{"id":245,"date":"2026-05-01T07:31:35","date_gmt":"2026-05-01T10:31:35","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/?page_id=245"},"modified":"2026-05-01T07:53:32","modified_gmt":"2026-05-01T10:53:32","slug":"homem-de-pano","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/cronicas-delirantes\/cronicas-aqui\/homem-de-pano\/","title":{"rendered":"Homem de pano"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column]<figure class=\"vcex-image vcex-module wpex-text-center\"><div class=\"vcex-image-inner wpex-relative wpex-inline-block\"><img width=\"1240\" height=\"173\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png\" class=\"vcex-image-img wpex-align-middle\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1.png 1240w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-300x42.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-1024x143.png 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2026\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/cabecalho_cronicas-1-768x107.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1240px) 100vw, 1240px\" \/><\/div><\/figure>[vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]\n<h2><strong>HOMEM DE PANO<\/strong><\/h2>\n<h6><em>K\u00e9sia Ramos EBP\/AMP<\/em><\/h6>\n<div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inauguro as Cr\u00f4nicas Delirantes escrevendo a minha surpresa ao ler uma mat\u00e9ria de jornal.\u00b9 Fui conferir se era\u00a0<em>fake<\/em>\u00a0\u2014 a mat\u00e9ria estava inclusive em jornais internacionais.\u00b2 \u00c9 um fato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meirivone Rocha Moraes dan\u00e7a forr\u00f3 e mora no interior de Minas Gerais. Veio a pandemia. Foi embora o baile, o par, o suor. Foi ent\u00e3o que pediu \u00e0 m\u00e3e um homem de pano. A m\u00e3e era costureira \u2014 n\u00e3o \u00e9 detalhe, \u00e9 destino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 isso o que fazemos? Tentamos, de algum modo, for\u00e7ar a rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1 \u2014 pedimos que algu\u00e9m nos costure um outro, como se o amor fosse uma quest\u00e3o de medida certa, de linha firme, de n\u00f3 bem dado. Sua m\u00e3e, que era costureira, entendeu. As m\u00e3es capturam certas coisas que as palavras n\u00e3o alcan\u00e7am. Costurou Marcelo que entrou pela porta como quem sempre esteve esperando do lado de fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era pandemia. Havia um sil\u00eancio novo no mundo, um sil\u00eancio de corpo que n\u00e3o toca outro corpo, de festa que virou tela. E dentro desse sil\u00eancio, que n\u00e3o era paz mas aus\u00eancia, Meirivone casou, dan\u00e7ou e teve filhos com um boneco de pano. Com pano e com entusiasmo. Isso \u00e9 o que os jornais n\u00e3o souberam dizer: um entusiasmo infinito e delirante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan nos lembra que todo mundo \u00e9 louco. N\u00e3o existe um saber que organize definitivamente o gozo, que ponha ordem naquilo que o corpo quer sem pedir licen\u00e7a. Cada um de n\u00f3s ergue uma fic\u00e7\u00e3o para cobrir o real que nos habita \u2014 aquilo que n\u00e3o cede, que n\u00e3o se simboliza, que insiste sem pedir licen\u00e7a. Uma inven\u00e7\u00e3o para dar contorno ao que n\u00e3o tem forma, agora que o Nome-do-Pai j\u00e1 n\u00e3o organiza como antes. Uns cobrem com palavras, outros com dinheiro, outros com ideologias, outros com a f\u00e9 cega num Outro que ainda exista e saiba. Meirivone fabricou com o que o destino providenciou: uma m\u00e3e costureira, pano de algod\u00e3o e dois bot\u00f5es por olhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E depois ficou gr\u00e1vida. Duas vezes. Fez teste na farm\u00e1cia, mostrou o resultado positivo em v\u00eddeo nas redes sociais, disse que queria uma menina. A c\u00e2mera filmou sua alegria \u2014 uma alegria que n\u00e3o pedia permiss\u00e3o para existir, que n\u00e3o esperava que o mundo fosse entend\u00ea-la. Porque o que ela descobriu \u2014 sem saber que descobria, sem usar as palavras certas, sem ter lido uma linha de psican\u00e1lise \u2014 \u00e9 que o Outro n\u00e3o existe. Existe o pano. Existe o que se inventa. O amor n\u00e3o \u00e9 um encontro de dois: \u00e9 sempre uma constru\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria que, por conting\u00eancia ou ilus\u00e3o, \u00e0s vezes o outro parece confirmar. Meirivone apenas fez a opera\u00e7\u00e3o \u00e0s claras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 algo, na hist\u00f3ria de Meirivone, que nos convoca. N\u00e3o a julgar, n\u00e3o a diagnosticar \u2014 mas a escutar esse sujeito: o que faz com aquilo que n\u00e3o tem forma, com o gozo que insiste, com a rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1. \u00c9 essa a pergunta que a VI Jornada prop\u00f5e:\u00b3 o que \u00e9 o del\u00edrio sen\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o que cada um costura para habitar o real? E o que \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o do analista sen\u00e3o uma opera\u00e7\u00e3o que desloca do sentido ao fora de sentido \u2014 sem desfazer o pano, tocando o real, deixando o sujeito amarrar outro n\u00f3?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcelo n\u00e3o existe \u2014 porque n\u00e3o \u00e9 um sujeito. N\u00e3o fica suado de dan\u00e7ar, n\u00e3o deseja, n\u00e3o falta, n\u00e3o sofre. O Outro tampouco existe \u2014 e o Outro, ao menos, n\u00e3o nos abra\u00e7a. Entre dois que n\u00e3o existem, Meirivone escolheu o que podia segurar nos bra\u00e7os: casou com ele, deu-lhe um nome, anunciou o quarto filho. Ficou com o pano \u2014 e nessa inven\u00e7\u00e3o tocou o real: desejar, amar e delirar \u00e9 sempre singular. \u00c9 costurar com o que se tem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim, Meirivone contraria a teoria lacaniana fazendo existir a rela\u00e7\u00e3o sexual. Produziu quatro filhos \u2014 de pano, claro! Mas com entusiasmo infinito e delirante. E assim seguiu dan\u00e7ando, sem precisar de nada que n\u00f3s ainda estamos tentando entender. N\u00f3s \u00e9 que precisamos dela \u2014 para lembrar que o del\u00edrio n\u00e3o \u00e9 o problema. \u00c9, \u00e0s vezes, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. E que o analista, ao escut\u00e1-lo e saber o que fazer com ele, \u00e9 o que nos convoca ao trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso, vamos riscando, arriscando, costurando palavras, ideias e cr\u00f4nicas com o que a humanidade e o cotidiano ferozmente nos mostram. Ah, o del\u00edrio.<\/p>\n<\/div>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><br \/>\nCNN BRASIL.\u00a0<em>Mulher que ficou famosa por se casar com boneco de pano diz que espera \u20182\u00ba filho\u2019<\/em>. CNN Brasil, 13 abr. 2023. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/www.cnnbrasil.com.br&amp;source=gmail&amp;ust=1777671195315000&amp;usg=AOvVaw0HOiFh5h_NKB-_28jWBFXu\">https:\/\/www.cnnbrasil.com.br<\/a>. Acesso em: abr. 2025.<br \/>\nTHE MIRROR. <em>Woman who married a rag doll announces she\u2019s pregnant with \u2018fourth child\u2019<\/em>. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.mirror.co.uk\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/www.mirror.co.uk&amp;source=gmail&amp;ust=1777671195315000&amp;usg=AOvVaw2aTN4HlIa--aupOXnbxlR1\">https:\/\/www.mirror.co.uk<\/a>. Acesso em: abr. 2025.<br \/>\nUCH\u00d4A, Li\u00e8ge; FERREIRA, V\u00e2nia.\u00a0<em>Argumento da VI Jornada da Se\u00e7\u00e3o Nordeste \u2014 EBP\/AMP: Del\u00edrio e Interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>. Recife, 2026.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] HOMEM DE PANO K\u00e9sia Ramos EBP\/AMP Inauguro as Cr\u00f4nicas Delirantes escrevendo a minha surpresa ao ler uma mat\u00e9ria de jornal.\u00b9 Fui conferir se era\u00a0fake\u00a0\u2014 a mat\u00e9ria estava inclusive em jornais internacionais.\u00b2 \u00c9 um fato. Meirivone Rocha Moraes dan\u00e7a forr\u00f3 e mora no interior de Minas Gerais. Veio a pandemia. 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