{"id":507,"date":"2026-08-21T15:07:57","date_gmt":"2026-08-21T18:07:57","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/?page_id=507"},"modified":"2026-08-21T15:09:01","modified_gmt":"2026-08-21T18:09:01","slug":"sonho-de-uma-sessao-liquida","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/cronicas-delirantes\/sonho-de-uma-sessao-liquida\/","title":{"rendered":"Sonho de uma sess\u00e3o l\u00edquida"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column]<figure class=\"vcex-image vcex-module wpex-text-center\"><div class=\"vcex-image-inner wpex-relative wpex-inline-block\"><img width=\"1240\" height=\"173\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png\" class=\"vcex-image-img wpex-align-middle\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png 1240w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-300x42.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-1024x143.png 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-768x107.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1240px) 100vw, 1240px\" \/><\/div><\/figure>[vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]\n<h2><strong>Sonho de uma sess\u00e3o l\u00edquida<\/strong><\/h2>\n<h6><em>Christianne Alc\u00e2ntara<\/em><\/h6>\n<p>Era uma vez uma terra chamada Brasil, onde os habitantes eram acometidos de um del\u00edrio coletivo chamado futebol. Eles cresciam convencidos de que a vida se resumia a dez pessoas correrem atr\u00e1s de uma bola sobre um gramado verde, enquanto outras dez tentavam tom\u00e1-la para lev\u00e1-la \u00e0 rede advers\u00e1ria. O objetivo era o mesmo: colocar a bola dentro da rede (protegida por uma outra pessoa, al\u00e9m dos dez) e ganhar. Embora ningu\u00e9m soubesse exatamente o qu\u00ea. Cada torcedor simbolizava a seu modo a persegui\u00e7\u00e3o incessante daquela bola de couro, um verdadeiro objeto a, causa de um desejo que nenhuma vit\u00f3ria poderia aplacar.<\/p>\n<p>De quatro em quatro anos, o del\u00edrio se intensificava: colocar a bola na rede virava quest\u00e3o de vida ou morte \u2013 a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de uma Copa do Mundo (torneio mundial de futebol). Cabia a onze corpos salvarem os brasileiros vestidos de verde e amarelo, gritando em un\u00edssono a palavra que organizava o caos social daquela terra \u2014 &#8220;Gol!&#8221;, significante-mestre ao qual se amarravam, como para garantir, presos \u00e0 linguagem, alguma sobreviv\u00eancia diante do abismo do Real.<\/p>\n<p>Uma noite sonhei que era brasileira. Diante do espelho, vestindo verde e amarelo, vejo Menino entrar no meu quarto sem pedir licen\u00e7a. Deita-se na cama com uma intimidade que eu desconhecia, j\u00e1 uniformizado \u2014 em poucas horas estaria em campo.<\/p>\n<p>\u2014 O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aqui?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. S\u00f3 sei que vim parar neste quarto.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea precisa ir pro campo agora.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei o que fazer l\u00e1. S\u00e3o todos loucos. Querem que eu garanta o hexa. Mal consigo me levantar desta cama.<\/p>\n<p>Lembrei Lacan: &#8220;todo mundo \u00e9 louco, isto \u00e9, delirante&#8221;<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>. Pensei que Menino, ali, n\u00e3o passava de um delirante, corporificando o sintoma de um pa\u00eds inteiro. Amedrontada e n\u00e3o menos delirante \u2014 minha vida parecia depender daquele corpo \u2014, arrisquei:<\/p>\n<p>\u2014 Mas o que voc\u00ea quer?<\/p>\n<p>Ele me ignorou. E foi no sil\u00eancio dele que ecoou naquele quarto a pergunta cl\u00e1ssica do desejo \u2014 <em>Che vuoi?<\/em> \u2014 que acabava de lhe dirigir.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea precisa ir embora. Nunca vi voc\u00ea assim, ao vivo. Sempre vejo voc\u00ea brigando, caindo ou chorando em campo.<\/p>\n<p>Tentei arrast\u00e1-lo pelo bra\u00e7o; era maior e mais pesado que eu. De menino, Menino nada tinha \u2014 sua presen\u00e7a impunha-se ali como mat\u00e9ria bruta, desprovida da ilus\u00e3o televisiva.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vou fazer mais nada. N\u00e3o faz sentido pra mim.<\/p>\n<p>Senti a cabe\u00e7a rodar e delirei sobre o sentido (ou o sentido \u00e9 um del\u00edrio em si mesmo?), enquanto ele continuava:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o v\u00ea que \u00e9 loucura? Como posso ganhar o hexa<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>? Isso \u00e9 obsess\u00e3o. Al\u00e9m do mais, se ganh\u00e1ssemos&#8230;<\/p>\n<p>Ele fez uma pausa dram\u00e1tica, os olhos fixos nos meus, como quem est\u00e1 prestes a revelar a verdade \u00faltima da estrutura neur\u00f3tica daquela na\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 O que seria do Brasil se eu desse aos seus habitantes o que eles dizem desejar?<\/p>\n<p>Acordei com essa pergunta ainda dissolvendo os contornos entre o quarto e o campo, entre torcedora e analista, entre Menino e sintoma \u2014 tudo escorrendo um no outro, como s\u00f3 numa sess\u00e3o pode escorrer o que a vig\u00edlia insiste em separar.<\/p>\n<p><strong>Posf\u00e1cio<\/strong><\/p>\n<p>Naquele ano, Menino at\u00e9 foi pro campo, mas o Brasil perdeu. Reza a lenda que Menino nunca mais jogar\u00e1. A grande vencedora foi a Espanha para del\u00edrio geral das brasileiras e brasileiros que, no dia da grande final, vestiram vermelho e amarelo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Lacan, J. Transfer\u00eancia para Saint Denis? Lacan a favor de Vincennes! In. Correio, Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, (65). S\u00e3o Paulo: abril, 2010\/1978, p.31.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Hexacampe\u00e3 \u00e9 a sele\u00e7\u00e3o que conquista a Copa do Mundo por seis vezes.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] Sonho de uma sess\u00e3o l\u00edquida Christianne Alc\u00e2ntara Era uma vez uma terra chamada Brasil, onde os habitantes eram acometidos de um del\u00edrio coletivo chamado futebol. 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