Anamaria Vasconcelos
Cassandra Dias
É com alegria que lançamos o argumento sobre a temática que norteará nossas pesquisas em direção à nossa V Jornada da Seção Nordeste. Entre um enxame de leituras e ideias, fizemos nossa escolha e optamos pelo que, primordialmente, Freud nos ensinou a reconhecer na clínica. Aquilo que é impossível de se dizer, uma experiência farta de excesso, que delimita um antes e depois em nossa vida de modo contingente: o trauma.
A noção de trauma remonta à origem da psicanálise. Em sua investigação, Freud foi encontrando, na escuta das histéricas, a dinâmica inconsciente que localizava um encontro traumático com o sexual, produzindo o sintoma histérico. Ele estabelece uma relação causal entre o trauma psíquico e o fenômeno histérico que o levou a dizer: “Os histéricos sofrem principalmente de reminiscências”[1].
Inicialmente, elaborou uma teoria da sedução, para abandoná-la logo depois. “Não acredito mais na minha neurótica”[2] desloca o trauma de uma cena para o caráter traumático da sexualidade. Lacan formula outra maneira para abordar o trauma: ao adotar o neologismo les trumains[3], que é pronunciado em francês da mesma forma como “ser humano” – l´être humain –, ele introduz a dimensão do furo (trou) para abordar o trauma, não tanto pelo evento em si, mas sobretudo pela experiência com o gozo que troumatiza.
A perspectiva que ele nos indica acerca do trauma é a do encontro entre corpo e linguagem, por seu caráter intrusivo. O mal-entendido encontra-se na raiz da relação dos trumains com o campo do gozo, na relação entre a palavra e a carne. “Nosso corpo não foi feito para ser sexuado, como mostra o fato de que homens e mulheres se comportam muito pior que os animais. Deduz-se disso um trauma incontestável ligado ao sexo. Pode-se, então, descrever a sexuação inteiramente como uma difícil reação ao trauma”[4].
O mal-entendido do gozo entre os sexos é a premissa que fundamenta a experiência que traumatiza os sujeitos, pois não há reciprocidade possível nesse campo. No campo da linguagem, não há inscrição possível da relação sexual. Frente à experiência traumática, deparamo-nos com uma impossibilidade de inscrição porque há algo que não cessa de não se escrever, revelando o seu caráter de impossível. Laurent afirma que “O trauma decorre de uma topologia que não é simplesmente de interior e de exterior. O trauma, a alucinação, a experiência de gozo perverso são fenômenos que podemos dizer que tocam o real.”[5].
Segundo Marcus André Vieira, “O axioma freudiano é o de que apenas a partir da realidade psíquica uma violência na realidade se inscreve como trauma”[6]. Há, em qualquer trauma, um fator subjetivo ineliminável – “É preciso contar que, independentemente do que terá ocorrido, algo singular precisará entrar sempre em ação para que se possa definir um trauma”[7]. Isso que não se elimina da experiência com o trauma é a presença mesma do efeito único e singular da linguagem no sujeito, assim como a opacidade na sua relação com certo modo de satisfação paradoxal que constitui o gozo. “Gozo é exatamente tudo o que eu quero quanto é tudo o que eu menos quero”[8].
O gozo extraído do encontro traumático permanece como resíduo silencioso do que não foi absorvido no traumatismo, um quantum de energia na linguagem freudiana. Há algo que sobra e excede, que escapa ao sujeito e pelo qual ele precisará responsabilizar-se. “Podemos dizer que o desejo é o desejo do Outro, seguindo a máxima de Lacan dos anos cinquenta e sessenta, mas não podemos dizer que o gozo do sujeito é o gozo do Outro”[9].
Em um primeiro momento, portanto, podemos dizer que “o trauma é um buraco no interior do simbólico”[10], mas, para além da recomposição do sentido perdido com a experiência traumática, Laurent aponta que há outro caminho que excede o campo do sentido; que é preciso “depois de um trauma, reinventar um Outro que não existe mais”[11]. “É, sobretudo pela via do insensato do fantasma e do sintoma que essa via se traça”[12]. A partir da premissa de que, em se tratando do gozo não há relação sexual, duas perspectivas se abrem: a construção de uma fantasia e o campo do ato – duas vias distintas de tratamento ao real do trauma.
Para Bassols, “Clinicamente, constatamos hoje que esta tela da fantasia parece cada vez mais tênue em sua mediação com o real, cada dia cumpre menos sua função, a cada vez o sujeito parece estar mais perto da passagem ao ato”[13]. Assim, em que medida “o trauma, tal como concebido por Lacan como estrutural, incluído no programa de todo sujeito de um discurso, pode ser articulado ao trauma como concebido na realidade quotidiana de nossos dias?”[14].
A questão formulada acima pelo convidado da nossa Jornada, Marcus André Vieira, norteia também esse percurso de investigação que agora se inicia: a época em que vivemos está prenhe da ideologia da supressão do sujeito, conforme Lacan nos anuncia em Radiofonia – a experiência com o trauma foi conduzida à denominação “síndrome de stress pós-traumática” como resultado do discurso da Ciência, operando com o trauma generalizado e, consequentemente, com sua banalização.
A consistência dessa ideologia tem consequências clínicas e éticas para a civilização do nosso século: o império da indústria farmacêutica e a multiplicação das respostas que visam o restabelecimento do status quo anterior ao trauma, a partir, inclusive, do apagamento da memória como um fator decisivo no tratamento. Há diferentes figuras do discurso do Mestre que se apressam em tamponar o efeito sujeito e que ofertam diversas soluções para tratar o real do trauma: os bebês reborn (renascidos em inglês) parecem ser uma das soluções mais recentes.
A patologia própria às metrópoles produz um espaço social marcado por um efeito de irrealidade, diz-nos Laurent[15], referindo-se ao pensador alemão Walter Benjamin, que chamava esse efeito de “o mundo da alegoria”. Um mundo artificial em que proliferam a mercadoria, a publicidade e a virtualidade na promoção do apagamento do sujeito. Nossa época trabalha em prol do esquecimento.
Sabemos, desde Freud, que a memória e o relato são decisivos na elaboração do traumatismo. O caso Emma é emblemático no estabelecimento de dois tempos no aparelho psíquico, para que o sentido sexual se articule à lembrança, produzindo a realidade psíquica. Na cena pública, tanto na política quanto na arte, é digno de nota – entre tantos outros – o trabalho realizado pela Comissão da Verdade na busca pela responsabilização dos crimes cometidos pelo Estado brasileiro na época da ditadura, assim como a produção cinematográfica Ainda Estou Aqui ou, ainda, a peça teatral Lady Tempestade[16], que visam produzir um trabalho de simbolização em torno do sem sentido e do horror de um acontecimento traumático na vida de milhares de pessoas e em nossa cultura – exemplos de um trabalho decidido em prol da preservação da memória de uma nação.
Portanto, tanto na cultura quanto na clínica, o lugar da memória enquanto elaboração é crucial quando se trata de trauma. Dar lugar ao trou nos indica que, mais além do agente do trauma e suas circunstâncias, é preciso o acontecimento de corpo que suporte os aluviões e, sobretudo, aquilo que escoa por entre as rasuras que o choque com a linguagem produz. É por esse caminho, apontado por Lacan, que, ao tomarmos as duas vias de tratamento ao real do trauma – fantasia e ato – como perspectivas de investigação ao tema dessas Jornadas, interessa-nos interrogar se a violência é uma resposta em ato ao fracasso da fantasia enquanto recurso frente ao real, apagando o sujeito. Será que podemos separar trauma e violência? Como pensar essa relação à luz da clínica psicanalítica? Diante da desordem do mundo e do real sem sentido, qual o lugar do psicanalista?
Se a época atual oferta a inscrição em categorias, de preferência anônimas, e também a parceria com a terapêutica química, com o objetivo de tornar os sujeitos dóceis às regras sociais sob uma perspectiva cognitiva, o psicanalista orientado pelo real se localiza em outro ponto – ocupando o lugar da perda essencial do objeto, segundo Laurent, por estar, ele mesmo, no lugar do trauma. “Ele pode ocupar esse lugar do insensato, pois sua formação o levou a reduzir o sentido do sintoma a seu núcleo mais próximo de uma contingência fora de sentido. Digamos que ele não crê mais no sentido”[17].
Se a linguagem é um virus, a análise é uma instalação precária e, através dela, podemos conjugar outro sentido para o trauma, mais como processo do que como acontecimento. E, sem dúvida, nossa responsabilidade ética em poder ir além do “herói hermenêutico” (aquele que injeta sentido ao trauma) só aumenta, pois, como nos diz Laurent, “O mundo, depois de 11 de setembro de 2001, nos conduzirá, sem dúvida alguma e para nossa infelicidade, a intervir depois de um trauma ou outro. Freud havia nos deixado o século XX no “mal estar da civilização”, talvez o século XXI nos leve a falar da civilização e de seu trauma”[18].
Interessa-nos, portanto, verificar as incidências do “analista trauma” na prática do psicanalista dos dias atuais, frente às manifestações pulsionais diante do rateio da fantasia e à abertura para a dimensão do ato em sua articulação com a violência e a pulsão de morte. Repensar o trauma em sua conjuntura, interrogando o seu estatuto, é colocá-lo no âmago das nossas investigações para interpretar os tempos atuais e pensar o lugar que o analista precisa ocupar na clínica de hoje. A partir desse percurso, os eixos temáticos se abrem:
1 – A tela da fantasia
Nesse eixo, interrogamos a relação entre reminiscências e a construção da cena traumática; o caráter traumático da sexualidade; os dois tempos do trauma; a estrutura da fantasia; a diferença entre fantasia; ficção e delírio; a ausência da fantasia no autismo; o declínio da fantasia como mediação diante do real, entre outras perspectivas que trarão para o debate a função da fantasia como uma via de tratamento ao real do trauma.
2 – O horizonte do ato
Nesse eixo, a pergunta norteadora que lançamos é: podemos separar trauma e violência? Em que medida a ideologia da supressão do sujeito, segundo Lacan, favorece a escalada das soluções em que o objeto não está vestido com a roupagem do fantasma? A perspectiva do ato se coloca como sendo uma resposta do sujeito diante do rateio da fantasia. Cabe, aqui, pensar as adicções e toxicomanias, o acting out, feminicídios e segregação, challengers digitais, cancelamentos e bullyings, os quais apontam para o horizonte da pulsão de morte e da passagem ao ato em sua articulação com a violência, entre tantas dimensões em que o ato se coloca em nossa época.
3 – Analista trauma
Esse eixo pretende tocar a especificidade do trabalho do psicanalista e sua relação com o trauma – como não perder de vista a dimensão do trou frente às inúmeras demandas pela restituição do sentido que proliferam na época atual? Qual a relação entre a posição do analista e a dimensão da perda? Quais as incidências do analista trauma na prática daqueles que exercem a psicanálise? Abrimos espaço para recolher o manejo frente às síndromes da época atual: estresse pós-traumático; pânico; crises de ansiedade; burnout; psicoses extraordinárias e ordinárias, entre outras manifestações do traumático. Como ir além da injeção de sentido, rastreando o caminho pulsional?
REFERÊNCIAS
AGENTE: REVISTA DE PSICANÁLISE. Salvador: Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Bahia, v. 18, n. 17, set. 2018.
BASSOLS, M. O trauma e seus mal-entendidos. Opção Lacaniana, São Paulo, v. , n. 70, p. 57-66, jun. 2015.
FREUD, S. A Proton Pseudos [Primeira Mentira] Histérica. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Vol. I – Publicações pré-psicanalíticas e esboços inéditos (1886-1899). Rio de Janeiro: Imago, 1977. p. 251-385.
FREUD, S. Extratos dos documentos dirigidos a Fliess. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Vol. III – Primeiras publicações psicanalíticas (1893-1899). Rio de Janeiro: Imago, 1974. p. 251-385.
FREUD, S. Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos. In: FREUD, S. Obras Completas Vol. 2 – Estudos sobre a histeria (1893-1895). São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 18-38.
LACAN, J. Lituraterre. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 11-25.
LACAN, J. Radiofonia. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 400 – 447.
LAURENT, É. O trauma ao avesso. Papéis de Psicanálise, Belo Horizonte, v. 1, n. 1, p. 21-28, abr. 2004.
MILLER, J.-A. Momento de concluir. In: El Ultimísimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2013. p. 181-196.
VIEIRA, M. A. A violência do trauma e seu sujeito. In: MACHADO, O. M. R.; DEREZENSKY, E. (Orgs.). A violência: sintoma social da época. Belo Horizonte: Scriptum, 2013. p. 73-90.
[1] Freud, 2016, p. 25
[2] Freud, 1974, p. 357
[3] Miller, 2013, p. 185
[4] Laurent, 2004, p. 22
[5] Laurent, 2004, p. 24
[6] Vieira, 2013, p. 75
[7] Vieira, 2013, p. 75
[8] Vieira, 2013, p. 81
[9] Bassols, 2015, p.61
[10] Laurent, 2004, p. 25
[11] Laurent, 2004, p. 26
[12] Laurent, 2004, p. 25
[13] Bassols,2015, p. 61
[14] Bassols, 2015, p. 75
[15] Laurent, 2004, p. 22
[16] Lady Tempestade: monólogo teatral com Andréa Beltrão, dirigido por Yara de Novaes, inspirado a partir do diário da advogada pernambucana Mércia Albuquerque e sua atuação em defesa de centenas de presos políticos do Nordeste, entre 1973 e 1974, em plena ditadura brasileira.
[17] Laurent, 2004, p. 26
[18] Laurent, 2004, p. 27