{"id":555,"date":"2026-09-12T17:39:01","date_gmt":"2026-09-12T20:39:01","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/?page_id=555"},"modified":"2026-09-17T09:21:44","modified_gmt":"2026-09-17T12:21:44","slug":"uma-escrita-delirante","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/cronicas-delirantes\/uma-escrita-delirante\/","title":{"rendered":"Uma escrita delirante"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column]<figure class=\"vcex-image vcex-module wpex-text-center\"><div class=\"vcex-image-inner wpex-relative wpex-inline-block\"><img width=\"1240\" height=\"173\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png\" class=\"vcex-image-img wpex-align-middle\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png 1240w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-300x42.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-1024x143.png 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-768x107.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1240px) 100vw, 1240px\" \/><\/div><\/figure>[vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]\n<h2 class=\"paragraph\" style=\"margin: 0in; line-height: 150%; vertical-align: baseline; text-align: left;\" align=\"center\"><span class=\"normaltextrun\"><b>Uma escrita delirante<\/b><\/span><\/h2>\n<p class=\"paragraph\" style=\"margin: 0in; line-height: 150%; vertical-align: baseline; text-align: left;\" align=\"center\"><span class=\"normaltextrun\"><b>Liana Feldman<\/b><\/span><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Num restaurante tradicional do Recife, uma mesa cheia fazia barulho. Com cadeiras extras desencaixadas, havia ta\u00e7as de diversas cores, gestos acalorados e vozes em sobressalto, algo estranho \u00e0quele lugar. At\u00e9 que um gar\u00e7om se aproximou do grupo.<\/p>\n<p>Eu estava nessa mesa. Julguei que haveria uma interven\u00e7\u00e3o disciplinadora &#8211; meus amigos falavam exaltados onde se ouve piano. Mas, para a minha surpresa, o rapaz apenas perguntava o que quer\u00edamos. Relativamente constrangida, respondi que nada. Diante do mal-entendido, ele se explicou: algu\u00e9m levantou os bra\u00e7os, achei que pediriam algo. Sorri, comentei que era somente um debate, ele sorriu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Acontecia ali um imenso impasse sobre Mirela, personagem ficcional do livro\u00a0<em>O copo\u00a0vazio<\/em>, de Nat\u00e1lia Timerman, que dividia as opini\u00f5es. Era uma quinta-feira de clube do livro, momento em que delir\u00e1vamos juntos sobre os escritores, cen\u00e1rios, personagens, possibilidades nas hist\u00f3rias e nossas pr\u00f3prias fic\u00e7\u00f5es. De um lado, a cr\u00edtica ferrenha e moralizante \u00e0 jovem que se dedicava intensamente a um rapaz que a deixou. De outro, a compreens\u00e3o do ilimitado do gozo, de sua busca, e uma tentativa de tradu\u00e7\u00e3o das atua\u00e7\u00f5es do lado feminino &#8211; essa personagem que, diante da ang\u00fastia, correu descal\u00e7a at\u00e9 machucar os p\u00e9s, que n\u00e3o se importava com o vexame, n\u00e3o continha os seus\u00a0excessos, n\u00e3o sabia parar. Imagens t\u00e3o contempor\u00e2neas e ilustrativas da cl\u00ednica hoje, ali, na p\u00e1gina bege de um livro escrito por uma psiquiatra. A fala circulava, os gestos tamb\u00e9m. Mais vermelho-ta\u00e7a, mais rubor no corpo, mais arranjos nas vozes.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de ler um texto e se haver com ele se assemelha ao trabalho do analista, ainda que haja uma dist\u00e2ncia \u00f3bvia entre as duas pr\u00e1ticas. A literatura que toca o corpo com a palavra lida e que mesmo assim n\u00e3o serve para nada \u00e9 a que nos aproxima &#8211; n\u00e3o h\u00e1 uma fun\u00e7\u00e3o, uma serventia de ordem pr\u00e1tica, uma li\u00e7\u00e3o a ser tomada. Como na psican\u00e1lise,\u00a0uma vez que o discurso anal\u00edtico n\u00e3o est\u00e1 capturado por\u202f<em>scores<\/em>\u202fe resultados do imperativo do gozo,\u00a0n\u00e3o h\u00e1 um tratamento meramente comportamental para a extin\u00e7\u00e3o de um sintoma nem um\u00a0padr\u00e3o-ouro\u00a0normativo \u00e0s condutas. Para n\u00f3s, praticantes e leitores daquilo que nos falam, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 tentar manejar com os restos. Do que sobra em meio a todo esse del\u00edrio ficcional, vemos o sujeito.<\/p>\n<p>Assim, as hist\u00f3rias que chegam aos nossos consult\u00f3rios podem se fazer livro. Em parceria com o analisante poeta, lemos as tantas sutilezas desse texto sob transfer\u00eancia.\u00a0O\u202f<em>falasser<\/em>\u202fconstr\u00f3i a sua fic\u00e7\u00e3o na tentativa de organizar e velar o real que foi descoberto pelo traumatismo. A fic\u00e7\u00e3o faz um tecido de palavras, uma manta confort\u00e1vel e protetiva, necess\u00e1ria em tantos tempos de uma an\u00e1lise. Uma constru\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima ao pensamento, do lado do simb\u00f3lico, como nos ensina\u00a0Miller.<\/p>\n<p>Mas, em outros tempos, a necessidade \u00e9 inversa: despertar, incitar o sujeito a se levantar \u00e0 vida, fazer a manta virar uma pe\u00e7a leve de linho, tramada, perme\u00e1vel, que encubra a pele com delicadeza, sem sufocar. \u00c9 preciso que a fic\u00e7\u00e3o de cada an\u00e1lise seja um alento, uma sustenta\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o uma barreira. O analista-trauma deve saber operar com essas sutilezas, sem destituir o del\u00edrio, mas indo al\u00e9m dele, destacando o escrito na fala delirante presente em seus espa\u00e7os, de modo singular, no caso a caso, e sempre em la\u00e7o com a l\u00edngua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain.\u00a0Uma psican\u00e1lise tem estrutura de fic\u00e7\u00e3o. Aposta no passe: seguido de 15 testemunhos de Analistas da Escola, membros da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. Organiza\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de Ana Lydia Santiago. Rio de janeiro:\u00a0Contra Capa, 2018. (Cole\u00e7\u00e3o Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n. 14).<\/h6>\n<h6>TIMERMAN, Nat\u00e1lia. O copo vazio. S\u00e3o Paulo: Todavia, 2021.<\/h6>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] Uma escrita delirante Liana Feldman \u00a0 Num restaurante tradicional do Recife, uma mesa cheia fazia barulho. Com cadeiras extras desencaixadas, havia ta\u00e7as de diversas cores, gestos acalorados e vozes em sobressalto, algo estranho \u00e0quele lugar. At\u00e9 que um gar\u00e7om se aproximou do grupo. Eu estava nessa mesa. 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