{"id":601,"date":"2025-09-02T10:30:33","date_gmt":"2025-09-02T13:30:33","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2025\/?p=601"},"modified":"2025-09-02T10:30:33","modified_gmt":"2025-09-02T13:30:33","slug":"eixo-1-a-tela-do-fantasma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2025\/eixo-1-a-tela-do-fantasma\/","title":{"rendered":"EIXO 1: A TELA DO FANTASMA"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong><em>Relatora:<\/em><\/strong> In\u00eas Seabra Abreu Rocha (EBP\/AMP).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong><em>Cartel: <\/em><\/strong>Eliane Baptista (EBP\/AMP), Anderson Barbosa, Francisco Santos, Isis Maur\u00edcio. +1: In\u00eas Seabra.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Trabalhamos nesta V Jornada da Se\u00e7\u00e3o Nordeste intitulada \u201cTrauma\u201d, no primeiro eixo proposto pela comiss\u00e3o cient\u00edfica ao nosso cartel:\u201cA Tela do Fantasma\u201d.<\/p>\n<p>Sabemos que o fantasma ser\u00e1 constru\u00eddo a partir dos restos da a\u00e7\u00e3o do trauma, a partir do n\u00facleo da trama ficcional, dando significa\u00e7\u00e3o ao mist\u00e9rio do gozo no ser falante.<\/p>\n<p>A incid\u00eancia de lal\u00edngua sobre o corpo se inscreve como trauma, um resto escrito no sujeito. Essa \u00e9 a <em>fix\u00e3o<\/em> do trauma, sua escrita. Depois vir\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o da sua fic\u00e7\u00e3o. O trauma escreve o real, e a <em>fix\u00e3o<\/em> do trauma pode sobrevir no mesmo lapso que sua fic\u00e7\u00e3o, estruturando a rela\u00e7\u00e3o do sujeito no la\u00e7o social (Roy, 2014)<\/p>\n<p>O sujeito ter\u00e1 como sa\u00edda, como uma via de tratamento ao real do trauma, a constru\u00e7\u00e3o do fantasma como uma tentativa de dar conta do real que o atravessa. O n\u00f3 do fantasma poder\u00e1 dar um contorno ao gozo do Outro que assola o sujeito, e ao enigma do seu desejo. Como uma resposta ao enigma do desejo da m\u00e3e, o fantasma \u00e9 um ponto \u00faltimo de resist\u00eancia ao saber, ao saber sobre a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Como extrair da fic\u00e7\u00e3o o fantasma?<\/p>\n<p>Desde o nascimento, o <em>infans<\/em> est\u00e1 imerso em uma linguagem que se constitui como mal-entendido. Para lidar com o traumatismo inaugural da entrada na linguagem, do fato de ter nascido do mal-entendido, o sujeito construir\u00e1 um fantasma, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 preencher o vazio produzido pela cadeia significante, por meio de uma solu\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria e estruturante para a divis\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<ol>\n<li><strong> A f\u00f3rmula do fantasma<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Para Lacan (1958-1959\/2016), a f\u00f3rmula simb\u00f3lica, <em>$<\/em>&lt;&gt;<em>a<\/em>, d\u00e1 sua forma ao que ele chama de fantasma fundamental. Lacan formaliza que o objeto <em>a<\/em> se define, em primeiro lugar, como o suporte que o sujeito se d\u00e1 quando fraqueja na sua designa\u00e7\u00e3o de sujeito (p. 394). Miller (2014) nos diz que ser\u00e1 no Semin\u00e1rio 6 que poderemos encontrar uma primeira elabora\u00e7\u00e3o sobre a l\u00f3gica do fantasma, uma vez que \u00e9 ali que Lacan lhe atribui seu primeiro adjetivo, a saber, fundamental. Fundamental pelo fato de ser uma estrutura m\u00ednima que articula dois termos de uma f\u00f3rmula: o sujeito barrado (<strong><em>$<\/em><\/strong>) e o objeto pequeno <em>a<\/em>. Lacan nos apresenta o sujeito dividido, que tem como sa\u00edda a constru\u00e7\u00e3o de um fantasma. No buraco que surge no ser de significante, o sujeito insere o <em>a<\/em>, que, com seu semblante, far\u00e1 existir a rela\u00e7\u00e3o sexual no plano do fantasma.<\/p>\n<p>O recurso do sujeito ao fantasma visa lidar com a opacidade do desejo do Outro, cuja ilegibilidade provoca desamparo, e o fantasma surge, assim, como uma defesa: defender-se da ang\u00fastia e do real. Segundo Lacan (1964\/2008), \u201co real suporta o fantasma e o fantasma protege o real\u201d (p. 44).<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> A tela do fantasma<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O fantasma protege o real na medida em que enquadra, emoldura, podendo ser vista \u201cal\u00e9m de um vidro e por uma janela que se abre\u201d (Lacan, 2005, p. 85).<\/p>\n<p>Para Lacan, no Semin\u00e1rio 10, na fantasia, \u201co <strong><em>$<\/em><\/strong> em rela\u00e7\u00e3o ao <em>a<\/em> adquire valor significante da entrada do sujeito na dimens\u00e3o que o conduz \u00e0 cadeia infinita de significa\u00e7\u00f5es a que se chama destino\u201d (Lacan, 2005, p. 78). O fantasma, ent\u00e3o, apresenta-se como destino do sujeito, uma janela que enquadra o devir de sua vida.<\/p>\n<p>Lacan faz alus\u00e3o \u00e0 tela de Ren\u00e9 Magritte, de 1933, \u201cA Condi\u00e7\u00e3o Humana\u201d. Remete-se \u00e0 imagem de um quadro posicionado no caixilho de uma janela, semelhante a tela de Magritte, que exp\u00f5e, tal como no sonho do Homem dos Lobos, a rela\u00e7\u00e3o do fantasma com o real.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de um fantasma \u00e9, portanto, uma vers\u00e3o e uma resposta ao gozo do Outro e ao enigma de seu desejo. O fantasma, de um lado, responde \u00e0 falha que se manifesta no campo do significante, na ordem significante, e, por outro lado, responde ao que se manifesta do desejo do Outro.<\/p>\n<p>Representada por Lacan na f\u00f3rmula <strong><em>$<\/em><\/strong>&lt;&gt;<em>a<\/em>, o fantasma articula o sujeito barrado, sujeito do significante, ao objeto causa seu desejo, construindo uma moldura ficcional, por meio da qual sustenta uma posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao Outro e ao gozo. Inclui o sujeito barrado e o objeto <em>a<\/em> oriundo do corpo, que concentra um alto valor de gozo.<\/p>\n<p>Segundo Lacan (1958\/1998), em <em>A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder<\/em>, o fantasma nos conduzir\u00e1 \u00e0 formula\u00e7\u00e3o que: \u201ca linguagem permite ao sujeito considerar-se como o maquinista, tamb\u00e9m o diretor de toda a captura imagin\u00e1ria, caso contr\u00e1rio, ele n\u00e3o seria sen\u00e3o uma marionete vivente\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado, o objeto do desejo, coloca o sujeito frente \u00e0quilo que ele foi e \u00e9 para o Outro, confrontando-o com sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o de objeto.<\/p>\n<p>O sujeito ir\u00e1 recorrer ao fantasma, uma vez que a verdade do seu ser est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com o objeto do desejo. A satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o que habita o cora\u00e7\u00e3o do fantasma nos mostra o ser mergulhado na linguagem \u2013 o<em> falasse<\/em>r.<\/p>\n<p>O objeto, como suporte do desejo desse sujeito que fraqueja na sua designa\u00e7\u00e3o de sujeito, marcar\u00e1 o singular de cada constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O sujeito construir\u00e1 uma cena fantasm\u00e1tica, na qual tentar\u00e1 se localizar. Seu desejo enquanto desejo do Outro implica, em sua constitui\u00e7\u00e3o, numa perda: o surgimento do objeto para sempre perdido. O fantasma dar\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o ao sujeito em sua rela\u00e7\u00e3o com o desejo, surgindo como resposta \u00e0 opacidade do desejo do Outro.<\/p>\n<p>\u201cA tela do fantasma\u201d, assim configurada, cumpre uma dupla fun\u00e7\u00e3o: por um lado, protege o sujeito do impacto do real traum\u00e1tico, de modo a torn\u00e1-lo menos insuport\u00e1vel. Mas, por outro lado, aprisiona o sujeito numa repeti\u00e7\u00e3o, fixando-o a modos espec\u00edficos de gozo. O fantasma teria um enredo, que se repete e que d\u00e1 forma ao desejo, moldando a economia libidinal do sujeito.<\/p>\n<p>Ao estruturar uma cena repetitiva e inconsciente, na qual o sujeito se inscreve como objeto de uso, de olhar, de idealiza\u00e7\u00e3o, o fantasma encobre o real da castra\u00e7\u00e3o. No entanto, com sua estrutura simb\u00f3lica e seu lugar no real, ele pertence tamb\u00e9m \u00e0 dimens\u00e3o do imagin\u00e1rio, uma vez que cont\u00e9m a fun\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria da castra\u00e7\u00e3o e oferece um enquadramento simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio para o gozo, ainda sustentado por uma fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 nesse encontro primordial, por tr\u00e1s do fantasma, que podemos supor achar peda\u00e7os do real. E \u00e9 nessa forma de encontro essencialmente faltoso \u2013 de trope\u00e7o \u2013 que se apresentou, primeiramente, com o nome de traumatismo.<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 11, Lacan (1964\/2008) descrever\u00e1 o traumatismo como um mau encontro com o sexual. Nesse ponto vislumbramos o lugar do real, que se estende \u201cdo trauma ao fantasma \u2013 na medida em que o fantasma nunca \u00e9 mais que a tela que dissimula algo de absolutamente primeiro\u201d (p. 61). Chegamos \u00e0 concep\u00e7\u00e3o do fantasma como tela que dissimula o trauma primordial, situado no encontro sempre traum\u00e1tico com a sexualidade, at\u00e9 a formula\u00e7\u00e3o da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>O trauma primordial, traduzido na f\u00f3rmula \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d, aponta para o fantasma fundamental.<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 14, \u201cA L\u00f3gica do Fantasma\u201d, Lacan (1966-1967\/2024), nos diz que a realidade \u00e9 um pronto-para-portar-o fantasma (<em>pr\u00eate-\u00e0-porter-le fantasme<\/em>), indicando que toda a realidade humana n\u00e3o passa de uma montagem \u2013 uma cena \u2013entre simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio, onde o real \u201cnunca \u00e9 mais que vislumbrado \u2013 vislumbrado quando a m\u00e1scara, que \u00e9 a do fantasma, vacila\u201d (p. 19).<\/p>\n<p>Em sua vers\u00e3o de m\u00e1scara, o fantasma surge como pe\u00e7a de vestu\u00e1rio, <em>pr\u00eat-\u00e0-porter<\/em>, elemento constituinte da pr\u00f3pria realidade humana, que oculta o grande segredo trazido pela psican\u00e1lise: embora exista a sexualidade, n\u00e3o existe ato sexual.<\/p>\n<p>O mal-entendido do qual nascemos imp\u00f5e um limite a toda revela\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. E, na Babel das l\u00ednguas, o <em>parl\u00eatre<\/em> \u00e0 deriva, erra em dire\u00e7\u00e3o a uma tela que dissimula, no campo das palavras, o desencontro primordial.<\/p>\n<p>Lacan dir\u00e1, ainda no Semin\u00e1rio 10, que n\u00e3o h\u00e1 outro trauma sen\u00e3o o do nascimento, mas, n\u00e3o somente no que diz respeito \u00e0 separa\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, ele destaca, e sim, \u00e0 passagem para um meio radicalmente Outro, o universo do mal-entendido. O fantasma surge a\u00ed como tela diante desse real no qual o sujeito humano, ao adentrar na atmosfera, v\u00ea-se inicialmente asfixiado.(p.355).<\/p>\n<p>Cada um se vira com sua tela, montagem que Lacan, posteriormente reduzir\u00e1 a uma frase. A frase fantasm\u00e1tica responde \u00e0 aus\u00eancia, no Outro, de um significante que escreva a rela\u00e7\u00e3o sexual, o que responderia \u00e0 captura do gozo do Outro do significante. Ela opera, portanto, como um modo de fazer existir a rela\u00e7\u00e3o com o gozo, e de dar consist\u00eancia ao efeito de significa\u00e7\u00e3o enquanto resposta ao furo do Outro.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> O fantasma na cl\u00ednica psicanal\u00edtica da atualidade<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Na atualidade, o fantasma sofre influ\u00eancia significativa da era da tecnoci\u00eancia. A emerg\u00eancia do Outro digital, que diz o mesmo para todos e oferece gozos automatizados, transforma o sujeito em objeto de c\u00e1lculo, reduzido a dados e amea\u00e7ado em sua pr\u00f3pria capacidade de desejar.<\/p>\n<p>O lugar do Outro vem sendo progressivamente ocupado por m\u00e1quinas inteligentes, algoritmos, assistentes digitais e plataformas interativas. Trata-se do Outro que n\u00e3o deseja, da falta da falta que produz ang\u00fastia, da n\u00e3o-escuta \u2013 um Outro sem castra\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 n\u00e3o interpela o sujeito com o enigma \u2013 o que o outro quer de mim? \u2013 mas, que antecipa respostas, entrega objetos de gozo e substitui a constru\u00e7\u00e3o do fantasma por sugest\u00f5es autom\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Enquanto constru\u00e7\u00e3o singular, o fantasma organiza o desejo por meio de uma montagem imagin\u00e1ria. O que se apresenta hoje, ao contr\u00e1rio, \u00e9 a oferta algor\u00edtmica do gozo homog\u00eaneo em sua l\u00f3gica. A repeti\u00e7\u00e3o infinita de imagens, sons, narrativas e objetos de consumo escapa \u00e0 cena do fantasma. A partir de cliques, <em>likes<\/em> e intera\u00e7\u00f5es virtuais e superficiais, o sujeito j\u00e1 n\u00e3o ocupa mais uma posi\u00e7\u00e3o desejante diante do Outro enigm\u00e1tico e se torna objeto de c\u00e1lculo e previs\u00e3o, cada vez mais identificado ao perfil em que a fala \u00e9 substitu\u00edda por dados, a escuta por respostas automatizadas, e o enigma substitu\u00eddo por efici\u00eancia.<\/p>\n<p>Podemos dizer que em outros tempos, o fantasma cumpria a fun\u00e7\u00e3o de v\u00e9u \u2013 um arranjo ficcional que organizava o desejo e filtrava o gozo \u2013 hoje nos deparamos com sujeitos para os quais essa media\u00e7\u00e3o falha. A tela do fantasma, outrora opaca o suficiente para manter a dist\u00e2ncia entre o sujeito e o real, revela-se, por vezes, excessivamente transparente, expondo o sujeito \u00e0 irrup\u00e7\u00e3o do gozo, sem recursos simb\u00f3licos para elaborar o encontro traum\u00e1tico com o real.<\/p>\n<p>O decl\u00ednio das refer\u00eancias simb\u00f3licas, a insufici\u00eancia do Nome-do-Pai, e, sobretudo, a incid\u00eancia do discurso capitalista, promovem uma reorganiza\u00e7\u00e3o radical da subjetividade. A l\u00f3gica do gozo imediato, ilimitado e descart\u00e1vel, surge no lugar do desejo, sustentado pela falta estruturante. Na experi\u00eancia anal\u00edtica, trata-se, portanto, de interrogar essa trama, at\u00e9 que o sujeito possa entrever que aquilo que tomava como sua verdade, era um modo de tamponar o enigma de seu ser, uma vez que a quest\u00e3o propriamente anal\u00edtica n\u00e3o se refere somente \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o, mas ao fantasma. O trabalho anal\u00edtico consiste, precisamente, em restituir ao sujeito sua posi\u00e7\u00e3o desejante, ao interrogar e desmoronar as cenas fantasm\u00e1ticas que o aprisionam.<\/p>\n<p>Ao recusar a homogeneiza\u00e7\u00e3o do gozo, a psican\u00e1lise preserva um lugar para o desejo, para a fala, para o enigma. Sustentar o ato anal\u00edtico \u00e9, portanto, resistir \u00e0 l\u00f3gica do c\u00e1lculo e apostar, ainda, na possibilidade de uma inven\u00e7\u00e3o singular que d\u00ea conta dos efeitos devastadores que o universal imprime no corpo falante.<\/p>\n<p>Segundo Miller (2005), em seu texto \u201cUma Fantasia\u201d, vimos a decad\u00eancia da fun\u00e7\u00e3o do Ideal, e de uma promo\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em>, mais-de-gozar, ao z\u00eanite da cultura, onde as figuras de autoridade vacilam e o significante mestre se pluraliza.<\/p>\n<p>O significante \u201ctela\u201d surge em diversos contextos: na tela do computador, por onde circulam os <em>gadgets<\/em>, <em>front-end<\/em>, <em>back-end<\/em>, \u00e9 cobrado o tempo de tela das crian\u00e7as e adultos, \u00e9 preciso \u201csair das telas\u201d&#8230;<\/p>\n<p>As telas do <em>back-end<\/em> \u2013 dom\u00ednio dos programadores, ou melhor, do discurso do mestre, que por meio do discurso capitalista, recruta a programa\u00e7\u00e3o em seu benef\u00edcio \u2013 atualizam e revertem, de maneira cruel, a enxurrada inicial do ser humano, tornando-se um enxame de objetos <em>a<\/em>, que inundam a visada do sujeito, este sujeito agora assujeitado ao <em>front-end<\/em>, tornado, ele pr\u00f3prio, um dos objetos perdidos no rejeito eletr\u00f4nico dos v\u00eddeos, das fotos e dos memes repletos de sentido, mas que perdem sentido no instante em que s\u00e3o consumidos, consumindo tamb\u00e9m aquele que os v\u00ea. Os objetos <em>a<\/em> voam pelas telas, multiplicam-se exponencialmente num movimento fren\u00e9tico, enquanto o sujeito, tornado objeto, segue inerte, sem perplexidade diante da barb\u00e1rie, \u00e0 qual assiste e, antes de se tornar estupefato, um novo meme est\u00e1 surgindo, provocando o riso.<\/p>\n<p>A enxurrada de objetos <em>a<\/em> funciona como uma ferramenta de manejo de massa, orquestrada pelo discurso do mestre atual, pela jun\u00e7\u00e3o do capitalismo e da ci\u00eancia, produzindo uma tela que n\u00e3o media a ang\u00fastia do sujeito, que segue a reboque desses discursos.<\/p>\n<p>Entre os semblantes, as fic\u00e7\u00f5es e o fantasma, o sujeito ter\u00e1 um caminho a percorrer. Fica em quest\u00e3o, a dire\u00e7\u00e3o do tratamento e o lugar do analista e do seu desejo. Como a tela do fantasma operaria como um filtro da realidade, e quais os efeitos cl\u00ednicos desse v\u00e9u diante do trauma?<\/p>\n<p>A tela do fantasma se revela assim como uma estrutura do inconsciente, fundamental para a organiza\u00e7\u00e3o do sujeito barrado diante do real e do desejo. Ser\u00e1 atrav\u00e9s da an\u00e1lise dessa estrutura que o sujeito barrado poder\u00e1 superar o impasse da repeti\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica e vislumbrar uma nova possibilidade de la\u00e7o com seu desejo al\u00e9m do trauma.<\/p>\n<p>De que modo os analistas t\u00eam sido convocados, entre demanda e desejo, a ler o sintoma e o que se passa na tela do fantasma, o que o move e, sobretudo, o que mortifica o sujeito a n\u00e3o se mover diante do imp\u00e9rio das imagens?<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong> Sobre o fantasma no final da an\u00e1lise<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Considerando que o fantasma aponta seu estatuto de conjun\u00e7\u00e3o e disjun\u00e7\u00e3o com o real, em um movimento de abertura e fechamento, para o sujeito do acesso ao real pr\u00f3prio de cada um, Lacan discute a dire\u00e7\u00e3o do tratamento, visando conduzir o sujeito para a travessia do fantasma, em um movimento onde o sujeito suspende sua identifica\u00e7\u00e3o \u00e0 cena fantasm\u00e1tica, para assumir a responsabilidade \u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o ao seu desejo e ao seu gozo.<\/p>\n<p>Lacan nos alerta que n\u00e3o devemos ter um \u201cideal de cura\u201d. N\u00e3o se trata de eliminar o fantasma, mas de um desinvestimento. Segundo Miller (2018) trata-se de desarranjar a fixa\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica para abrir espa\u00e7o a uma nova forma de desejar, menos submetida \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica, menos submetida \u00e0 demanda do Outro, e mais centrada na singularidade e no seu gozo.<\/p>\n<p>A travessia do fantasma indica a passagem do sujeito, de uma posi\u00e7\u00e3o defensiva, sustentada pelo fantasma, para uma confronta\u00e7\u00e3o com real do trauma e da divis\u00e3o subjetiva, permitindo ao sujeito redesenhar sua rela\u00e7\u00e3o com o corpo, com o gozo, o desejo, e com o Outro. Certamente, a suposi\u00e7\u00e3o de que uma travessia da tela do fantasma implicaria em ter acesso ao real n\u00e3o sabido pelo sujeito, n\u00e3o obstante, encobre a inc\u00f3gnita sobre o ser, sobre \u201cquem sou eu\u201d. Portanto, \u201co fantasma faz tela, n\u00e3o apenas para o real, mas, tamb\u00e9m, para o ser do sujeito. Pode-se dizer que o que precipita um sujeito para a an\u00e1lise \u00e9 uma busca de saber sobre seu ser\u201d (Pacheco, 2024).<\/p>\n<p>Segundo Lacan (1958\/1998), em <em>A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder<\/em>, \u201cdigamos que o fantasma, em seu uso fundamental \u00e9 aquilo mediante o qual o sujeito se sustenta no n\u00edvel de seu desejo evanescente, evanescente porquanto a pr\u00f3pria satisfa\u00e7\u00e3o da demanda lhe subtrai seu objeto\u201d (p. 643).<\/p>\n<p>Se o fantasma surge como tela diante desse real em que o sujeito humano, ao adentrar na atmosfera, v\u00ea-se inicialmente asfixiado, qual \u00e9 o lugar do analista?<\/p>\n<p>Segundo Milller (2011), em seu \u00faltimo ensino Lacan nos diz que haveria algo que n\u00e3o seria modificado pelo atravessamento do fantasma. Resta \u201co ser de gozo\u201d, nomeado como o <em>sinthoma<\/em>. Portanto, no final da an\u00e1lise, haver\u00e1 um ganho de saber, um saldo epist\u00eamico que dar\u00e1 lugar a um desejo de saber, mas, por outro lado, o <em>sinthoma<\/em> diz disso que n\u00e3o se deixa transformar em saber.<\/p>\n<p>Sendo o fantasma, portanto, um modo de nega\u00e7\u00e3o da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual, uma vez que ele constitui uma rela\u00e7\u00e3o sexual entre o sujeito e o objeto, constatamos que, hoje, a tela do fantasma n\u00e3o protege o sujeito do real, mas est\u00e1 cada vez mais t\u00eanue, como nos trouxe Bassols (2015), e isto traz consequ\u00eancias sobre a cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Considerando o fantasma como uma via de tratamento ao real do trauma, o que podemos dizer do decl\u00ednio do fantasma como media\u00e7\u00e3o possivel para o sujeito?<\/p>\n<p>Miller (1998), em \u201cO osso de uma an\u00e1lise\u201d, nos diz que para que haja gozo, mesmo que seja o gozo residual do mais-de-gozar, \u00e9 necess\u00e1rio o corpo, o corpo vivo. (p.99) Ele ressalta que, se por um lado o significante produz uma mortifica\u00e7\u00e3o, mata o gozo, por outro lado, vemos a produ\u00e7\u00e3o do mais-de-gozar, uma incid\u00eancia de gozo sobre o corpo.<\/p>\n<p>O fantasma, por\u00e9m, sup\u00f5e a distin\u00e7\u00e3o radical entre a ordem do significante e a ordem do gozo, aparecendo como uma media\u00e7\u00e3o entre essas duas ordens (Miller, 1998, p. 100). O <em>sinthoma<\/em>, diferentemente, inscreve uma rela\u00e7\u00e3o mais direta entre o significante e o gozo. Assim, o significante, como tal, se refere ao corpo e essa refer\u00eancia se faz sob a modalidade do sintoma. Assim, passamos do sintoma ao fantasma e, depois da travessia do fantasma, encontramos novamente o sintoma como modo de gozo que particulariza o sujeito, um real.<\/p>\n<p>Portanto, como o fantasma produz um gozo pelo significante, na frase fantasm\u00e1tica, produz, tamb\u00e9m, um gozo no corpo, pois o gozo do corpo, no ser falante, sup\u00f5e que esteja marcado pelo significante. H\u00e1 o gozo da lal\u00edngua, na medida em que o sujeito tem um corpo. No n\u00edvel sexual, a rela\u00e7\u00e3o passa pelo gozo do corpo e pelo gozo de lal\u00edngua, passa pelo sintoma (Miller, p. 104). Miller interroga: \u201c&#8230; se o osso da cura \u00e9 o fantasma, o fim da an\u00e1lise \u00e9 a travessia do fantasma, mas, se o osso da cura \u00e9 o sintoma, \u00a0o que \u00e9 o fim da an\u00e1lise?\u201d<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o surge: nenhum desinvestimento do fantasma pode impedir que reste o modo de gozar, reste o sintoma como modo de gozar. No fim da an\u00e1lise o sujeito ter\u00e1 que se servir das suas inven\u00e7\u00f5es, de um savoir-y-faire com seu gozo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Bassols, M.(2015). <em>O trauma e seus mal-entendidos<\/em>. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise. Junho 2015, n.70. p.61.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Lacan, J. (1998). <em>A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder.<\/em> In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar. p.591.(Originalmente publicado em 1958).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Lacan, J. (2005). <em>O semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia.<\/em> Rio de Janeiro: Zahar (Originalmente proferido em 1962-1963).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Lacan, J. (2008).<em> O semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar. (Originalmente proferido em 1964).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Lacan, J. (2016).<em> O semin\u00e1rio livro 6: o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o.<\/em> Rio de Janeiro: Zahar. (Originalmente proferido em 1958-1959).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Lacan, J. (2023). <em>O mal-entendido.<\/em> Em J.Lacan, <em>Nos confins do semin\u00e1rio.<\/em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Originalmente publicado em 1980).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Lacan, J. (2024).<em> O semin\u00e1rio, livro 14: a l\u00f3gica do fantasma<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar. (Originalmente proferido em 1966-1967).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Miller, J.-A. (1998). <em>O osso de uma an\u00e1lise.<\/em> Semin\u00e1rio proferido no VIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano e II Congresso da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. Salvador -Bahia- 17 a 21 de abril de 1998.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Miller, J.-A. (2005). <em>Uma fantasia<\/em>. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana:\u00a0 In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise. Fevereiro 2005, n.42, p.7.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Miller, J.-A. (2011).<em> O ser e o Um<\/em>. Li\u00e7\u00e3o de 02 de fevereiro de 2011. (In\u00e9dito).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Miller, J.-A. (2012). <em>El ultim\u00edssimo Lacan<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2012. p. 275-276.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Miller, J.-A. (2014). <em>Apresenta\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio 6: o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o, de Jacques Lacan<\/em>. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana Online, 5(14), 1-19.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Miller, J.-A. (2018). <em>Del sintoma al fantasma y retorno<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Pacheco, L.(2024). <em>A tela do fantasma e a esfolia\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio. Relat\u00f3rio Jornada: H\u00e1 algo de novo nas neuroses? Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais. <\/em>In\u00e9dito, 2024.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Roy, D. (2014).<em> Fictions d\u2019enfance<\/em>: La cause du D\u00e9sir n.87: Fictions. Paris: Navarin Editeur, 2014, p.8.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relatora: In\u00eas Seabra Abreu Rocha (EBP\/AMP). 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