ANALISTA TRAUMA
Cartel responsável: Cleide Monteiro (EBP/AMP), Sílvia Gusmão, Roberta Gusmão, Rosemarie Mooneyham.
Mais-Um: Lucíola Macedo (EBP/AMP – Seção Minas).
Lucíola Macedo (EBP/AMP)
Os produtos aqui apresentados abordam o caminho percorrido por cada uma das cartelizantes em torno de três proposições, extraídas do trabalho em cartel: 1) o analista-trauma perturba o discurso comum, para autorizar o discurso do inconsciente; 2) o analista-trauma perturba as defesas erigidas “contra o real sem lei”, permitindo, com o ato analítico, a passagem do inconsciente transferencial ao inconsciente real; 3) o analista-trauma opera como testemunha de uma perda, lugar “daquilo que, no sujeito, fala de um gozo inominável”, como aponta Cleide à propósito de Minna, Roberta com o testemunho de Alejando Reinoso e Rose com o testemunho de Marcus A. Vieira.
Isso se presentifica desde a instauração da transferência, como motor do trabalho analítico. É por isso que Lacan, no Seminário 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, afirma que a presença do analista deve ser incluída no conceito de inconsciente, e que a sua presença não se dá de ego a ego, mas como caput mortuum da descoberta do inconsciente, o que se articula com a causa perdida, com o encontro faltoso, e, mais amplamente, com aquilo que, por sua natureza, se perde: é uma zona de perda porque não opera via identificação ou reforço do ego. Onde o inconsciente não tem nenhuma espécie de substância, mas se constitui como “a soma dos efeitos da fala sobre um sujeito”. Ele diz: “paradoxalmente, a diferença que garante a mais segura subsistência do campo de Freud é, por sua natureza, um campo que se perde. É aqui que a presença do psicanalista é irredutível como testemunha dessa perda: é uma perda seca”26. Trata-se de uma zona de sombras que se declina, no tratamento em opacidade do gozo; assim como a “perda seca” se declina em hiato, deslocalização, efração, disrupção. Essa passagem do Seminário 11 remete a uma passagem do Seminário 19 … ou pior: “para nos acostumarmos com esse des-ser (o de ser o suporte, o dejeto, a abjeção a que pode agarrar-se aquilo que graças a nós, vai nascer de um dizer que interprete), convido o analista a ser digno da transferência”27.
Achados: Cleide, com Ricardo Seldes – fazer do trauma algo vivificante! “combatendo a pulsão de morte com o mesmo trauma”.
Nessa mesma direção, a dos achados, destacaria, no caso Minna: ao considerar o trauma como processo, como aponta Laurent em O trauma ao avesso, escutamos o hiato entre o trauma social e o trauma singular (diante do real do trauma, do real sem lei, o recurso ao pai todo amor, à lei do pai, fracassam); o hiato entre os fatos e os ditos parece se realizar no equívoco, na passagem de uma língua a outra, do romeno ao espanhol e vice-versa, no trabalho de análise conduzido através do trabalho dos sonhos. O relato do caso traz sete sonhos! Podemos dizer que o trabalho do sonho conduziu a passagem do horror/terror ao trauma, nesse tensionamento e torção entre o trauma como acontecimento social ao trauma como processo, singular?
Seguimos com o fio da investigação de Silvia: como o analista-trauma opera? De que maneira a operação analítica perturba o discurso comum para autorizar o discurso analítico? Gostaria de destacar o seu achado: o analista não opera apagando o trauma, mas sustentando-o como real. Pediria que nos diga um pouco mais sobre esse seu achado.
O achado de Roberta: o analista-trauma aceita riscos calculados, cifra mais que decifra, atento ao equívoco, isola o significante assemântico, as homofonias, equívocos, jaculações de lalíngua, com seu efeito vivificante, a percutir no corpo. O analista-trauma como aquele que perturba a defesa não opera pela via do sentido. Poderia nos falar sobre a função dos sonhos em análise como um operador do analista-trauma?
Rose, o seu achado: é preciso encontrar um gozo incluído no trauma — “a chave de braço que apertava a garganta podia ser abraço”. Mas “o gozo do objeto nos mantém, porém, no plano do trauma e de sua subjetivação (que Lacan chamou de fantasia/fantasma). O decisivo em termos de conclusão envolve uma abertura para um espaço fora da fantasia… o gozo condensado no objeto encerra apenas uma fração da vida que levamos em nós. Minha agitação viril num extremo, e a docilidade do agarrar e ser agarrado noutro, formavam o leque das paixões ditados pela fantasia. Mas há vida fora da fantasia”28. Pergunto: uma torção que já não é agitação nem abraço, e que é tudo isso também, “em lugar nenhum e em toda parte”, deslocalizado, que não cabe em si: “o abraço me ensinou a não caber em mim”. A vida que há fora da fantasia seria uma abertura ao outro gozo, ao gozo dito feminino?
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Sobre a função dos sonhos em análise como um operador do analista-trauma: “o tecido do inconsciente é feito de sonho, afirma Freud, à propósito do umbigo do sonho. Este último é a cicatriz do trauma. Nesse ponto, esbarra-se com o ininterpretável, com o limite onde todo e qualquer sentido se detém, a indicar presença do real nos sonhos. O trabalho do sonho poderá operar, nessa perspectiva, como um modo de tangenciar o real traumático através das imagens oníricas, favorecendo a que no lugar do furo do trauma, daquilo que não se liga a nada, se imagine o real. É Lacan quem o diz: não há nada mais difícil que imaginar o real. Recorremos ao imaginário para termos uma ideia do real, e assim, o que não pode ser dito, poderá ser mostrado. Assim, o sonho poderá se tornar uma via de acesso ao real”29.
NOTAS
1 LAURENT, É. O trauma ao avesso. Papéis de Psicanálise, Belo Horizonte, v. 1, n. 1, p. 21-28, abr. 2004.
2 MILLER, Jacques-Alain. Efeitos Terapêuticos Rápidos em Psicanálise: conversação clínica com Jacques-Alain Miller em Barcelona. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise – Scriptum, 2008. p. 15-46.
3 Ibid, p 41.
4 LAURENT, op. cit., p. 26.
5 SELDES, Ricardo. La urgencia dicha. Buenos Aires: Editorial Diva Freud, 2019. p. 69.
6 LAURENT, op. cit., p. 26.
7 LACAN, J. (1901-1981). Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise 1964. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
8. RÊGO BARROS, M. R.C. Trauma, uma nova perspectiva sobre o real. Opção Lacaniana online, ano 6, número 16, março de 2015.
9 MILLER, J-A. O Ultimíssimo Lacan, aula de 13 de janeiro de 1988 do Curso de Orientação Lacaniana.
10 Idem.
11 LAURENT, E. O trauma ao avesso – Papéis de Psicanálise, v. 1, n. 1, abril, 2024. Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais.
12 Idem.
13 VIEIRA, M. A. “O Trauma subjetivo”. Psico (PUCRS), v.39, p.509-513, 2008.
14 MILLER, J. A. “Ler um sintoma”. In Afreudite-Ano VII, 2011- n. 13/14. Pp.1-30.
15 MILLER, J. A. “A palavra que fere”. Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 52, p.69. julho, 2010.
16 LAURENT, É. “A ordem simbólica no século XXI. Consequências para o tratamento” Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n.62, p.88 dezembro, 2011.
17 LACAN, J. Le Séminaire, Livre XXIV, L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre, aula de 11 de janeiro de 1977.
18 VIEIRA, M. A. “O grito, o abraço e o risco”. Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 70, p. 94. junho, 2015.
19 Ibid.
20 VIEIRA, M. A. Opção Lacaniana online nova série. Ano 4. Número 11, p.4, julho 2013.
21 VIEIRA, M. A. “O grito, o abraço e o risco”. Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 70, p. 95. junho 2015.
22 Ibid.
23 MILLER, J. A. Intervenção de encerramento do VIII Congresso da AMP, apresentando o IX Congresso da AMP. 2012.
24 LAURENT, É. A ordem simbólica no século XXI. Consequências para o tratamento. Opção Lacaniana n° 62.
25 REINOSO, A. “Um despertar poético para o riso”. Papers+Um: Freud-a-la-Lacan, 2020b, p. 45-46. Disponível em https://congresoamp2020.
26 LACAN, J. Seminário 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: JZE, 1988, p. 122.
27 LACAN, J. Seminário 19… ou pior. Rio de Janeiro: JZE, 2012, p. 226.
28 VIEIRA, M.A. O grito, o abraço e o risco. Opção lacaniana, n.70, junho 2015, p.95.
29 MACÊDO, L. Prólogo. In: Sonhos e testemunhos: políticas do inconsciente e discurso jurídico. São Paulo: INM Editora, 2025, p.17-18.
