{"id":587,"date":"2026-09-25T17:08:24","date_gmt":"2026-09-25T20:08:24","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/?page_id=587"},"modified":"2026-09-25T17:08:24","modified_gmt":"2026-09-25T20:08:24","slug":"escolhendo-sempre-o-mesmo-look","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/cronicas-delirantes\/escolhendo-sempre-o-mesmo-look\/","title":{"rendered":"Escolhendo sempre o mesmo look"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column]<figure class=\"vcex-image vcex-module wpex-text-center\"><div class=\"vcex-image-inner wpex-relative wpex-inline-block\"><img width=\"1240\" height=\"173\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png\" class=\"vcex-image-img wpex-align-middle\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png 1240w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-300x42.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-1024x143.png 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-768x107.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1240px) 100vw, 1240px\" \/><\/div><\/figure>[vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]\n<h2><strong>Escolhendo sempre o mesmo look<\/strong><\/h2>\n<h6><em>Paulo Medeiros<\/em><\/h6>\n<p>Eu sou completamente entusiasta de maratonar s\u00e9ries e ficar comentando sobre elas com minhas amigas. Uma delas, por muito tempo, ocupou o lugar de minha favorita: <em>Sex and the City<\/em>. Eu adorava acompanhar a vida das quatro protagonistas falando sobre os encontros amorosos, a carreira e, claro, a moda! Por\u00e9m, uma personagem em especial sobressa\u00eda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras para mim: Carrie Bradshaw. Morando em Nova Iorque, Carrie trabalhava como escritora de uma coluna de jornal sobre seus relacionamentos amorosos. A cada epis\u00f3dio, por meio de suas \u201ccr\u00f4nicas delirantes\u201d, a personagem narrava seus questionamentos diante dos homens com quem se envolvia.<\/p>\n<p>Apesar de buscar parceiros diferentes, todos eles tinham algo em comum: uma dificuldade diante de uma mulher. Escritores, advogados, professores, arquitetos, empres\u00e1rios&#8230; n\u00e3o importava a profiss\u00e3o, a idade ou a apar\u00eancia. Algo em suas escolhas insistia em se repetir. Ou, talvez mais precisamente, algo em sua posi\u00e7\u00e3o permanecia o mesmo. Depois de uma interven\u00e7\u00e3o de suas amigas, Carrie decide buscar uma analista para tratar esse movimento. Por\u00e9m, ao chegar \u00e0 an\u00e1lise, acaba conhecendo, na sala de espera, um paciente da mesma analista, e os dois acabam se envolvendo. Depois de ficar com ele, a personagem descobre que sua nova paix\u00e3o frequentava a an\u00e1lise justamente para tratar de uma dificuldade diante das mulheres: n\u00e3o conseguir am\u00e1-las.<\/p>\n<p>Se pensarmos nesse momento a partir do \u00faltimo ensino de Jacques Lacan, em que cada um faz consistir seu mundo de um modo singular (todo mundo delira), Carrie deixa de ser uma personagem em busca de uma explica\u00e7\u00e3o para seus desencontros amorosos e passa a interessar pelo modo singular como constr\u00f3i uma interpreta\u00e7\u00e3o capaz de sustentar sua rela\u00e7\u00e3o com o amor. Antes que a analista possa intervir, a personagem j\u00e1 responde \u00e0 sua pergunta segundo a l\u00f3gica que organiza seu modo de fazer la\u00e7o amoroso. Carrie encontra, mais uma vez, um homem cuja dificuldade com as mulheres reinscreve a l\u00f3gica de seus encontros anteriores. O parceiro muda, a leitura que organiza sua experi\u00eancia amorosa permanece.<\/p>\n<p>Nessa cena, a repeti\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 no parceiro escolhido, mas na posi\u00e7\u00e3o a partir da qual a personagem faz existir o amor. O del\u00edrio de Carrie talvez n\u00e3o consista em acreditar no homem certo, mas em insistir numa mesma leitura do amor, que faz cada novo encontro parecer uma oportunidade in\u00e9dita de encontrar aquilo que, at\u00e9 ent\u00e3o, sempre lhe escapou. Lacan, no <em>Semin\u00e1rio 23: O sinthoma<\/em>, afirma que \u201c\u00e9 unicamente pelo equ\u00edvoco que a interpreta\u00e7\u00e3o opera\u201d (p.18). O equ\u00edvoco, aqui, n\u00e3o \u00e9 um erro a ser corrigido, mas uma tor\u00e7\u00e3o capaz de desalojar o sujeito da interpreta\u00e7\u00e3o que ele j\u00e1 faz de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Carrie procura a analista perguntando por que escolhe sempre o homem errado. No entanto, antes que sua pergunta possa ser atravessada por esse equ\u00edvoco, ela encontra um novo parceiro que confirma a l\u00f3gica de seus encontros anteriores. Sua narrativa permanece intacta. N\u00e3o deixa de ser curioso que a personagem procure uma analista justamente quando sua pr\u00f3pria escrita j\u00e1 n\u00e3o basta para dar conta da repeti\u00e7\u00e3o que insiste em retornar. Suas cr\u00f4nicas organizam sua experi\u00eancia, mas n\u00e3o a deslocam.<\/p>\n<p>Na s\u00e9rie, a personagem abandona o processo anal\u00edtico, interrompendo justamente a possibilidade de que sua pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o sobre o amor seja colocada em quest\u00e3o. Talvez a pergunta de Carrie nunca tenha sido, de fato, \u201cpor que escolho sempre o homem errado?\u201d. Talvez a quest\u00e3o seja outra: o que, em sua maneira de ler o amor, precisa permanecer o mesmo para que cada novo encontro possa ser vivido como uma promessa in\u00e9dita? \u00c9 justamente a\u00ed que a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica pode operar, n\u00e3o oferecendo uma resposta, mas introduzindo um equ\u00edvoco naquilo que parecia evidente ao sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<br \/>\n<\/strong>LACAN, Jacques. Do uso l\u00f3gico do sinthoma ou Freud com Joyce. In: LACAN. <strong>O Semin\u00e1rio: livro 23, o sinthoma<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. p. 11-26.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] Escolhendo sempre o mesmo look Paulo Medeiros Eu sou completamente entusiasta de maratonar s\u00e9ries e ficar comentando sobre elas com minhas amigas. Uma delas, por muito tempo, ocupou o lugar de minha favorita: Sex and the City. 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