos habitualmente como suposi\u00e7\u00e3o de saber? \u00c9 aqui que podemos tomar, com Lacan, a interpreta\u00e7\u00e3o como aquilo que cria a transfer\u00eancia. Ou seja, n\u00e3o se trataria da transfer\u00eancia condicionar a interpreta\u00e7\u00e3o. Criar a transfer\u00eancia a partir da interpreta\u00e7\u00e3o nos permite tomar o inconsciente n\u00e3o como um ser, e sim \u201cum saber suposto, ou seja, na esperan\u00e7a, \u00e0 espera&#8221;. N\u00e3o se trata, portanto, de um inconsciente pr\u00e9vio. Pois se o inconsciente \u00e9 uma \u00e9tica, ele \u201c\u00e9 fundamentalmente e sempre a advir\u201d.<\/p>\n<p><em>Algumas quest\u00f5es a respeito da interpreta\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Cada vez mais em nossa \u00e9poca, somos interpelados pela desarticula\u00e7\u00e3o entre o sintoma e o inconsciente. Em tempos da inexist\u00eancia do Outro, no qual os sujeitos apresentam-se a partir de suas modalidades de gozo, n\u00e3o caberia a interpreta\u00e7\u00e3o uma infiltra\u00e7\u00e3o do inconsciente no sintoma? E quando tomamos os desabonados do inconsciente, qual o lugar da interpreta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Retomemos o ponto no qual o discurso anal\u00edtico, nos espa\u00e7os institucionais, n\u00e3o se confundiria com os outros discursos. N\u00e3o seria a interpreta\u00e7\u00e3o o que permitiria ao discurso anal\u00edtico \u201cproduzir uma brecha\u201d, no discurso da \u00e9poca, tal qual nos indica Fernando Otoni, no relat\u00f3rio da RPA, <em>Falar o que urge &#8211; Tratamentos psicanal\u00edticos breves<\/em><strong>, <\/strong>e \u201cinserir o grau de diferen\u00e7a absoluta que n\u00e3o se deixa normativizar\u201d? Em suma, n\u00e3o seria essa via a atingir o ponto de diferen\u00e7a absoluta?<\/p>\n<p><em>Duas situa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas<\/em><\/p>\n<p>Rapidamente, comentarei duas situa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas. A primeira envolveria uma demanda de escuta solicitada pela equipe de sa\u00fade no territ\u00f3rio ind\u00edgena no per\u00edodo pand\u00eamico. Uma mulher gr\u00e1vida queixava-se de \u201ccarregar um vazio&#8221;. Os profissionais temiam que ela n\u00e3o levasse a gesta\u00e7\u00e3o adiante. Decidiram encaminh\u00e1-la para um psiquiatra. Ela, no entanto, queria algu\u00e9m que pudesse ouvi-la, pois desejava falar. \u201cCarregar um vazio\u201d j\u00e1 era uma nomea\u00e7\u00e3o produzida a respeito de seu corpo. A escuta favoreceu um lugar no qual pudesse falar de qualquer coisa, suspendendo a obrigatoriedade de ter que levar aquela gesta\u00e7\u00e3o adiante. Queixava-se de muitas coisas, dos lugares das mulheres na aldeia, que implicava serem apenas m\u00e3es, at\u00e9 a parceria amorosa. A primeira nomea\u00e7\u00e3o dialetizou-se. Primeiro, veio em um sonho. Depois, ao afirmar que conhecia muitos ch\u00e1s caso quisesse interromper a gesta\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o era o seu caso. Nas muitas voltas nas quais foi instada a falar, lembro-me de uma interven\u00e7\u00e3o, perguntei-lhe se havia escolhido um nome. Quando me respondeu que n\u00e3o, disse-lhe \u201cpara nascer precisa ter um nome\u201d. Abrir-se \u00e0 fala permitiu que se surpreendesse consigo mesma: o parto se arrastou por muitas horas, sem sucesso, e ela achou que n\u00e3o conseguiria. Foi neste momento em que ela me disse que havia se lembrado de algo: para nascer precisa ter um nome. \u201cDei um nome \u2013 e meu filho nasceu\u201d. Ao parir um S 1, sob transfer\u00eancia, o sujeito pode finalmente emergir.<\/p>\n<p>Em outra aldeia, a equipe me procura a fim de que fiz\u00e9ssemos algo, pois havia uma mulher louca que delirava que estava gr\u00e1vida sem estar. Com um hist\u00f3rico de algumas interna\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas, temiam n\u00e3o saber como lidar com aquele desvario. Impedido por outras demandas institucionais, disse-lhes: \u201cdar um lugar \u00e0 loucura dela j\u00e1 \u00e9 fazer algo\u201d. Diante de uma precariedade simb\u00f3lica, conferir a um sujeito um lugar no qual possa inscrever seu del\u00edrio \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o ainda que provis\u00f3ria.<\/p>\n<p><em>Um convite e uma solu\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Quando pensamos na rela\u00e7\u00e3o entre o saber e a interpreta\u00e7\u00e3o, convidamos o analisante a assumir uma outra posi\u00e7\u00e3o com uma media\u00e7\u00e3o inesperada, pois, neste caso, o analisante \u00e9 convidado a dar \u201co que n\u00e3o tem \u2013 um saber do qual n\u00e3o \u00e9 nem o mestre nem o propriet\u00e1rio, um saber situado e escondido nas suas falas. Esta \u00e9 a regra anal\u00edtica, ela consiste em convidar o analisante a dar algo que n\u00e3o tem. Portanto, \u00e9 um convite a amar\u201d. E \u00e9 advertida disto que a psican\u00e1lise pode avan\u00e7ar em diferentes contextos, seja na aldeia, seja na cidade, considerando as particularidades envolvidas e os artefatos que disp\u00f5e cada um, pois avan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao que \u201cn\u00e3o \u00e9 nem a doen\u00e7a nem a cura, apenas uma solu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Augusto Rocha Como pensar nossa pr\u00e1tica para al\u00e9m do ref\u00fagio de uma \u201cextraterritorialidade imagin\u00e1ria\u201d, do analista longe da cidade e de seus impasses? Como recolher os efeitos psicanal\u00edticos instalados em espa\u00e7os, por vezes, \u00e0s avessas de uma anu\u00eancia com o estabelecimento do lugar anal\u00edtico? 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