{"id":366,"date":"2024-07-01T17:15:15","date_gmt":"2024-07-01T20:15:15","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2024\/?page_id=366"},"modified":"2024-07-03T04:20:40","modified_gmt":"2024-07-03T07:20:40","slug":"argumento","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2024\/a-jornada\/argumento\/","title":{"rendered":"Argumento"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: left;\">Cleide Monteiro<br \/>\nElizabete Siqueira<br \/>\nCoordenadoras da Comiss\u00e3o Cient\u00edfica<\/h6>\n<p>Com o Real come\u00e7a nosso desafiador percurso como <em>falasseres<\/em>, desde sempre e para sempre subordinados \u00e0s suas imprevisibilidades. O Real \u00e9, paradoxalmente, ponto de partida e de chegada; bem como aquilo que se distingue da dita \u201crealidade\u201d que habitamos e se localiza no mais al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer, campo que nos surpreende incansavelmente com suas m\u00faltiplas e incalcul\u00e1veis facetas.<\/p>\n<p>Por esta raz\u00e3o \u00e9 o que se coloca fora da dimens\u00e3o ideal de um suposto mundo harmonizado pela fala e pela linguagem, fun\u00e7\u00e3o e campo nos quais Lacan formalizou, em um primeiro momento, o inconsciente freudiano. \u00c9 no Semin\u00e1rio 23 que ele assume que sua inven\u00e7\u00e3o do Real se imp\u00f4s como sua resposta sintom\u00e1tica \u00e0 elucubra\u00e7\u00e3o freudiana: \u201cDigamos que \u00e9 na medida em que Freud articulou o inconsciente que eu reajo a isso\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>O Real assim considerado, uma rea\u00e7\u00e3o de Lacan, convoca-nos a admitir que no n\u00edvel do inconsciente a linguagem tem dois efeitos sobre o ser falante: um efeito sujeito que \u00e9 tamb\u00e9m um efeito desejo e uma produ\u00e7\u00e3o de gozo, nomeada por Lacan de subst\u00e2ncia gozante. Em 1972, no Semin\u00e1rio 20, a partir da experi\u00eancia freudiana, Lacan sente-se impelido a ir mais al\u00e9m quando prop\u00f5e que \u201co gozo \u00e9 alguma coisa de substancial e por isso \u00e9 importante produzir sob o nome de um novo princ\u00edpio&#8230; que comporta algo de p\u00f4r em fun\u00e7\u00e3o outra forma de subst\u00e2ncia, a subst\u00e2ncia gozante\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Subst\u00e2ncia que se localiza no corpo, no cruzamento entre o significante e o Real. Com essa dimens\u00e3o substancial, o corpo ser\u00e1 postulado em sua condi\u00e7\u00e3o de corpo vivo, um corpo que se goza. Trata-se, ent\u00e3o, de um corpo que busca satisfa\u00e7\u00e3o a todo custo. \u00c9 este corpo da puls\u00e3o, corpo vivo, subst\u00e2ncia gozante, o que interessa \u00e0 Psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Portanto, h\u00e1 uma mudan\u00e7a de perspectiva: o verdadeiro Outro daquele que Lacan passa a chamar de <em>falasser<\/em> \u00e9 o corpo. Nesse momento propor\u00e1 que no corpo h\u00e1 restos, restos de gozo, que jamais ser\u00e3o alcan\u00e7ados pelo significante, indicando, com isto, que h\u00e1 algo foraclu\u00eddo que diz respeito \u00e0 vida e ao sexo, e por isso traum\u00e1ticos. Em outras palavras, a linguagem n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica morada do <em>falasser<\/em>. O corpo como palco de gozo lhe faz face e deixa ver que a fala instiga o gozo, bem como o consumo do corpo que goza, que \u00e9 gozado e que se faz gozar.<\/p>\n<p>No discurso dominante de uma \u00e9poca em que assistimos a uma alian\u00e7a da ci\u00eancia com o capitalismo, a permissividade e o excesso nomeiam a nova economia de gozo. Nela, os corpos se degradam, se segregam e se reificam. Isso traz consequ\u00eancias para se pensar o tipo de demanda que a \u00e9poca mobiliza, em um circuito de falar para si, como indica Miller, \u201cele fala para se satisfazer com isso\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Nesse circuito da fala-satisfa\u00e7\u00e3o, na qual se situa a \u201cpalpita\u00e7\u00e3o mais \u00edntima da experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d, tomando de empr\u00e9stimo essa express\u00e3o de Miller, interrogamos: como o analista pode operar diante de \u201cpalpita\u00e7\u00f5es de um gozo\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> (p.77)? Como da\u00ed esperar um dizer?<\/p>\n<p>Nessa dire\u00e7\u00e3o, o discurso anal\u00edtico sustenta um outro uso do Um, assentado na responsabilidade assumida com aquilo que n\u00e3o tem conserto nem nunca ter\u00e1, como bem cantou o nosso Chico Buarque.<\/p>\n<p>O Real assim considerado convoca-nos a interrogar sobre suas respostas a partir das conting\u00eancias na cl\u00ednica. Como o analista opera seguindo uma orienta\u00e7\u00e3o que aponta para o Real?<\/p>\n<p>Nesta IV Jornada da Se\u00e7\u00e3o Nordeste, nos interessa pensar, a partir do ultim\u00edssimo Lacan, o Real em jogo na experi\u00eancia anal\u00edtica, interrogando o espec\u00edfico do discurso anal\u00edtico ao se posicionar de modo diferente em rela\u00e7\u00e3o aos outros discursos. Ao colocar o objeto no lugar do agente, a psican\u00e1lise prop\u00f5e uma cl\u00ednica do gozo, cl\u00ednica do car\u00e1ter exemplar de cada caso, do saber-fazer-a\u00ed com isso, a uma s\u00f3 vez singular e pragm\u00e1tica. Como indica Zenoni<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>, no horizonte de nossa pr\u00e1tica h\u00e1 que se interrogar o gozo que nos habita e n\u00e3o pode ser eliminado, visando torn\u00e1-lo menos devastador e menos invasivo.<\/p>\n<p>Para tanto, \u00e9 fundamental considerar que \u201caquilo a que concerne ao discurso anal\u00edtico \u00e9 o sujeito, o qual, como efeito de significa\u00e7\u00e3o, \u00e9 resposta do Real\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. Conceber o sujeito desta perspectiva \u2013 uma resposta do Real \u2013 conduz Lacan, desde seu primeiro ensino, \u00e0 ideia de um significante assem\u00e2ntico, aquele que n\u00e3o tem nenhuma esp\u00e9cie de sentido.<\/p>\n<p>\u00c9 no <em>Semin\u00e1<\/em><em>rio 23<\/em> que Lacan insiste em dizer que h\u00e1 uma orienta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 o sentido, mas o Real. Ele \u00e9 contundente: \u201ca orienta\u00e7\u00e3o do Real, no territ\u00f3rio que me concerne, foraclui o sentido\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 partindo desse solo lacaniano do qual vocifera a formula\u00e7\u00e3o de que \u201co Real \u00e9 sem lei\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> que pretendemos retirar as consequ\u00eancias cl\u00ednicas do que n\u00e3o \u00e9 determinado por uma lei natural, mas que se apresenta como peda\u00e7os de Real na imprevisibilidade de uma cl\u00ednica sustentada pela desmontagem da defesa contra o Real sem lei e fora do sentido.<\/p>\n<p>Das embrulhadas do sentido ao \u201cReal arriscado\u201d, assim se delineia um Real pr\u00f3prio \u00e0 psican\u00e1lise: o Real contingente, situado no campo da sexualidade, na modalidade do encontro.<\/p>\n<p>Nesta perspectiva, tomemos como ponto de orienta\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica anal\u00edtica hoje a indica\u00e7\u00e3o de Lacan de que o inconsciente \u00e9 real, acrescentando que ele \u00e9 feito do \u201c\u00e1cido da conting\u00eancia\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>, escrita prim\u00e1ria produzida pela percuss\u00e3o do significante no corpo e seus efeitos de gozo.<\/p>\n<p>\u00c9 esta cl\u00ednica das imprevisibilidades do Real o aquil\u00e3o que nos conduzir\u00e1 \u00e0 IV Jornada da Se\u00e7\u00e3o Nordeste. Que cada um possa, a partir de sua pr\u00e1tica cl\u00ednica em consult\u00f3rio ou em outras inser\u00e7\u00f5es, produzir trabalhos a partir de tr\u00eas eixos tem\u00e1ticos:<\/p>\n<p>Eixo 1: As coisas do amor<\/p>\n<p>Eixo 2: As subjetividades contempor\u00e2neas e urg\u00eancias<\/p>\n<p>Eixo 3: A pr\u00e1tica anal\u00edtica nos territ\u00f3rios<\/p>\n<hr \/>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 23: <em>O sinthoma<\/em>. (1975-1976). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 128.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> <em>Idem.<\/em> <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 20: <em>Mais, ainda<\/em>. (1972-1973). 2\u00aa ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. p. 35.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> MILLER, J.-A. <em>Perspectivas do Semin\u00e1rio 23 de Lacan. O Sinthoma<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 77.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 77.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Zenoni, A. Depois do \u00c9dipo, o que se torna a psicose? <em>Quarto<\/em>, n. 104, Bruxelas, 2023..\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> LACAN, J. O aturdito. (1972) In: LACAN, J. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 458.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 23: <em>O sinthoma<\/em>. (1975-1976). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 117<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 133.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Express\u00e3o usado por Jacques-Alain Miller no Curso <em>Todo mundo \u00e9 louco<\/em>, Li\u00e7\u00e3o de 30 de janeiro de 2008.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cleide Monteiro Elizabete Siqueira Coordenadoras da Comiss\u00e3o Cient\u00edfica Com o Real come\u00e7a nosso desafiador percurso como falasseres, desde sempre e para sempre subordinados \u00e0s suas imprevisibilidades. 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