{"id":697,"date":"2025-10-13T06:47:24","date_gmt":"2025-10-13T09:47:24","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2025\/?p=697"},"modified":"2025-10-13T06:49:49","modified_gmt":"2025-10-13T09:49:49","slug":"analista-trauma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2025\/analista-trauma\/","title":{"rendered":"ANALISTA TRAUMA"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"font-size: 13px;\">Cartel respons\u00e1vel: Cleide Monteiro (EBP\/AMP), S\u00edlvia Gusm\u00e3o, Roberta Gusm\u00e3o, Rosemarie Mooneyham.<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-size: 13px;\">Mais-Um: Luc\u00edola Macedo (EBP\/AMP \u2013 Se\u00e7\u00e3o Minas).<\/span><\/em><\/p>\n<p>A partir das orienta\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o Cient\u00edfica para o Eixo Tr\u00eas, dedicado \u00e0 quest\u00e3o do analista trauma, cada componente, seguindo a l\u00f3gica de cartel, escolheu abordar um aspecto a partir do ponto que o provocou. Luc\u00edola Macedo, na fun\u00e7\u00e3o de Mais-um, ap\u00f3s as considera\u00e7\u00f5es de cada cartelizante, faz algumas pontua\u00e7\u00f5es e lan\u00e7a quest\u00f5es para o debate ocorrido na preparat\u00f3ria do Eixo 3, em 2 de setembro.<\/p>\n<h3><span style=\"color: #800000;\"><strong><em>Analista-trauma: parceiro que traumatiza o discurso comum<\/em><\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em>Cleide Monteiro (EBP\/AMP)<\/em><\/span><\/p>\n<p>Algumas quest\u00f5es iniciais: em que medida podemos afirmar que o analista adquire o estatuto de trauma? De que maneira opera o analista-trauma? E, diante dos chamados traumas de massa, o que pode o analista?<\/p>\n<p>Tentando avan\u00e7ar nessa \u00faltima quest\u00e3o, retomo uma A\u00e7\u00e3o Lacaniana realizada no contexto dos atentados terroristas de mar\u00e7o de 2004, na esta\u00e7\u00e3o de Atocha, em Madri, acontecimentos que ainda hoje continuam a nos ensinar. Com base em um fragmento, pretendo cernir a dimens\u00e3o do analista-trauma a partir de uma formula\u00e7\u00e3o trazida por Laurent<sup>1<\/sup>: o analista como parceiro que traumatiza o discurso comum para autorizar o discurso do inconsciente.<\/p>\n<p>Araceli Fuentes<sup>2<\/sup> nos conta sobre Minna, uma imigrante romena de 38 anos que vivia na Espanha e que, afetada pelos atentados terroristas, procurou a Rede Assistencial. Minna, que estava na cafeteria da esta\u00e7\u00e3o tomando caf\u00e9 com algumas amigas antes de ir para o trabalho, foi tomada pelo terror e saiu correndo, apavorada, entre mortos e feridos.<\/p>\n<p>Na fuga, cruzou o olhar de um homem estendido no ch\u00e3o, com o rosto ensanguentado, que lhe evocou a imagem de um \u201cCristo estirado\u201d. Essa cena a perturbou profundamente. Em seus pesadelos recorrentes, esse Cristo continua a olh\u00e1-la, recordando-lhe, a cada noite, que n\u00e3o socorreu os feridos.<\/p>\n<p>Minna chega \u00e0 consulta agitada e tomada pela ang\u00fastia. Sente-se culpada por n\u00e3o ter ficado para ajudar os feridos, por n\u00e3o ter seguido o ideal transmitido por seu pai religioso, que lhe ensinara que, diante da agress\u00e3o do outro, deveria responder como Cristo, oferecendo a outra face. Frente ao real do trauma, o recurso ao pai todo-amor fracassa. A analista a acolhe em sil\u00eancio, sem, no entanto, desculpabiliz\u00e1-la. A culpa desliza e recai sobre os terroristas, dando lugar a um \u00f3dio at\u00e9 ent\u00e3o completamente desconhecido por ela.<\/p>\n<p>Araceli nos diz que, ao longo das vinte entrevistas que durou esse tratamento, foi preciso sustentar um lugar de escuta, deixando-a falar desse \u00f3dio (primeiro dirigido aos terroristas e, depois, aos pais pela rigidez religiosa) como uma via de desidealiza\u00e7\u00e3o, mantendo aberto o caminho para que, um dia, pudesse subjetivar algo de seu ser. Ela nos diz que, durante todo o tempo, tratou de n\u00e3o deixar que o sentido, seja do lado religioso ou do lado do \u00f3dio, viesse tamponar o lugar vazio de significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jacques-Alain Miller interroga por que, no caso de Minna, houve um traumatismo. Seguindo o princ\u00edpio de que, para que haja traumatismo, \u00e9 necess\u00e1ria uma contradi\u00e7\u00e3o entre o fato e o dito, afirma que, no caso de Minna, o dito que se contrap\u00f5e ao fato \u00e9 o famoso \u201cpai todo-amor\u201d. Em um mundo ordenado pelo cristianismo verdadeiro, deve-se oferecer a outra face. \u201cO que traumatiza Minna \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 mais outra face a se oferecer\u201d<sup>3<\/sup>, nos diz Miller.<\/p>\n<p>Minna nos ensina que o traumatismo pode ser tomado como a consequ\u00eancia de um hiato entre um mundo regido pela lei do pai e a emerg\u00eancia de um real sem lei, como destacou Miller. Ru\u00eddo o pilar de seu mundo, Minna passa a se perguntar sobre o que fazia ali, em um pa\u00eds de que tanto gostava, mas que agora lhe parecia estranho. Seu \u00fanico filho, de 19 anos, permanecia na Rom\u00eania, enquanto o marido trabalhava em outra cidade da Espanha e a visitava apenas nos finais de semana.<\/p>\n<p>Para que se opere a incid\u00eancia do acontecimento traum\u00e1tico, o encontro com um analista pode produzir efeitos, como ocorreu com Minna, na medida em que o trauma se inscreveu na particularidade de seu inconsciente. Nessa experi\u00eancia, os sonhos tiveram um lugar central.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de \u201csonhos resolutivos\u201d, h\u00e1 uma restitui\u00e7\u00e3o da trama do inconsciente como dispositivo produtor de sentido libidinal. Seguindo um percurso tra\u00e7ado a partir de sete sonhos, Araceli nos diz que, entre o primeiro pesadelo \u2014 no qual o olhar superegoico do \u201cCristo estirado\u201d a atormentava a ponto de despert\u00e1-la \u2014 e o \u00faltimo sonho, em que um homem sem rosto, aos p\u00e9s de sua cama, lhe restitu\u00eda a tranquilidade, transcorreram v\u00e1rios meses, tempo em que p\u00f4de rir e retomar o fio da vida. Nesse intervalo, inclusive, ocupou-se de um cisto\/tumor no \u00fatero, descoberto antes dos atentados, que amea\u00e7ava seu corpo e sobre o qual n\u00e3o quis nada saber naquele tempo.<\/p>\n<p>A conting\u00eancia do acontecimento traum\u00e1tico, que se imp\u00f5e ao sujeito vindo de fora, com a presen\u00e7a do analista, possibilita tocar o real do corpo, evitando que ela tenha o mesmo destino do Cristo estendido em sua tumba, como destaca Araceli.<\/p>\n<p>A partir desse recorte cl\u00ednico, extraio tr\u00eas formula\u00e7\u00f5es que orientar\u00e3o a investiga\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 <strong>V Jornada<\/strong>: 1) o analista-trauma como parceiro que traumatiza o discurso comum para autorizar o discurso do inconsciente; 2) o analista-trauma como aquele que perturba a defesa contra o real sem lei; 3) o analista-trauma como testemunha daquilo que, no sujeito, fala de um gozo inomin\u00e1vel, sustentando-o na dignidade do real.<\/p>\n<p>Concluindo, de forma apressada para passar a palavra!, talvez seja poss\u00edvel dizer que o analista passa a ser, ele mesmo, o lugar do trauma, no momento em que encarna uma presen\u00e7a que toca o que n\u00e3o se presta ao deciframento, tomando a via da causa libidinal que excede todo sentido. O analista, assim, ocupa \u201co lugar da perda essencial do objeto\u201d<sup>4<\/sup>. \u00c9 a partir do semblante de trauma que o analista entra nessa partida para \u201ccombater a puls\u00e3o de morte com o mesmo trauma, isto \u00e9, o trauma transforma-se em vivificante\u201d<sup>5<\/sup>. Como nos diz Laurent: \u201cinventa-se um caminho novo causado pelo traumatismo\u201d<sup>6<\/sup>. E isso s\u00f3 se d\u00e1 no encontro com um analista.<\/p>\n<h3><span style=\"color: #800000;\"><strong><em>O analista trauma como operador cl\u00ednico<\/em><\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em>S\u00edlvia Gusm\u00e3o<\/em><\/span><\/p>\n<p>O analista trauma \u00e9 uma formula\u00e7\u00e3o para designar a fun\u00e7\u00e3o do analista no contexto da cl\u00ednica do s\u00e9culo XXI, marcada pela \u00eanfase na perspectiva do real. O traum\u00e1tico \u00e9 o encontro contingente com o real, ou seja, com aquilo que n\u00e3o se deixa simbolizar, um imposs\u00edvel de dizer, um excesso que marca um antes e um depois. Como o analista trauma pode operar clinicamente? De que se trata essa fun\u00e7\u00e3o? Antes de procurar responder essas indaga\u00e7\u00f5es, retomarei a concep\u00e7\u00e3o de trauma na perspectiva lacaniana.<\/p>\n<p><em>No Semin\u00e1rio 11<\/em><sup>7<\/sup>, Lacan afirma: \u201co verdadeiro n\u00facleo traum\u00e1tico \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com a l\u00edngua\u201d. Ele se refere ao impacto das palavras escutadas, das frases ditas que incidem sobre o corpo antes mesmo que seja poss\u00edvel lhes atribuir um sentido<sup>8<\/sup>. O que \u00e9 inalcan\u00e7\u00e1vel na experi\u00eancia humana aponta para a dimens\u00e3o de abertura de um buraco na rela\u00e7\u00e3o do sujeito com um Outro, anterior \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o deste como lugar de onde se poderiam esperar respostas para o que n\u00e3o se entende, mas que, ainda assim, deixa marcas. Esse buraco aberto pelo significante, que incide sobre o corpo antes de poder ser simbolizado, indica um excesso de gozo ocupado por um corpo estranho, fixado e insistente em sua opacidade. Assim, cada vez que determinados acontecimentos evocam esse ponto de n\u00e3o sentido, ocorre a irrup\u00e7\u00e3o do efeito traum\u00e1tico.<\/p>\n<p>Isso ocorre, porque o impacto das palavras sobre o corpo n\u00e3o resulta apenas em simboliz\u00e1-lo, extraindo gozo e deixando um vazio. As palavras se corporificam, desregulando o gozo que escapou \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o. Como afirma Miller<sup>9<\/sup>, essa corporifica\u00e7\u00e3o, avesso da simboliza\u00e7\u00e3o, aponta que nem tudo pode ser simbolizado.<\/p>\n<p>O valor traum\u00e1tico de um acontecimento tem consequ\u00eancias imprevis\u00edveis e ressoa de modo singular para cada um. Seus efeitos s\u00f3 podem ser evidenciados <em>a posteriori<\/em>. O trauma \u2013 <em>troumatisme<\/em>, buraco e excesso \u2014 como indica Lacan, insiste com suas marcas e requer uma forma de defesa para evitar o retorno inc\u00f4modo de um gozo fora de sentido, de um ac\u00famulo de excita\u00e7\u00f5es que excede qualquer possibilidade de c\u00e1lculo ou elimina\u00e7\u00e3o<sup>10<\/sup>.<\/p>\n<p>Laurent<sup>11<\/sup> nos fala que o traumatismo \u00e9 uma quest\u00e3o de interior e exterior. Um interior que est\u00e1 tamb\u00e9m no exterior. Num primeiro sentido, o trauma \u00e9 um buraco no interior do simb\u00f3lico. O simb\u00f3lico aqui entendido como o sistema de representa\u00e7\u00f5es que inclui o sintoma, como resposta do sujeito ao trauma, e, tamb\u00e9m, o imposs\u00edvel de ser absorvido no simb\u00f3lico. Este ponto de real \u00e9 a ang\u00fastia. Laurent nos diz que o tratamento que se deduz desse modelo \u00e9 conseguir dar sentido \u00e0quilo que n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>Contudo, o traumatismo do real pode ser apreendido em outro sentido. As rela\u00e7\u00f5es entre o Outro e o sujeito podem ser tomadas ao avesso, como o simb\u00f3lico no real. A estrutura da linguagem \u2014 o banho de linguagem no qual a crian\u00e7a \u00e9 imersa \u2014 \u00e9 o real. Tal imers\u00e3o \u00e9 traum\u00e1tica porque carrega consigo a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual, o encontro faltoso, a impossibilidade de complementariedade com o objeto. Nessa perspectiva, ap\u00f3s um trauma, trata-se de \u201ccausar\u201d um sujeito para que ele possa reencontrar as regras de vida junto a um Outro que se perdeu, que j\u00e1 n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Para Laurent, o analista pode ser concebido como um traumatismo \u201csuficientemente bom\u201d, capaz de \u201cempuxar\u201d o sujeito a falar. Ele se apresenta como um parceiro que traumatiza o discurso comum para autorizar o outro discurso do inconsciente. Pela posi\u00e7\u00e3o que ocupa, o analista garante o surgimento do inconsciente em sua dimens\u00e3o de ruptura com o sentido estabelecido. Trata-se de produzir um novo tipo de furo ali onde o sujeito se viu tomado por um excesso sem bordas \u2014 uma abertura no centro da cena traum\u00e1tica \u2014 sustentando, assim, a possibilidade de que cada um invente uma resposta singular diante do irredut\u00edvel do acontecimento traum\u00e1tico.<\/p>\n<p>O analista n\u00e3o opera apagando o trauma, mas sustentando-o como real: acolhe o indiz\u00edvel, interv\u00e9m de modo calculado e abre espa\u00e7o para que o sujeito invente uma solu\u00e7\u00e3o singular. Seu trabalho se d\u00e1 no lugar do furo \u2014 um furo que precisa conjugar o trauma como buraco no simb\u00f3lico com seu avesso, enquanto buraco no real<sup>12<\/sup>.<\/p>\n<p>Como manter juntos o direito e o avesso do trauma, como prop\u00f5e Laurent? No processo de simboliza\u00e7\u00e3o que o trauma convoca, trata-se de o analista n\u00e3o intervir para anul\u00e1-lo nem de emprestar-lhe um sentido j\u00e1 dado, mas de sustentar que o sentido produzido pelo sujeito preserve o vazio instaurado pelo trauma, mantendo-se circunscrito em torno dele.<\/p>\n<h3><span style=\"color: #800000;\"><strong><em>O analista-trauma: corte e inven\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/span><\/h3>\n<p><em><span style=\"font-size: 13px;\">Rosemarie Fernandes Mooneyhan<\/span><\/em><\/p>\n<p>Desde Freud, o trauma n\u00e3o \u00e9 apenas um acontecimento externo, e, sim, uma ruptura que marca o sujeito de forma singular. J\u00e1 Lacan nos mostra que o trauma \u00e9 uma irrup\u00e7\u00e3o de gozo, que escapa ao sentido, produzindo um buraco. Para Lacan, somos todos traumatizados pela l\u00edngua, pois o encontro entre a palavra e a carne, traumatiza, produzindo um gozo inassimil\u00e1vel, com o qual teremos que nos responsabilizarmos. O trauma \u00e9 o encontro com o real, algo que escapa \u00e0 rede de significantes e n\u00e3o se inscreve totalmente na linguagem. O analista precisa lidar com a subjetividade de cada analisante, pois algo do singular de cada um estar\u00e1 presente; independente do que tenha acontecido, cada sujeito responder\u00e1 de um modo pr\u00f3prio \u00e0 mesma experi\u00eancia e nem todos estar\u00e3o traumatizados. Segundo Marcus Andr\u00e9 Vieira, o papel do analista \u201c&#8230; est\u00e1 condicionado \u00e0 premissa de que h\u00e1 em qualquer trauma \u2018um fator subjetivo\u2019 inelimin\u00e1vel\u201d<sup>13<\/sup>.<\/p>\n<p>No texto <em>Ler um sintoma<\/em>, Miller<sup>14<\/sup> nos faz pensar na leitura do trauma, pois o sintoma surge para tentar dar uma resposta \u00e0 experi\u00eancia traum\u00e1tica, ao encontro com o real.\u00a0 Ele prop\u00f5e que se trabalhe reduzindo os efeitos do sentido, visando o fora do sentido, o real do sintoma. \u00c9 importante que o analista aponte para mais al\u00e9m da decifra\u00e7\u00e3o, aponte para a fixa\u00e7\u00e3o de gozo, a opacidade do real.<\/p>\n<p>No que diz respeito a interpreta\u00e7\u00e3o do analista, Miller, em<em> A palavra que fere<\/em>, diz que Lacan, em <em>A dire\u00e7\u00e3o do tratamento<\/em>, pretendia que existissem regras para a interpreta\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o as formulou, pois, a seu ver, a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma t\u00e9cnica, e, sim, uma \u00e9tica. O t\u00edtulo: <em>A palavra que fere<\/em> sugere uma ferida, um corte, onde a palavra do analista, se fere, machuca, traumatiza, nos levando a pensar sobre a palavra que traumatiza, o analista trauma. Para Freud, o sintoma \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente e tem um sentido, pode ser decifrado e interpretado.\u00a0 A interpreta\u00e7\u00e3o lacaniana \u00e9 diferente da freudiana, pois a freudiana se encerra quando se descobre o sentido sexual da mensagem cifrada, enquanto a interpreta\u00e7\u00e3o lacaniana, caminha para a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual, ou seja, ao imposs\u00edvel de dizer: \u201ca interpreta\u00e7\u00e3o freudiana \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o em termos sexuais. A interpreta\u00e7\u00e3o lacaniana n\u00e3o \u00e9 tradu\u00e7\u00e3o, mas revela\u00e7\u00e3o, ela ergue o v\u00e9u sobre o que \u00e9 imposs\u00edvel de dizer, ela l\u00ea o-que-n\u00e3o-se-pode-dizer, ela o torna sens\u00edvel\u201d<sup>15<\/sup>.<\/p>\n<p>Segundo Laurent, em <em>A ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI<\/em>, consequ\u00eancias para o tratamento: \u201cnosso horizonte \u00e9 o de um analista vazio, que est\u00e1 advertido de seu gozo, mas que sabe, para al\u00e9m do furo na ordem simb\u00f3lica, instalar-se na posi\u00e7\u00e3o daquele que pode perturbar a defesa. (&#8230;) podemos pensar o psicanalista como psicanalista trauma\u201d<sup>16<\/sup>. \u00c9 um analista que corre riscos calculados. N\u00e3o se trata mais de conduzir o tratamento somente pela interpreta\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, e, sim, de operar a partir do real do sintoma, onde o simb\u00f3lico esbarra em um limite. O analista n\u00e3o busca decifrar tudo, mas localizar pontos de opacidade e extrair, a\u00ed um saber singular do falasser. O analista deve intervir para tocar o ponto de gozo que ordena o sintoma e criar possibilidades para que o sujeito invente sua pr\u00f3pria solu\u00e7\u00e3o, sua forma \u00fanica de fazer com o real.<\/p>\n<p>Para Lacan, \u201c(&#8230;) o inconsciente \u00e9 que, em suma, fala-se sozinho, se \u00e9 que h\u00e1 falasser&#8230; Falamos sozinhos porque s\u00f3 se diz uma \u00fanica e mesma coisa, exceto se nos abrirmos para dialogar com um psicanalista. N\u00e3o h\u00e1 meio de fazer outra coisa que receber de um analista o que perturba nossa defesa (&#8230;)\u201d<sup>17<\/sup>. Ele aponta para o analista como perturbador de uma defesa, que toca no gozo do Um que fala sozinho, dizendo o mesmo, para que possa vir a surgir algo da fala que n\u00e3o quer nada dizer.<\/p>\n<p>No testemunho de passe de Marcus Andr\u00e9 Vieira, <em>O<\/em> <em>grito, o abra\u00e7o e o risc<\/em>, ele aborda o trauma do ponto de vista da voz, que esteve presente do in\u00edcio ao fim em sua an\u00e1lise. Relata que na noite anterior a uma sess\u00e3o memor\u00e1vel acordou sobressaltado no sil\u00eancio da noite com algo que acabara de ouvir. Havia acordado com seu ronco. \u201cN\u00e3o ouvi meu ronco, mas era como se ele ainda estivesse ali. (&#8230;) Foi um momento muito especial, \u2018entre dois\u2019, feito ao mesmo tempo de som e de sil\u00eancio. Ele apresentou algo extra, inexistente e existente ao mesmo tempo\u201d<sup>18<\/sup>.<\/p>\n<p>Marcus relata uma lembran\u00e7a, de quando era rec\u00e9m-formado em medicina, e dava plant\u00e3o em uma cl\u00ednica psiqui\u00e1trica, que se conectava com o sonho que o despertou com o ronco: \u201cuma paciente obesa, sentada, nua em um canto toda a manh\u00e3, me chamara aten\u00e7\u00e3o. Ao me aproximar, percebi que ela balbuciava alguma coisa. Cheguei mais perto para ouvi-la, foi o bastante para ela se virar para mim e me tomar em um fort\u00edssimo abra\u00e7o. Imposs\u00edvel de se livrar dele. Me debati, gritei e foram necess\u00e1rias quatro enfermeiras para tir\u00e1-la de cima de mim\u201d<sup>19<\/sup>. Outra lembran\u00e7a o interessa por ser, para ele, uma retomada da outra situa\u00e7\u00e3o radical mais antiga: \u201cUm rapaz de vinte anos, um dos meus amigos, \u2018do nada\u2019, voa em meu pesco\u00e7o, e come\u00e7a a me estrangular. Ningu\u00e9m perto. Quando estou a ponto de apagar, ele me solta e sai andando. Ningu\u00e9m viu. Recobro o f\u00f4lego e n\u00e3o solto um pio. N\u00e3o havia o que pensar ou dizer, nem como chorar ou brigar, apenas seguir como se nada tivesse acontecido\u201d<sup>20<\/sup>.<\/p>\n<p>Para ele, os balbucios da mo\u00e7a faziam contraponto aos gritos da sua inf\u00e2ncia e o abra\u00e7o, \u00e0 m\u00e3o na garganta. Entre dois, como a experi\u00eancia do ronco, a que ele chamou de gozo extra. A voz da mo\u00e7a o fisgara e seu abra\u00e7o o colocou como objeto. Na an\u00e1lise, envolvido entre roncos e balbucios, precisou lidar com o incompreens\u00edvel dos sons emitidos pelo analista. Eram interven\u00e7\u00f5es sonoras, fora de sentido: rasgar jornais, roncar, pigarros, teclar no computador, entre outros. Em uma sess\u00e3o falava sobre como a voz do Outro fazia seu cora\u00e7\u00e3o bater e o analista diz: \u201cseu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 um tambor\u201d. \u201cAt\u00e9 ent\u00e3o, a voz do Outro me tornava soldado. Eu era, corpo todo, tambor do Outro. Agora a voz que me agitava era parcial, n\u00e3o mais total, permitia-me aproveitar um pouco, relaxar e gozar.\u201d<sup>21<\/sup><\/p>\n<p>O tambor, o balbucio, o ronco, os gritos dos pacientes da cl\u00ednica, os gritos do pai, condensaram a for\u00e7a do objeto voz na vida de Marcus, que a partir da interpreta\u00e7\u00e3o do analista, se faz uma extra\u00e7\u00e3o do objeto. \u201cA extra\u00e7\u00e3o do objeto \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o anal\u00edtica para o trauma estrutural. Encontrara um gozo inclu\u00eddo no trauma: o de deixar agarrar e assim enla\u00e7ar. Dito de outra forma: a mesma chave de bra\u00e7o que apertava a garganta podia ser abra\u00e7o.\u201d<sup>22<\/sup><\/p>\n<h3><span style=\"color: #800000;\"><strong><em>Analista trauma, perturbador da defesa<\/em><\/strong><\/span><\/h3>\n<p><em><span style=\"font-size: 13px;\">Roberta Gusm\u00e3o<\/span><\/em><\/p>\n<p>Em tempos de fragilidade do simb\u00f3lico, onde o real insiste em se manifestar de um modo ca\u00f3tico e aleat\u00f3rio, sem que se possa recuperar uma ideia de harmonia, evidencia-se cada vez mais a inefic\u00e1cia da interpreta\u00e7\u00e3o pela via do sentido.<\/p>\n<p>Diante da preval\u00eancia da desordem do real, Miller \u2014 na apresenta\u00e7\u00e3o do <em>IX Congresso da AMP<\/em> \u2014 convida o psicanalista a investigar no sujeito contempor\u00e2neo \u201ca dimens\u00e3o da defesa contra esse real sem lei e fora de sentido\u201d<sup>23<\/sup>, possibilitando assim n\u00e3o s\u00f3 uma outra forma de apreender como tamb\u00e9m de operar com o real, atrav\u00e9s do efeito do seu ato de desordenar, perturbar a defesa.<\/p>\n<p>Desta forma, o analista, quando convocado a intervir do lugar de analista trauma, provoca, com seu ato, algo que incide sobre um significante assem\u00e2ntico, isolado, um S1 que n\u00e3o se articula a um S2, e por isso se faz imune a efic\u00e1cia simb\u00f3lica; produzindo, assim, um efeito vivificante sobre o sujeito. Tal ato, por seu equ\u00edvoco, ressoa no corpo, traumatiza, perturba a defesa, introduzindo assim um inc\u00f4modo na satisfa\u00e7\u00e3o que o analisante tem no seu modo de gozo.<\/p>\n<p>Pontuo aqui que este inc\u00f4modo \u00e9 necess\u00e1rio para que o sujeito atinja a sua singularidade, peda\u00e7o de real imut\u00e1vel e incur\u00e1vel, e que, ao surpreender o real, um novo enla\u00e7amento a partir desse ponto possa se produzir e assim inventar um modo de se a ver com seu gozo<\/p>\n<p>Em <em>A ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI, consequ\u00eancias para o tratamento<\/em><sup>24<\/sup>, Laurent traz a no\u00e7\u00e3o de analista-trauma como \u201cuma posi\u00e7\u00e3o do psicanalista na qual ele aceita riscos, calculados, certamente, e n\u00e3o se submete inteiramente \u00e0s interdi\u00e7\u00f5es protetoras ou mortificantes, sem que com isso caia no ativismo terap\u00eautico\u201d.\u00a0 Nesta posi\u00e7\u00e3o, o analista direciona sua pr\u00e1tica para o <em>sinthoma<\/em>, por isso n\u00e3o interpreta \u00e0 maneira do inconsciente, se n\u00e3o no sentido contr\u00e1rio, ou seja, aponta para o deciframento que n\u00e3o d\u00e1 sentido. Produz, com seu ato, muitas vezes o efeito de perplexidade no sujeito, pois o exp\u00f5e ao inesperado e ao que \u00e9 traum\u00e1tico, desestabilizando o que at\u00e9 ent\u00e3o se sustentava como um modo de se proteger do real e levando-o a se defrontar com o que usualmente evita.<\/p>\n<p>Ilustro minhas considera\u00e7\u00f5es sobre o analista-trauma, enquanto perturbador da defesa, atrav\u00e9s de um recorte do testemunho de passe de Alejandro Reinoso.<\/p>\n<p>Em seu testemunho, Reinoso destaca a seriedade como o significante-mestre de identifica\u00e7\u00e3o do sujeito. A seriedade, tra\u00e7o que o acompanhava tamb\u00e9m no trabalho anal\u00edtico, muitas vezes se encontrava com um sorriso do analista, o que o inquietava. Um sorriso sem sentido. \u201cEle est\u00e1 rindo de qu\u00ea? \u2013 se perguntava. E n\u00e3o entendia, j\u00e1 que n\u00e3o havia nada de engra\u00e7ado no gozo que o afligia. E \u00e9 quando produz um sonho (sonhado e relatado em italiano, l\u00edngua do seu av\u00f4 materno): \u201cEu estava em um restaurante chin\u00eas, saboreava um arroz muito gostoso e o comia com muito prazer. Era um arroz ao modo canton\u00eas (<em>il riso alla cantonese<\/em>). O analista, antes que eu conclu\u00edsse o relato do sonho, recortou o equ\u00edvoco homof\u00f4nico, <em>il riso al<\/em> <em>Lacan-tonese<\/em>, o riso ao modo de Lacan. Efeito imediato: ri \u00e0s gargalhadas, vibrando com todo o corpo; o analista tamb\u00e9m riu\u201d.<\/p>\n<p>Reinoso pontua que o <em>riso-a-la-Lacan<\/em> \u00e9 uma escritura po\u00e9tica de uma interpreta\u00e7\u00e3o que tocou suas entranhas, um equ\u00edvoco surpreendente sem sentido. Cito-o: \u201co analista manobra diretamente com lal\u00edngua do falasser, fazendo emergir um significante novo que se inscreve no corpo e assim bordeja sua consist\u00eancia de forma diferente. Um despertar para a leveza no corpo, in\u00edcio de uma transforma\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia s\u00e9ria e taciturna que abriu uma porta in\u00e9dita para o c\u00f4mico\u201d<sup>25<\/sup>.<\/p>\n<h3><strong><em><span style=\"color: #800000;\">Debate \u2013 EIXO 3 \u2013 Analista-trauma<\/span><\/em><\/strong><\/h3>\n<p><em><span style=\"font-size: 13px;\">Luc\u00edola Macedo (EBP\/AMP)<\/span><\/em><\/p>\n<p>Os produtos aqui apresentados abordam o caminho percorrido por cada uma das cartelizantes em torno de tr\u00eas proposi\u00e7\u00f5es, extra\u00eddas do trabalho em cartel: 1) o analista-trauma perturba o discurso comum, para autorizar o discurso do inconsciente; 2) o analista-trauma perturba as defesas erigidas \u201ccontra o real sem lei\u201d, permitindo, com o ato anal\u00edtico, a passagem do inconsciente transferencial ao inconsciente real; 3) o analista-trauma opera como testemunha de uma perda, lugar \u201cdaquilo que, no sujeito, fala de um gozo inomin\u00e1vel\u201d, como aponta Cleide \u00e0 prop\u00f3sito de Minna, Roberta com o testemunho de Alejando Reinoso e Rose com o testemunho de Marcus A. Vieira.<\/p>\n<p>Isso se presentifica desde a instaura\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia, como motor do trabalho anal\u00edtico. \u00c9 por isso que Lacan, no <em>Semin\u00e1rio 11<\/em>, <em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>, afirma que a presen\u00e7a do analista deve ser inclu\u00edda no conceito de inconsciente, e que a sua presen\u00e7a n\u00e3o se d\u00e1 de <em>ego<\/em> a <em>ego<\/em>, mas como <em>caput mortuum<\/em> da descoberta do inconsciente, o que se articula com a causa perdida, com o encontro faltoso, e, mais amplamente, com aquilo que, por sua natureza, se perde: \u00e9 uma zona de perda porque n\u00e3o opera via identifica\u00e7\u00e3o ou refor\u00e7o do <em>ego<\/em>. Onde o inconsciente n\u00e3o tem nenhuma esp\u00e9cie de subst\u00e2ncia, mas se constitui como \u201ca soma dos efeitos da fala sobre um sujeito\u201d. Ele diz: \u201cparadoxalmente, a diferen\u00e7a que garante a mais segura subsist\u00eancia do campo de Freud \u00e9, por sua natureza, um campo que se perde. \u00c9 aqui que a presen\u00e7a do psicanalista \u00e9 irredut\u00edvel como testemunha dessa perda: \u00e9 uma perda seca\u201d<sup>26<\/sup>. Trata-se de uma zona de sombras que se declina, no tratamento em opacidade do gozo; assim como a \u201cperda seca\u201d se declina em hiato, deslocaliza\u00e7\u00e3o, efra\u00e7\u00e3o, disrup\u00e7\u00e3o. Essa passagem do <em>Semin\u00e1rio 11 <\/em>remete a uma passagem do <em>Semin\u00e1rio 19 &#8230; ou pior<\/em>: \u201cpara nos acostumarmos com esse des-ser (o de ser o suporte, o dejeto, a abje\u00e7\u00e3o a que pode agarrar-se aquilo que gra\u00e7as a n\u00f3s, vai nascer de um dizer que interprete), convido o analista a ser digno da transfer\u00eancia\u201d<sup>27<\/sup>.<\/p>\n<p>Achados: Cleide, com Ricardo Seldes \u2013 fazer do trauma algo vivificante! \u201ccombatendo a puls\u00e3o de morte com o mesmo trauma\u201d.<\/p>\n<p>Nessa mesma dire\u00e7\u00e3o, a dos achados, destacaria, no caso Minna: ao considerar o trauma como processo, como aponta Laurent em <em>O trauma ao avesso<\/em>, escutamos o hiato entre o trauma social e o trauma singular (diante do real do trauma, do real sem lei, o recurso ao pai todo amor, \u00e0 lei do pai, fracassam); o hiato entre os fatos e os ditos parece se realizar no equ\u00edvoco, na passagem de uma l\u00edngua a outra, do romeno ao espanhol e vice-versa, no trabalho de an\u00e1lise conduzido atrav\u00e9s do trabalho dos sonhos. O relato do caso traz sete sonhos! Podemos dizer que o trabalho do sonho conduziu a passagem do horror\/terror ao trauma, nesse tensionamento e tor\u00e7\u00e3o entre o trauma como acontecimento social ao trauma como processo, singular?<\/p>\n<p>Seguimos com o fio da investiga\u00e7\u00e3o de Silvia: como o analista-trauma opera? De que maneira a opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica perturba o discurso comum para autorizar o discurso anal\u00edtico? Gostaria de destacar o seu achado: o analista n\u00e3o opera apagando o trauma, mas sustentando-o como real. Pediria que nos diga um pouco mais sobre esse seu achado.<\/p>\n<p>O achado de Roberta: o analista-trauma aceita riscos calculados, cifra mais que decifra, atento ao equ\u00edvoco, isola o significante assem\u00e2ntico, as homofonias, equ\u00edvocos, jacula\u00e7\u00f5es de lal\u00edngua, com seu efeito vivificante, a percutir no corpo. O analista-trauma como aquele que perturba a defesa n\u00e3o opera pela via do sentido. Poderia nos falar sobre a fun\u00e7\u00e3o dos sonhos em an\u00e1lise como um operador do analista-trauma?<\/p>\n<p>Rose, o seu achado: \u00e9 preciso encontrar um gozo inclu\u00eddo no trauma \u2014 \u201ca chave de bra\u00e7o que apertava a garganta podia ser abra\u00e7o\u201d. Mas \u201co gozo do objeto nos mant\u00e9m, por\u00e9m, no plano do trauma e de sua subjetiva\u00e7\u00e3o (que Lacan chamou de fantasia\/fantasma). O decisivo em termos de conclus\u00e3o envolve uma abertura para um espa\u00e7o fora da fantasia&#8230; o gozo condensado no objeto encerra apenas uma fra\u00e7\u00e3o da vida que levamos em n\u00f3s. Minha agita\u00e7\u00e3o viril num extremo, e a docilidade do agarrar e ser agarrado noutro, formavam o leque das paix\u00f5es ditados pela fantasia. Mas h\u00e1 vida fora da fantasia\u201d<sup>28<\/sup>. Pergunto: uma tor\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 agita\u00e7\u00e3o nem abra\u00e7o, e que \u00e9 tudo isso tamb\u00e9m, \u201cem lugar nenhum e em toda parte\u201d, deslocalizado, que n\u00e3o cabe em si: \u201co abra\u00e7o me ensinou a n\u00e3o caber em mim\u201d. A vida que h\u00e1 fora da fantasia seria uma abertura ao outro gozo, ao gozo dito feminino?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p>Sobre a fun\u00e7\u00e3o dos sonhos em an\u00e1lise como um operador do analista-trauma: \u201co tecido do inconsciente \u00e9 feito de sonho, afirma Freud, \u00e0 prop\u00f3sito do umbigo do sonho. Este \u00faltimo \u00e9 a cicatriz do trauma. Nesse ponto, esbarra-se com o ininterpret\u00e1vel, com o limite onde todo e qualquer sentido se det\u00e9m, a indicar presen\u00e7a do real nos sonhos.\u00a0 atrav\u00e9s das imagens on\u00edricas, favorecendo a que no lugar do furo do trauma, daquilo que n\u00e3o se liga a nada, se imagine o real. O trabalho do sonho poder\u00e1 operar, nessa perspectiva, como um modo de tangenciar o real .\u00a0 \u00c9 Lacan quem o diz: n\u00e3o h\u00e1 nada mais dif\u00edcil que imaginar o real.\u00a0 Recorremos ao imagin\u00e1rio para termos uma ideia do real, e assim, o que n\u00e3o pode ser traum\u00e1ticodito, poder\u00e1 ser mostrado. Assim, o sonho poder\u00e1 se tornar uma via de acesso ao real\u201d<sup>29<\/sup>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>NOTAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>1 <\/sup>LAURENT, \u00c9. O trauma ao avesso. <em>Pap\u00e9is de Psican\u00e1lise<\/em>, Belo Horizonte, v. 1, n. 1, p. 21-28, abr. 2004.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>2 <\/sup>\u00a0MILLER, Jacques-Alain. <em>Efeitos Terap\u00eauticos R\u00e1pidos em Psican\u00e1lise: conversa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica com Jacques-Alain Miller em Barcelona<\/em>. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Scriptum, 2008. p. 15-46.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>3 <\/sup>Ibid, p 41.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>4 <\/sup>LAURENT, <em>op. cit<\/em>., p. 26.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>5<\/sup>\u00a0 SELDES, Ricardo. <em>La urgencia dicha<\/em>. Buenos Aires: Editorial Diva Freud, 2019. p. 69.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>6\u00a0 <\/sup>LAURENT,<em> op. cit<\/em>., p. 26.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>7 <\/sup>LACAN, J. (1901-1981). <em>Semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise 1964<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>8 <\/sup>R\u00caGO BARROS, M. R.C. <\/span><em style=\"font-size: 13px;\">Trauma, uma nova perspectiva sobre o real<\/em><span style=\"font-size: 13px;\">. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online, ano 6, n\u00famero 16, mar\u00e7o de 2015.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>9 <\/sup>\u00a0MILLER, J-A. <em>O Ultim\u00edssimo Lacan<\/em>, aula de 13 de janeiro de 1988 do Curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>10 <\/sup>\u00a0Idem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>11<\/sup>\u00a0 LAURENT, E. <em>O trauma ao avesso<\/em> \u2013 Pap\u00e9is de Psican\u00e1lise, v. 1, n. 1, abril, 2024. Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>12<\/sup>\u00a0 Idem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>13 <\/sup>\u00a0VIEIRA, M. A. \u201cO Trauma subjetivo\u201d. Psico (PUCRS), v.39, p.509-513, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>14 <\/sup>\u00a0MILLER, J. A. \u201cLer um sintoma\u201d. In <em>Afreudite<\/em>-Ano VII, 2011- n. 13\/14. Pp.1-30.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>15<\/sup>\u00a0 MILLER, J. A. \u201cA palavra que fere\u201d. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 52, p.69. julho, 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>16 <\/sup>\u00a0LAURENT, \u00c9. \u201cA ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI. Consequ\u00eancias para o tratamento\u201d <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, S\u00e3o Paulo, n.62, p.88 dezembro, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>17 <\/sup>\u00a0LACAN, J. Le S\u00e9minaire, Livre XXIV, L\u2019insu que sait de l\u2019une-b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre, aula de 11 de janeiro de 1977.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>18 <\/sup>\u00a0VIEIRA, M. A. \u201cO grito, o abra\u00e7o e o risco\u201d. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, S\u00e3o Paulo, n. 70, p. 94. junho, 2015.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>19<\/sup>\u00a0 <em>Ibid.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>20 <\/sup>\u00a0VIEIRA, M. A<em>. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie<\/em>. Ano 4. N\u00famero 11, p.4, julho 2013.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>21<\/sup>\u00a0 VIEIRA, M. A. \u201cO grito, o abra\u00e7o e o risco\u201d. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 70, p. 95. junho 2015.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>22 <\/sup>\u00a0<em>Ibid.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>23<\/sup> \u00a0MILLER, J. A. Interven\u00e7\u00e3o de encerramento do VIII Congresso da AMP, apresentando o IX Congresso da AMP. 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>24 <\/sup>LAURENT, \u00c9. A ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI. Consequ\u00eancias para o tratamento. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n\u00b0 62.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>25 <\/sup>\u00a0REINOSO, A. \u201cUm despertar po\u00e9tico para o riso\u201d. Papers+Um: Freud-a-la-Lacan, 2020b, p. 45-46. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/el-tema\/papers\/01_papers_trad.pdf\">https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/el-tema\/papers\/01_papers_trad.pdf<\/a>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>26<\/sup>\u00a0 LACAN, J. <em>Semin\u00e1rio 11, Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: JZE, 1988, p. 122.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>27<\/sup> <em>\u00a0<\/em>LACAN<em>,<\/em> J.<em> Semin\u00e1rio 19\u2026 ou pior<\/em>. Rio de Janeiro: JZE, 2012, p. 226.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>28<\/sup>\u00a0 VIEIRA, M.A. O grito, o abra\u00e7o e o risco. <em>Op\u00e7\u00e3o lacaniana, <\/em>n.70, junho 2015, p.95.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><sup>29<\/sup>\u00a0 MAC\u00caDO, L. Pr\u00f3logo. In: <em>Sonhos e testemunhos: pol\u00edticas do inconsciente e discurso jur\u00eddico<\/em>. S\u00e3o Paulo: INM Editora, 2025, p.17-18.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cartel respons\u00e1vel: Cleide Monteiro (EBP\/AMP), S\u00edlvia Gusm\u00e3o, Roberta Gusm\u00e3o, Rosemarie Mooneyham. Mais-Um: Luc\u00edola Macedo (EBP\/AMP \u2013 Se\u00e7\u00e3o Minas). A partir das orienta\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o Cient\u00edfica para o Eixo Tr\u00eas, dedicado \u00e0 quest\u00e3o do analista trauma, cada componente, seguindo a l\u00f3gica de cartel, escolheu abordar um aspecto a partir do ponto que o provocou. 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