{"id":5660295,"date":"2022-08-16T18:46:53","date_gmt":"2022-08-16T21:46:53","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/?p=5660295"},"modified":"2022-08-16T18:46:53","modified_gmt":"2022-08-16T21:46:53","slug":"a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/2022\/08\/16\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/","title":{"rendered":"A Interpreta\u00e7\u00e3o: da escuta ao escrito"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"color: #333333;\">A INTERPRETA\u00c7\u00c3O: DA ESCUTA AO ESCRITO<\/span><\/h3>\n<h5><em>\u00c9ric Laurent<br \/>\n<\/em><em>Psicanalista, AME, membro da EBP, ECF, ELP, EOL, NEL, NLS e AMP<\/em><\/h5>\n<p>A escuta serve para tudo. Por exemplo, para constituir am\u00e1lgamas entre terapias autorit\u00e1rias centradas na reeduca\u00e7\u00e3o dos comportamentos e a psican\u00e1lise, que se apoia no sujeito do inconsciente. A tentativa de substitui\u00e7\u00e3o de uma pelas outras passa pela constitui\u00e7\u00e3o de uma categoria confusa e inconsistente, a das pr\u00e1ticas da escuta. Como se fosse o caso, sobretudo, de escutar a queixa dos sujeitos que pedem ajuda, ao passo que se trata de fazer disso alguma coisa.<\/p>\n<p>O comportamentalista escuta, no que lhe \u00e9 dito, o agenciamento de uma soma de comportamentos elementares que ele pretende, em seguida, reeducar. Ele responde ao que ouviu por meio de uma objetiva\u00e7\u00e3o dos comportamentos e uma s\u00e9rie de prescri\u00e7\u00f5es. A cren\u00e7a do comportamentalizado repousa na f\u00e9 na reeduca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O analista, em primeiro lugar presente como escuta, introduz, com seu sil\u00eancio, uma demanda de fala por parte do analisando. A resposta do analista jogar\u00e1 nesse registro da demanda para responder ao lado da demanda, a fim de poder fazer ouvir naquilo que \u00e9 dito o que ultrapassa a inten\u00e7\u00e3o daquele que sustenta seu dizer. O analista assume a responsabilidade da escuta para fazer surgir a presen\u00e7a de um sentido diferente do senso comum, de uma parte do discurso que sempre escapa. A isso se acrescenta a cren\u00e7a do analisando de que o analista tem em seu poder o saber no lugar do objeto demandado. Qualquer demanda implica a escuta, o sil\u00eancio da escuta como lugar reservado ao que, naquilo que se diz, excede a inten\u00e7\u00e3o. Essa escuta silenciosa vem marcar o lugar do desejo que, no discurso, se ignora.<\/p>\n<p>O lugar do desejo assim isolado tamb\u00e9m testemunha a fixa\u00e7\u00e3o do gozo que est\u00e1 em jogo na queixa. A efra\u00e7\u00e3o constitu\u00edda pelo gozo na homeostase do corpo \u00e9 o fundamento da repeti\u00e7\u00e3o do Um: \u201cNos casos aos quais se tem acesso pela psican\u00e1lise, seu modo de entrada [o do gozo] \u00e9 sempre pela efra\u00e7\u00e3o. A efra\u00e7\u00e3o, ou seja, n\u00e3o a dedu\u00e7\u00e3o, a inten\u00e7\u00e3o ou a evolu\u00e7\u00e3o, mas a ruptura, a disrup\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a uma ordem pr\u00e9via, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 rotina do discurso pelo qual as significa\u00e7\u00f5es se sustentam, ou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 rotina que se imagina do corpo animal\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>A escuta n\u00e3o tem, portanto, voca\u00e7\u00e3o para ficar paralisada em seu sil\u00eancio. Ela deve ajudar a manifestar a dimens\u00e3o do desejo para al\u00e9m da inten\u00e7\u00e3o e de uma puls\u00e3o ac\u00e9fala. Esta \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o. O desejo n\u00e3o \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o metalinguageira de uma puls\u00e3o pr\u00e9via confusa. O desejo \u00e9 sua interpreta\u00e7\u00e3o. As duas coisas est\u00e3o no mesmo n\u00edvel. Uma outra proposi\u00e7\u00e3o deve ser acrescentada: \u201cos psicanalistas fazem parte do conceito de inconsciente, posto que constituem seu destinat\u00e1rio\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. O psicanalista s\u00f3 consegue acertar o alvo se ele estiver \u00e0 altura da interpreta\u00e7\u00e3o operada pelo inconsciente, j\u00e1 estruturado como uma linguagem. Ainda \u00e9 preciso n\u00e3o reduzir essa linguagem \u00e0 concep\u00e7\u00e3o que a lingu\u00edstica pode ter dela, de uma liga\u00e7\u00e3o entre o significante e o significado. \u00c9 preciso dar todo o seu lugar \u00e0 barra que separa as duas dimens\u00f5es e permite a topologia da po\u00e9tica. A fun\u00e7\u00e3o po\u00e9tica revela que a linguagem n\u00e3o \u00e9 significa\u00e7\u00e3o, mas resson\u00e2ncia, e evidencia a mat\u00e9ria que, no som, excede o sentido.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Da interpreta\u00e7\u00e3o tradu\u00e7\u00e3o \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o corte<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 no la\u00e7o entre a interpreta\u00e7\u00e3o tradu\u00e7\u00e3o, que ainda joga com o sentido, e a interpreta\u00e7\u00e3o corte, que joga com a mat\u00e9ria sonora equ\u00edvoca, que se situa, no ensino de Lacan, a passagem entre a interpreta\u00e7\u00e3o que d\u00e1 sentido e seu avesso. Jacques-Alain Miller definiu essa problem\u00e1tica em um retumbante artigo opondo a interpreta\u00e7\u00e3o tradu\u00e7\u00e3o \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o assem\u00e2ntica, que remete apenas \u00e0 opacidade do gozo. O lugar vazio n\u00e3o est\u00e1 mais \u201cde reserva\u201d, est\u00e1 em primeiro plano. \u201cA quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 saber se a sess\u00e3o \u00e9 longa ou curta, silenciosa ou falante. Ou a sess\u00e3o \u00e9 uma unidade sem\u00e2ntica, aquela em que S<sub>2<\/sub>\u00a0vem pontuar a elabora\u00e7\u00e3o \u2013 del\u00edrio a servi\u00e7o do Nome-do-Pai \u2013, muitas sess\u00f5es s\u00e3o assim, ou ent\u00e3o a sess\u00e3o anal\u00edtica \u00e9 uma unidade a-sem\u00e2ntica, reconduzindo o sujeito \u00e0 opacidade de seu gozo. Isso sup\u00f5e que, antes de ser conclu\u00edda, ela seja cortada\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. A polaridade fundamental n\u00e3o \u00e9 mais entre o sentido e a verdade como furo, mas entre as duas faces do gozo: o que \u00e9 um lugar vazio no discurso e o perfura, mas que se imp\u00f5e em sua plenitude de opacidade.<\/p>\n<p>Essa nova polaridade s\u00f3 \u00e9 apreendida em seu pleno desenvolvimento rompendo com as ilus\u00f5es n\u00e3o apenas da intersubjetividade, mas tamb\u00e9m do di\u00e1logo. Jacques-Alain Miller o ressalta em sua inven\u00e7\u00e3o do conceito de\u00a0<em>aparola<\/em>\u00a0(apparole), reconfigurando os avan\u00e7os do \u00faltimo ensino de Lacan. \u201cA aparola \u00e9 um mon\u00f3logo. O tema do mon\u00f3logo obceca o Lacan dos anos 70 \u2013 o lembrete de que a fala \u00e9, sobretudo, mon\u00f3logo. Proponho aqui a aparola como o conceito que corresponde ao que surge no Semin\u00e1rio\u00a0<em>Mais<\/em>,\u00a0<em>ainda<\/em>, quando Lacan interroga de maneira ret\u00f3rica:\u00a0<em>lal\u00edngua, ser\u00e1 que ela serve primeiro para o di\u00e1logo<\/em>? Nada \u00e9 menos certo\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Enquanto a interpreta\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica queria fazer um relance, a interpreta\u00e7\u00e3o que confronta o gozo visa, ao contr\u00e1rio, a um n\u00e3o-relance. \u201c\u00c9 preciso que haja um limite ao mon\u00f3logo autista do gozo. E acho muito esclarecedor dizer que \u2013\u00a0<em>A interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica faz limite<\/em>. A interpreta\u00e7\u00e3o [em geral], ao contr\u00e1rio, tem uma potencialidade infinita\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. A potencialidade infinita do discurso livre coloca como \u00fanico limite ao gozo aquele do princ\u00edpio do prazer. O limite da interpreta\u00e7\u00e3o se prop\u00f5e diferente. \u201cDizer qualquer coisa conduz sempre ao princ\u00edpio do prazer, ao\u00a0<em>Lustprinzip<\/em>\u00a0[\u2026] Particularmente porque, ao colocarmos entre par\u00eanteses os interditos, as inibi\u00e7\u00f5es, os preconceitos, etc., quando isso se p\u00f5e verdadeiramente a girar nesse n\u00edvel h\u00e1 uma satisfa\u00e7\u00e3o da aparola\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. \u00c9 tamb\u00e9m com isso que a escuta pode se encantar. Permanecemos, assim, no princ\u00edpio do prazer, mesmo que ele seja comportamentalizado. Trata-se, portanto, de dar uma nova visada \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o. Em vez de recorrer ao princ\u00edpio do prazer e suas possibilidades indefinidas, trata-se de introduzir como limite a modalidade do imposs\u00edvel. \u201cIsso indica qual poderia ser o lugar da interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, na medida em que ela interviria na contram\u00e3o do princ\u00edpio do prazer [\u2026] a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica introduz o imposs\u00edvel\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Ao introduzir essa modalidade que rompe com a associa\u00e7\u00e3o livre da fala, ao estabelecer um certo\u00a0<em>isto n\u00e3o quer dizer nada<\/em>, a interpreta\u00e7\u00e3o que passa pela fala passa para o lado da escrita, \u00fanica capaz de se encarregar do furo do sentido e do imposs\u00edvel. \u201cA exemplo da formaliza\u00e7\u00e3o, a interpreta\u00e7\u00e3o [\u2026] est\u00e1 mais do lado do escrito do que do lado da fala. De todo modo, ela deve ser feita desafiando o escrito, na medida em que a formaliza\u00e7\u00e3o sup\u00f5e o escrito\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>A problem\u00e1tica da interpreta\u00e7\u00e3o assem\u00e2ntica introduz uma dimens\u00e3o h\u00edbrida entre o significante e a letra, ao passo que toda uma parte do ensino de Lacan os op\u00f5e. Ela d\u00e1 conta do fato de que Lacan vem a opor a interpreta\u00e7\u00e3o e a fala. \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica [\u2026] incide de uma forma que vai muito mais longe do que a fala. A fala \u00e9 um objeto de elabora\u00e7\u00e3o para o analisando, mas h\u00e1 nela efeitos do que o analista diz \u2013 porque ele diz. N\u00e3o \u00e9 trivial formular que a transfer\u00eancia desempenha nisso um papel, mas isso n\u00e3o esclarece nada. Tratar-se-ia de explicar como a interpreta\u00e7\u00e3o incide e que ela n\u00e3o implica necessariamente uma enuncia\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><strong>A interpreta\u00e7\u00e3o assem\u00e2ntica e o escrito<\/strong><\/p>\n<p>No primeiro ensino de Lacan, a interpreta\u00e7\u00e3o tinha como efeito dar acesso aos cap\u00edtulos apagados da minha hist\u00f3ria, ao que ali estava escrito. No segundo, Lacan se livra dessa refer\u00eancia \u00e0 hist\u00f3ria para manter apenas a refer\u00eancia ao \u201cestava escrito\u201d. O efeito de suposto saber, sua generaliza\u00e7\u00e3o, deve ser mantido a partir do poder do \u201cestava escrito\u201d. Uma nova concep\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o decorre disso: \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o, cuja ess\u00eancia \u00e9 o jogo de palavras homof\u00f4nico, \u00e9 o reenvio da fala \u00e0 escrita, ou seja, o reenvio de cada enunciado presente em sua inscri\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o como homofonia \u00e9 apreendida na generaliza\u00e7\u00e3o do equ\u00edvoco, que sup\u00f5e um reenvio ao est\u00e1 escrito. Ela convoca a rela\u00e7\u00e3o muito complexa entre fala e escrita. No\u00a0<em>Semin\u00e1rio 23<\/em>, Lacan desenvolve a escrita como apoio da fala, recusando-se a seguir Jacques Derrida em sua ideia de escrita como impress\u00e3o, trama, tra\u00e7o. Ele constr\u00f3i uma literalidade, uma rela\u00e7\u00e3o com a inst\u00e2ncia da letra a partir da experi\u00eancia. \u201cUma interpreta\u00e7\u00e3o sempre quer dizer \u2018voc\u00ea leu mal o que estava escrito\u2019. Nesse sentido, a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma retifica\u00e7\u00e3o da leitura do suposto saber. A interpreta\u00e7\u00e3o sup\u00f5e que a pr\u00f3pria fala seja uma leitura, que ela reconduza a fala ao \u2018texto original\u2019\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Esse reenvio tamb\u00e9m pode ser formulado como um engancho para significantes no n\u00f3 R.S.I. Eles v\u00eam se apoiar nessa escrita. Fazemos jogar essa escrita como apoio, cada vez que fazemos o sujeito ouvir um equ\u00edvoco que desfaz o afastamento entre a fala e a escrita. N\u00e3o se trata mais apenas do S<sub>1<\/sub>\u00a0e do S<sub>2\u00a0<\/sub>, do apoio do S<sub>2\u00a0<\/sub>\u00a0para dar sentido ao S<sub>1<\/sub>\u00a0. Trata-se tamb\u00e9m dessa escrita-apoio que valoriza os registros extremamente diversos do equ\u00edvoco, que ampliam o campo das interpreta\u00e7\u00f5es poss\u00edveis e o sentido de nossa a\u00e7\u00e3o. O dizer do analista n\u00e3o \u00e9 mais S<sub>2\u00a0<\/sub>\u00a0produtor de cadeias associativas. O n\u00f3 borromeano obstaculiza isso produzindo outros tipos de cadeias. \u201cO que formulamos com o n\u00f3 borromeano j\u00e1 vai contra a imagem da concatena\u00e7\u00e3o. O discurso do qual se trata n\u00e3o faz uma cadeia [\u2026] A partir de ent\u00e3o, a quest\u00e3o \u00e9 saber se o efeito de sentido em seu real se deve ao emprego das palavras\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>. O efeito de sentido real dispensa o imagin\u00e1rio da significa\u00e7\u00e3o. \u201cO efeito de sentido exig\u00edvel do discurso anal\u00edtico n\u00e3o \u00e9 imagin\u00e1rio. Ele tampouco \u00e9 simb\u00f3lico. \u00c9 preciso que ele seja real. Este ano, estou me ocupando em pensar qual pode ser o real de um efeito de sentido\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>. Esse real notifica a nova visada do aperto do n\u00f3 em torno do acontecimento de corpo e da inscri\u00e7\u00e3o que pode ser notada (<em>a<\/em>) em um uso renovado.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Ler com seus ouvidos<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 o que nos prop\u00f5e Lacan no terceiro cap\u00edtulo de\u00a0<em>Mais, ainda<\/em>. Este come\u00e7a com uma s\u00e9rie de paradoxos que, numa provoca\u00e7\u00e3o barroca, visam a desfazer a liga\u00e7\u00e3o aparentemente evidente da leitura com o que se escreve. \u201cA letra, l\u00ea-se, como uma carta. Parece mesmo feita no prolongamento da palavra. L\u00ea-se, e literalmente. Mas n\u00e3o \u00e9 justamente a mesma coisa ler uma letra ou bem ler. \u00c9 evidente que, no discurso anal\u00edtico, s\u00f3 se trata disto, do que se l\u00ea, e tomando como o que se l\u00ea para al\u00e9m do que voc\u00eas incitaram o sujeito a dizer\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Lacan come\u00e7a, ent\u00e3o, questionando a evid\u00eancia do la\u00e7o entre a leitura e a letra e prop\u00f5e uma concep\u00e7\u00e3o original de leitura. Ler um dizer, ou uma fala, \u201cpara al\u00e9m do que voc\u00eas incitaram o sujeito a dizer\u201d pela regra fundamental, reformulada, simplificada, como \u201cdiga qualquer coisa\u201d, mas diga! E essa leitura do dizer define o inconsciente, como o escreve Miller em seu intert\u00edtulo: o inconsciente \u00e9 o que se l\u00ea.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta que o significante e o significado sejam distinguidos. H\u00e1 uma barra que os separa, e Lacan lhe d\u00e1 um alcance radical. \u201cO significado n\u00e3o tem a ver com os ouvidos, mas somente com a leitura, com a leitura do que se ouve de significante\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Lacan nos comunica sua reflex\u00e3o sobre a barra como nota\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o, ou melhor, dos modos de nega\u00e7\u00e3o no plural. Lacan ainda n\u00e3o tornou p\u00fablica sua tabela da sexua\u00e7\u00e3o, que vir\u00e1 dois meses depois como sua \u201ccarta de almor (<em>\u00e2mour<\/em>)\u201d. Ele anuncia o uso que far\u00e1 da barra nos quantificadores. \u201cA nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia [\u2026] n\u00e3o \u00e9 de todo a mesma coisa que a nega\u00e7\u00e3o da totalidade\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>\u00a0\u2013 \u00e9 exatamente isso que ele usar\u00e1 como recurso diferenciado nas f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A barra, ele nos diz, n\u00e3o \u00e9 para ser compreendida, mas para ser explicada a fim de interrogar um limite da lingu\u00edstica. Esta tem dificuldades em dar conta do efeito de sentido produzido pela incid\u00eancia do significante sobre o significado. Este \u00e9 um tema j\u00e1 abordado de forma diferente por Lacan em \u201cLituraterra\u201d. A diz-mens\u00e3o da letra, segundo Lacan, implica uma certa inst\u00e2ncia, uma certa insist\u00eancia, um certo for\u00e7amento para se incluir na trama das significa\u00e7\u00f5es. A inst\u00e2ncia, real\u00e7ada no texto \u201cA inst\u00e2ncia da letra\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a>, designa, na letra, \u201caquilo que, a ter que insistir, s\u00f3 existe nela de pleno direito quando, por for\u00e7a da raz\u00e3o, isso se destaca\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>. A refer\u00eancia \u00e0 raz\u00e3o \u00e9, por certo, uma refer\u00eancia ao t\u00edtulo do artigo de 1957: \u201cA inst\u00e2ncia da letra no inconsciente ou a raz\u00e3o desde Freud\u201d.<\/p>\n<p>Para ouvir o que Lacan chama de inje\u00e7\u00e3o do significante no significado, temos o exemplo de uma troca epistolar entre Ponge e Lacan, que data de um ano ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de \u201cLituraterra\u201d. Lacan retransmite uma pergunta de Jakobson a Ponge. \u201cExiste algum exemplo de poesia em franc\u00eas onde se denote uma insist\u00eancia na viola\u00e7\u00e3o do acordo gramatical, na disfun\u00e7\u00e3o do singular e do plural, do g\u00eanero, da posposi\u00e7\u00e3o da \u2018preposi\u00e7\u00e3o\u2019, etc.?\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><sup>[19]<\/sup><\/a>. Ao transmitir a quest\u00e3o, Lacan a formula em termos, ele evoca a \u201cinsist\u00eancia\u201d da carta po\u00e9tica em infringir as regularidades sint\u00e1ticas. Lacan n\u00e3o recua diante da agress\u00e3o e da viol\u00eancia feitas \u00e0 sintaxe pela letra ao falar de \u201cinsist\u00eancia na viola\u00e7\u00e3o\u201d. O que interessa a Lacan \u00e9 a escrita po\u00e9tica como ilha de efra\u00e7\u00e3o, de irregularidade. A refer\u00eancia \u00e0 obra do poeta americano de vanguarda E.E. Cummings p\u00f5e em destaque essa vontade.<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>Mais, ainda<\/em>, Lacan nos d\u00e1 um exemplo do for\u00e7amento da letra na leitura do discurso atual operada pelo discurso psicanal\u00edtico. Trata-se da leitura da express\u00e3o \u201cN\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d. No discurso comum, o enunciado pode ser escrito como xRy, homem R mulher. Mas os termos significantes do uso comum n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com a articula\u00e7\u00e3o desses significantes com as fun\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas liberadas pelo discurso psicanal\u00edtico. No n\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o sexual, no n\u00edvel da quest\u00e3o f\u00e1lica, a mulher que n\u00e3o existe s\u00f3 pode ser apreendida como m\u00e3e, no lugar da m\u00e3e. O que \u00e9 uma leitura l\u00f3gica do complexo de \u00c9dipo. Da mesma forma, a leitura l\u00f3gica da rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-filho transforma o que Freud situava do lado do ideal. A m\u00e3e torna-se supl\u00eancia do\u00a0<em>n\u00e3o-toda<\/em>\u00a0sobre o qual \u201crepousa o gozo da mulher\u201d. O filho faz tamp\u00e3o dessa aus\u00eancia, encarnando o (<em>a<\/em>) como letra que vem marcar o lugar da aus\u00eancia. Quanto ao homem, ele \u00e9 articulado ao que se nota como gozo f\u00e1lico e tomado como todo nesse gozo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>A interpreta\u00e7\u00e3o como for\u00e7amento po\u00e9tico<\/strong><\/p>\n<p>Se o significante \u00e9 causa do gozo, devemos nos perguntar como esse gozo pode escapar do autoerotismo do corpo e ainda responder \u00e0 jacula\u00e7\u00e3o interpretativa. \u201cLogo, \u00e9 necess\u00e1rio sustentar a quest\u00e3o de saber se a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 um autismo a dois. Existe uma coisa que permite for\u00e7ar esse autismo \u2013 \u00e9 que\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>\u00a0\u00e9 uma tarefa comum\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn20\" name=\"_ftnref20\"><sup>[20]<\/sup><\/a>. O gozo \u00e9 autoer\u00f3tico, mas a l\u00edngua n\u00e3o \u00e9 um assunto privado. Ela \u00e9 comum. E Lacan explora os recursos do que pode permitir ao analista fazer ressoar outra coisa que n\u00e3o o sentido, algo que evoque o gozo na l\u00edngua comum. Primeiro, h\u00e1 a poesia. \u201cO for\u00e7amento \u00e9 por onde um psicanalista pode fazer soar outra coisa que n\u00e3o o sentido. O sentido ressoa com o aux\u00edlio do significante. Mas, com o aux\u00edlio do que chamamos de escrita po\u00e9tica, voc\u00eas podem ter a dimens\u00e3o daquilo que poderia ser a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><sup>[21]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Levar em conta as diferentes\u00a0<em>diz-mans\u00f5es<\/em>\u00a0no novo uso do significante possibilitado pela interpreta\u00e7\u00e3o permite a Lacan romper com a concep\u00e7\u00e3o saussuriana do signo e da lingu\u00edstica que dela se deduz. \u201cA lingu\u00edstica \u00e9 uma ci\u00eancia muito mal orientada. Ela n\u00e3o se sustenta sen\u00e3o \u00e0 medida em que um Roman Jakobson aborda, francamente, as quest\u00f5es da po\u00e9tica. A met\u00e1fora, a meton\u00edmia, n\u00e3o t\u00eam capacidade para a interpretar, a n\u00e3o ser quando elas s\u00e3o capazes de exercer a fun\u00e7\u00e3o de outra coisa com a qual se unem estritamente o som e o sentido\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn22\" name=\"_ftnref22\"><sup>[22]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>O uso que o psicanalista faz da met\u00e1fora e da meton\u00edmia n\u00e3o tem, por\u00e9m, a mesma visada que o poeta, que visa o efeito est\u00e9tico, libera um\u00a0<em>mais-de-gozar<\/em>\u00a0que lhe \u00e9 pr\u00f3prio. O psicanalista, como no chiste, deve visar a \u00e9tica, ou seja, o gozo. \u201c\u00c9 mesmo nisso que consiste o chiste. Consiste em se servir de uma palavra para outro uso que n\u00e3o aquele para o qual ela \u00e9 feita; dobramo-la, um pouco, e \u00e9 nessa dobradura que reside seu efeito operat\u00f3rio\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn23\" name=\"_ftnref23\"><sup>[23]<\/sup><\/a>. A nova po\u00e9tica que Lacan traz \u00e0 luz por meio da interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 ligada ao belo, mas toca o gozo como o chiste, que desencadeia um mais-de-gozar particular. \u201cN\u00e3o temos nada a dizer do belo. Ele se ocupa de um equ\u00edvoco ou, como diz Freud, de uma economia\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn24\" name=\"_ftnref24\"><sup>[24]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Essa resson\u00e2ncia permite elevar o dizer \u00e0 altura de um acontecimento, como o sintoma. \u201cObservem que eu n\u00e3o disse a fala, eu disse o dizer, toda fala n\u00e3o \u00e9 um dizer, sem o que toda fala seria um acontecimento, o que n\u00e3o \u00e9 o caso, sem isso n\u00e3o se falaria de falas v\u00e3s. Um dizer \u00e9 da ordem do acontecimento\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn25\" name=\"_ftnref25\"><sup>[25]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><strong>Ler-se como uma andorinha<\/strong><\/p>\n<p>O terceiro cap\u00edtulo do Semin\u00e1rio\u00a0<em>Mais, ainda<\/em>\u00a0termina com um bel\u00edssimo ap\u00f3logo, que situa o ponto em que desemboca a leitura do inconsciente em uma psican\u00e1lise. A psican\u00e1lise n\u00e3o apenas ensina a ler, mas ensina a \u201cse ler\u201d, com o mesmo efeito reflexivo da puls\u00e3o<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn26\" name=\"_ftnref26\"><sup>[26]<\/sup><\/a>. A puls\u00e3o \u00e9 ac\u00e9fala. Ela consiste em se fazer ver, cagar, papar, ouvir. Quando atingimos esse ponto, essa aus\u00eancia do eu (<em>moi<\/em>) onde se realiza um novo saber, Lacan sustenta que \u201cestamos no registro do discurso anal\u00edtico\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn27\" name=\"_ftnref27\"><sup>[27]<\/sup><\/a>. Nesse discurso, n\u00e3o h\u00e1 mais oposi\u00e7\u00e3o entre o leitor e o texto, os dois se interpenetram. Mais de\u00a0<em>mim\u00a0<\/em>(moi) para encarregar-me da leitura. Isso se l\u00ea.<\/p>\n<p>O ap\u00f3logo final retoma a exig\u00eancia do in\u00edcio do cap\u00edtulo: no discurso anal\u00edtico, situar a fun\u00e7\u00e3o da escrita, mas deslocando-a. No in\u00edcio do cap\u00edtulo, diz-se: \u201c\u00c9 bastante \u00f3bvio que, no discurso anal\u00edtico, trata-se apenas daquilo, do que se l\u00ea, do que se l\u00ea al\u00e9m do que voc\u00ea incitou o sujeito a ser dito\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn28\" name=\"_ftnref28\"><sup>[28]<\/sup><\/a>. E no final do cap\u00edtulo, no ap\u00f3logo, passamos da leitura para \u201cse ler\u201d. Lacan interroga n\u00e3o apenas o inconsciente, mas o sujeito do inconsciente, o la\u00e7o que ele mant\u00e9m com o Outro do discurso psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p>Este ap\u00f3logo se apresenta como uma leitura do \u201cgrande livro do mundo\u201d. Lacan v\u00ea nele o voo de uma abelha e o voo das andorinhas. A abelha vai de flor em flor, colhe o p\u00f3len. Um saber produz uma leitura dessa a\u00e7\u00e3o. A abelha transporta em suas patas o p\u00f3len de uma flor para outra. Ler o voo das abelhas \u00e9 saber que elas servem \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o das plantas. Mas ela o sabe? Da mesma forma, no voo dos p\u00e1ssaros, pode-se ler que haver\u00e1 tempestade. Lacan toma o exemplo do voo das andorinhas, animal pelo qual se interessa desde \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn29\" name=\"_ftnref29\"><sup>[29]<\/sup><\/a>. Mas a pergunta nos \u00e9 formulada: ser\u00e1 que a andorinha l\u00ea a tempestade?<\/p>\n<p>Lacan ainda n\u00e3o disp\u00f5e da categoria de falasser (<em>parl\u00eatre<\/em>), mas ele desliza do sujeito do inconsciente para um modo do vivente que, ao contr\u00e1rio da andorinha, \u00e9 um vivente suposto suposto saber ler. \u201cE n\u00e3o \u00e9 outra coisa, essa hist\u00f3ria do inconsciente, de voc\u00eas.\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn30\" name=\"_ftnref30\"><sup>[30]<\/sup><\/a>. Lacan d\u00e1 ent\u00e3o uma bela e simples defini\u00e7\u00e3o do percurso de uma an\u00e1lise: \u201cvoc\u00eas [\u2026] sup\u00f5em que ele sabe ler, como sup\u00f5em que ele pode aprender a ler\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn31\" name=\"_ftnref31\"><sup>[31]<\/sup><\/a>. Ent\u00e3o, vem o paradoxo final. \u201cS\u00f3 que, o que voc\u00eas o ensinam a ler, n\u00e3o tem, ent\u00e3o, absolutamente nada a ver, em caso algum, com o que voc\u00eas possam escrever a respeito\u201d<a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftn32\" name=\"_ftnref32\"><sup>[32]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>O procedimento do passe permite dar conta da maneira como um sujeito se l\u00ea em uma an\u00e1lise e como ele aprendeu a ler. Em contrapartida, o que se pode escrever a respeito s\u00e3o letras que remetem \u00e0s fun\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas reveladas pela experi\u00eancia da psican\u00e1lise. Os equ\u00edvocos da l\u00edngua que comp\u00f5em o inconsciente n\u00e3o t\u00eam nenhuma rela\u00e7\u00e3o com essas letras. De maneira radical, o sujeito do inconsciente \u00e9 l\u00f3gico e n\u00e3o psicol\u00f3gico. \u00c9 uma l\u00f3gica em que os jogos da escrita e da leitura se entrela\u00e7am, assim como a poesia barroca podia se encantar pelos jogos da beira da praia com a onda. O litoral da letra e do gozo nos encanta com jogos da leitura e da escrita, para chegar ao ponto em que n\u00e3o mais precisemos da ferramenta da fantasia para \u201cse ler\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Avellar Ribeiro<\/h5>\n<h5>Revis\u00e3o: Fernanda Otoni Brisset<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a>N.E.: Texto publicado anteriormente em\u00a0<em>Correio,\u00a0<\/em>n. 87. Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. Abril, 2022. Contamos com a am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o do autor para esta publica\u00e7\u00e3o.<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h5>[1] MILLER, J.-A. \u00abL\u2019Un est lettre\u00bb.\u00a0<em>La Cause du d\u00e9sir<\/em>, Paris, n. 107, p. 35, mar. 2021.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0LACAN, J. \u201cPosi\u00e7\u00e3o do inconsciente\u201d. In: LACAN, J.\u00a0<em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 848.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>\u00a0MILLER, J.-A. \u201cL\u2019interpr\u00e9tation \u00e0 l\u2019envers\u201d.\u00a0<em>La Cause freudienne<\/em>, Paris, n. 32, p. 13, jan. 1996.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>\u00a0____________ \u201cO mon\u00f3logo da aparola\u201d.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online<\/em>, nova s\u00e9rie, S\u00e3o Paulo, ano 3, n. 9, nov. 2012.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>\u00a0____________\u00a0<em>Ibid.<\/em><\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>\u00a0____________\u00a0<em>Ibid.<\/em><\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>\u00a0____________\u00a0<em>Ibid<\/em>.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>\u00a0____________\u00a0<em>Ibid<\/em>.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>\u00a0LACAN, J.\u00a0<em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 22:\u00a0<em>R.S.I.<\/em>\u00a0Li\u00e7\u00e3o de 11 de fevereiro de 1975. Texto estabelecido por J.-A. Miller.\u00a0<em>Ornicar?<\/em>, Paris, n. 4, p. 95-96.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>\u00a0MILLER, J.-A. \u00abIntroduction \u00e0 l\u2019\u00e9rotique du temps\u00bb.\u00a0<em>La Cause freudienne<\/em>, Paris, n. 56, p. 77, mar. 2004.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>\u00a0__________ 2004,\u00a0<em>op. cit<\/em>., p. 78.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>\u00a0LACAN, J.\u00a0<em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 22:\u00a0<em>R.S.I<\/em>. Li\u00e7\u00e3o de 11 de fevereiro de 1975, p. 96.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>\u00a0_________\u00a0<em>Ibid.<\/em><\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>\u00a0_________\u00a0<em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 20:\u00a0<em>Mais, ainda<\/em>. (1972-1973) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008 (novo projeto). p. 32-33.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a>\u00a0__________ 2008,\u00a0<em>op. cit<\/em>., p. 39.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a>\u00a0__________\u00a0<em>Ibid<\/em>.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref17\" name=\"_ftn17\"><sup>[17]<\/sup><\/a>\u00a0__________ \u201cA inst\u00e2ncia da letra no inconsciente ou a raz\u00e3o desde Freud\u201d. In: LACAN.\u00a0<em>Escritos<\/em>,\u00a0<em>op. cit<\/em>., p. 496-536.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref18\" name=\"_ftn18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>\u00a0__________ \u201cLituraterra\u201d. In: LACAN, J.\u00a0<em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 18.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref19\" name=\"_ftn19\"><sup>[19]<\/sup><\/a>\u00a0__________ \u201cCarta a Francis Ponge, 11 de dezembro de 1972\u201d.\u00a0<em>La Cause du d\u00e9sir<\/em>, n. 106, p. 14, jun. 2020.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref20\" name=\"_ftn20\"><sup>[20]<\/sup><\/a>\u00a0_________ \u201cRumo a um significante novo\u201d. Texto estabelecido por J.-A. Miller.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, S\u00e3o Paulo, Ed. Eolia, n. 22, p. 9, ago. 1998.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref21\" name=\"_ftn21\"><sup>[21]<\/sup><\/a>\u00a0_________\u00a0<em>Ibid.<\/em>, p. 10.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref22\" name=\"_ftn22\"><sup>[22]<\/sup><\/a>\u00a0<em>_________ Ibid.<\/em>, p. 11.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref23\" name=\"_ftn23\"><sup>[23]<\/sup><\/a>\u00a0_________\u00a0<em>Ibid.<\/em>, p. 13.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref24\" name=\"_ftn24\"><sup>[24]<\/sup><\/a>\u00a0_________\u00a0<em>Ibid.<\/em>, p. 11.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref25\" name=\"_ftn25\"><sup>[25]<\/sup><\/a>\u00a0_________ O semin\u00e1rio, livro 21: Les non-dupes errent. Li\u00e7\u00e3o de 18 de dezembro de 1973. In\u00e9dito.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref26\" name=\"_ftn26\"><sup>[26]<\/sup><\/a>\u00a0_________<em>\u00a0O semin\u00e1rio<\/em>, livro 11:\u00a0<em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. (1964) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1979.\u00a0<em>\u00a0<\/em><\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref27\" name=\"_ftn27\"><sup>[27]<\/sup><\/a>\u00a0_________ 2008,\u00a0<em>op. cit.<\/em>, p. 42.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref28\" name=\"_ftn28\"><sup>[28]<\/sup><\/a><em>\u00a0_________ Ibid<\/em>.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref29\" name=\"_ftn29\"><sup>[29]<\/sup><\/a>\u00a0Cf. LACAN, J. \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d. (1953) In: LACAN, 1998,\u00a0<em>op. cit.<\/em>, p. 273.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref30\" name=\"_ftn30\"><sup>[30]<\/sup><\/a>\u00a0_________ 2008,\u00a0<em>op. cit.<\/em>, p. 43.<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref31\" name=\"_ftn31\"><sup>[31]<\/sup><\/a>\u00a0_________\u00a0<em>Ibid.<\/em><\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/a-interpretacao-da-escuta-ao-escrito\/#_ftnref32\" name=\"_ftn32\"><sup>[32]<\/sup><\/a>\u00a0_________\u00a0<em>Ibid.<\/em><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A INTERPRETA\u00c7\u00c3O: DA ESCUTA AO ESCRITO \u00c9ric Laurent Psicanalista, AME, membro da EBP, ECF,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[141],"tags":[],"class_list":["post-5660295","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos-de-orientacao-eixo-3"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5660295","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5660295"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5660295\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5660296,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5660295\/revisions\/5660296"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5660295"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5660295"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5660295"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}