{"id":600,"date":"2026-10-02T10:06:02","date_gmt":"2026-10-02T13:06:02","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/?page_id=600"},"modified":"2026-10-02T10:06:02","modified_gmt":"2026-10-02T13:06:02","slug":"influencers-e-obedienters","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/cronicas-delirantes\/influencers-e-obedienters\/","title":{"rendered":"Influencers e \u201cobedienters\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column]<figure class=\"vcex-image vcex-module wpex-text-center\"><div class=\"vcex-image-inner wpex-relative wpex-inline-block\"><img width=\"1240\" height=\"173\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png\" class=\"vcex-image-img wpex-align-middle\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png 1240w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-300x42.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-1024x143.png 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-768x107.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1240px) 100vw, 1240px\" \/><\/div><\/figure>[vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]\n<h2><strong><em>Influencers<\/em> e \u201cobedienters\u201d<\/strong><\/h2>\n<p><em>M\u00aa Cristina Maia Fernandes (EBP\/AMP)<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 uma obedi\u00eancia que n\u00e3o precisa de ordens. Ela acontece devagar, quase em sil\u00eancio. Primeiro, olhamos para o outro. Depois, nos olhamos. E, quando percebemos, j\u00e1 n\u00e3o sabemos muito bem onde termina a vida do outro e onde come\u00e7a a nossa. Ambas se misturam.<\/p>\n<p>Talvez seja disso que fala Clarice Lispector no conto <em>Os Obedientes<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>: de pessoas que aprenderam a viver conforme aquilo que delas se esperava. Gente aparentemente comum, cumprindo pequenos deveres de uma exist\u00eancia tamb\u00e9m aparentemente comum. Nada de grandes trag\u00e9dias. Apenas aquela neurose nossa de todos os dias.<\/p>\n<p>Hoje, por\u00e9m, a obedi\u00eancia ganhou uma tela.<\/p>\n<p>O<em> influencer<\/em> n\u00e3o precisa dizer: \u201cseja como eu\u201d. Basta mostrar. Mostra o corpo, a casa, a viagem, o relacionamento, a roupa, o caf\u00e9 da manh\u00e3. Mostra o cachorro, o filho, o p\u00f4r do sol e, se poss\u00edvel, uma x\u00edcara de caf\u00e9 estrategicamente posicionada ao lado de um livro que certamente nunca sequer abriu. Mostra uma vida pronta para ser cobi\u00e7ada. E quem olha, come\u00e7a, sem perceber, a comparar. A pr\u00f3pria vida come\u00e7a a parecer menor, aqu\u00e9m, quando colocada ao lado daquela cuidadosamente escolhida para aparecer&#8230; perfeita!<\/p>\n<p>\u00c9 como se, diante da tela, o sujeito n\u00e3o apenas olhasse o outro, mas passasse tamb\u00e9m a se olhar a partir desse outro olhar. \u00a0Com Lacan, dizemos que o sujeito n\u00e3o simplesmente v\u00ea, ele tamb\u00e9m se v\u00ea vendo, constr\u00f3i uma imagem de si sob a perspectiva de um olhar que o antecede. No est\u00e1dio do espelho, a imagem devolvida pelo outro participa da constitui\u00e7\u00e3o do eu. \u00a0Nas redes sociais, esse espelho se multiplicou. N\u00e3o temos mais apenas o espelho do banheiro que devolve a cara amassada de quem acabou de acordar. Temos milhares de espelhos: curtidas, coment\u00e1rios, seguidores, visualiza\u00e7\u00f5es, n\u00fameros. Espelhos que n\u00e3o s\u00f3 refletem, mas avaliam. O pior \u00e9 que come\u00e7amos a nos arrumar para eles.<\/p>\n<p>Surge, ent\u00e3o, uma nova forma de obedi\u00eancia: a um padr\u00e3o.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m nos obriga a ter determinado corpo, nem bate \u00e0 porta exigindo uma roupa tal, nem uma viagem internacional ou um relacionamento digno de postagem. Tampouco h\u00e1 leis dizendo que precisamos ser felizes \u00e0s seis da manh\u00e3, de prefer\u00eancia em uma varanda ensolarada.<\/p>\n<p>Mas existe uma for\u00e7a invis\u00edvel que vem da tela, dos algoritmos, das tend\u00eancias, dos coment\u00e1rios, das imagens que se repetem at\u00e9 parecerem naturais, que vai nos dizendo &#8211; sem dizer &#8211; o que \u00e9 bonito, o que \u00e9 sucesso, o que \u00e9 felicidade e at\u00e9 como devemos parecer felizes&#8230; E talvez o mais danoso seja come\u00e7ar a obedecer sem perceber&#8230;<\/p>\n<p>Em <em>Os Obedientes<\/em>, a apar\u00eancia de normalidade esconde o que existe por dentro. Nas redes sociais, ao contr\u00e1rio, constr\u00f3i-se uma apar\u00eancia de felicidade para que ela seja vista pelos outros. Mas o que \u00e9 mostrado, obviamente, n\u00e3o \u00e9 o que se vive. N\u00e3o mostramos necessariamente o que vivemos, mas aquilo que gostar\u00edamos que acreditassem que vivemos.<\/p>\n<p>Talvez o casal do conto, se vivesse hoje, tamb\u00e9m tivesse uma tela. Talvez obedecesse aos mesmos padr\u00f5es, apenas com outras roupas. Talvez descobrisse que \u00e9 poss\u00edvel passar a vida inteira tentando parecer feliz e, ainda assim, nunca se perguntarem se o s\u00e3o. Estaria inscrito na ordem dos \u201cobedienters\u201d tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Cabe a\u00ed a pergunta: quando estamos escolhendo nossa vida e quando estamos apenas aprendendo a obedecer, nos deixar influenciar?<\/p>\n<p>Os <em>influencers<\/em> mudaram os modelos, mas n\u00e3o necessariamente a necessidade do sujeito de se inserir, de pertencer. Antes, obedecia-se \u00e0 fam\u00edlia, ao casamento, aos costumes, como no conto. Hoje, a \u201cobedi\u00eancia\u201d \u00e9 aos n\u00fameros, aos coment\u00e1rios, \u00e0s tend\u00eancias, \u00e0 imagem de uma \u201cfelicidade\u201d que insiste em aparecer nas telas, vinda sabe-se l\u00e1 de onde&#8230;<\/p>\n<p>Afinal, talvez o problema n\u00e3o seja seguir influencers.<\/p>\n<p>Mas esquecer de si mesmo exatamente por seguir sem medida, submeter-se&#8230;<\/p>\n<p>Ser demasiado \u201cobedienter\u201d&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lispector, Clarice. Todos os contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016. P. 342.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] Influencers e \u201cobedienters\u201d M\u00aa Cristina Maia Fernandes (EBP\/AMP) H\u00e1 uma obedi\u00eancia que n\u00e3o precisa de ordens. Ela acontece devagar, quase em sil\u00eancio. Primeiro, olhamos para o outro. 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