{"id":57622,"date":"2023-08-06T17:08:21","date_gmt":"2023-08-06T20:08:21","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2023\/?p=57622"},"modified":"2023-08-06T17:08:21","modified_gmt":"2023-08-06T20:08:21","slug":"a-loucura-nossa-de-cada-dia1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2023\/a-loucura-nossa-de-cada-dia1\/","title":{"rendered":"A loucura nossa de cada dia(1)"},"content":{"rendered":"<h6><em>Graciela Brodsky<\/em><em>\u00a0<\/em><\/h6>\n<p><em>Rosa Lagos<\/em>: Bom dia. Vamos dar in\u00edcio ao 2\u00b0 Semin\u00e1rio Internacional do CEIP com nossa convidada Graciela Brodsky sobre o tema da loucura, mais especificamente \u201cA loucura nossa de cada dia\u201d. Para n\u00f3s \u00e9 uma honra t\u00ea-la hoje aqui, e lhe passo imediatamente a palavra.<\/p>\n<p><em>Graciela Brodsky<\/em><\/p>\n<p>Hoje se trata de um semin\u00e1rio de estudo sobre um tema preciso: a cl\u00ednica das psicoses, tal como a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana a entende e renova.<\/p>\n<p>Escolhi como t\u00edtulo \u201cA loucura nossa de cada dia\u201d, em primeiro lugar, para distinguir loucura de psicose e, em segundo, para encoraj\u00e1-los a se prepararem, a viajarem ao Rio de Janeiro e participarem do pr\u00f3ximo Encontro Americano do Campo Freudiano, que acontece a cada dois anos, e que vai se realizar em 12 e 13 de junho de 2011. \u00c9 uma atividade que ter\u00e1, certamente, mais de mil participantes, para a qual confluem as Escolas e aqueles que, estando ao redor das Escolas, se interessam pelo momento atual da reflex\u00e3o dos lacanianos sobre a psican\u00e1lise, e que tem por t\u00edtulo: \u201cA sa\u00fade para todos, n\u00e3o sem a loucura de cada um\u201d. Trata-se de um esfor\u00e7o para evidenciar a tens\u00e3o existente entre o empuxo sanitarista, que dita o que devemos comer, quantas horas devemos caminhar, quantos litros de \u00e1gua \u00e9 preciso beber por dia, quantas vitaminas devemos ingerir, enfim, todo o empuxo higienista do mundo contempor\u00e2neo que promove n\u00e3o apenas a sa\u00fade, mas tamb\u00e9m a felicidade para todos.<\/p>\n<p>\u201cTemos que ser saud\u00e1veis\u201d, \u201ctemos que ser felizes\u201d, \u201ctemos que ser lindos\u201d, \u201ctemos que ser magros\u201d \u2013 h\u00e1 uma promo\u00e7\u00e3o para todos nesta dire\u00e7\u00e3o. Assim, constata-se que, ao lado deste empuxo \u2013 que por ser um empuxo ao todo, \u00e9 um empuxo totalit\u00e1rio \u2013, cada um, na intimidade de sua vida, mant\u00e9m sua maluquice pessoal, sua loucura pr\u00f3pria que o leva a fazer dieta o dia inteiro e a esvaziar a geladeira \u00e0 noite, a cuidar estritamente da sua sa\u00fade e a descuidar-se das coisas mais elementares. Leva a planejar a procria\u00e7\u00e3o e acabar engravidando sem se dar conta, a lavar as m\u00e3os quarenta vezes por dia por mais limpas que estejam, a voltar para casa dez vezes para verificar se a torneira de g\u00e1s est\u00e1 bem fechada e a desaparecer quando \u00e9 preciso estar presente, a n\u00e3o fazer um exame quando \u00e9 preciso faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>No entanto, podemos ir mais longe e verificar que o mais surpreendente do empuxo \u00e0 felicidade para todos \u2013 uma felicidade <em>sanitas, <\/em>\u00e9 claro \u2013 \u00e9 que ela vem em paralelo ao conhecimento acerca da depress\u00e3o como a doen\u00e7a de maior incid\u00eancia no mundo. Calcula-se que, em 2020, ela apenas ser\u00e1 superada pelos transtornos card\u00edacos. Todo esse empuxo \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 felicidade tem sido acompanhado por um aumento da depress\u00e3o que ningu\u00e9m entende. Como explic\u00e1-lo? Trata-se desse tipo de paradoxo entre o que se promove, o <em>para todos<\/em>, e a loucura pr\u00f3pria a cada um.<\/p>\n<p>Para abordar essa quest\u00e3o, proponho uma pergunta: O que \u00e9 a cl\u00ednica psicanal\u00edtica? \u00c9 preciso diferenciar a cl\u00ednica psicanal\u00edtica da pr\u00e1tica psicanal\u00edtica, j\u00e1 que s\u00e3o duas coisas distintas.<\/p>\n<p>O que \u00e9 a pr\u00e1tica psicanal\u00edtica? \u00c9 a a\u00e7\u00e3o de levar a cabo algo. Trata-se da oposi\u00e7\u00e3o entre a pr\u00e1xis e a teoria que \u00e9 especulativa, contemplativa, enquanto a pr\u00e1xis implica o ato.<\/p>\n<p>As pr\u00e1ticas s\u00e3o espec\u00edficas; uma pr\u00e1xis \u00e9 uma pr\u00e1tica em particular. Por exemplo, Lacan diz, no <em>Semin\u00e1rio 11<\/em>, que a psican\u00e1lise \u00e9 uma pr\u00e1xis que pretende tratar o real por meio do simb\u00f3lico. Poder\u00edamos dizer tamb\u00e9m que \u00e9 uma pr\u00e1xis que pretende tratar o gozo por meio da palavra. Ela n\u00e3o\u00a0\u00a0 pretende\u00a0\u00a0 tratar\u00a0\u00a0 o\u00a0\u00a0 gozo\u00a0\u00a0 atrav\u00e9s\u00a0\u00a0 de\u00a0\u00a0 exerc\u00edcios espirituais, por meio da gin\u00e1stica ou de medicamentos, nem da higiene, no sentido de uma pr\u00e1tica higienista. Pretende tratar o gozo, que \u00e9 um prazer que traz sofrimento, atrav\u00e9s da palavra.<\/p>\n<p>Do outro lado, temos a cl\u00ednica vista a partir da orienta\u00e7\u00e3o de Lacan. A palavra <em>cl\u00ednica <\/em>vem de <em>Klin\u00e9, <\/em>termo grego que significa cama. Quando foi inaugurada na Fran\u00e7a a primeira Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica em Vincennes-Paris, Lacan disse: \u201c\u00e9 preciso fazer cl\u00ednica, ou seja, deitar-se\u201d. Ele joga precisamente com a palavra <em>cl\u00ednica <\/em>que vem da palavra cama. \u201cA cl\u00ednica est\u00e1 sempre ligada \u00e0 cama; se vai atender algu\u00e9m que est\u00e1 deitado. Era o que o m\u00e9dico fazia tradicionalmente\u201d, ironiza Lacan, \u201ce ent\u00e3o n\u00e3o se encontrou nada melhor que fazer deitar aqueles que se oferecem \u00e0 psican\u00e1lise\u201d &#8211; ou seja, convid\u00e1-los a se deitarem no div\u00e3 \u2013 \u201ccom a esperan\u00e7a de tirar disso algum benef\u00edcio, o qual n\u00e3o est\u00e1 previsto de entrada, \u00e9 preciso dizer\u201d<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p>Trago essa cita\u00e7\u00e3o de Lacan para faz\u00ea-los entender que h\u00e1 de fato um peso que re\u00fane cl\u00ednica e pr\u00e1tica em um mesmo voc\u00e1bulo, que prov\u00e9m fundamentalmente da medicina.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos interessamos por qualquer cl\u00ednica, e sim pela cl\u00ednica psicanal\u00edtica, a cl\u00ednica psicanal\u00edtica das neuroses ou das psicoses, como hoje.<\/p>\n<p>Entendemos a cl\u00ednica como um saber, mais especificamente como um saber que se deposita a partir de uma pr\u00e1tica. Esta \u00e9 repetida, o que gera um saber que se deposita. Esse saber extra\u00eddo de uma pr\u00e1tica \u00e9 o que chamamos uma cl\u00ednica. Enfim, o saber extra\u00eddo de uma pr\u00e1tica se deposita em algum lugar, normalmente em livros que v\u00e3o parar nas bibliotecas; e sobre esse saber reunido nas bibliotecas, se depositam o p\u00f3, as teias de aranha, e geralmente ele termina dormindo nas prateleiras.<\/p>\n<p>Ou seja, se nos dedicamos a explorar a cl\u00ednica \u00e9 para revivific\u00e1-la; n\u00e3o para tom\u00e1-la como um saber constitu\u00eddo de uma vez por todas, mas para espanar os livros, abri-los e ver que cap\u00edtulo novo poderia ser acrescentado ao saber depositado.<\/p>\n<p>Talvez voc\u00eas saibam que Lacan tinha certa avers\u00e3o ao fato de que o que se publicava iria finalmente terminar na lixeira. Por isso, criou um neologismo, <em>poubellication &#8211; <\/em>jogando com a homofonia entre <em>poubelle <\/em>(cesta de lixo) e <em>publication <\/em>(publica\u00e7\u00e3o) &#8211; que podemos traduzir como publixa\u00e7\u00e3o<sup>3<\/sup>, para indicar que o destino final dos livros era a lata de lixo.<\/p>\n<p>Existem pr\u00e1ticas diversas. A medicina, da qual herdamos muito, \u00e9 uma pr\u00e1tica que observa, escuta, apalpa. <em>Escuta <\/em>\u00e9 uma maneira de dizer, j\u00e1 que os m\u00e9dicos escutam pouco, mas o fazem com seus aparelhos: p\u00f5em o estetosc\u00f3pio e escutam, mas preferem que n\u00e3o falemos, como um ginecologista com quem me consultava. Ele se sentava com seu computador \u00e0 minha frente; eu falava e ele escrevia &#8211; nunca me olhava; olhava apenas as partes do corpo que lhe interessavam. Atualmente os m\u00e9dicos observam pouco, escutam pouco, apalpam pouco<strong>, <\/strong>porque entre o m\u00e9dico e o paciente se interp\u00f5e os aparelhos, as barreiras de vidros que n\u00e3o deixam passar os raios, os computadores, enfim, h\u00e1 uma dist\u00e2ncia cada vez maior, mas de qualquer forma isso deu origem ao que se conheceu como a origem da cl\u00ednica. Foucault escreveu um livro inesquec\u00edvel<sup>4<\/sup> que marcou boa parte do nosso saber, que faz refer\u00eancia ao momento em que a cl\u00ednica passou a ser o olhar cl\u00ednico, o olho cl\u00ednico. Efetivamente, h\u00e1 um processo de infer\u00eancia da observa\u00e7\u00e3o, da apalpa\u00e7\u00e3o, das quais se extrai um saber, que serve para classificar. Determinados sintomas s\u00e3o sinais de doen\u00e7as que normalmente correspondem a um \u00f3rg\u00e3o: doen\u00e7as do cora\u00e7\u00e3o, do aparelho digestivo, do sistema nervoso, etc. Mas\u00a0 com\u00a0 o\u00a0 mesmo\u00a0 procedimento\u00a0 do\u00a0 olho\u00a0 cl\u00ednico,\u00a0 da observa\u00e7\u00e3o,\u00a0\u00a0 construiu-se\u00a0\u00a0 tamb\u00e9m\u00a0\u00a0 uma\u00a0\u00a0 psicopatologia. Trata-se de um saber que \u00e9 produto de uma pr\u00e1tica que funcionou\u00a0\u00a0 como\u00a0\u00a0 uma\u00a0\u00a0 pr\u00e1tica\u00a0\u00a0 m\u00e9dica,\u00a0\u00a0 e\u00a0\u00a0 que\u00a0\u00a0 tamb\u00e9m possibilitou uma classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a cardiologia, por exemplo, consegue-se fazer uma classifica\u00e7\u00e3o: de uma pr\u00e1tica se obt\u00e9m uma teoria, dessa teoria se obt\u00e9m uma cl\u00ednica, dessa cl\u00ednica se obt\u00e9m por infer\u00eancia um saber e, finalmente, esse saber \u00e9 referido a um \u00f3rg\u00e3o. A psicopatologia se constr\u00f3i exatamente do mesmo modo que doen\u00e7as do cora\u00e7\u00e3o: todos temos problemas, que n\u00e3o s\u00e3o problemas card\u00edacos; sofremos de amor.<\/p>\n<p>O problema com a psicopatologia \u00e9 que n\u00e3o se sabe a que \u00f3rg\u00e3o referi-la. Temos a pr\u00e1tica, o saber extra\u00eddo da pr\u00e1tica e tamb\u00e9m a classifica\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o se encontra o \u00f3rg\u00e3o ao qual essa patologia se refere. Ent\u00e3o, procura-se as bases org\u00e2nicas; tenta-se encontrar a psique, a alma, o c\u00e9rebro. Basta lembrar a busca das bases fisiol\u00f3gicas da fobia, as bases fisiol\u00f3gicas da esquizofrenia que n\u00e3o se deixa de buscar, as bases fisiol\u00f3gicas do autismo; ou seja, h\u00e1 uma busca, justificada por outro lado j\u00e1 que \u00e9 um m\u00e9todo que, para toda outra patologia, remete a um \u00f3rg\u00e3o. Mas encontramos um m\u00e9todo que, ao final do caminho, n\u00e3o remete a nenhum \u00f3rg\u00e3o, e se entende a busca do \u00f3rg\u00e3o que daria conta desta patologia especial.<\/p>\n<p>A psicopatologia \u00e9 um saber extra\u00eddo de uma pr\u00e1tica, a psiquiatria, que oferece uma classifica\u00e7\u00e3o muito \u00fatil, da qual nos servimos: neurose, pervers\u00e3o, psicoses que incluem a paranoia e as esquizofrenias, as manias e as melancolias. Nas neuroses s\u00e3o inclu\u00eddas a histeria, a fobia e a obsess\u00e3o, com a pergunta se a fobia tem o mesmo estatuto que a histeria e a obsess\u00e3o. \u00c9 uma classifica\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica, proveniente de uma pr\u00e1tica m\u00e9dica em torno da qual se construiu toda uma psicopatologia e tamb\u00e9m se obteve uma tipologia, tipos de sintomas: o tipo de sintoma hist\u00e9rico \u00e9 completamente diferente do tipo de sintoma obsessivo; o sintoma esquizofr\u00eanico \u00e9 totalmente distinto do sintoma paranoico. Essa tipologia obriga a dizer tamb\u00e9m que na verdade um sintoma obsessivo n\u00e3o tem muito a ver com um sintoma hist\u00e9rico, que eles s\u00e3o radicalmente diferentes. Por\u00e9m, o significado que tem um sintoma obsessivo para um sujeito nada tem a ver com o significado que tem o mesmo sintoma obsessivo para outro sujeito. Por exemplo: o significado que tem para um sujeito lavar as m\u00e3os vinte vezes por dia, em nada esclarece porque outro sujeito lava as m\u00e3os vinte vezes por dia, apesar de ser o mesmo sintoma e corresponder \u00e0 mesma estrutura. Ou seja, existe a estrutura, o tipo de sintoma, mas, al\u00e9m disso, h\u00e1 o sentido singular que o sintoma tem para cada um, que constitui uma especificidade totalmente peculiar. Um psicanalista n\u00e3o se pergunta, ao receber um paciente card\u00edaco, qual \u00e9 o sentido, mesmo que este paciente fale na an\u00e1lise do sentido que tem para ele seu sintoma card\u00edaco: \u201cisso n\u00e3o teria ocorrido se tivesse feito isto ou aquilo\u201d; ou em doen\u00e7as muito mais s\u00e9rias, como o c\u00e2ncer, nas quais a pergunta \u00e9: \u201cpor que isso aconteceu comigo?\u201d, e se tenta encontrar nas coordenadas da sua vida, olhando com lupa, uma causalidade que nada tem a ver com a causalidade biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O segundo ponto dessa introdu\u00e7\u00e3o se refere ao seguinte: se uma cl\u00ednica \u00e9 o que se extrai de uma pr\u00e1tica, entende-se que a decad\u00eancia de uma pr\u00e1tica acarrete a decad\u00eancia de uma cl\u00ednica. Se a pr\u00e1tica desaparece, a cl\u00ednica desaparece, j\u00e1 que uma depende da outra. A cl\u00ednica \u00e9, de certa maneira, subsidi\u00e1ria da pr\u00e1tica. Na verdade, podemos falar de uma decad\u00eancia da cl\u00ednica psiqui\u00e1trica. Por exemplo, no caso das doen\u00e7as mentais, \u00e0 medida que a pr\u00e1tica se modifica, \u00e0 medida que elas s\u00e3o tratadas com psicof\u00e1rmacos, os quadros psiqui\u00e1tricos come\u00e7am a se nivelar. A diferen\u00e7a predominante entre esquizofrenia e paranoia come\u00e7a ser perdida, porque os quadros n\u00e3o evoluem, produzindo\u00a0 certo\u00a0 achatamento\u00a0 da\u00a0 cl\u00ednica.\u00a0 Esta\u00a0 \u00e9 a consequ\u00eancia de tratar a doen\u00e7a mental com psicof\u00e1rmacos. N\u00e3o se trata de nos colocarmos contra os psicof\u00e1rmacos; eles s\u00e3o bem-vindos quando necess\u00e1rios, mas \u00e9 preciso destacar que us\u00e1-los para tratar a doen\u00e7a mental produziu um desaparecimento da cl\u00ednica psiqui\u00e1trica. Devemos lembrar que esta cl\u00ednica era a da observa\u00e7\u00e3o do detalhe, o que levou os grandes alienistas a viverem nos hosp\u00edcios. Eles seguiam a evolu\u00e7\u00e3o do paciente dia a dia, hora a hora, moravam nos hosp\u00edcios. O desaparecimento deste tipo de cl\u00ednica que exigia um contato permanente entre o psiquiatra e o louco, ocorre com o tratamento farmacol\u00f3gico da psicose,\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 fazendo\u00a0\u00a0 com\u00a0\u00a0 que\u00a0\u00a0 o\u00a0\u00a0 psiquiatra\u00a0\u00a0 pade\u00e7a\u00a0\u00a0 do desaparecimento\u00a0\u00a0 da\u00a0\u00a0 cl\u00ednica\u00a0\u00a0 e,\u00a0\u00a0 consequentemente,\u00a0\u00a0 do desaparecimento da psiquiatria.<\/p>\n<p>A cl\u00ednica dos grandes quadros psiqui\u00e1tricos tende a desaparecer. O DSM IV j\u00e1 eliminou, por exemplo, a histeria, e parece que o DSM V tender\u00e1 a eliminar mais quadros. \u00c9 \u00e0 medida que se perde uma pr\u00e1tica que uma cl\u00ednica perde seus contornos, porque a cl\u00ednica \u00e9 um saber emp\u00edrico \u2013 n\u00e3o se trata de um saber cient\u00edfico \u2013 dependente da pr\u00e1tica que o gera. N\u00e3o \u00e9 como as leis da gravidade, ou a observa\u00e7\u00e3o sobre o ponto de ebuli\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, que ferve aos 100\u00b0 h\u00e1 muito tempo. Supomos que ir\u00e1 continuar fervendo a 100\u00b0 por muito tempo ainda; n\u00e3o sabemos se para sempre, mas supomos que isso durar\u00e1 um pouco. Ao contr\u00e1rio, no que se refere \u00e0 histeria como entidade cl\u00ednica, ser\u00e1 preciso esperar para saber se ela durar\u00e1 mais algum tempo. Recordemos que, at\u00e9 certo momento, a histeria n\u00e3o existia; ela apareceu em um momento do desenvolvimento da cultura e est\u00e1 em vias de extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O saber que nos ocupa, o saber da cl\u00ednica, \u00e9 um saber mutante. A cl\u00ednica da qual nos ocupamos \u00e9 sens\u00edvel ao Outro social: se o Outro muda, muda a cl\u00ednica, uma vez que a cl\u00ednica n\u00e3o est\u00e1 dada no real. A cl\u00ednica psicanal\u00edtica decorre\u00a0 da\u00a0 pr\u00e1tica\u00a0 da\u00a0 psican\u00e1lise.\u00a0 Efetivamente, ao falarmos da cl\u00ednica da neurose n\u00e3o lhe damos o mesmo sentido que a psiquiatria lhe confere; partimos de outro tipo de refer\u00eancia, falamos a partir da psican\u00e1lise: falamos do Outro para a histeria e para obsess\u00e3o, do desejo na histeria e na obsess\u00e3o, da fun\u00e7\u00e3o do pai na histeria e na obsess\u00e3o. Embora empreguemos as mesmas palavras <em>histeria <\/em>e <em>obsess\u00e3o<\/em>, n\u00e3o lhes damos o mesmo sentido que a psiquiatria. Ao dizermos que a cl\u00ednica psicanal\u00edtica \u00e9 um saber que se deposita a partir da pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, dizemos que \u00e9 uma cl\u00ednica que depende da transfer\u00eancia, que \u00e9 o que sustenta a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise. Foi o que levou Jacques-Alain Miller a escrever um famoso artigo chamado \u201cCl\u00ednica sob transfer\u00eancia\u201d<sup>5<\/sup>.<\/p>\n<p>Nossa cl\u00ednica depende do la\u00e7o transferencial entre um analisante e um analista, o que permite dizer que a cl\u00ednica psicanal\u00edtica \u00e9 cem por cento dependente de que se pratique a psican\u00e1lise. Se uma cat\u00e1strofe natural eliminasse da face da terra os psicanalistas, como eliminou os dinossauros, a psican\u00e1lise como pr\u00e1tica se extinguiria e, consequentemente, n\u00e3o haveria mais um saber cl\u00ednico extra\u00eddo da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>A lei da gravidade continuar\u00e1 existindo ainda que os f\u00edsicos sejam exterminados, mas a psican\u00e1lise n\u00e3o existiria se os psicanalistas fossem exterminados. Ent\u00e3o, o que fazer para que existam psicanalistas? A resposta n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil porque a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma carreira que se estuda na universidade, embora existam, nas carreiras universit\u00e1rias, mat\u00e9rias psicanal\u00edticas. Para que exista psicanalista \u00e9 necess\u00e1rio existirem pacientes. Um psicanalista s\u00f3 \u00e9 psicanalista porque analisa; um psicanalista que n\u00e3o analisa n\u00e3o \u00e9 um psicanalista. \u00c9 o que o torna diferente, por exemplo, de um advogado &#8211; mesmo que ele n\u00e3o conduza nenhum caso, continuar\u00e1 sendo advogado -, ou de um m\u00e9dico que, embora se dedique a outra coisa, continuar\u00e1 a ser m\u00e9dico. Mas um psicanalista que n\u00e3o se dedica \u00e0 pr\u00e1tica da psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 psicanalista. Da\u00ed tudo o que requer a exist\u00eancia da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. E quando se trata da psicose, ela dever\u00e1 ser definida a partir de uma cl\u00ednica que depende de uma pr\u00e1tica que, por sua vez, depende da pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, a qual depende que existam psicanalistas que, por sua vez, dependem da exist\u00eancia de analisandos &#8211; ou seja, pessoas que pensam que seu sofrimento tem uma causa e que essa causa tem um sentido, e v\u00e3o buscar o sentido de seu sofrimento junto a um analista que, por sua vez, se analisou, fez em sua pr\u00f3pria carne a experi\u00eancia do inconsciente. Pois ningu\u00e9m \u00e9 psicanalista se n\u00e3o se analisou; isso se chama impostura.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, \u00e0 medida que a psican\u00e1lise progride, que ela \u00e9 mais praticada, \u00e9 praticada n\u00e3o apenas no consult\u00f3rio, como a praticava Freud em Viena, mas tamb\u00e9m em lugares muito distantes entre si, da Argentina \u00e0 China, do Chile \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em bairros pobres, em bairros ricos, nos hospitais e nas pris\u00f5es, \u00e0 medida que a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise muda, muda tamb\u00e9m a cl\u00ednica.<\/p>\n<p>A cl\u00ednica psicanal\u00edtica que nos ocupa aqui n\u00e3o \u00e9 exatamente a mesma cl\u00ednica da qual Lacan falava. E a cl\u00ednica da qual falava Lacan n\u00e3o \u00e9 exatamente a mesma cl\u00ednica da qual Freud falava. Em suma, a renova\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica da psican\u00e1lise renova a cl\u00ednica psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>Para Freud, havia neurose de transfer\u00eancia e estruturas que n\u00e3o se submetiam \u00e0 transfer\u00eancia; ele pensava que na psicose n\u00e3o havia transfer\u00eancia, e assim que os psic\u00f3ticos n\u00e3o eram analis\u00e1veis. Lacan ampliou esse campo indicando que havia transfer\u00eancia na psicose, mas uma transfer\u00eancia que obrigava o analista a ter muitas precau\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a ela. A partir disso se pode afirmar que em nenhum lugar a tens\u00e3o entre a pr\u00e1tica e a cl\u00ednica \u00e9 t\u00e3o patente como na psicose.<\/p>\n<p>Lacan, \u00e0 diferen\u00e7a de Freud e respondendo a Freud, dizia que o psicanalista n\u00e3o deve retroceder frente \u00e0 psicose, e que a pr\u00e1tica psicanal\u00edtica com essa estrutura \u00e9 uma pr\u00e1tica da palavra. N\u00e3o \u00e9 uma pr\u00e1tica do eletrochoque nem do medicamento, embora ele seja \u00e0s vezes necess\u00e1rio, mas n\u00e3o \u00e9 o que cabe ao psicanalista. \u00c9 uma pr\u00e1tica da palavra. A cl\u00ednica psicanal\u00edtica enriqueceu-se a partir da amplia\u00e7\u00e3o feita por Lacan da pr\u00e1tica psicanal\u00edtica \u00e0 psicose.<\/p>\n<p>Como Freud procedeu? Freud come\u00e7ou pela neurose, pelas pacientes que lhe chegavam de Charcot, enfim como a \u00faltima esperan\u00e7a. Pensou que o que descobriu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 neurose podia ser estendido, por exemplo, ao sonho, \u00e0 psicopatologia da vida cotidiana, pensou que dentro da neurose poderiam ser distinguidas v\u00e1rias formas de neurose. Foi assim que Freud, gra\u00e7as \u00e0s hist\u00e9ricas, encontrou a via de entrada para a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>O terreno das psicoses foi tocado de forma tangencial. Vemos isso no \u201cManuscrito H\u201d que Freud envia a Fliess, no qual inclui um relato cl\u00ednico sobre um caso de paranoia, definindo-a, n\u00e3o como uma psicose, mas como uma neurose de defesa, cujo principal mecanismo era a proje\u00e7\u00e3o. A partir da\u00ed n\u00e3o cessar\u00e1 de investigar essa hip\u00f3tese, desde os trabalhos que lhe servem para sustent\u00e1-la at\u00e9 aqueles como \u201cUm caso de paranoia que contradiz a teoria psicanal\u00edtica\u201d (1915). Contudo, ser\u00e1 no ver\u00e3o de 1910 que as <em>Mem\u00f3rias de um doente dos nervos <\/em>de Daniel Paul Schreber chamaram sua aten\u00e7\u00e3o. Toda a elabora\u00e7\u00e3o de Freud sobre a psicose, que continuamos usando at\u00e9 hoje, ele n\u00e3o a obteve a partir da pr\u00e1tica da psicose, mas desse texto escrito por um psic\u00f3tico. Ser\u00e1 na medida em que Lacan introduz a pr\u00e1tica com o psic\u00f3tico na pr\u00e1tica psicanal\u00edtica que a perspectiva muda, e de tal maneira que, no final de seu ensino, a neurose \u00e9 para Lacan um caso especial de psicose, ou para dizer de uma maneira mais suave, a neurose \u00e9 um caso especial de loucura. Entende-se que a partir disso, eu diga: <em>a loucura nossa de cada dia<\/em>.<\/p>\n<p>Para\u00a0 Freud,\u00a0 a\u00a0 psicose\u00a0 tinha\u00a0 basicamente\u00a0 dois momentos: um de retra\u00e7\u00e3o libidinal, no qual a libido era retirava do mundo externo, deixando-o deslibidinizado, o que trazia como consequ\u00eancia a perda da realidade. Para Freud esse era o per\u00edodo silencioso da psicose. Ao per\u00edodo de retra\u00e7\u00e3o se seguia um segundo momento, o da eclos\u00e3o da doen\u00e7a, que \u00e9 o que clinicamente se dizia como: \u201cficou louco\u201d. \u00c9 o propriamente delirante ou alucinat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A extens\u00e3o da pr\u00e1tica psicanal\u00edtica ao campo das psicoses levou Lacan a escrever: \u201cTodo mundo \u00e9 louco\u201d<sup>6<\/sup>. Foi em uma carta, <em>\u00c0 Vincennes<\/em>, de 10 de outubro 1978, ap\u00f3s seu Semin\u00e1rio <em>O momento de concluir <\/em>(1977-78). Lacan a escreve, a pedido de Jacques-Alain Miller, para a faculdade de Vincennes, onde funcionava a Universidade de Paris VIII (c\u00e1tedra de Psican\u00e1lise). Miller lhe solicita que escreva para poder defender a quest\u00e3o impl\u00edcita no ensino da psican\u00e1lise: \u201cComo fazer para ensinar o que n\u00e3o se ensina?\u201d, acrescentando que, como Freud j\u00e1 assinalara, \u201ctudo era somente um sonho e que todo mundo (se uma express\u00e3o assim pode ser usada), todo mundo \u00e9 louco, ou seja, delirante\u201d<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<p>\u00c9 importante entender em que momento Lacan escreve isto: nos anos 70. Sua pr\u00f3pria pr\u00e1tica mudara. J\u00e1 n\u00e3o se trata de Lacan em rela\u00e7\u00e3o a Freud, mas sim de Lacan em rela\u00e7\u00e3o a ele mesmo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso destacar isto porque Lacan, em seu per\u00edodo cl\u00e1ssico, por volta de 1958, escreveu seus tr\u00eas ou quatro textos mais conhecidos, seus semin\u00e1rios mais fulgurantes, e foi um momento muito peculiar. Nesse per\u00edodo escreveu: \u201cA significa\u00e7\u00e3o do falo\u201d, \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d, \u201cDiretrizes para um congresso sobre a sexualidade feminina\u201d. O Lacan de \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar&#8230;\u201d atendia pacientes no hospital de <em>Sainte-Anne<\/em>, e havia escrito na parede da sala de plant\u00e3o onde trabalhava: \u201c<em>n\u00e3o fica louco quem quer<\/em>\u201d<sup>8<\/sup><em>, mas quem <\/em><em>pode<\/em>, indicando que para ser louco era preciso cumprir certos requisitos que n\u00e3o estavam ao alcance de todo mundo. Se aproximarmos o que Lacan escreveu nos anos 50, no frontisp\u00edcio da sala de plant\u00e3o de Sainte-Anne, com o que ele disse vinte anos mais tarde: <em>todo mundo \u00e9 louco, <\/em>veremos que ele est\u00e1 dizendo exatamente o oposto. Dizer <em>n\u00e3o \u00e9 louco quem quer, mas quem pode, <\/em>restringia enormemente a possibilidade de ser louco, ao passo que <em>todo mundo \u00e9 louco<\/em>, a generaliza.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma mudan\u00e7a radical na pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o de Lacan sobre a loucura dos anos 50 aos anos 70, e \u00e9 essa transforma\u00e7\u00e3o e seus fundamentos o que precisa ser entendido por quem se dedica a estudar a psicose segundo a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana.<\/p>\n<p>Eis ent\u00e3o, as duas consequ\u00eancias cl\u00ednicas fundamentais: a primeira \u00e9 a mudan\u00e7a de perspectiva sobre a psicose e o ponto de chegada de Lacan, esta ideia de que <em>todo mundo \u00e9 louco, ou seja, delirante<\/em>; a segunda, a categoria cl\u00ednica que n\u00e3o \u00e9 de Lacan, mas de Jacques-Alain Miller por ele nomeada: <em>psicoses ordin\u00e1rias<\/em>.<\/p>\n<p>A primeira cl\u00ednica das psicoses a partir de Lacan foi a cl\u00ednica estruturalista, tornando-se depois a cl\u00ednica borromeana, ou seja, a segunda cl\u00ednica lacaniana das psicoses. Esta \u00faltima, com sua m\u00e1xima: \u201dtodo mundo \u00e9 louco, ou seja, delirante\u201d, invalida, ridiculariza a ideia de cura, relativiza o efeito terap\u00eautico, e arru\u00edna, destr\u00f3i toda refer\u00eancia \u00e0 normalidade. Efetivamente, se todo mundo delira, onde est\u00e1 a normalidade? A normalidade \u00e9 um del\u00edrio.<\/p>\n<p>Assim, a segunda cl\u00ednica lacaniana das psicoses n\u00e3o s\u00f3 destr\u00f3i toda ideia de cura, toda ideia de terap\u00eautica, toda ideia de normalidade, mas tamb\u00e9m amplia o conceito de sintoma, extraindo-o do lugar que ele ocupava nas neuroses. Lacan muda a escrita do sintoma, escreve-o com <em>th, <\/em>recuperando uma terminologia antiga. Assim, a partir dos anos 70, o <em>sinthoma <\/em>passa a ser o nome do incur\u00e1vel, \u00e0 diferen\u00e7a precisamente da cl\u00ednica freudiana na qual o sintoma era o que deveria ser curado.<\/p>\n<p>O que a psicose ensina \u00e0 psican\u00e1lise? E por que podemos dizer que todo mundo delira, que todo mundo \u00e9 louco? Trago oito refer\u00eancias tomadas de Jacques-Alain Miller, visando desenvolver cada uma:<\/p>\n<p>A primeira pertence ao <em>Discurso de abertura do Servi\u00e7o de Jacques Lacan <\/em>de 1983, em que J.-A. Miller diz:<\/p>\n<blockquote><p>O psic\u00f3tico \u00e9 um sujeito que verifica em seu sofrimento o estatuto de ser falado, estatuto que o neur\u00f3tico esquece ao identificar-se com o sujeito que fala; o neur\u00f3tico pensa que ele \u00e9 quem fala, esquece que \u00e9 falado, enquanto o psic\u00f3tico o diz abertamente, sofre por ser falado pelo Outro.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ele sabe que o Outro lhe fala, fala com ele atrav\u00e9s da televis\u00e3o, atrav\u00e9s das conex\u00f5es el\u00e9tricas. Sabe que a palavra vem do Outro, diferentemente do neur\u00f3tico que acredita que a palavra vem dele mesmo. Est\u00e1 louco.<\/p>\n<p>A segunda, que extrai de um texto de J.-A. Miller chamado \u201cIronia<em>\u201d<\/em><sup>9<\/sup>, diz:<\/p>\n<blockquote><p>O del\u00edrio e a alucina\u00e7\u00e3o revelam que a refer\u00eancia da linguagem n\u00e3o existe, coisa que o neur\u00f3tico esquece, e que cada vez que falamos n\u00e3o fazemos outra coisa sen\u00e3o falar de coisas inexistentes, que essa \u00e9 a natureza mesma do fato de falar e mais ainda, que a cl\u00ednica psicanal\u00edtica, tal como Freud a estruturou, parte da considera\u00e7\u00e3o de um objeto inexistente, que \u00e9 preciso ver em que se diferencia dos objetos inexistentes que constituem a interroga\u00e7\u00e3o do psic\u00f3tico. Freud organiza a cl\u00ednica das neuroses em torno do falo materno, objeto inexistente, compar\u00e1vel ao do del\u00edrio, coisa que o neur\u00f3tico esquece.<\/p><\/blockquote>\n<p>J.-A. Miller termina esse texto de forma muito comovente:<\/p>\n<blockquote><p>[&#8230;] me ocorreu, quando inaugurei o primeiro servi\u00e7o psiqui\u00e1trico batizado Jacques Lacan, dar uma pequena orienta\u00e7\u00e3o elementar para o praticante e acrescentaria agora algo mais: diante do louco, diante do delirante nunca esque\u00e7as que tu, que fostes\u00a0 analisante,\u00a0 tamb\u00e9m\u00a0 falavas\u00a0 do\u00a0 que\u00a0 n\u00e3o existe.<\/p><\/blockquote>\n<p>A terceira, eu a retirei de um texto que se chama<\/p>\n<p><em>Mostra\u00e7\u00e3o em Premontr\u00e9<\/em><sup>10<\/sup>:<\/p>\n<blockquote><p>[&#8230;] a experi\u00eancia da psicose \u00e9 fundamental para justificar que acrescentemos aos objetos freudianos (os objetos freudianos s\u00e3o o seio e as fezes, o falo), esses objetos lacanianos que s\u00e3o o olhar e a voz, e que apenas revelam sua verdadeira estrutura na experi\u00eancia delirante, na experi\u00eancia alucinat\u00f3ria [&#8230;].<\/p><\/blockquote>\n<p>Ou seja, quando se presentifica <em>o Outro me fala, o Outro fala de mim, o Outro me olha<\/em>. Assim, a amplia\u00e7\u00e3o da lista dos objetos que inclui a voz e o olhar n\u00e3o teria sido poss\u00edvel sen\u00e3o a partir da experi\u00eancia do psic\u00f3tico, que padece fundamentalmente destes objetos, e n\u00e3o dos objetos da demanda: o seio, as fezes, nem dos objetos do desejo, o falo. O psic\u00f3tico padece destes objetos, o olhar e a voz, que depois tamb\u00e9m ser\u00e3o encontrados nas neuroses.<\/p>\n<p>A quarta foi extra\u00edda de um curso de Miller, <em>Os signos do gozo<\/em><sup>11<\/sup>:<\/p>\n<blockquote><p>[&#8230;] o pr\u00f3prio do significante n\u00e3o \u00e9 ter efeitos de significado, o pr\u00f3prio do significante \u00e9 ter efeitos de gozo e \u00e9 disso que sofre a experi\u00eancia psic\u00f3tica e que a experi\u00eancia neur\u00f3tica esquece, alienada no efeito imagin\u00e1rio de significa\u00e7\u00e3o. O neur\u00f3tico busca a significa\u00e7\u00e3o, o psic\u00f3tico sabe que n\u00e3o significa nada, mas que a palavra introduz gozo no corpo.<\/p><\/blockquote>\n<p>A quinta \u00e9 uma reflex\u00e3o extra\u00edda a partir do <em>Semin\u00e1rio<\/em><\/p>\n<p><em>23 <\/em>de Lacan, em <em>Os signos do gozo <\/em>de J.-A. Miller:<\/p>\n<blockquote><p>O pr\u00f3prio estatuto do inconsciente, como cadeia de significantes decifr\u00e1vel, \u00e9 um produto do dispositivo anal\u00edtico, porque o verdadeiro estatuto do inconsciente \u00e9 ser S<sub>1<\/sub>, um significante sozinho, ou um enxame de significantes sozinhos que n\u00e3o formam nenhuma cadeia e que, consequentemente, n\u00e3o t\u00eam nenhum sentido; da\u00ed o interesse de Lacan pela obra de um psic\u00f3tico, Joyce, que \u00e9 um desabonado do inconsciente, ou seja, que n\u00e3o \u00e9 capturado, como os neur\u00f3ticos, pelos efeitos do sentido das palavras e que, pelo contr\u00e1rio, tritura o efeito de sentido.<\/p><\/blockquote>\n<p>A experi\u00eancia deste psic\u00f3tico genial, Joyce, que tritura a l\u00edngua, que pode escrever fazendo neologismos em quatro ou cinco l\u00ednguas diferentes, imposs\u00edvel de ler sen\u00e3o em voz alta, porque quando se l\u00ea em voz alta escuta-se o jogo de palavras. \u00c9 assim que se deve ler Joyce, para que o leitor n\u00e3o se perca totalmente, pois n\u00e3o se sabe do que est\u00e1 falando. Para ler Joyce, \u00e9 preciso l\u00ea-lo em voz alta, como a interpreta\u00e7\u00e3o. Joyce tritura o efeito de sentido, \u00e9 um desabonado do inconsciente, ou seja, n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que se pergunta: \u201co que isso quer dizer?\u201d, \u201cpor que isso acontece comigo?\u201d, \u201co que isso significa?\u201d; ele n\u00e3o se coloca esse problema neur\u00f3tico. A partir de Joyce podemos estabelecer que h\u00e1 um outro estatuto do inconsciente, que n\u00e3o \u00e9 o inconsciente-cadeia &#8211; a cadeia de significantes, S<sub>1<\/sub>\u2013S<sub>2<\/sub>, o S<sub>2<\/sub> definindo o sentido de S<sub>1<\/sub> -, um estatuto do inconsciente que J.-A. Miller chamou depois de inconsciente real, distinto do inconsciente transferencial. \u00c9 um estatuto do inconsciente que n\u00e3o tem nenhum sentido e que Lacan esbo\u00e7a ao se perguntar qual \u00e9 o estatuto do inconsciente no final da an\u00e1lise.<\/p>\n<p>O final de an\u00e1lise, para Lacan, \u00e9 concebido n\u00e3o tanto do lado da cura e da decifra\u00e7\u00e3o do sentido dos sintomas. O final de an\u00e1lise para Lacan \u00e9 concebido a partir da perspectiva do desabonado do inconsciente, ou seja, daquele que faz caducar sua subscri\u00e7\u00e3o \u00e0 busca do sentido do sentido. Gra\u00e7as a Joyce, Lacan transforma seu conceito de inconsciente e seu conceito de final da an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Extrai a sexta indica\u00e7\u00e3o de <em>Os casos raros inclassific\u00e1veis da cl\u00ednica psicanal\u00edtica <\/em><sup>12<\/sup>:\u201dO Nome-do-Pai n\u00e3o passa de um sintoma contingente entre outros, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas amarrar tr\u00eas registros: real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m extra\u00ed a s\u00e9tima indica\u00e7\u00e3o de <em>Os casos raros inclassific\u00e1veis [&#8230;]: <\/em>\u201cO enigma \u00e9 uma norma, porque o normal, contrariamente ao que acredita o neur\u00f3tico, n\u00e3o \u00e9 a articula\u00e7\u00e3o do significante com o significado\u201d.<\/p>\n<p>E a oitava: \u201c[&#8230;] o sintoma j\u00e1 n\u00e3o serve agora para diferenciar neurose e psicose\u201d.<\/p>\n<p>Poderia afirmar que se seguirmos a l\u00f3gica dessas indica\u00e7\u00f5es &#8211; \u00e9 o que deveria ser feito &#8211; poder\u00edamos verificar que, assim como Freud buscou as estruturas da neurose no sonho, para Lacan a psicose n\u00e3o apenas ilumina a estrutura da neurose, mas revela o estatuto do inconsciente, o estatuto do Outro, o estatuto do objeto <em>a<\/em>, colocando em evid\u00eancia a natureza tanto do sintoma como do sujeito analisado.<\/p>\n<p>\u00c9 uma maneira de dar oito argumentos que permitem ver o que o psic\u00f3tico ensina \u00e0 psican\u00e1lise: o psic\u00f3tico evidencia aquilo que a neurose desconhece; da\u00ed ent\u00e3o, indubitavelmente, a dignidade do psic\u00f3tico em rela\u00e7\u00e3o ao neur\u00f3tico.<\/p>\n<p>A primeira cl\u00ednica de Lacan, baseada na foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai, colocava o acento naquilo que faltava ao psic\u00f3tico para ser como o neur\u00f3tico. Faltava-lhe um significante fundamental do qual o neur\u00f3tico dispunha. Gra\u00e7as a esse significante que o neur\u00f3tico possu\u00eda, ele podia significantizar o gozo do seu corpo e o gozo do corpo do Outro com um significante de uso compartilhado, que \u00e9 o significante f\u00e1lico e a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica.<\/p>\n<p>A primeira cl\u00ednica de Lacan sobre a psicose acentuava o <em>d\u00e9ficit <\/em>do psic\u00f3tico, o que faltava em sua estrutura; j\u00e1 a segunda cl\u00ednica de Lacan sobre a psicose \u00e9 exatamente o oposto, mostra a liberdade, uma liberdade dolorosa certamente: o ponto em que o psic\u00f3tico revela n\u00e3o o <em>d\u00e9ficit<\/em>, mas a estrutura de uma maneira muito mais pat\u00e9tica que o neur\u00f3tico.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso fazer refer\u00eancia a um texto fundamental de Freud, \u201cA perda da realidade na neurose e na psicose\u201d. \u00c9 nosso texto de refer\u00eancia para perceber o enraizamento freudiano dessa \u00faltima \u00e9poca do ensino de Lacan.<\/p>\n<p>Para Freud, a realidade \u00e9 perdida tanto na neurose como na psicose. O ponto de partida freudiano \u00e9 efetivamente a perda da realidade, ou seja, a retirada da libido dos objetos da realidade.<\/p>\n<p>Voc\u00eas sabem que, para Freud, um objeto existe na medida em que \u00e9 libidinizado; se n\u00e3o \u00e9 investido libidinalmente, o objeto \u00e9 inexistente. Freud, que antes havia dito que nas psicoses a libido era retirada enquanto na neurose n\u00e3o, retifica esta ideia nesse texto crucial, em que diz que a realidade est\u00e1 perdida para ambas. Surge ent\u00e3o a pergunta: o que substitui a realidade perdida? Essa \u00e9 a interroga\u00e7\u00e3o desse texto.<\/p>\n<p>Para Freud n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: na psicose, o que substitui a realidade perdida \u00e9 o del\u00edrio. Mas, uma vez que a estrutura \u00e9 decidida, a realidade \u00e9 perdida pelo abandono das catexias libidinais. Freud prop\u00f5e que, de acordo com a estrutura, a realidade perdida pode ser substitu\u00edda por elementos hom\u00f3logos ao del\u00edrio; hom\u00f3logos enquanto t\u00eam a mesma estrutura e n\u00e3o fazem parte da psicose.<\/p>\n<p>Freud trabalha especialmente dois: em primeiro lugar a fantasia, que no neur\u00f3tico \u00e9 hom\u00f3loga ao del\u00edrio do psic\u00f3tico. A fantasia, e se a traduzirmos em termos lacanianos, o fantasma, tem exatamente essa mesma fun\u00e7\u00e3o de supl\u00eancia. E em segundo lugar, o sonho diurno, esse fantasiar que se assemelha ao do sonho, por\u00e9m em vig\u00edlia, e que tem um uma rela\u00e7\u00e3o muito \u00edntima com a fantasia e o fantasma. \u00c9 uma realidade de substitui\u00e7\u00e3o. Trata-se da dial\u00e9tica entre a realidade e a substitui\u00e7\u00e3o, que permite situar uma quantidade de fen\u00f4menos no mesmo lugar do del\u00edrio na psicose.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 a for\u00e7a dessa ideia para Freud que ele a levar\u00e1 ao ponto do que formula, em 1938, como as constru\u00e7\u00f5es em an\u00e1lise. No texto citado, afirma que nem tudo na an\u00e1lise pode ser recordado; que a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o consegue levantar o reprimido. Apareceriam buracos negros, densos e, ao mesmo tempo, opacos, e seria ent\u00e3o a constru\u00e7\u00e3o que o analista fizer o que viria ocupar, como o del\u00edrio, o lugar do que n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do sujeito. Freud o compara ao del\u00edrio, ou seja, este peda\u00e7o da realidade que n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, e que o analista constr\u00f3i, como faz o psic\u00f3tico quando constr\u00f3i algo sobre o buraco existente na realidade, a partir de ter retirado dela as catexias, e isso tem um valor de convencimento como verdade. Quando a constru\u00e7\u00e3o funciona, ela tem a mesma for\u00e7a probat\u00f3ria de convencimento que a realidade hist\u00f3rica. Como quando se diz: <em>\u00e9 isso! <\/em>E nota-se a dimens\u00e3o da certeza obtida, equivalente \u00e0 dimens\u00e3o da certeza no del\u00edrio.<\/p>\n<p>Nesse esquema, Freud situa a fantasia, o fantasma, o sonho diurno, propondo a religi\u00e3o como um del\u00edrio. Diz que, frente \u00e0quilo que um sujeito n\u00e3o consegue explicar, ele constr\u00f3i um del\u00edrio religioso, que pode ser compartilhado ou particular; por exemplo, o que faz com que, antes de subir em um avi\u00e3o, seja necess\u00e1rio realizar certos rituais para evitar que ele caia. Isto \u00e9, pequenos ritos conjurat\u00f3rios, pequenas pr\u00e1ticas supersticiosas, que constituem a religi\u00e3o particular de cada um. Cada um sabe o que deve fazer para ser aprovado num exame, ou para que um familiar n\u00e3o morra, que recursos m\u00e1gicos deve usar nessa pequena religi\u00e3o particular que cada um inventa, e que Freud compara ao del\u00edrio.<\/p>\n<p>Ao retomar esta ideia de Freud, Lacan a lapida, dizendo que h\u00e1 diferentes maneira pelas quais a realidade \u00e9 perdida. Assinala tr\u00eas grandes mecanismos de perda da realidade: o recalque, a denega\u00e7\u00e3o e a foraclus\u00e3o \u2013 <em>Verneinung, Verleugnung, Verwerfung<\/em>. O primeiro ensino de Lacan tenta pensar as estruturas cl\u00ednicas segundo esses tr\u00eas mecanismos, para dizer que n\u00e3o se perde a realidade da mesma forma na neurose e na psicose: na neurose ela \u00e9 perdida por recalque, na pervers\u00e3o por denega\u00e7\u00e3o, e na psicose por foraclus\u00e3o, tratando assim de utilizar essas refer\u00eancias para distinguir o campo.<\/p>\n<p>O que ficou como o esquema lacaniano da psicose foi a foraclus\u00e3o. Mas se lermos Lacan mais atentamente, nos daremos conta de que as coisas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o claras assim, porque agora as lemos a partir da segunda cl\u00ednica. Lemos ent\u00e3o retroativamente e buscamos os ind\u00edcios da segunda cl\u00ednica, antes que apare\u00e7am claramente formulados.<\/p>\n<p>Por exemplo, em seus primeiros semin\u00e1rios Lacan considera que o del\u00edrio e o <em>acting out <\/em>possuem a mesma estrutura. Nunca ter\u00edamos nos detido nisso, n\u00e3o fosse por pensarmos precisamente no del\u00edrio generalizado. Podemos consultar a p\u00e1gina 540 dos <em>Escritos<\/em>, e ler como Lacan interpreta, em \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d, o famoso epis\u00f3dio da psic\u00f3tica que tem a alucina\u00e7\u00e3o auditiva de que lhe gritam: \u201cporca\u201d. Voc\u00eas sabem que esta mulher tem uma m\u00e3e psic\u00f3tica \u2013 trata-se de um caso de <em>folie a deux<\/em>, um <em>del\u00edrio a dois<\/em>, entre a paciente e sua m\u00e3e. Ela caminha pelo corredor do edif\u00edcio onde mora, e ouve a inj\u00faria: \u201cporca\u201d. Ent\u00e3o ela responde: \u201cvenho do salsicheiro\u201d.<\/p>\n<p>Lacan indica neste <em>venho do salsicheiro, <\/em>o que ele chama \u201crecha\u00e7o do discurso\u201d, ou seja, ele atribui a essa frase um valor de conjura\u00e7\u00e3o diante de \u201calgo que se intromete\u201d, algo que vem de fora e n\u00e3o do corpo.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar que, na <em>Confer\u00eancia de Genebra<\/em><sup>13<\/sup>, Lacan explica muito bem o valor perturbador que t\u00eam, para o Pequeno Hans, o famoso caso de Freud, suas primeiras ere\u00e7\u00f5es. Trata-se desse \u2018algo se intromete\u2019 no n\u00edvel do corpo: o menino tem a necessidade de dar uma significa\u00e7\u00e3o a elas. No caso da \u201cporca\u201d, algo se intromete, mas n\u00e3o vem do corpo e sim da casa do vizinho, e a essa intromiss\u00e3o \u2013 ou seja, essa intromiss\u00e3o de gozo, um gozo ruim que vem do Outro, um gozo injuriante &#8211; ela responde com: \u201cvenho do salsicheiro\u201d,\u00a0\u00a0 como\u00a0\u00a0 efeito\u00a0\u00a0 de\u00a0\u00a0 rejei\u00e7\u00e3o\u00a0\u00a0 ao\u00a0\u00a0 que\u00a0\u00a0 vem intrusivamente de fora.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, pr\u00e9via \u00e0 formula\u00e7\u00e3o da met\u00e1fora paterna, Lacan diz que se trata do objeto indiz\u00edvel, algo que n\u00e3o est\u00e1 representado pelo significante, n\u00e3o tem nome, n\u00e3o pode ser nomeado. A partir da\u00ed, precisamos olhar a foraclus\u00e3o duas vezes. Como formulamos a foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai? Em primeiro lugar, precisamos ver como formulamos a met\u00e1fora paterna.<\/p>\n<p>A f\u00f3rmula da met\u00e1fora paterna deriva da f\u00f3rmula da met\u00e1fora, ou seja, um significante substitui outro significante criando um efeito de significa\u00e7\u00e3o, como qualquer met\u00e1fora da lingu\u00edstica. Mas no caso da met\u00e1fora paterna n\u00e3o se trata de significantes quaisquer, mas de significantes escolhidos, especiais, que s\u00e3o colocados em jogo por Lacan nesta famosa met\u00e1fora. Em primeiro lugar, o significante do Nome-do-Pai, que deve atuar sobre outro significante, o significante do Desejo da M\u00e3e.<\/p>\n<p>O Desejo da M\u00e3e \u00e9, para cada um, uma inc\u00f3gnita. Ningu\u00e9m entende o que a m\u00e3e quer, principalmente a m\u00e3e de cada um de n\u00f3s. Da resposta a \u201co que quer a m\u00e3e de mim?\u201d redunda toda uma cl\u00ednica. Um filho nunca est\u00e1 \u00e0 altura do que a m\u00e3e quer, nunca se \u00e9 exatamente o que a m\u00e3e quer \u2013 por exemplo, o caso da m\u00e3e que queria, um pouco loucamente, um filho homem, quando teve uma filha mulher. O Desejo da M\u00e3e \u00e9 uma inc\u00f3gnita, que Lacan escreve indicando que o Desejo da M\u00e3e \u00e9 um X, uma inc\u00f3gnita \u00e0 qual cada sujeito ter\u00e1 o trabalho de dar uma significa\u00e7\u00e3o, por isso \u00e9 um significante.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese de Lacan \u00e9 que quando o significante Nome- do-Pai funciona, quando este significante se inscreve no campo do Outro, a sa\u00edda do \u00c9dipo da m\u00e3e deixa-a a espera do falo, que ela n\u00e3o p\u00f4de receber nem de sua m\u00e3e nem de seu pai; ela espera ent\u00e3o receb\u00ea-lo de um homem, ou dos filhos que um homem lhe der. Quando uma mulher fica \u00e0 espera do falo, depende do pr\u00f3prio \u00c9dipo da mulher como ela conseguir\u00e1 lidar com esse filho, que \u00e9 o herdeiro de seu pr\u00f3prio complexo de \u00c9dipo.<\/p>\n<p>Se o Nome-do-Pai est\u00e1 no horizonte, est\u00e1 dispon\u00edvel para essa mulher, o X, a inc\u00f3gnita dessa equa\u00e7\u00e3o, se esclarece, como se esclarecem as inc\u00f3gnitas de qualquer equa\u00e7\u00e3o, ou seja, como falo. Este \u00e9 o esquema elementar da met\u00e1fora, na qual X equivale ao falo. O que a m\u00e3e quer \u00e9 o falo. Entendido isso, \u00e9 preciso colocar-se nesse lugar: ou se tem o falo ou se \u00e9 o falo &#8211; trata-se enfim, de todas as estrat\u00e9gias identificat\u00f3rias que podem ser usadas por um sujeito para colocar-se no lugar deste enigma, <em>o que a m\u00e3e quer? <\/em>Enigma que nunca se conseguir\u00e1 resolver, j\u00e1 que a m\u00e3e sempre quer outra coisa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-57624 size-full\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2023\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/texto_orientacao_fig1.png\" alt=\"\" width=\"726\" height=\"93\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2023\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/texto_orientacao_fig1.png 726w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2023\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/texto_orientacao_fig1-300x38.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 726px) 100vw, 726px\" \/><\/p>\n<p>Poderia ilustrar isso com uma historieta pessoal. Recordo sempre o efeito que teve para mim uma interpreta\u00e7\u00e3o de um analista, quando me queixei de uma cena traum\u00e1tica: minha m\u00e3e me dizia que queria ter uma menina loura com cabelos encaracolados como Shirley Temple. Assim, ela me deixava numa posi\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, porque eu n\u00e3o conseguiria ter essas particularidades que ela desejava. Quando contei essa hist\u00f3ria na an\u00e1lise, meu analista me perguntou se minha m\u00e3e era loura, e lhe respondi: n\u00e3o. Ele me perguntou ent\u00e3o se meu pai era louro, e lhe respondi: tampouco. Neste momento, revelou-se o segredo da quest\u00e3o: efetivamente, eu era filha de ambos e nenhum deles era louro nem tinha cabelos encaracolados. Havia algo no desejo dela a meu respeito que era imposs\u00edvel. Provavelmente ela gostaria de ser loura e ter cabelos encaracolados, ou queria ter se casado com outro, que n\u00e3o meu pai. Em suma, isso recaia sobre mim e me colocava em um lugar de completa impot\u00eancia. Nessa \u00e9poca, n\u00e3o imaginava que podia ir ao cabeleireiro tingir meus cabelos de louro e fazer cachos. Quero dizer que, finalmente, mesmo no melhor dos casos em que tudo funciona, as coisas nunca funcionam perfeitamente.<\/p>\n<p>Para Lacan, na psicose coloca-se a quest\u00e3o do que acontece quando este significante (que deve operar sobre o significante do Desejo da M\u00e3e, para que a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica se produza), n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel, se falta este significante. Ocorre que o Desejo da M\u00e3e se mant\u00e9m como uma inc\u00f3gnita, pois o sujeito n\u00e3o disp\u00f5e do significante que lhe permitiria responder como falo; ele carece deste significante. O sujeito ter\u00e1 que inventar outro significante, porque n\u00e3o disp\u00f5e desse significante padr\u00e3o, uma vez que o Nome-do-Pai n\u00e3o foi inscrito no campo do Outro, no tesouro de significantes. Onde ele est\u00e1 ent\u00e3o? Est\u00e1 foraclu\u00eddo, n\u00e3o inscrito.<\/p>\n<p>A teoria cl\u00e1ssica de Lacan sobre a psicose \u00e9 que esta \u00e9 a consequ\u00eancia da foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai assim como da aus\u00eancia da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, de modo que, nas conjunturas da vida, cada vez que o sujeito tem que responder usando a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, ele n\u00e3o a tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 momentos em que esta \u00e9 menos necess\u00e1ria, mas h\u00e1 outros em que ela o \u00e9 &#8211; por exemplo, no encontro sexual, na maternidade. Para o Presidente Schreber foi o momento em que ele teve que assumir-se como Presidente do Tribunal e precisou vestir-se de falo ereto para realizar essa fun\u00e7\u00e3o. Neste momento, por n\u00e3o dispor da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, ele desmoronou, caiu na psicose.<\/p>\n<p>A partir do exposto anteriormente, \u00e9 poss\u00edvel entender porque dizemos: a maternidade, o primeiro encontro sexual, as primeiras ejacula\u00e7\u00f5es, as primeiras ere\u00e7\u00f5es, tudo o que requer que o significante f\u00e1lico explique o que est\u00e1 acontecendo no corpo, s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas de desencadeamento da psicose. Estes momentos, quando \u00e9 mais urgente a necessidade de dar significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica a algo e se ela n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, s\u00e3o momentos de inven\u00e7\u00e3o de um significante que nomeie o que acontece (e vemos ent\u00e3o as formas inventadas por um sujeito para dar um significado ao que est\u00e1 ocorrendo).<\/p>\n<p>Como destaquei de in\u00edcio, essa maneira de pensar a psicose acentua o <em>d\u00e9ficit<\/em>, o significante que falta, assim como as consequ\u00eancias da falta do significante do Nome-do- Pai e da falta da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica.<\/p>\n<p>O\u00a0 que\u00a0 vale\u00a0 a\u00a0 pena\u00a0 destacar\u00a0 na\u00a0 teoria\u00a0 cl\u00e1ssica (estrutural) \u2013 algo que geralmente \u00e9 deixado de lado \u2013 \u00e9 que Lacan completa sua explica\u00e7\u00e3o, dizendo: o que est\u00e1 foraclu\u00eddo no simb\u00f3lico reaparece no real. N\u00e3o se trata simplesmente de n\u00e3o estar inscrito, e sim que o que n\u00e3o est\u00e1 inscrito retorna. Que tipo de exist\u00eancia \u00e9 esta? Entende-se que n\u00e3o \u00e9 o mesmo modo como Freud trabalhou o ju\u00edzo de exist\u00eancia, a <em>Bejahung<\/em>, na qual algo se inscreve quando o significante \u00e9 incorporado. Aqui \u00e9 diferente: algo n\u00e3o est\u00e1 inscrito e, no entanto, existe. Isto sugere que n\u00e3o sofremos devido a ele, se temos a ideia de que ele tem que existir.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno importante \u00e9 que a foraclus\u00e3o do Nome-do- Pai vem acompanhada de uma resposta do real, algo irrompe no real sem significante, que obriga a recha\u00e7ar algo. A foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai implica um recha\u00e7o no real.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir da\u00ed que podemos entender quando J.-A. Miller diz que a f\u00f3rmula de Lacan \u201cn\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d tem o valor de uma foraclus\u00e3o. Ou seja, se falta o Nome-do-Pai, a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o est\u00e1 foraclu\u00edda &#8211; \u00e9 o que leva Schreber a imaginar a c\u00f3pula infinita que ter\u00e1 com Deus, atrav\u00e9s da qual gerar\u00e1 uma nova ra\u00e7a de homem. Vemos aqui uma rela\u00e7\u00e3o inversamente proporcional: quando o Nome- do-Pai est\u00e1 inscrito, ent\u00e3o n\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o sexual. Se o Nome-do-Pai n\u00e3o est\u00e1 inscrito, ent\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o sexual existe de uma forma n\u00e3o-f\u00e1lica, porque, na verdade, \u00e9 o falo que faz inexistir a rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Os primeiros cap\u00edtulos do <em>Semin\u00e1rio 20 <\/em>mostram muito bem o que quer dizer \u201cn\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d. Cada um, ao inv\u00e9s de se relacionar com outro sexo, relaciona-se com o falo, aquilo que faz com que n\u00e3o exista a rela\u00e7\u00e3o sexual, j\u00e1 que a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre mediada pelo falo. Desse modo, o homem se relaciona com sua m\u00e3e, e n\u00e3o com sua mulher, e uma mulher se relaciona com seu filho, e n\u00e3o com um homem. Pensando que se relaciona com um homem, essa mulher se relaciona com o falo. \u00c9 o que quer dizer \u201cn\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d.<\/p>\n<p>Se o Nome-do-Pai est\u00e1 foraclu\u00eddo e, portanto, o falo n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o sexual pelo fato do falo n\u00e3o estar inscrito &#8211; que \u00e9 o que impede que haja rela\u00e7\u00e3o sexual &#8211; e ela existir\u00e1 \u00e0 maneira scheberiana, ou ao modo de qualquer outra psicose. Assim, para todo neur\u00f3tico para quem o Nome-do-Pai est\u00e1 inscrito, a rela\u00e7\u00e3o sexual est\u00e1 foraclu\u00edda, enquanto que para todo psic\u00f3tico, na medida em que o Nome-do-Pai est\u00e1 foraclu\u00eddo, a rela\u00e7\u00e3o sexual existe de uma forma n\u00e3o-f\u00e1lica.<\/p>\n<p>Quando Lacan responde ao coment\u00e1rio de Jean Hyppolite<sup>14<\/sup>, precisamente sobre o artigo \u201cA negativa\u201d de Freud, ele n\u00e3o usa a palavra foraclus\u00e3o, e sim a palavra alem\u00e3 <em>Verwerfung. <\/em>Podemos traduzi-la por supress\u00e3o<sup>15<\/sup>. Algo suprimido do simb\u00f3lico emerge no real. Nesse artigo, ao comentar o Homem dos lobos, ele se refere a Freud quando diz: \u201ca supress\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o\u201d. N\u00e3o diz \u201cuma foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai\u201d e sim \u201cuma foraclus\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o\u201d, o que abre\u00a0 todo\u00a0 um\u00a0 interessante\u00a0 terreno\u00a0 para\u00a0 diferenciar \u201cforaclus\u00e3o do Nome-do-Pai\u201d e \u201cforaclus\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o\u201d. Poderia haver inscri\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai e foraclus\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o. Foi toda a an\u00e1lise que se fez, nesse momento, sobre o Homem dos Lobos.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o da foraclus\u00e3o implica que o que n\u00e3o existe como s\u00edmbolo reapare\u00e7a sob v\u00e1rias formas no real, ou seja, fora de sentido. O que n\u00e3o existe como s\u00edmbolo \u00e9 muito mais amplo que dizer o Nome-do-Pai n\u00e3o existe como s\u00edmbolo. H\u00e1 outras coisas que n\u00e3o existem como tal; a ideia da foraclus\u00e3o \u00e9 muito mais geral do que a ideia da foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai. A foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai seria um caso especial de foraclus\u00e3o: a foraclus\u00e3o na qual o s\u00edmbolo n\u00e3o inscrito \u00e9 o do Nome-do-Pai. Agora podemos abrir o cap\u00edtulo de todos os outros s\u00edmbolos que n\u00e3o existem e que reaparecem no real como fora de sentido.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos ver, por exemplo, como ocorre a Lacan vincular alucina\u00e7\u00e3o e <em>acting out<\/em>. Lacan analisa o famoso <em>caso dos miolos frescos<\/em>. Trata-se de um paciente de Ernest Kris que diz que, a cada vez que sai da sess\u00e3o, vai a um restaurante nos arredores e come miolos frescos. H\u00e1 toda uma an\u00e1lise sobre sua ideia de que \u00e9 um plagi\u00e1rio, ou seja, n\u00e3o tem ideias pr\u00f3prias. H\u00e1 toda uma interpreta\u00e7\u00e3o: comer miolos frescos \u00e9 uma maneira de falar metaforicamente do pl\u00e1gio. Nesta ocasi\u00e3o, Lacan n\u00e3o segue absolutamente esta vertente, falando da presen\u00e7a da foraclus\u00e3o. Ele n\u00e3o usa a palavra foraclus\u00e3o, e sim <em>Verwerfung <\/em>relacionada ao que se apresenta neste <em>acting out, <\/em>ou seja, o que est\u00e1 suprimido volta no prato. N\u00e3o volta como uma ideia do tipo \u201csou um plagi\u00e1rio\u201d. O que est\u00e1 suprimido volta como uma comida, algo que se come. Diz Lacan:<\/p>\n<blockquote><p>Mas, quanto ao ato em si, o que compreender dele, sen\u00e3o ver nele propriamente uma emerg\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o oral primordialmente \u201csuprimida\u201d, o que sem d\u00favida explica o relativo fracasso da primeira an\u00e1lise?<sup>16<\/sup><\/p><\/blockquote>\n<p>O\u00a0 causal\u00a0 neste\u00a0 <em>acting\u00a0 out\u00a0 <\/em>\u00e9\u00a0 a\u00a0 rela\u00e7\u00e3o\u00a0 oral primordialmente\u00a0\u00a0 <em>Verwerfung<\/em>,\u00a0\u00a0 foraclu\u00edda:\u00a0\u00a0 o\u00a0\u00a0 que\u00a0\u00a0 est\u00e1 foraclu\u00eddo \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o oral. Lacan situa esse <em>acting out <\/em>dizendo: h\u00e1 um objeto <em>a<\/em>, oral, que n\u00e3o foi capturado pelo simb\u00f3lico, que n\u00e3o foi tomado por um significante; e precisamente porque, para este paciente, o objeto oral n\u00e3o foi capturado pelo significante, pelo simb\u00f3lico, ele reaparece no prato, e ele precisa com\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Caberia a pergunta: o que isso quer dizer?\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Que na vida deste sujeito o objeto oral n\u00e3o foi simbolizado, n\u00e3o foi significantizado? Lacan n\u00e3o diz isso; diz que o erro do analista foi n\u00e3o ter interpretado o objeto oral. Ou seja, porque ele n\u00e3o interpretou a oralidade do paciente, por n\u00e3o ter interpretado essa fun\u00e7\u00e3o oral da qual o paciente dava provas na sess\u00e3o, o paciente sai e come miolos no restaurante que fica na esquina do consult\u00f3rio do analista. Devemos destacar que a ideia de Lacan \u00e9 exatamente a mesma: porque o objeto <em>a <\/em>n\u00e3o foi capturado pelo simb\u00f3lico da interpreta\u00e7\u00e3o, ele reaparece no real. \u00c9 isso que lhe permite tratar do <em>acting out <\/em>com a mesma estrutura que usou previamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 alucina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Lorena Mazanet: <\/em>Interpretar um objeto <em>a <\/em>que est\u00e1 foraclu\u00eddo, n\u00e3o levaria a uma transfer\u00eancia negativa?<\/p>\n<p><em>Graciela Brodsky<\/em>: N\u00e3o estamos falando de uma psicose. Estamos falando do apelo \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o que o <em>acting out <\/em>implica. Se n\u00e3o se nomeia, n\u00e3o se interpreta o que precisa ser interpretado, o sujeito atua. A transfer\u00eancia negativa \u00e9 transfer\u00eancia. N\u00e3o fazemos esses c\u00e1lculos, mas se tivermos que colocar na balan\u00e7a, o que preferimos: transfer\u00eancia negativa ou <em>acting out<\/em>, preferimos a transfer\u00eancia negativa. \u00c9 transfer\u00eancia, como a transfer\u00eancia amorosa, apenas a olhamos de um lado ou do outro &#8211; hoje \u00e9 negativa, amanh\u00e3, amorosa. N\u00e3o se deve ter nenhuma esperan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao amor dos pacientes. Melhor que n\u00e3o nos amem demais, porque depois, sua contraface ser\u00e1 dura. O <em>acting out <\/em>\u00e9 mais dif\u00edcil, \u00e9 sob transfer\u00eancia, mas a partir do real, fora da sess\u00e3o mesma.<\/p>\n<p>Quero dizer que, neste ponto, devemos falar de uma foraclus\u00e3o restrita, que \u00e9 a do Nome-do-Pai, e de uma foraclus\u00e3o generalizada; assim, podemos perceber que a foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai \u00e9 um caso particular da foraclus\u00e3o generalizada que implica este mecanismo: o que n\u00e3o est\u00e1 enla\u00e7ado ao simb\u00f3lico, reaparece no real.<\/p>\n<p>A partir de Lacan, J.-A. Miller escreve este esquema:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>a (\u00a0\u00a0 ) a\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Miller o prop\u00f5e para esclarecer como funciona a foraclus\u00e3o em um contexto te\u00f3rico no qual a quest\u00e3o do Nome-do-Pai n\u00e3o est\u00e1 em jogo. \u00c9 precisamente no coment\u00e1rio da \u201cporca\u201d, onde faz um esquema muito elementar: a paciente e sua m\u00e3e est\u00e3o nessa <em>folie a deux<\/em>, deliram juntas, estabelecendo uma rela\u00e7\u00e3o a \u2013 a\u2019. Neste contexto, irrompe Um pai, ou seja, interrompe algo, um sussurro do vizinho, algo que se refere a ela, mas n\u00e3o se sabe muito bem do que se trata. Podemos representar isso como um par\u00eanteses vazio; no lugar do que haveria a significar aparece efetivamente um vazio de significa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Um pai<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>a<\/strong><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 a\u2019<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>(a)<\/strong><\/p>\n<p>Aqui o objeto recha\u00e7ado no real come\u00e7a a falar sozinho. Com este esquema do objeto recha\u00e7ado que reaparece no real e come\u00e7a a falar sozinho, Lacan explica, muito antes da met\u00e1fora paterna, este funcionamento da <em>Verwerfung<\/em>, ou seja, o que ser\u00e1 depois a foraclus\u00e3o.<\/p>\n<p>No exemplo da inj\u00faria \u201cporca\u201d, vemos que este objeto recha\u00e7ado, indiz\u00edvel, retorna no real, este que alcan\u00e7a a malvada e invasora vizinha, no qual n\u00e3o deixamos de reconhecer a incid\u00eancia do gozo. A malvada vizinha ocupa o lugar que do que chamamos \u201cUm pai\u201d, o Outro mau que introduz o gozo. Verifica-se assim, a partir de onde est\u00e1 foraclu\u00eddo este objeto: ele fala apenas na inj\u00faria alucinat\u00f3ria. Desse modo, esse objeto que n\u00e3o tem nome come\u00e7a a existir. A inj\u00faria \u00e9 o que pode ser dito quando falta a algu\u00e9m o significante para designar o que existe de ser do Outro.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante porque no mesmo texto, \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar&#8230;\u201d, Lacan trabalha o caso \u201cporca\u201d com este esquema e, depois, a met\u00e1fora paterna. Percebemos que aqui n\u00e3o se trata da mesma l\u00f3gica, que n\u00e3o \u00e9 o Nome-do-Pai que est\u00e1 foraclu\u00eddo no real, mas o objeto indiz\u00edvel.<\/p>\n<p>Por ter encontrado nestes textos antigos \u2013 por t\u00ea-los lido com lupa &#8211; a ideia lacaniana da foraclus\u00e3o do objeto, somos levamos a repensar a foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai como designando apenas a vertente significante da foraclus\u00e3o (quando o que est\u00e1 foraclu\u00eddo \u00e9 um significante), mas vemos exemplos nos quais o que est\u00e1 foraclu\u00eddo n\u00e3o \u00e9 um significante, e sim um objeto.<\/p>\n<p>O que permite a Lacan, em seu \u00faltimo ensino, formular \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d, pode ser rastreado no texto de Freud \u201cA perda da realidade na neurose e na psicose\u201d, assim como em sua pr\u00f3pria obra, na an\u00e1lise que faz no Homem dos lobos da foraclus\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o; tamb\u00e9m no exemplo da \u201cporca\u201d e da alucina\u00e7\u00e3o, onde \u00e9 colocado em jogo o objeto indiz\u00edvel. S\u00e3o lugares em que encontramos antecedentes desta foraclus\u00e3o generalizada, do \u201ctodo mundo delira\u201d, que parece ser um salto no vazio do \u00faltimo ensino, quando na verdade n\u00e3o \u00e9. Seus antecedentes podem ser encontrados em textos muito anteriores, que correspondem a momentos do primeiro ensino.<\/p>\n<p>Sintetizando: assim como na psicose, classicamente, o foraclu\u00eddo \u00e9 o Nome-do-Pai &#8211; e o que retorna \u00e9 um gozo n\u00e3o circunscrito aos trilhos do falo -, a inscri\u00e7\u00e3o deste significante nas outras estruturas tem como consequ\u00eancia uma foraclus\u00e3o de todo gozo que exceda ao gozo f\u00e1lico. Em outras palavras: resta apenas o gozo f\u00e1lico, e todo outro gozo que excede o gozo f\u00e1lico \u00e9 foraclu\u00eddo.<\/p>\n<p><em>Participante<\/em>: O gozo feminino ficaria exclu\u00eddo?<\/p>\n<p><em>Graciela Brodsky: <\/em>Efetivamente o gozo feminino ficaria foraclu\u00eddo. Brilhante corol\u00e1rio: o gozo feminino fica foraclu\u00eddo. O que excede o gozo f\u00e1lico, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 significante para nome\u00e1-lo, fica foraclu\u00eddo no real. N\u00e3o h\u00e1 significante que nomeie o que do gozo feminino excede o gozo f\u00e1lico.<\/p>\n<p>Se, no primeiro caso, temos a perda do gozo f\u00e1lico, que \u00e9 o que regula, no segundo caso, perdemos todos os gozos e o que resta \u00e9 apenas o gozo f\u00e1lico. Observem a invers\u00e3o.<\/p>\n<p>Dado que o recha\u00e7o do gozo se produz em todos os casos, a quest\u00e3o \u00e9: o que domestica o gozo? A resposta \u00e9 o <em>sinthoma<\/em>; \u00e9 ele que realiza essa conten\u00e7\u00e3o, que domestica o gozo. Por isso a fun\u00e7\u00e3o do pai \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o do <em>sinthoma, <\/em>axioma do \u00faltimo ensino de Lacan, no qual o que importa n\u00e3o \u00e9 tanto o Nome-do-Pai, mas o que domestica o gozo.<\/p>\n<p>Penso que em cada caso, o que devemos nos perguntar n\u00e3o \u00e9 se o Nome-do-Pai est\u00e1 ou n\u00e3o foraclu\u00eddo, porque, como vemos, os terrenos da foraclus\u00e3o s\u00e3o um tanto amplos. Creio que o que orienta nossa cl\u00ednica e nossas interven\u00e7\u00f5es, \u00e9 nos perguntarmos sempre: o que domestica o gozo? E quando o gozo n\u00e3o est\u00e1 domesticado, nos perguntarmos: o que podemos fazer, como analistas, para que um sujeito possa inventar essa fun\u00e7\u00e3o de domestica\u00e7\u00e3o do gozo, que na neurose \u00e9 exercida pelo Nome-do-Pai?<\/p>\n<p>Com isto podemos encerrar esta primeira parte: Como lidar com o gozo que n\u00e3o tem nome?<\/p>\n<p>Armemos\u00a0\u00a0 um\u00a0\u00a0 programa\u00a0\u00a0 de\u00a0\u00a0 investiga\u00e7\u00e3o\u00a0\u00a0 cl\u00ednica, apresentemos\u00a0 casos\u00a0 de\u00a0 neurose\u00a0 e\u00a0 casos\u00a0 de\u00a0 psicose, perguntando-nos como cada paciente se vira com o gozo que n\u00e3o tem nome. Por exemplo: como um homem lida com uma mulher? (\u00e9 uma maneira de perguntar como se lida com o gozo que n\u00e3o tem nome), como o Pequeno Hans se vira diante de suas primeiras ere\u00e7\u00f5es? Como se vira este paciente psic\u00f3tico com o gozo?<\/p>\n<p>Poderia ser uma maneira de interrogar os casos. Tomemos vinte casos e perguntemo-nos: como cada um lida com o gozo que n\u00e3o tem nome? Jamais esque\u00e7am que o foraclu\u00eddo retorna. Por isso, mesmo quando o Nome-do-Pai est\u00e1 inscrito (e todos os outros gozos, que n\u00e3o s\u00e3o o gozo f\u00e1lico, est\u00e3o foraclu\u00eddos), este n\u00e3o conseguir\u00e1 refrear todos os gozos que excedem ao gozo f\u00e1lico. Jamais podemos esquecer isto: que todos os sujeitos, neur\u00f3ticos ou psic\u00f3ticos, t\u00eam que inventar algo para lidar com o que retorna, com o que irrompe do real.<\/p>\n<p><strong><em>Discuss\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Miguel Reyes<\/em>: Tomando o t\u00edtulo \u201cA loucura nossa de cada dia\u201d, podemos localizar essa loucura nossa de cada dia justamente no que estaria foraclu\u00eddo, apesar da a\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai, que aparece como essa parte louca, n\u00e3o psic\u00f3tica porque o Nome-do-Pai operou, que aparece por assim nessa periferia como o que retorna ao mesmo lugar, e se vincula a esse gozo n\u00e3o f\u00e1lico?<\/p>\n<p><em>Andr\u00e9a B\u00e1ez<\/em>: Desejo colocar que, a partir da pr\u00e1tica, h\u00e1 uma elabora\u00e7\u00e3o de saber que depois se decanta em uma teoria, e que analisamos o ensino de Lacan neste sentido. Depreendo deste trabalho que h\u00e1 modifica\u00e7\u00f5es no Outro social. Em algum momento da apresenta\u00e7\u00e3o de hoje, voc\u00ea fez alus\u00e3o a essa modifica\u00e7\u00e3o e que, certamente, a cl\u00ednica psicanal\u00edtica \u00e9 sens\u00edvel a ela. Gostaria de saber se, em sua opini\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel dizer que o Nome-do-Pai, a partir das modifica\u00e7\u00f5es, em rela\u00e7\u00e3o a todos os gozos que vem surgindo nas \u00faltimas d\u00e9cadas, teve que receber uma resposta de Lacan, dizendo que h\u00e1 uma foraclus\u00e3o generalizada. Quando menciona Freud, dizendo: \u201d<em>aten\u00e7\u00e3o <\/em>nos pais que s\u00e3o maternais\u201d havia uma forma muito mais n\u00edtida de lidar com os sexos, e ent\u00e3o me parece que h\u00e1 algo do Nome-do-Pai que teve que ser generalizado para dar conta desse Outro social.<\/p>\n<p><em>Juan Pablo Bustamante<\/em>: Pediria que voc\u00ea falasse um pouco mais sobre a distin\u00e7\u00e3o entre foraclus\u00e3o do Nome-do- Pai e foraclus\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Graciela Brodsky<\/em><\/p>\n<p>Come\u00e7o pela segunda pergunta.<\/p>\n<p>Efetivamente, nesses \u00faltimos anos falamos de um decl\u00ednio do Nome-do-Pai na cultura. H\u00e1 distintas express\u00f5es, como por exemplo, a queda dos ideais. Citarei um trabalho que apresentei no Congresso da AMP em Paris, intitulado: \u201cCinco consequ\u00eancias da nova ordem simb\u00f3lica\u201d<sup>17<\/sup>. Destas cinco considera\u00e7\u00f5es, a primeira se chama \u201cO S<sub>1<\/sub>, o significante mestre desencarnado\u201d, e diz assim:<\/p>\n<blockquote><p>Longe de abrir os c\u00e1rceres do gozo e instalar a supremacia do real, a incredulidade e a irris\u00e3o, a burla, que pelo menos no ocidente atinge hoje em dia todas as formas de autoridade, faz proliferar o controle ali onde antes vigorava a lei. A decad\u00eancia do Nome-do-Pai n\u00e3o tem como consequ\u00eancia que tenhamos voltado a nenhum estado de natureza no qual as puls\u00f5es violentas se manifestariam sem censura, pelo contr\u00e1rio, o que veio no lugar dos ideais ca\u00eddos, que antes encarnavam a fic\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai, \u00e9 um simb\u00f3lico desencarnado; antes o Nome-do-Pai encarnava o simb\u00f3lico, agora um simb\u00f3lico desencarnado, uma sociedade de vigil\u00e2ncia dom\u00e9stica, de burocracia administrativa, de planilhas, de formul\u00e1rios, de protocolos estandardizados nos quais ningu\u00e9m mais se encaixa, as consequ\u00eancias desta nova ordem sobre nossa doutrina cl\u00e1ssica do supereu constitui um cap\u00edtulo que, todavia, resta por escrever.<\/p><\/blockquote>\n<p>Trago\u00a0\u00a0 isso\u00a0\u00a0 somente\u00a0\u00a0 para\u00a0\u00a0 marcar\u00a0\u00a0 que\u00a0\u00a0 de\u00a0\u00a0 fato constatamos efeitos paradoxais do decl\u00ednio do Nome-do-Pai. Poder-se-ia dizer que quanto menos Nome-do-Pai, menos controle e, portanto, maior \u00e9 o gozo. Contudo, o que aparece \u00e9 justamente o contr\u00e1rio: quanto maior \u00e9 o decl\u00ednio do Nome-do-Pai, maior \u00e9 o controle de todo lado. Cada um deve controlar seu vizinho. O controle j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 encarnado em ningu\u00e9m; \u00e9 um controle formul\u00e1rio-burocracia, um controle insensato, n\u00e3o se trata de \u201cagora estamos em festa\u201d. Nada \u00e9 mais distante disso; estamos imersos em um sistema de controle.<\/p>\n<p>Como anedota, posso referir-me a um grande cartaz que est\u00e1 na entrada de Buenos Aires, onde se l\u00ea: \u201ccaso veja algo, saiba algo, chame-nos, 911, Pol\u00edcia Federal\u201d. Quer dizer, se, por exemplo, vemos um vizinho que chegou mais tarde do que de costume ou ouvimos gritar o menino do quinto andar. \u00c9 o tipo de vigil\u00e2ncia m\u00fatua que existe nos pa\u00edses de maior desenvolvimento, Holanda, Su\u00e9cia, nos quais todo mundo acaba denunciando os maus-tratos dos filhos pelos pais. O sistema de controle generalizado \u00e9 uma consequ\u00eancia observ\u00e1vel, interpret\u00e1vel pelos psicanalistas, do decl\u00ednio do Nome-do-Pai. Isso demonstra que o dito decl\u00ednio no n\u00edvel cultural, social, n\u00e3o traz como efeito um retorno do gozo, n\u00e3o lhe \u00e9 equipar\u00e1vel; e que, quando falamos da foraclus\u00e3o generalizada, falamos de algo muito preciso no n\u00edvel da cl\u00ednica, que n\u00e3o se superp\u00f5e ao decl\u00ednio do Nome-do-Pai no n\u00edvel social. Em suma, o surpreendente \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 o gozo que retorna, mas sim a reduplica\u00e7\u00e3o insensata do controle. Na falta do Nome-do- Pai, os S<sub>1<\/sub> s\u00e3o mais ferozes do que nunca. Recordemos <em>O Castelo <\/em>de Kafka, o anonimato do controle do Outro.<\/p>\n<p>O decl\u00ednio do Nome-do-Pai permite ver que a psicose \u00e9 muito mais frequente do que se pensava, porque antes busc\u00e1vamos a psicose apenas num grande surto psic\u00f3tico que, retroativamente, nos levava a supor que o Nome-do-Pai n\u00e3o estava \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o desse sujeito. Por\u00e9m, vemos agora que o Nome-do-Pai \u00e9 bastante ineficaz na maioria dos casos, e que\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 os\u00a0\u00a0 sujeitos\u00a0\u00a0 inventam\u00a0\u00a0 solu\u00e7\u00f5es\u00a0\u00a0 que\u00a0\u00a0 n\u00e3o\u00a0\u00a0 s\u00e3o necessariamente o Nome-do-Pai. Essas solu\u00e7\u00f5es podem ser muito est\u00e1veis; de fato, vemos como algu\u00e9m como James Joyce se arranjou sem o Nome-do-Pai e transformou a l\u00edngua inglesa. H\u00e1 g\u00eanios que n\u00e3o disp\u00f5em do Nome-do-Pai e se arranjam muito bem com sintomas ocasionais. Vemos, assim, que h\u00e1 uma descontinuidade na cl\u00ednica estrutural entre neurose\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 e\u00a0\u00a0\u00a0 psicose\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 que\u00a0\u00a0 n\u00e3o\u00a0\u00a0 encontramos\u00a0\u00a0 na\u00a0\u00a0 cl\u00ednica borromeana, que \u00e9 bem mais uma cl\u00ednica de continuidades, onde n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil colocar algu\u00e9m de um lado ou de outro.<\/p>\n<p>A ideia das psicoses ordin\u00e1rias \u00e9 que, em primeiro lugar e fundamentalmente, estamos no campo das psicoses. Assim, estendemos o campo das psicoses de tal maneira que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o claro que existam os grandes casos e h\u00e1 casos pequenos que n\u00e3o se desencadeiam nunca. Casos um pouco raros, nos quais vemos sujeitos dif\u00edceis de enquadrar na neurose e nos quais, efetivamente, a fun\u00e7\u00e3o do <em>sinthome, <\/em>mais do que a ideia de foraclus\u00e3o generalizada, aparece como o que regula o gozo. Nesse sentido, a fun\u00e7\u00e3o do Nome- do-Pai seria um <em>sinthome <\/em>particular, que tamb\u00e9m viria a exercer essa regula\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso destacar que na segunda cl\u00ednica de Lacan n\u00e3o denominamos mais de Nome-do-Pai aquilo que regula o gozo, mas sim de <em>sinthome<\/em>.<\/p>\n<p>O interessante, a partir da interven\u00e7\u00e3o de Miguel, \u00e9 perguntar-se: se o Nome-do-Pai \u00e9 uma das formas de regula\u00e7\u00e3o do gozo, mas n\u00e3o a \u00fanica, como, ent\u00e3o, em cada caso, o gozo \u00e9 regulado? N\u00e3o dando como evidente o fato de que todo neur\u00f3tico o regula a partir desse significante, perguntar-se: como o Nome-do-Pai \u00e9 incapaz de colocar todo o gozo numa caixa, fechar a porta e deixar tudo organizado? O que temos \u00e9 um tonel das Danaides<sup>18<\/sup>, em que o Nome-do-Pai p\u00f5e o gozo num tonel e este sai pelos furos do tonel.<\/p>\n<p>Miller fez uma bela met\u00e1fora, ao dizer: \u201co gozo sai do tonel e faz florescer os campos e os rios que pululam de vida\u201d. Mostra como, efetivamente, o Nome-do-Pai tenta conter o gozo, mas este escapa, e \u00e9 preciso lidar com isso.<\/p>\n<p>Podemos dizer que aquilo que Nome-do-Pai n\u00e3o consegue circunscrever \u00e9 o que nos obriga a delirar o tempo todo, com nossos fantasmas, com nosso sintoma, com nossas cren\u00e7as. \u00c9 tudo aquilo que n\u00e3o conseguimos significatizar com o Nome-do-Pai. Se ele funcionasse perfeitamente, todo o real seria absorvido pelo simb\u00f3lico sem resto, e o que a cl\u00ednica psicanal\u00edtica verifica, \u00e9 que o simb\u00f3lico \u00e9 impotente para circunscrever, para significantizar todo o real. Nossa cl\u00ednica \u00e9 feita precisamente do que n\u00e3o \u00e9 circunscrito pelo simb\u00f3lico. \u00c9 um del\u00edrio da ci\u00eancia pensar que todo o real pode ser articulado ao simb\u00f3lico: de tempos em tempos h\u00e1 uma pequena explos\u00e3o, uma bact\u00e9ria escapa e temos ent\u00e3o problemas inesperados, n\u00e3o previstos, porque o simb\u00f3lico n\u00e3o circunscreve todo o real e \u00e9 disso que nos ocupamos.<\/p>\n<p>A pergunta de Juan Pablo sobre a foraclus\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o e a foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai nos remete a essas f\u00f3rmulas de Lacan:<\/p>\n<p><strong>\u0424<sub>o<\/sub> = <\/strong>a castra\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 inscrita.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong><strong>\u0325 = <\/strong>o Nome-do-Pai n\u00e3o est\u00e1 inscrito.<\/p>\n<p>Vejamos um caso que, a princ\u00edpio, ningu\u00e9m entendia: o Homem dos lobos. Era uma psicose ou uma neurose?<\/p>\n<p>A cl\u00ednica estrutural n\u00e3o permite entender o caso do Homem dos lobos. Ele apresenta pequenos fen\u00f4menos, duas vezes em sua vida: certa vez, olha-se no espelho e lhe parece que seu nariz est\u00e1 furado. Isso passa; ele n\u00e3o passa toda a sua vida pensando que tem um furo no nariz. Trata-se de um fen\u00f4meno pontual que desapareceu. Outra vez, deitado em um banco de um jardim tem a ideia de que lhe cortaram o dedo. Apenas isso. De resto, em sua vida, tudo parecia andar\u00a0 bem.\u00a0 Era\u00a0 um\u00a0 aristocrata\u00a0 russo\u00a0 arruinado pela\u00a0revolu\u00e7\u00e3o bolchevique, a quem Freud primeiro dava arenque e depois o atendia. Esse homem n\u00e3o tinha o que comer e, como era um caso de Freud, o movimento psicanal\u00edtico se encarregou da manuten\u00e7\u00e3o do Homem dos lobos at\u00e9 ele morrer. Foi um mantido pelos psicanalistas!<\/p>\n<p>Era um homem que nunca conseguiu se virar na vida. Um nobre que n\u00e3o tinha que se preocupar com isso, e quando teve que arranjar-se, n\u00e3o soube faz\u00ea-lo, e apresenta esses dois pequenos fen\u00f4menos. Efetivamente, a no\u00e7\u00e3o de psicose ordin\u00e1ria, a no\u00e7\u00e3o de generaliza\u00e7\u00e3o da foraclus\u00e3o, n\u00e3o quer dizer <em>todos foraclu\u00eddos <\/em>&#8211; significa que o que se foraclui n\u00e3o \u00e9 necessariamente o Nome-do-Pai, que existem outras foraclus\u00f5es: \u00e9 poss\u00edvel foracluir o objeto e tamb\u00e9m o gozo. Efetivamente, o Homem dos lobos \u00e9 um caso que quando o lemos\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 agora\u00a0\u00a0 na\u00a0\u00a0 perspectiva\u00a0\u00a0 da\u00a0\u00a0 psicose\u00a0\u00a0 ordin\u00e1ria, encontramos pequenas desenganches, momentos que n\u00e3o s\u00e3o surto, que se engancham, s\u00f3 que ningu\u00e9m entende como. Um desses casos que n\u00e3o se arranjam muito bem na vida, mas que n\u00e3o est\u00e3o no manic\u00f4mio. Com essa ideia, talvez haja castra\u00e7\u00e3o, talvez haja Nome-do-Pai, mas n\u00e3o o suficiente para permitir que a castra\u00e7\u00e3o funcione bem.<\/p>\n<p>A castra\u00e7\u00e3o sempre funciona um pouquinho no real. Por exemplo: sou impotente, n\u00e3o consigo realizar meus objetivos, sempre me sinto pequeno, invejo o outro, os outros gozam mais; contudo, neste caso n\u00e3o \u00e9 \u00e0 maneira neur\u00f3tica, mas tenho um furo no nariz ou meu dedo foi cortado. \u00c9 uma maneira de n\u00e3o metaforizar a castra\u00e7\u00e3o, mas situ\u00e1-la em algum lugar no corpo; de fato \u00e9 uma cl\u00ednica de arranjos, acomoda\u00e7\u00f5es, desarranjos, uma cl\u00ednica muito distinta daquela na qual h\u00e1 ou n\u00e3o h\u00e1.<\/p>\n<p><em>Silvia Magri<\/em>: Tento articular o que voc\u00ea est\u00e1 comentando ao que voc\u00ea se referiu na confer\u00eancia: \u201cSexo e g\u00eanero a partir da psican\u00e1lise\u201d<sup>19<\/sup>. Voc\u00ea dizia que, no caso da foraclus\u00e3o generalizada, quando o Nome-do-Pai n\u00e3o est\u00e1 inscrito, o que fica foraclu\u00eddo \u00e9 a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. Nesse caso &#8211; e pensando-o a partir das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, quando n\u00e3o h\u00e1 significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica e quando est\u00e1 foraclu\u00edda a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual &#8211; como seria a sexua\u00e7\u00e3o no caso da inexist\u00eancia da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica? Outra pergunta: se a resposta da segunda cl\u00ednica \u00e9 o <em>sinthome <\/em>para todos, em que lugar fica a identifica\u00e7\u00e3o em suas tr\u00eas vertentes (pensando na identifica\u00e7\u00e3o sexual e no fantasma)?<\/p>\n<p><em>Martha Idrovo<\/em>: S\u00f3 para esclarecer uma coisa: na psicose, se h\u00e1 um encontro sexual \u00e9 porque existe uma satisfa\u00e7\u00e3o, \u00e9 porque h\u00e1 completude no encontro do psic\u00f3tico. Isso quer dizer que h\u00e1 um encontro sexual? O del\u00edrio seria o que domestica o gozo? Poder-se-ia dizer que o del\u00edrio \u00e9 a cura? Outra quest\u00e3o que n\u00e3o ficou muito clara para mim: a inscri\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai tem como consequ\u00eancia uma foraclus\u00e3o de todo gozo que exceda o gozo f\u00e1lico? E o outro gozo feminino?<\/p>\n<p><em>Rachel Cors Ulloa<\/em><strong>: <\/strong>Gostaria de lhe pedir para esclarecer a eclos\u00e3o em uma neurose e o v\u00ednculo que haveria com o Outro gozo.<\/p>\n<p><em>Graciela Brodsky<\/em><\/p>\n<p>Nas f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o h\u00e1 duas maneiras de inscrever o pr\u00f3prio gozo em rela\u00e7\u00e3o ao gozo f\u00e1lico: uma maneira que chamamos masculina, e outra que chamamos feminina. O que a maneira masculina escreve \u00e9 que todo gozo \u00e9 inscrito falicamente; o que a maneira feminina inscreve \u00e9 que nem todo gozo \u00e9 inscrito falicamente. \u00c9 preciso saber que entre essas duas maneiras de se inscrever em rela\u00e7\u00e3o ao falo, n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o; para que haja ter\u00edamos que mudar de n\u00edvel, passar ao piso inferior das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o. Vemos que neste piso, se encontram inscritos homens e mulheres. N\u00e3o importa de que lado das f\u00f3rmulas estejam, porque isso estaria referido a homens e mulheres biol\u00f3gicos, fenomenol\u00f3gicos, homens e mulheres se encontram apesar de tudo, n\u00e3o se encontram no n\u00edvel do gozo, que \u00e9 o que est\u00e1 inscrito acima, mas se encontram de alguma maneira, que \u00e9 o que est\u00e1 escrito embaixo.<\/p>\n<p>Algumas formas de encontro implicam atravessamentos. Parece que \u00e9 um encontro de um homem com uma mulher, mas na verdade \u00e9 o encontro de um sujeito com um objeto <em>a <\/em>do fantasma; parece que \u00e9 um encontro com um homem, mas \u00e9 o encontro de uma <em>n\u00e3otoda <\/em>com o falo; parece, mas n\u00e3o \u00e9. No n\u00edvel superior n\u00e3o h\u00e1 encontro e podemos dizer que toda nossa cl\u00ednica \u00e9 a forma como se encontram:<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-57623\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2023\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/texto_orientacao_fig-300x263.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"263\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2023\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/texto_orientacao_fig-300x263.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2023\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/texto_orientacao_fig.png 425w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>No gr\u00e1fico, na parte de cima, est\u00e1 escrito o muro que separa os dois gozos. Existe um <em>X<\/em>, ou seja, aquele que n\u00e3o cumpre a castra\u00e7\u00e3o, o mito do pai da horda primitiva, aquele para quem n\u00e3o vigora a castra\u00e7\u00e3o. A partir da\u00ed, a moral da hist\u00f3ria<strong>: <\/strong>castra\u00e7\u00e3o para todos. Falo-castra\u00e7\u00e3o para todos. Do outro lado, nem todos est\u00e3o inscritos no gozo f\u00e1lico e n\u00e3o existe ningu\u00e9m que n\u00e3o seja castrado.<\/p>\n<p>Lacan coloca do lado masculino o sujeito e o falo e, no lado feminino, a mulher barrada ( \u023a\u00a0<strong>) <\/strong>e o objeto <em>a<\/em>, assim como o la\u00e7o com o significante do Outro barrado, <strong>S<\/strong>( \u023a ), e escreve\u00a0 as\u00a0 maneiras\u00a0 com\u00a0 que\u00a0 se\u00a0 vinculam:\u00a0 escreve\u00a0 <em><b>$ <\/b><\/em>vinculado com <strong>a ( <em>$<\/em>&#8211;&gt; \u023a) <\/strong>\u00e9 o Como exemplo,<\/p>\n<p>Cristiano, da obra \u201cCyrano de Bergerac\u201d, dizendo a Roxane: \u201ca nuca, a nuca\u201d; ou o caso de Di\u00f3genes, o grande masturbador, ou o tipo que vai com o sapato, que n\u00e3o se d\u00e1 ao trabalho de passar ao outro lado. Fica aqui, sozinho com seu gozo f\u00e1lico: ao viajar, leva o sapato na mala, e n\u00e3o tem que pagar duas passagens, mas apenas uma.<\/p>\n<p>Do lado feminino, mais complicado, temos o la\u00e7o da mulher com o falo:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u023a\u00a0 &lt;&#8211; Falo<\/strong><\/p>\n<p>Ou seja, o v\u00ednculo de qualquer mulher com um homem, a ponto de que nenhum homem ou mulher \u2013 n\u00e3o importa com quem se vincule desse lado, fenomenicamente \u2013 pode satisfazer o <em>plus <\/em>de gozo n\u00e3o f\u00e1lico. Como essa mulher encontra esse <em>plus<\/em>? De duas maneiras, uma melhor e outra pior. A melhor \u00e9: ela se interessa pelo falo, quer dizer, interessa-se por um homem e, no encontro com ele, descobre que n\u00e3o alcan\u00e7a isso, que resta um <em>plus<\/em>; mas \u00e9 por seu consentimento ao falo que aparece o suplementar. Mas pode ser que tenha algo an\u00e1logo ao grande masturbador, o gozo do idiota, que n\u00e3o saia de seu cantinho, que s\u00f3 se vincule assim. \u00c9 ali onde Lacan situa a loucura, quer dizer, inscreve a posi\u00e7\u00e3o de recha\u00e7o ao falo e um gozo est\u00e1tico, por fora do falo, nas f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o do lado feminino. Quando n\u00e3o se passa pelo falo, quando ele diz \u201cas mulheres s\u00e3o todas loucas, n\u00e3o loucas totalmente\u201d. Se quisermos colocar a psicose em algum lugar das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, ela deveria ser colocada aqui:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A<i> &#8211;&gt;<\/i>\u00a0 \u00a0S ( \u023a\u00a0)<\/strong><\/p>\n<p>E vemos o empuxo \u00e0 mulher, o di\u00e1logo com Deus, o \u00eaxtase. \u00c9 Schreber, muito macho, dizendo sentir-se uma mulher que copula com Deus. Vemos, ent\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 que nas f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o n\u00e3o haja onde colocar a psicose; podemos situ\u00e1-la aqui.<\/p>\n<p>Sobre identifica\u00e7\u00e3o e fantasma, como ficam na segunda cl\u00ednica?<\/p>\n<p>Certamente, ficam. Inclusive, Lacan, em plena \u00e9poca dos n\u00f3s, em <em>RSI<\/em>, diz:<\/p>\n<blockquote><p>Eu lhes proponho, como encerramento da sess\u00e3o de hoje, o seguinte: a identifica\u00e7\u00e3o, a identifica\u00e7\u00e3o tripla tal como ele (Freud) a avan\u00e7a, lhes formulo a maneira com que eu a defino. Se h\u00e1 um Outro real, n\u00e3o est\u00e1 em outra parte sen\u00e3o no pr\u00f3prio n\u00f3, e \u00e9 nisso que n\u00e3o h\u00e1 Outro do Outro. Este Outro real, fa\u00e7am-no identificar a seu Imagin\u00e1rio: voc\u00eas tem ent\u00e3o a identifica\u00e7\u00e3o da hist\u00e9rica ao desejo do Outro. Isso acontece nesse ponto central. Identifiquem-se ao Simb\u00f3lico do Outro real: voc\u00eas t\u00eam ent\u00e3o essa identifica\u00e7\u00e3o que especifiquei pelo <em>einziger Zug<\/em>, pelo tra\u00e7o un\u00e1rio. Identifiquem-se ao Real do Outro real: voc\u00eas obt\u00eam o que lhes indiquei com o Nome-do-Pai; e \u00e9 a\u00ed que Freud designa o que a identifica\u00e7\u00e3o tem a ver com o amor<sup>20<\/sup>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Como podemos observar, ele situa as tr\u00eas identifica\u00e7\u00f5es freudianas nos n\u00f3s. Ent\u00e3o, na cl\u00ednica continua havendo identifica\u00e7\u00e3o e fantasma, mas o que n\u00e3o h\u00e1 \u00e9 a ideia da travessia do fantasma como palavra final da an\u00e1lise. Por isso, eu dizia que a \u00faltima cl\u00ednica de Lacan acaba com a ideia de cura, com essa ideia de que se atravessa o fantasma e ent\u00e3o, nos voltamos e olhamos o que deixamos para tr\u00e1s &#8211; esta era a maneira como Miller representava, em certa \u00e9poca, a sa\u00edda do lugar em que se encontra o quadro \u201cOs Embaixadores\u201d, de Holbein. Na verdade, se olharmos para tr\u00e1s, continuamos com nosso sintoma, quer dizer, com os restos sintom\u00e1ticos que, para Freud, eram o problema. Era o que restava na psican\u00e1lise a resolver, o que tornava a an\u00e1lise infinita, e que adquire uma dimens\u00e3o completamente distinta. Ent\u00e3o, h\u00e1 travessia do fantasma, mas n\u00e3o h\u00e1 um despertar, n\u00e3o h\u00e1 atravessamento do <em>sinthome<\/em>; e \u00e9 melhor que n\u00e3o haja, porque se houvesse os elos do n\u00f3 se soltariam. Seria uma cat\u00e1strofe. Muda ent\u00e3o completamente a ideia de final de an\u00e1lise, a ideia de passe.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o sobre se h\u00e1 completude no encontro sexual na psicose: temos a experi\u00eancia de Schreber; talvez seu acoplamento com Deus seja uma completude; contudo, esse acoplamento \u00e9 acompanhado de um padecimento completo; n\u00e3o devemos imaginar o del\u00edrio como felicidade; \u00e9 sofrimento total.<\/p>\n<p>A respeito da eclos\u00e3o na neurose e do v\u00ednculo com o Outro gozo: normalmente a eclos\u00e3o na neurose tem a ver com a irrup\u00e7\u00e3o de Outro gozo, mas n\u00e3o necessariamente com o gozo feminino. Sempre a eclos\u00e3o tem a ver com a irrup\u00e7\u00e3o de um gozo e com a dificuldade para circunscrev\u00ea-lo. Vemos bem que as mulheres enlouquecem &#8211; elas enlouquecem e aos outros, porque portam em si esse suplemento que as torna insuport\u00e1veis.<\/p>\n<p>Percebe-se na literatura cl\u00e1ssica o esfor\u00e7o posto na educa\u00e7\u00e3o das mulheres, os livros e livros que foram escritos sobre como colocar as mulheres nos trilhos, os esfor\u00e7os dos maridos para educar suas mulheres, para domestic\u00e1-las. \u00c9 a ideia de que h\u00e1 algo na mulher que precisa ser domesticado e, efetivamente, quando isso \u00e9 domesticado, a mulher est\u00e1 bem instalada do lado f\u00e1lico.<\/p>\n<p>Talvez Raquel tenha pensado em algo particular ao fazer a pergunta: quando juntas a eclos\u00e3o da neurose e o outro gozo? Talvez voc\u00ea possa ampli\u00e1-la.<\/p>\n<p><em>Raquel Cors Ulloa<\/em><strong>: <\/strong>Eu estava pensando isso na perspectiva do que desamarra, da cl\u00ednica borromeana, da eclos\u00e3o psic\u00f3tica, do desencadeamento. Queria entender isso pelo lado do <em>sinthome<\/em>, que pode enodar em uma neurose, quando j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 enodado pelo que, no in\u00edcio, mantinha esse n\u00f3. \u00c9 uma pergunta que tenho me feito quando se fala do final de an\u00e1lise no <em>Semin\u00e1rio 22<\/em>, j\u00e1 n\u00e3o apenas do desabonado do inconsciente. Toda essa leitura de que a psicose ensina algo tamb\u00e9m da neurose.<\/p>\n<p><em>Graciela Brodsky<\/em>: Mas \u00e9 sempre na cl\u00ednica borromeana que \u00e9 dif\u00edcil de entender, porque os n\u00f3s s\u00e3o dif\u00edceis. Exigem um trabalho para o qual a mente n\u00e3o est\u00e1 preparada. Rompem com o imagin\u00e1rio e, finalmente, t\u00eam a simplicidade de um sistema de rupturas, de falhas e remendos. Sempre se deve perguntar: o que enoda? Por que desamarrou? N\u00e3o sei se h\u00e1 tanta diferen\u00e7a nesse plano entre neurose e psicose. Em uma \u00e9poca, eu tinha uma resposta que me deixou tranquila durante bastante tempo e depois se desacomodou para mim: dizer que na neurose o que mant\u00eam os tr\u00eas registros unidos \u00e9 o Nome-do-Pai, enquanto na psicose o que os mant\u00eam unidos n\u00e3o \u00e9 o Nome-do-Pai. Deve-se buscar o que mant\u00eam os tr\u00eas registros unidos, e que n\u00e3o \u00e9 o Nome-do-Pai. A anterior seria uma boa resposta, o problema \u00e9 que continua dando prioridade do Nome-do-Pai, continua lhe atribuindo um prest\u00edgio especial. Uma resposta boa, mas que tem uma falha sobre a qual dever\u00edamos pensar mais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Nelly Brito, Cristina Bion, Mingnon Lins <\/em>e<\/h6>\n<h6><em>Heloisa Shimabukuro. Revis\u00e3o t\u00e9cnica: Elisa Monteiro.<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><sup>1<\/sup> 2\u00b0 Semin\u00e1rio Internacional do CEIP extra\u00eddo de: BRODSKY, G. (2012[2010]). \u201cLa locura nuestra de cada dia\u201d. Caracas: Editorial Pomaire, p. 41-80. Publicamos este texto gra\u00e7as a am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o da autora, Graciela Brodsky, e do Editorial Pomaire da Venezuela, em cuja Colecci\u00f3n Mundo Psicoanal\u00edtico sob a dire\u00e7\u00e3o de Jonny Gavlovski E. est\u00e1 publicado com exclusividade em l\u00edngua espanhola.<\/h6>\n<h6><sup>2<\/sup> LACAN, J. (1977[1956]). \u201cOverture de la section clinique\u201d. In:<\/h6>\n<h6><em>Ornicar?<\/em>, (9). Paris: Revue du Champ Freudien, p. 7-14.<\/h6>\n<h6><sup>3<\/sup> N.T.: Mantivemos a tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas encontrada em LACAN, J. (1998). \u201cDe um des\u00edgnio\u201d. In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 366.<\/h6>\n<h6><sup>4<\/sup> N.T.: FOUCAULT, M. (2001). <em>O nascimento da cl\u00ednica<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Forense Universit\u00e1ria.<\/h6>\n<h6><sup>5<\/sup> MILLER, J.-A. (1984). <em>Cl\u00ednica bajo transferencia<\/em>. Buenos Aires: Manantial.<\/h6>\n<h6><sup>6<\/sup> LACAN, J. (2003[1975]). \u201cTalvez em Vincennes&#8230;\u201d. In: <em>Outros Escritos. <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., p. 316 &#8211; 318.<\/h6>\n<h6><sup>7<\/sup> IDEM. (2010[1978]). \u201cTransfer\u00eancia para Saint Denis? Lacan a favor de Vincennes!\u201d. In: <em>Correio &#8211; Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, (65). S\u00e3o Paulo: EBP, p. 31.<\/h6>\n<h6><sup>8<\/sup> IDEM. (1998[1946]). \u201cFormula\u00e7\u00f5es sobre a causalidade ps\u00edquica\u201d. In: <em>Escritos<\/em>. <em>Op. cit<\/em>., p. 177.<\/h6>\n<h6><sup>9<\/sup> MILLER, J.-A. (1993). \u201cIronia\u201d. In: <em>Uno por Uno \u2013 Revista Mundial de Psicoan\u00e1lisis<\/em>, (31). Buenos Aires: Paid\u00f3s.<\/h6>\n<h6><sup>10<\/sup> IDEM. (1996[1983]). \u201cMostrado em Pr\u00e9montr\u00e9\u201d. In: <em>Matemas I<\/em>. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., p. 153.<\/h6>\n<h6><sup>11<\/sup> IDEM. (2006[1986-1987]). <em>Los signos del goce<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s.<\/h6>\n<h6><sup>12<\/sup> IDEM. (2005[1997]). <em>Los inclasificables de la cl\u00ednica psicoanal\u00edtica<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s.<\/h6>\n<h6><sup>13<\/sup> LACAN, J. (1998[1975]). \u201cConfer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana \u2013 Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, (23). S\u00e3o Paulo: Eolia Editora.<\/h6>\n<h6><sup>14<\/sup> IDEM. (1998[1954]). \u201cResposta ao coment\u00e1rio de Jean Hyppolite sobre a \u2018Verneinung\u2019 de Freud\u201d. In: <em>Escritos<\/em>. <em>Op. cit<\/em>.<\/h6>\n<h6><sup>15<\/sup> N.T.: Com base na tradu\u00e7\u00e3o brasileira, de Vera Ribeiro<em>, <\/em>optou- se pelo o termo \u201csupress\u00e3o\u201d. LACAN, J. (1998[1954]). <em>Op. cit<\/em>., p.388.<\/h6>\n<h6><sup>16<\/sup> N.T.: trecho retirado da vers\u00e3o brasileira de <em>Escritos<\/em>, p. 400.<\/h6>\n<h6><sup>17<\/sup> N.T.: No original: \u201cCinco consecuencias en el nuevo orden simb\u00f3lico\u201d.<\/h6>\n<h6><sup>18<\/sup> N.T.: Na mitologia grega, ap\u00f3s a morte de D\u00e1nao, ent\u00e3o rei de Argos, suas 49 filhas solteiras foram condenadas a encher, indefinidamente, um tonel esburacado com \u00e1gua. A refer\u00eancia ao mito, em geral, designa compuls\u00f5es desprovidas de justificativa, atos sup\u00e9rfluos ou que implicam em perda de tempo.<\/h6>\n<h6><sup>19<\/sup> N.T.: No original: \u201cSexo y g\u00e9nero desde el psicoan\u00e1lisis\u201d.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Graciela Brodsky\u00a0 Rosa Lagos: Bom dia. 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