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Liège Uchôa e Vânia Ferreira
Coordenadoras da Comissão Científica
Há momentos em que uma época se revela não apenas nos acontecimentos que a atravessam, mas nas formas de sofrimento que nela emergem. É nesse ponto que a psicanálise, desde Freud, encontra seu campo de investigação: escutar o mal-estar de um tempo e ler, em seus sintomas, algo da verdade que insiste.
É com entusiasmo que apresentamos à comunidade analítica o Argumento que orientará os trabalhos da VI Jornada da Seção Nordeste. Escolhemos articular nosso percurso ao tema do Encontro Brasileiro do Campo Freudiano deste ano – “Barulhos da língua, a interpretação entre a fala e a escrita” – numa tentativa de fazer ressoar, entre nós, suas proposições e interrogá-las à luz de nossa experiência clínica. Sob o título Delírio e Interpretação, propomos um trabalho que se debruce sobre esses dois significantes, explorando suas incidências na clínica, nas instituições, e na civilização.
No início, com Freud[1] e, posteriormente, com Lacan[2], em seu primeiro ensino, a psicanálise orientava-se em torno do recalcado. O sintoma era tomado como uma solução de compromisso cuja verdade poderia ser decifrada. Interpretar significava desvelar um sentido oculto, trazendo à palavra aquilo que havia sido recalcado. Na transferência, sustentada pelo sujeito suposto saber, a interpretação operava como uma leitura do inconsciente estruturado como linguagem.
Entretanto, o século XXI parece nos colocar diante de um novo cenário clínico. A tarefa da psicanálise hoje, sem eliminar o inconsciente transferencial, exige explorar uma outra dimensão: a da defesa frente a um real sem lei e desprovido de sentido. Trata-se, nesse contexto, de perturbar a defesa contra o real[3]. Mas o que significa, propriamente, perturbar a defesa? Em que essa operação difere de interpretar a defesa? Na orientação lacaniana, essa distinção se esclarece a partir das formas pelas quais o analista pode operar na direção de desmontar a defesa contra o real: como sinthoma[4], como “intruso”[5], como “ajuda contra”[6], entre outras modalidades possíveis. Trata-se menos de acrescentar sentido e mais de tocar um ponto em que o sujeito se defende do real que o habita.
Cada vez mais, a clínica contemporânea nos confronta com um gozo singular — o Um — que resiste à simbolização e se apresenta indizível. Antes mesmo de se articular em palavras, muitas vezes o que surge é o silêncio opaco da pulsão de morte. O Há-Um[7] designa essa solidão radical do “um-sozinho” marcada pela repetição de um gozo que não se inscreve na relação com o Outro. A interpretação analítica visa operar sobre esse Um que insiste.
Articular essas transformações da clínica psicanalítica à época é fundamental para situarmos os efeitos do tempo nas dimensões sintomáticas dos sujeitos e suas consequências sobre os conceitos que orientam a prática. A subjetividade não é indiferente às mutações da cultura.
Jacques-Alain Miller[8] descreve nossa época como marcada por uma lenta e progressiva desintegração do mundo simbólico e pela ascensão da dimensão do gozo na civilização. Trata-se de uma desordem do real, no qual o Outro perde sua consistência e já não oferece referências estáveis para situar o desejo. A pedra angular do Nome-do-Pai se trinca, atingida e desvalorizada pela combinação de dois discursos: o da ciência e o do capitalismo.
Com essa combinação discursiva, o real se revela desordenado, desprovido de semblantes. Miller[9], para falar sobre essas novas coordenadas, retoma de forma preciosa a famosa descrição de Karl Marx, anunciada em seu Manifesto Comunista: “tudo que é sólido desmancha no ar, tudo que é sagrado é profanado…”. É nesse ponto que Marx começa a tratar dos efeitos do discurso do capitalismo na civilização e de sua ruptura com a tradição.
Não por acaso, o Nome-do-Pai sofre um rebaixamento no ensino de Lacan, já que a clínica mostrava os limites de uma abordagem centrada apenas na ordem simbólica e na estrutura edípica para responder às formas contemporâneas de sofrimento. Lacan vai além do falo freudiano com a lógica do “não-todo”, afastando-se de uma abordagem universalizante e pelo sentido, abrindo caminho ao gozo Outro, qualificado como gozo feminino.
É nesse contexto que Lacan[10] afirma: “todo mundo é louco, ou seja, delirante”. Não como uma generalização diagnóstica, mas como indicação estrutural: não existe um saber universal capaz de organizar definitivamente a experiência do gozo. A partir daquilo que a psicose nos ensina sobre a função do delírio — como tratamento do gozo pela produção de sentido — pode-se afirmar que todo ser falante constrói, à sua maneira, uma ficção para lidar com aquilo que escapa à simbolização.
Sem o Nome-do-Pai como medida comum, a loucura se estende a todos os falantes que sofrem pela ausência de um saber sobre a sexualidade, abalando as fronteiras entre neurose e psicose[11], que até então eram a base do diagnóstico diferencial da psicanálise. A clínica se desloca: do Nome-do-Pai ao sinthoma, da falta estrutural aos modos de amarração. Nessa perspectiva, neuróticos e psicóticos passam a ser pensados menos pela oposição estrutural e mais pelos modos de enodamento entre real, o simbólico e o imaginário.
Essa segunda clínica de Lacan amplia o conceito de sintoma, herdado de Freud[12], ao incluir nele os restos sintomáticos que subsistem no final da análise, a parte ineliminável do sintoma. Por essa razão, Lacan chamou de sinthoma aquilo que é o nome do incurável. Ele surge do encontro traumático entre corpo e lalíngua, como acontecimento de corpo e modos singular de gozo. Funciona como marca própria e pode fazer suplência à função ordenadora do Nome-do-Pai, quando já não se sustenta a ideia de uma norma simbólica universal. Assim, o sinthoma não é algo a ser eliminado, mas aquilo com que o sujeito é levado a um “saber-fazer”: encontrar uma maneira singular de habitar e manejar o próprio gozo do corpo.
Esse deslocamento exige uma nova disciplina da interpretação em tempos em que todos deliram. Miller[13] pergunta: o que se torna a interpretação quando o foco passa da linguagem ao real do gozo? A interpretação clássica, produtora de sentido, encontra seus limites diante de um gozo opaco, refratário à decifração.
O inconsciente não se reduz mais à linguagem — isto é, ao campo do Outro que se atualiza na transferência —, inclui também lalíngua, onde as palavras operam pelo gozo que veiculam. Se antes a verdade surgia no lapso e no ato falho, em lalíngua encontramos a repetição de um gozo que não comunica, mas insiste. Trata-se do inconsciente real: o impacto contingente da linguagem sobre o corpo, anterior ao sentido. O corpo próprio torna-se o lugar de inscrição desse gozo, ocupando o lugar do Outro que não existe.
O que implica, em nossa prática, orientar a interpretação menos pela revelação de um sentido recalcado, e mais por uma operação que incide sobre o real do gozo. A interpretação desloca-se, assim, do enquadre edipiano ao borromeano, passando a visar o furo, o desenodamento e o re-enodamento dos registros. Vai-se, desse modo, da escuta do sentido à leitura do fora de sentido[14], onde a letra e a escrita ganham primazia, orientadas pelo real, com o analista enquanto suporte do intraduzível[15].
No último ensino de Lacan, o inconsciente se reduz ao equívoco. A interpretação passa a operar pelo corte, contingência e equivocidade, não produzindo sentido, mas desestabilizando-o e operando como furo abrindo espaço para a emergência de um significante novo. Situa-se na junção entre palavra e gozo, faz “barulho”, como nos lembra o Argumento[16] do XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.
Trata-se, finalmente, de atualizar nossa prática analítica, revisando seus contextos, condições e coordenadas no século XXI, quando se intensifica o que Freud denominou mal-estar na cultura, decifrado por Lacan como os impasses da civilização. Impasses que ganham novas configurações em nossos dias. Revelam-se nos novos arranjos familiares, nas tentações ao eugenismo, nas questões de gênero, no fenômeno do feminicídio, nas polarizações políticas, no triunfo[17] das religiões, e na inteligência artificial, entre outros acontecimentos da época.
Nossa Jornada pretende ser um espaço de trabalho e de invenção, onde cada um possa colocar à prova a sua experiência, partilhar questões e apresentar as soluções singulares encontradas na clínica. Interessa-nos repensar o estatuto do delírio e da interpretação e o lugar do analista hoje — tanto no espaço íntimo do consultório quanto nos diferentes dispositivos da cidade. Pois, se há algo que a psicanálise nos ensina, é que cada época inventa suas formas de delírio, e cabe a nós escutá-las.
A partir do percurso aqui apresentado, três eixos temáticos se abrem como possibilidades de investigação:
Eixo I – A interpretação na clínica lacaniana
Neste eixo, interrogamos a interpretação na clínica lacaniana.
Como abordar, na clínica contemporânea, manifestações sintomáticas que não se apresentam como enigma nem convocam imediatamente a interpretação? Como lê-las e como fazer operar algo de sua dimensão de gozo?
Que formas de intervenção se tornam operatórias nessa clínica? Como pensar, nesse contexto, o valor do corte, do equívoco, da pontuação ou de outras modalidades de interpretação? E a interpretação na clínica das psicoses?
Eixo II – A Prática da Interpretação nas Instituições
Este eixo pretende indagar o que pode valer como interpretação na prática psicanalítica realizada em instituições. De que modo a interpretação pode operar em contextos marcados por limites institucionais e demandas de eficácia?
Como a psicanálise pode sustentar a clínica do sujeito em instituições atravessadas por múltiplos discursos? Qual o lugar que a construção e a transmissão de casos clínicos ocupam nesse contexto?
Eixo III – As incidências da psicanálise na civilização do imperativo de gozo
Neste eixo, partimos da seguinte pergunta: como a psicanálise pode ler a passagem do “é proibido gozar” para o imperativo contemporâneo do “goza!”? Como extrair consequências da afirmação de que “o inconsciente é a política”?
Como o analista pode jogar sua partida diante de acontecimentos contemporâneos, como as polarizações políticas, as transformações nas questões de gênero, o estatuto da verdade frente à proliferação de fake news, a incidência da IA e o triunfo das religiões? E, ainda, diante do aumento do racismo, dos feminicídios, das passagens ao ato, da violência e das guerras? Enfim, como recolher os efeitos da presença do analista na civilização?
Confiantes na travessia dessas questões, esperamos o percurso de cada um em suas produções.
