{"id":395,"date":"2026-07-07T05:20:34","date_gmt":"2026-07-07T08:20:34","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/?page_id=395"},"modified":"2026-07-07T05:20:34","modified_gmt":"2026-07-07T08:20:34","slug":"um-acordo-com-o-tempo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/cronicas-delirantes\/um-acordo-com-o-tempo\/","title":{"rendered":"Um acordo com o tempo?"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column]<figure class=\"vcex-image vcex-module wpex-text-center\"><div class=\"vcex-image-inner wpex-relative wpex-inline-block\"><img width=\"1240\" height=\"173\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png\" class=\"vcex-image-img wpex-align-middle\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png 1240w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-300x42.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-1024x143.png 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-768x107.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1240px) 100vw, 1240px\" \/><\/div><\/figure>[vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]\n<h2><strong>Um acordo com o tempo?<\/strong><\/h2>\n<h6>Cl\u00e1udia Formiga (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>Com o convite para escrever uma das \u201ccr\u00f4nicas delirantes\u201d da VI Jornada <em>Del\u00edrio e interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>, passei a prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s not\u00edcias e aos pequenos acontecimentos do cotidiano, \u00e0 procura de algo que me permitisse articular interpreta\u00e7\u00e3o, del\u00edrio e real.<\/p>\n<p>Foi numa conversa com amigos que encontrei o tema sobre o qual escrever. Algu\u00e9m comentou sobre uma not\u00edcia de jornal, que a mim pareceu sa\u00edda de um texto de realismo fant\u00e1stico: falava da exist\u00eancia da Funda\u00e7\u00e3o Cacique Cobra Coral, uma institui\u00e7\u00e3o que existe h\u00e1 d\u00e9cadas e cuja miss\u00e3o \u00e9 negociar com o tempo e controlar o clima. Entre seus interlocutores est\u00e3o at\u00e9 prefeituras, que a ela recorrem com o fim de afastar a chuva de grandes eventos como Carnaval, R\u00e9veillon&#8230;<\/p>\n<p>Como se d\u00e1 essa negocia\u00e7\u00e3o? Segundo a not\u00edcia, funciona assim: uma m\u00e9dium incorpora o esp\u00edrito de um \u00edndio, o cacique Cobra Coral, entre cujos poderes est\u00e1 \u201cminimizar os estragos causados por desastres naturais\u201d.<\/p>\n<p>Minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi de espanto.<\/p>\n<p>A segunda me veio sob a forma de uma lembran\u00e7a: Eu devia ter uns nove ou dez anos quando, num domingo nublado, desenhei com um giz amarelo no cimento da cal\u00e7ada um sol enorme, com muitos raios&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sei exatamente se acreditava que aquilo faria mudar o c\u00e9u. Mas ali havia uma esp\u00e9cie de \u201cacordo silencioso\u201d que eu fazia com o tempo. Eu queria ir \u00e0 praia e, diante da amea\u00e7a de chuva, tentei fazer existir alguma media\u00e7\u00e3o entre o meu desejo e as nuvens.<\/p>\n<p>A not\u00edcia sobre a Funda\u00e7\u00e3o Cobra Coral me interessou menos pelo que ela diz sobre o clima e mais pelo que revela sobre a nossa rela\u00e7\u00e3o com o imprevis\u00edvel. Em um mundo que calcula, prev\u00ea e monitora quase tudo, ainda encontramos no c\u00e9u um ponto de opacidade.<\/p>\n<p>O que procurariam aqueles que recorrem a uma institui\u00e7\u00e3o cuja miss\u00e3o \u00e9 conversar com as nuvens?<\/p>\n<p>O clima talvez seja um dos nomes mais antigos do real. Freud j\u00e1 observava que a humanidade produziu seus deuses para domesticar as for\u00e7as da natureza. Dan\u00e7as da chuva, preces, oferendas e sacrif\u00edcios foram artif\u00edcios com que, sem terem o dom\u00ednio do c\u00e9u, os homens tentavam negociar com ele. Hoje, servi\u00e7os de meteorologia at\u00e9 podem predizer o tempo, mas n\u00e3o impedir uma tempestade.<\/p>\n<p>Lacan nos ensina que diante do que escapa \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o, os seres falantes n\u00e3o cessam de produzir sentido. E que o del\u00edrio \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o de sentido diante de um ponto de irrup\u00e7\u00e3o do real. O real do clima n\u00e3o est\u00e1 em que a chuva caia, mas em que ela caia indiferente \u00e0 nossa vontade, sem nenhuma inten\u00e7\u00e3o ou destinat\u00e1rio. O que o del\u00edrio produz \u00e9 justamente um destinat\u00e1rio, uma inten\u00e7\u00e3o. E a chuva, de acontecimento meteorol\u00f3gico, passa a algo com que podemos negociar.<\/p>\n<p>E por que a ideia de negociar com as nuvens continua a fazer sentido pra n\u00f3s?<\/p>\n<p>Penso que a exist\u00eancia, hoje, de uma institui\u00e7\u00e3o cuja miss\u00e3o \u00e9 controlar o tempo encarna uma vers\u00e3o contempor\u00e2nea dessa antiga tentativa de interpelar o real.<\/p>\n<p>Seja sob o nome d<span style=\"text-decoration: line-through;\">a<\/span> ci\u00eancia, da religi\u00e3o, da pol\u00edtica ou da magia, continuamos procurando algu\u00e9m que nos garanta que n\u00e3o vai chover justamente no dia do casamento ao ar livre ou quando tudo que queremos \u00e9 pegar uma praia.<\/p>\n<p>A Funda\u00e7\u00e3o Cobra Coral parece oferecer uma interpreta\u00e7\u00e3o para aquilo que de outro modo permaneceria entregue ao acaso. E, dessa forma, uma media\u00e7\u00e3o entre o humano e o real sem lei.<\/p>\n<p>E sempre que o real se mostra indiferente aos nossos c\u00e1lculos, reaparece em n\u00f3s o desejo de que exista algu\u00e9m com quem ainda seja poss\u00edvel negociar.<\/p>\n<p>Nem que seja com uma nuvem.<\/p>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] Um acordo com o tempo? Cl\u00e1udia Formiga (EBP\/AMP) Com o convite para escrever uma das \u201ccr\u00f4nicas delirantes\u201d da VI Jornada Del\u00edrio e interpreta\u00e7\u00e3o, passei a prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s not\u00edcias e aos pequenos acontecimentos do cotidiano, \u00e0 procura de algo que me permitisse articular interpreta\u00e7\u00e3o, del\u00edrio e real. 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