{"id":509,"date":"2026-08-21T15:10:58","date_gmt":"2026-08-21T18:10:58","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/?page_id=509"},"modified":"2026-08-21T15:10:58","modified_gmt":"2026-08-21T18:10:58","slug":"pra-poesia-que-a-gente-nao-vive-transformar-o-tedio-em-melodia1","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/cronicas-delirantes\/pra-poesia-que-a-gente-nao-vive-transformar-o-tedio-em-melodia1\/","title":{"rendered":"Pr\u00e1 poesia que a gente n\u00e3o vive transformar o t\u00e9dio em melodia<sup>1<\/sup>"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column]<figure class=\"vcex-image vcex-module wpex-text-center\"><div class=\"vcex-image-inner wpex-relative wpex-inline-block\"><img width=\"1240\" height=\"173\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png\" class=\"vcex-image-img wpex-align-middle\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png 1240w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-300x42.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-1024x143.png 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-768x107.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1240px) 100vw, 1240px\" \/><\/div><\/figure>[vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]\n<h1><strong>Pr\u00e1 poesia que a gente n\u00e3o vive transformar o t\u00e9dio em melodia<sup>1<\/sup><\/strong><\/h1>\n<h6><em>V\u00e2nia Ferreira<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A vida humana- na verdade toda a vida \u2013 \u00e9 poesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Lou Andreas-Salom\u00e9<\/p>\n<p>O que pode fazer a poesia? Transformar o t\u00e9dio em melodia? Essa seria uma resposta poss\u00edvel do poeta.<\/p>\n<p>Cazuza, por meio desse fragmento po\u00e9tico, demonstra a pot\u00eancia criativa e interpretativa da poesia. \u00a0O poeta rompe com o sentido literal e faz um equ\u00edvoco apontando para o que na Orienta\u00e7\u00e3o lacaniana chamamos de Real.<\/p>\n<p>Em Freud e tamb\u00e9m em Lacan a literatura e a poesia perpassaram toda a obra de ambos desde o in\u00edcio at\u00e9 o final. Desde S\u00f3focles, com o mito de \u00c9dipo, Freud se serviu dos maiores escritores da humanidade, a exemplo de Goethe, Dostoi\u00e9vski, Shakespeare e tantos outros que o ajudaram a compreender o inconsciente. Al\u00e9m de trabalhos que contemplaram os poetas e escritores como no texto Escritores criativos e devaneios de 1908, j\u00e1 no in\u00edcio da sua obra, Freud faz uma recomenda\u00e7\u00e3o muito importante diante dos limites da psican\u00e1lise: deixa ao encargo dos poetas e escritores a tarefa do entendimento humano.<\/p>\n<p>Lacan continuou nessa trilha, dando um lugar privilegiado a poesia, inserindo-a como estrutural no inconsciente. O inconsciente \u00e9 estruturado como uma linguagem diz o Lacan dos anos 50. O inconsciente \u00e9 estruturado como um poema, diz Lacan no final do seu ensino.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que podemos articular a poesia com os dois significantes que regem a nossa jornada? <em>Del\u00edrio e Interpreta\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>A poesia, pelo seu efeito de equivoca\u00e7\u00e3o, vai se aproximar do inconsciente real de lal\u00edngua. Diante do imposs\u00edvel de dizer a verdade toda, a poesia na contram\u00e3o do sentido, elucida a verdade sempre <em>n\u00e3o toda <\/em>para tocar o real. Para tocar o imposs\u00edvel de suportar.<\/p>\n<p>No semin\u00e1rio <em>L\u00ecnsu que sait de L\u00b4une-b\u00e9vue s`aile mourre<\/em>, Lacan vai trazer a interpreta\u00e7\u00e3o pela via po\u00e9tica para justamente alcan\u00e7ar esse efeito de furo. Pois a interpreta\u00e7\u00e3o vai pela via de um esvaziamento de sentido.<\/p>\n<p>Na letra de Cazuza, a palavra po\u00e9tica, na sua dimens\u00e3o metaf\u00f3rica e sonora \u00a8 <em>transformar o t\u00e9dio em melodia<\/em> \u00a8 pode fazer algo com a dureza da vida (com o Real) pois que diante do <em>\u00a8c\u00e9u e inferno de todo dia<\/em>\u00a8 <em>\u00e9 \u00a8 preciso ser artista no nosso conv\u00edvio\u00a8. <\/em><\/p>\n<p>J\u00e1 Caetano Veloso, na sua genial <em>L\u00edngua<\/em>, al\u00e9m da met\u00e1fora e da brincadeira sonora: <em>\u00a8Gosto do Pessoa na pessoa\/ do rosa no Rosa<\/em>, ainda traz a ironia, como outro recurso po\u00e9tico: <em>\u00a8Sejamos imperialistas! Sejamos imperialistas!<sup>2<\/sup><\/em> Num claro protesto aos regimes autorit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Lacan foi estudar a escrita po\u00e9tica chinesa instigando os psicanalistas a se inspirarem em algo da ordem da poesia. Nesse mesmo semin\u00e1rio, no cap\u00edtulo intitulado <em>A Varidade do Sintoma<\/em> diz<em>: \u00a8O sentido tampona. Mas com a ajuda do que chamamos de escrita po\u00e9tica, voc\u00eas podem ter a dimens\u00e3o do que poderia ser a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica&#8230;Estar eventualmente inspirado por algo da ordem da poesia para intervir como psicanalista?<\/em> <em>\u00c9 exatamente em dire\u00e7\u00e3o a isso que \u00e9 preciso<\/em> <em>orient\u00e1-los&#8230;\u00a8<sup>4<\/sup>.<\/em> Interpreta\u00e7\u00e3o e poesia aparecem aqui absolutamente imbricados uma vez que os recursos po\u00e9ticos quais sejam:\u00a0 a met\u00e1fora, a ironia, a homofonia, o jogo sonoro, o equ\u00edvoco&#8230;seriam os mesmos utilizados pela interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica apontando para uma mesma orienta\u00e7\u00e3o: O Real<\/p>\n<p>N\u00e3o sem uma quota de del\u00edrio que todo poeta, todo artista e todo humano precisa para construir sua obra, pois somos todos loucos, ou seja, delirantes!<\/p>\n<p>A poesia, se localiza na dimens\u00e3o do <em>n\u00e3o h\u00e1, da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o, <\/em>pois trata dos restos que sobraram da opera\u00e7\u00e3o significante, dos barulhos de lal\u00edngua, de um imposs\u00edvel de dizer, daquilo que escapa \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E que por isso mesmo possa fazer furo, fazer novos arranjos, inventar um novo significante, onde no sem sentido haja um despertar! Rumo a um significante novo, como prop\u00f4s Lacan no semin\u00e1rio XXIV, coloca em ato os efeitos de uma an\u00e1lise quando o sintoma d\u00e1 lugar \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, a um saber-fazer. Servindo-se da palavra po\u00e9tica, a Psican\u00e1lise toca o indiz\u00edvel, o inef\u00e1vel, o que n\u00e3o tem nome nem nunca ter\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias:<\/h6>\n<ul>\n<li>\n<h6>Todo amor que houver nessa vida, composi\u00e7\u00e3o de Cazuza e Roberto Frejat.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>L\u00edngua, composi\u00e7\u00e3o de Caetano Veloso.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Lacan, Jacques: L`insu que sait de L`une-bevue S`aile \u00e0 mourre. Semin\u00e1rio XXIV (tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o comercial de Wilson Lima disponibilizada para um cartel sobre esse semin\u00e1rio).<\/h6>\n<\/li>\n<\/ul>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] Pr\u00e1 poesia que a gente n\u00e3o vive transformar o t\u00e9dio em melodia1 V\u00e2nia Ferreira &nbsp; \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A vida humana- na verdade toda a vida \u2013 \u00e9 poesia. Lou Andreas-Salom\u00e9 O que pode fazer a poesia? Transformar o t\u00e9dio em melodia? Essa seria uma resposta poss\u00edvel do poeta. 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