{"id":471,"date":"2026-08-06T16:59:25","date_gmt":"2026-08-06T19:59:25","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/?page_id=471"},"modified":"2026-08-06T17:00:02","modified_gmt":"2026-08-06T20:00:02","slug":"pequenos-delirios-de-menina","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/cronicas-delirantes\/pequenos-delirios-de-menina\/","title":{"rendered":"Pequenos del\u00edrios de menina"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column]<figure class=\"vcex-image vcex-module wpex-text-center\"><div class=\"vcex-image-inner wpex-relative wpex-inline-block\"><img width=\"1240\" height=\"173\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png\" class=\"vcex-image-img wpex-align-middle\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png 1240w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-300x42.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-1024x143.png 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-768x107.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1240px) 100vw, 1240px\" \/><\/div><\/figure>[vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]\n<h2><em><strong>Pequenos del\u00edrios de menina<\/strong><\/em><\/h2>\n<p><strong>Marina Fragoso (EBP\/AMP)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Futucando bem<br \/>\n<\/em><\/strong><strong><em>Todo mundo tem piolho<br \/>\n<\/em><\/strong><strong><em>Ou tem cheiro de creolina<br \/>\n<\/em><\/strong><strong><em>Todo mundo tem um irm\u00e3o meio zarolho<br \/>\n<\/em><\/strong><strong><em>S\u00f3 a bailarina que n\u00e3o tem<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Ciranda da Bailarina \u2013 Chico Buarque<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro que, quando pequena, olhava com muita admira\u00e7\u00e3o para as mulheres da fam\u00edlia que tinham joanetes. Constitu\u00eda-se a\u00ed um dos meus primeiros del\u00edrios infantis sobre o que era uma mulher. Lembro de torcer para que os meus crescessem logo e eu pudesse coloc\u00e1-los \u00e0 mostra em uma plataforma <em>Dijean<\/em>, recobrindo a castra\u00e7\u00e3o. Afinal, como diria Lacan: \u201cEntre o ser e o ter, a gente escolhe, mas \u00e9 a isso que se chama castra\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Uns anos depois, fui inventando que ser mulher tinha a ver com ter um cadeado no di\u00e1rio, uma mochilinha de couro, uma saia plissada, um tamanco da <em>Tiazinha<\/em> e at\u00e9 mesmo a boina da Kelly Key. Os semblantes acompanhavam as teorias infantis que eu criava sobre o sexual. Os adere\u00e7os iam se pendurando como pequenos penduricalhos ali onde n\u00e3o h\u00e1; uma colcha de retalhos que passou pelos t\u00eanis com saia de Lily Allen e at\u00e9 mesmo pelo batom de Marilyn Monroe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan afirma que \u201cA rela\u00e7\u00e3o sexual implica a captura pela imagem do outro. Em outros termos, um dos dom\u00ednios aparece aberto \u00e0 neutralidade da ordem do conhecimento humano, o outro parece ser o pr\u00f3prio dom\u00ednio da erotiza\u00e7\u00e3o do objeto. \u00c9 isso que, \u00e0 primeira vista, se manifesta para n\u00f3s\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Como poder\u00edamos pensar o lugar disso, uma vez que a incompatibilidade entre o ser e o ter j\u00e1 n\u00e3o se apresenta da mesma maneira?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Navegando pelos <em>reels<\/em>, o Instagram deparo-me com a not\u00edcia: \u201cInfluencer adere \u00e0 cirurgia para mudan\u00e7a na cor dos olhos\u201d. Isso \u00e9 poss\u00edvel?! Como faz?? Sobre o que delira uma pequena menina quando constr\u00f3i suas fantasias infantis na atualidade, em um tempo em que as solu\u00e7\u00f5es v\u00eam pela via das interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas, e n\u00e3o mais dos penduricalhos? Modifica-se a cor dos olhos, preenchem-se os l\u00e1bios, desenham-se barrigas com uma lipo LAD. As solu\u00e7\u00f5es no real do corpo parecem saber, veementemente, na literalidade da carne, o que \u00e9 A mulher, pergunta que s\u00f3 se pode responder pela via do del\u00edrio. Uma vez que \u201cSomente a m\u00e1scara ex-sistiria no lugar de vazio em que coloco A mulher\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, quando tudo o que a bailarina tem \u00e9 ofert\u00e1vel, que lugar resta ao imposs\u00edvel na formaliza\u00e7\u00e3o de um enigma para uma menina?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em tempos de <em>bets<\/em> e harmoniza\u00e7\u00e3o, precisamos nos orientar n\u00e3o pela desesperan\u00e7a, mas por nossa aposta \u00e9tica de saber que h\u00e1 algo que n\u00e3o se harmoniza. \u201cSignifica que a desarmonia \u00e9 origin\u00e1ria, que o som de lal\u00edngua jamais \u00e9 harm\u00f4nico, que n\u00e3o sintoniza com ningu\u00e9m\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Mesmo que o mercado sempre oferte um objeto sob a promessa da harmonia, \u00e9 a desarmonia desse arranjo que escutamos em nossos consult\u00f3rios: a rela\u00e7\u00e3o dos sujeitos com seu imposs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro-me de outra cena. Ainda pequena, com o cabelo na altura do queixo, olho para minha m\u00e3e e digo: \u201cGostaria de cortar ele aqui\u201d, apontando para a cintura. Ao que ela me responde: \u201cMinha filha, isso \u00e9 imposs\u00edvel!\u201d. Arrasada, eu n\u00e3o podia acreditar: era imposs\u00edvel! Ufa! Ainda bem. S\u00f3 assim pude formular meus pequenos del\u00edrios de menina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, Jacques. Semin\u00e1rio, livro 18: de um discurso que n\u00e3o fosse semblante, (1971). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. p. 63.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LACAN, Jacques. O semin\u00e1rio, livro 3: as psicoses, 1955-1956. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; vers\u00e3o brasileira de Alu\u00edsio Menezes. 2. ed. revista. Rio de Janeiro: Zahar, 1988. p. 208.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, Jacques. Outros escritos. Tradu\u00e7\u00e3o Vera Ribeiro; vers\u00e3o final Angelina Harari e Marcus Andr\u00e9 Vieira. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 559.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> MILLER, Jacques-Alain. Piezas sueltas. Establecimiento del texto: Graciela Brodsky; traducci\u00f3n: Gerardo Arenas. 1. ed. 2. reimp. Ciudad Aut\u00f3noma de Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2025. p. 47.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] Pequenos del\u00edrios de menina Marina Fragoso (EBP\/AMP) Futucando bem Todo mundo tem piolho Ou tem cheiro de creolina Todo mundo tem um irm\u00e3o meio zarolho S\u00f3 a bailarina que n\u00e3o tem Ciranda da Bailarina \u2013 Chico Buarque Lembro que, quando pequena, olhava com muita admira\u00e7\u00e3o para as mulheres da fam\u00edlia que tinham joanetes.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":147,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-471","page","type-page","status-publish","hentry","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/471","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=471"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/471\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":473,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/471\/revisions\/473"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/147"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=471"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}