{"id":407,"date":"2026-07-27T13:45:16","date_gmt":"2026-07-27T16:45:16","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/?page_id=407"},"modified":"2026-07-27T13:45:33","modified_gmt":"2026-07-27T16:45:33","slug":"uma-mae-encontra-sua-orfa","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/cronicas-delirantes\/uma-mae-encontra-sua-orfa\/","title":{"rendered":"Uma m\u00e3e encontra sua \u00f3rf\u00e3"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column]<figure class=\"vcex-image vcex-module wpex-text-center\"><div class=\"vcex-image-inner wpex-relative wpex-inline-block\"><img width=\"1240\" height=\"173\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png\" class=\"vcex-image-img wpex-align-middle\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png 1240w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-300x42.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-1024x143.png 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-768x107.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1240px) 100vw, 1240px\" \/><\/div><\/figure>[vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]\n<h2><strong>Uma m\u00e3e encontra sua \u00f3rf\u00e3<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Anderson Barbosa de Ara\u00fajo<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria, como se costuma dizer, viralizou. Uma mulher de 37 anos se passa por uma adolescente de 12 e \u00e9 adotada por uma fam\u00edlia em Santa Catarina. Essa n\u00e3o era a primeira fam\u00edlia enganada; na verdade, j\u00e1 passava da quinta. Nesta \u00faltima, Amanda viveu por mais de um ano. A repercuss\u00e3o na internet foi enorme, pois Amanda recebia as mais diversas regalias, a tal ponto de, em seu anivers\u00e1rio de 13 anos \u2014 pasmem \u2014, pedir <em>Mounjaro<\/em> de presente.<\/p>\n<p>Diante das rea\u00e7\u00f5es do p\u00fablico e dos diversos memes e coment\u00e1rios que a hist\u00f3ria gerou, algo me chamou a aten\u00e7\u00e3o. O que mais se destacava n\u00e3o era o golpe aplicado por Amanda ou mesmo seu del\u00edrio de acreditar ter 12 anos, mas o fato de a fam\u00edlia ter acreditado nela. Ora, visivelmente Amanda n\u00e3o tinha 12 anos. Como \u00e9 poss\u00edvel que tenham acreditado por tanto tempo?<\/p>\n<p>Em entrevista, Renata, a m\u00e3e adotiva, dizia-se absolutamente envergonhada. Dormia com a menina, dava-lhe mamadeira e cantava can\u00e7\u00f5es de ninar. Renata era verdadeiramente uma m\u00e3e. Fran\u00e7oise Dolto<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> aponta que todo filho \u00e9 adotivo, at\u00e9 mesmo os biol\u00f3gicos. Com isso, demarca que aquilo que vai constituir a filia\u00e7\u00e3o parental \u00e9 alguma coisa de outra ordem que n\u00e3o a biol\u00f3gica, mas, sim, da constitui\u00e7\u00e3o mesma de um sintoma que a crian\u00e7a vem a representar na din\u00e2mica familiar, como coloca Lacan em <em>Nota sobre a crian\u00e7a<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><em><strong>[2]<\/strong><\/em><\/a>.<\/p>\n<p>Identificar-se como m\u00e3e, \u00e9, assim me parece, tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de del\u00edrio. \u00c9 acreditar que existe um objeto <em>a<\/em> qualquer que, como mostra Lacan, satura &#8220;a modalidade de falta em que se especifica o desejo (da m\u00e3e), seja qual for sua estrutura especial: neur\u00f3tica, perversa ou psic\u00f3tica&#8221; (p. 370). Todo mundo \u00e9 louco por delirar que existe um meio de preencher o buraco da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. O del\u00edrio, nessa seara, \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o. \u00c9 um jeito de recobrir, com a espuma do sentido, o osso exposto do real.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do filme <em>A \u00f3rf\u00e3<\/em>, de 2009, amplamente evocado pelos internautas diante desse caso, o ocorrido me fez lembrar um filme mais recente, <em>Titane<\/em>, de 2021, dirigido por Julia Ducournau. No filme, acompanhamos Alexia, que, depois de assassinatos em s\u00e9rie, incluindo os de seus pais, resolve fugir. No aeroporto, ela se depara com o an\u00fancio de pessoas desaparecidas e resolve se passar por uma delas: um rapaz muito mais jovem. Alexia raspa a cabe\u00e7a, quebra o pr\u00f3prio nariz e enfaixa os seios para emular a apar\u00eancia do rapaz e, ent\u00e3o, apresenta-se \u00e0 pol\u00edcia.<\/p>\n<p>O pai do jovem aceita de prontid\u00e3o aquele sujeito calado e arredio como sendo seu filho, leva-o para casa, cuida dele e o introduz prontamente em sua vida e em seu trabalho. Todos desconfiam, \u00e9 claro, at\u00e9 mesmo n\u00f3s, que assistimos ao filme. Alexia est\u00e1 gr\u00e1vida, sua barriga cresce, seu corpo se transforma, mas absolutamente nada \u00e9 capaz de abalar a confian\u00e7a daquele pai de que finalmente encontrara seu filho. \u00c9 um del\u00edrio do qual ele n\u00e3o poderia abrir m\u00e3o. Sua ex-companheira sabe muito bem disso. Em uma visita \u00e0 casa, assusta-se com a apar\u00eancia de Alexia, chama-a ao banheiro e diz algo como: &#8220;N\u00e3o sei quem \u00e9 voc\u00ea ou o que voc\u00ea quer aqui, mas ele precisa de voc\u00ea.&#8221; Talvez Renata tamb\u00e9m precisasse de Amanda. Uma m\u00e3e encontra sua \u00f3rf\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Dolto, F. (2013). <em>Semin\u00e1rio de psican\u00e1lise de crian\u00e7as<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lacan, J. (2003). Nota sobre a crian\u00e7a. Em: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1969).<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] Uma m\u00e3e encontra sua \u00f3rf\u00e3 Anderson Barbosa de Ara\u00fajo \u00a0 A hist\u00f3ria, como se costuma dizer, viralizou. Uma mulher de 37 anos se passa por uma adolescente de 12 e \u00e9 adotada por uma fam\u00edlia em Santa Catarina. Essa n\u00e3o era a primeira fam\u00edlia enganada; na verdade, j\u00e1 passava da quinta. 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