{"id":489,"date":"2026-08-17T05:23:36","date_gmt":"2026-08-17T08:23:36","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/?page_id=489"},"modified":"2026-08-17T05:24:20","modified_gmt":"2026-08-17T08:24:20","slug":"guardar-um-cavalo-cava-lo-ate-o-furo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/cronicas-delirantes\/guardar-um-cavalo-cava-lo-ate-o-furo\/","title":{"rendered":"Guardar um cavalo: cav\u00e1-lo at\u00e9 o furo"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column]<figure class=\"vcex-image vcex-module wpex-text-center\"><div class=\"vcex-image-inner wpex-relative wpex-inline-block\"><img width=\"1240\" height=\"173\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png\" class=\"vcex-image-img wpex-align-middle\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png 1240w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-300x42.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-1024x143.png 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-768x107.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1240px) 100vw, 1240px\" \/><\/div><\/figure>[vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]\n<h2><strong>Guardar um cavalo: cav\u00e1-lo at\u00e9 o furo <\/strong><\/h2>\n<h2><strong>DEL\u00cdRIOS COTIDIANOS<\/strong><\/h2>\n<p>Wilker Fran\u00e7a &#8211; EBP\/AMP<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Guardo alguns poemas. Um guardar que, como nos ensina Antonio C\u00edcero (1996\/2025), n\u00e3o se confunde com esconder na gaveta ou tirar de vista. Guardar \u00e9 manter \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 conservar vivo. Alguns poemas permanecem assim: \u00e0 espreita, rondando e retornando quando menos espero. Um deles \u00e9 este, de Ana Martins Marques (1995, p 63):<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00c9 mais dif\u00edcil esconder um cavalo do que a palavra cavalo<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00c9 mais f\u00e1cil se livrar de um piano do que de um sentimento<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Posso tocar o seu corpo mas n\u00e3o o seu nome<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00c9 poss\u00edvel terminar uma frase com um beijo assim como \u00e9 poss\u00edvel<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">encerrar subitamente uma dan\u00e7a com uma palavra<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">seria preciso ent\u00e3o entender o beijo como um elemento gramatical<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">acrescentar as palavras entre os movimentos b\u00e1sicos da dan\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Quanto do desejo mora<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">na palavra desejo?<\/p>\n<p>Durante algum tempo, pensei que o poema falasse apenas da estranha sobreviv\u00eancia das palavras. Um cavalo pode morrer, fugir ou desaparecer atr\u00e1s de um muro. A palavra <em>cavalo<\/em> continua atravessando livros, poemas e conversas. Nenhum est\u00e1bulo consegue cont\u00ea-la. A palavra guarda a aus\u00eancia da coisa. Estamos no registro das palavras como representa\u00e7\u00f5es: a palavra mata a coisa e carrega sua falta.<\/p>\n<p>Foi a psican\u00e1lise, por\u00e9m, que me fez escutar outra coisa. Miller (1999), com os elementos da biologia lacaniana, j\u00e1 apontava o que s\u00f3 depois eu poderia experimentar no corpo, em an\u00e1lise. A palavra n\u00e3o apenas guarda a aus\u00eancia. Ela tamb\u00e9m faz surgir outra coisa. \u00c9 viva! <em>Cavalo<\/em> torna-se <em>cav\u00e1-lo<\/em>. Logo aparece uma cova. O cavar j\u00e1 n\u00e3o procura o cavalo escondido. Procura um furo. A interpreta\u00e7\u00e3o, como pensou Lacan, tamb\u00e9m n\u00e3o escava um sentido oculto; ela cava at\u00e9 onde o sentido falha. A palavra j\u00e1 n\u00e3o serve apenas para representar algo. Ela incide sobre um corpo. Ela delira.<\/p>\n<p>Talvez seja esse o guardar de que fala Antonio C\u00edcero (1996\/2025). Guardar uma palavra n\u00e3o \u00e9 conserv\u00e1-la intacta, mas deix\u00e1-la correr solta, indom\u00e1vel, e, nesse cavalgar da l\u00edngua entre ru\u00eddos e equ\u00edvocos, trope\u00e7ar num c\u00e9u e voar para al\u00e9m da boca.\u00a0 O pr\u00f3prio poema parece fazer isso. Um beijo deixa de ser apenas um gesto amoroso para tornar-se um elemento gramatical. A dan\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 interrompida por uma palavra; passa a inclu\u00ed-la entre seus movimentos.<\/p>\n<p>H\u00e1 interpreta\u00e7\u00f5es que buscam aquilo que a palavra quer dizer, o que esconde, a que objeto remete. Lacan, sobretudo em seu \u00faltimo ensino, desloca essa aposta para o instante em que uma palavra encontra um corpo e faz alguma coisa com ele. \u00c0s vezes, basta um sil\u00eancio. Um ru\u00eddo. Uma pausa. Uma palavra dita na hora certa. Um pequeno clar\u00e3o do real.<\/p>\n<p>O poema termina perguntando quanto do desejo mora na palavra &#8220;desejo&#8221;. N\u00e3o sei responder, porque nem tudo do desejo cabe na palavra. Resta sempre um excesso, algo que continua pulsando mesmo quando \u00e9 nomeado. Volto ent\u00e3o ao verso: &#8220;Posso tocar o seu corpo, mas n\u00e3o o seu nome.&#8221; Hoje j\u00e1 n\u00e3o consigo l\u00ea-lo da mesma maneira. Talvez eu n\u00e3o possa tocar um nome. Mas um nome, quando encontra sua hora, nos toca. \u00c9 justamente a\u00ed, nesse intervalo entre o que a palavra representa e o que ela faz acontecer, que uma an\u00e1lise encontra sua possibilidade de interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A melhor maneira de guardar um cavalo \u00e9 deix\u00e1-lo correr. Talvez interpretar seja isso: pegar a p\u00e1-lavra. Como escreve Fl\u00e1via C\u00eara (2026), a interpreta\u00e7\u00e3o &#8220;n\u00e3o pretende um esclarecimento&#8221; (p. 93) e busca que &#8220;a l\u00edngua n\u00e3o se feche sobre si mesma&#8221; (p. 94), para que uma palavra possa &#8220;soar outra coisa que o sentido, mais perto do que faz a vida pulsar&#8221; (p.94) . Talvez seja esse o modo mais vivo de guardar uma palavra: deix\u00e1-la livre at\u00e9 encontrar seu furo e, por um instante, fazer ressoar um corpo. Um corpo que goza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancia<\/h6>\n<h6>CERA, F. Partimos! Correio: Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, n 96, 2026.CICERO, Antonio. Fullg\u00e1s: Poesia reunida. S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 2025.<\/h6>\n<h6>MARQUES, A. M. O livro das semelhan\u00e7as. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2015.<\/h6>\n<h6>MILLER. Elementos de Biologia Lacaniana. Minas Gerais: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 1999.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] Guardar um cavalo: cav\u00e1-lo at\u00e9 o furo DEL\u00cdRIOS COTIDIANOS Wilker Fran\u00e7a &#8211; EBP\/AMP &nbsp; Guardo alguns poemas. Um guardar que, como nos ensina Antonio C\u00edcero (1996\/2025), n\u00e3o se confunde com esconder na gaveta ou tirar de vista. Guardar \u00e9 manter \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 conservar vivo. 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