Por Késia Ramos (EBP/AMP)
A ilustração apresenta um campo visual atravessado pela ruptura da forma e pela invasão da cor. O vermelho, que avança com intensidade, introduz um excesso que desestabiliza a homogeneidade da superfície, evocando aquilo que, na experiência do trauma, escapa à significação.
Mais do que representar o trauma, a imagem o transmite em sua dimensão estrutural: o real que irrompe, o simbólico que falha, o gozo que marca o corpo para além da palavra. Como formulado por Lacan, há aqui um ponto de furo — trou — em que o sujeito se confronta com uma experiência de gozo que não se inscreve, mas insiste.
O desmanche progressivo da forma, o apagamento dos contornos e a dispersão do sentido remetem àquilo que, na clínica, se apresenta como efeito do traumático: a desorganização da cena, o colapso da fantasia e a irrupção de um real opaco. A imagem convoca, assim, uma leitura que ultrapassa o plano sensível, aproximando-se do que, na psicanálise, se reconhece como o núcleo irredutível do sujeito — seu ponto de encontro com o inassimilável do gozo.
Convidamos você a apreciar a arte que compõe o cartaz, presenteada pela artista Kais — que, por meio de sua potência visual, nos faz tocar algo do indizível.
