{"id":5660291,"date":"2022-08-16T18:43:12","date_gmt":"2022-08-16T21:43:12","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/?p=5660291"},"modified":"2022-08-16T18:43:12","modified_gmt":"2022-08-16T21:43:12","slug":"o-racismo-2-0","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/2022\/08\/16\/o-racismo-2-0\/","title":{"rendered":"O racismo 2.0"},"content":{"rendered":"<h3 class=\"ecxMsoNormal\" style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><span style=\"color: #333333;\"><b>O racismo 2.0<\/b><\/span><\/h3>\n<h5 class=\"ecxMsoNormal\" style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><b>por \u00c9ric Laurent<\/b><\/h5>\n<div class=\"ecxMsoNormal\" align=\"center\"><\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">Os recentes debates que t\u00eam lugar em torno da proibi\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo de Dieudonn\u00e9, fazem ressoar de maneira muito atual uma das \u00abantecipa\u00e7\u00f5es lacanianas\u00bb1\u00a0sobre a fun\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise na civiliza\u00e7\u00e3o. As \u00faltimas palavras do\u00a0<i>Semin\u00e1rio 19<\/i>, em junho de 1972, visam precisamente nosso futuro. A sa\u00edda da civiliza\u00e7\u00e3o patriarcal lhe parecia ent\u00e3o consumada. A \u00e9poca p\u00f3s-68 ainda fervilhava de proposi\u00e7\u00f5es sobre o fim do poder dos pais e a chegada de uma sociedade dos irm\u00e3os, acompanhada do hedonismo feliz de uma nova religi\u00e3o do corpo. Lacan atrapalha um pouco a festa acrescentando uma consequ\u00eancia que havia passado desapercebida: \u00abQuando voltamos \u00e0 raiz do corpo, se revalorizarmos a palavra irm\u00e3o, (\u2026), saibam que o que vem aumentando, o que ainda n\u00e3o viu suas \u00faltimas consequ\u00eancias e que, por sua vez, se enra\u00edza no corpo, na fraternidade do corpo, \u00e9 o racismo\u00bb. A idolatria do corpo tem consequ\u00eancias bem diferentes do que o hedonismo narc\u00edsico o qual alguns poderiam pensar limitar essa \u00abreligi\u00e3o do corpo\u00bb. Elas anunciam na modernidade outras figuras da religi\u00e3o diferentes das religi\u00f5es seculares, como dizia Raymond Aron, que caracterizavam a \u00e9poca e forneciam, segundo ele, \u00abO \u00d3pio dos Intelectuais\u00bb.<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\"><\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">No mesmo momento em que Lacan previa o aumento do racismo, sublinhado com insist\u00eancia de 1967 aos anos 1970, o ambiente era mais de regozijo diante das perspectivas de integra\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es em conjuntos mais amplos que autorizavam os \u00abmercados comuns\u00bb. Todo mundo era ent\u00e3o, mais do que hoje, a favor da Europa. E Lacan acentua essa consequ\u00eancia inesperada com uma precis\u00e3o que, na \u00e9poca, surpreendeu. Interrogando Lacan em \u00abTelevis\u00e3o\u00bb, em 1973, Jacques-Alain Miller fazia-se eco dessa surpresa e punha em relevo a import\u00e2ncia dessa tese. \u00abDe onde lhe vem, por outro lado, a seguran\u00e7a de profetizar a escalada do racismo? E por que diabos dizer isso?\u00bb.2\u00a0Lacan respondia: \u00abPorque n\u00e3o me parece engra\u00e7ado e, no entanto, \u00e9 verdade. No desatino de nosso gozo, s\u00f3 h\u00e1 o Outro para situ\u00e1-lo, mas na medida em estamos separados dele. Da\u00ed fantasias, in\u00e9ditas quando n\u00e3o nos met\u00edamos nisso\u00bb.<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">A l\u00f3gica desenvolvida por Lacan \u00e9 a seguinte. N\u00e3o sabemos o que \u00e9 o gozo a partir do qual poder\u00edamos nos orientar. S\u00f3 sabemos rejeitar o gozo do Outro. Com o fato de\u00a0<i>nos meter,\u00a0<\/i>Lacan denuncia o duplo movimento do colonialismo e da vontade de normalizar o gozo daquele que \u00e9 deslocado, emigrado em nome de um dito \u00abbem dele\u00bb. \u00abDeixar esse Outro entregue a seu modo de gozo, eis o que s\u00f3 seria poss\u00edvel n\u00e3o lhe impondo o nosso, n\u00e3o o tomando por subdesenvolvido. (\u2026)\u00a0como esperar que se leve adiante a humanitarice de encomenda de que se revestiam nossas exa\u00e7\u00f5es?\u00bb. N\u00e3o \u00e9 o choque das civiliza\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 o choque dos gozos. Esses gozos m\u00faltiplos fragmentam o la\u00e7o social, da\u00ed a tenta\u00e7\u00e3o de apelo a um Deus unificador.<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\"><\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">Lacan anuncia a\u00ed tamb\u00e9m algo, o retorno dos fundamentalismos religiosos. \u00abDeus, recuperando a for\u00e7a, acabaria por ex-sistir, o que n\u00e3o pressagia nada melhor do que um retorno de seu passado funesto\u00bb. Em suas proposi\u00e7\u00f5es sobre a l\u00f3gica do racismo, Lacan leva em conta a varia\u00e7\u00e3o das formas do objeto rejeitado, suas formas distintas que v\u00e3o do antisemitismo de antes da guerra, que conduz ao racismo nazista, ao racismo p\u00f3s-colonial dirigido aos imigrantes. De fato, o racismo muda seus objetos \u00e0 medida em que as formas sociais se modificam, mas, conforme a perspectiva de Lacan, sempre jaz, numa comunidade humana, a rejei\u00e7\u00e3o de um gozo inassimil\u00e1vel, dom\u00ednio de uma barb\u00e1rie poss\u00edvel.<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\"><\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">Antes de \u00abTelevis\u00e3o\u00bb, Lacan evoca esta quest\u00e3o do racismo na \u00abProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola\u00bb e na sua \u00abAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a\u00bb, durante o mesmo ano. Na \u00abProposi\u00e7\u00e3o\u2026\u00bb, Lacan evoca o que o racismo nazista tinha, na sua barb\u00e1rie, de \u00abprecursor\u00bb: \u00abAbreviemos dizendo que o que vimos emergir deles, para nosso horror, representou a rea\u00e7\u00e3o de precursores em rela\u00e7\u00e3o ao que se ir\u00e1\u00a0 desenvolvendo como consequ\u00eancia do remanejamento dos grupos sociais pela ci\u00eancia, e, nominalmente, da universaliza\u00e7\u00e3o que ela ali introduz. Nosso futuro de mercados comuns encontrar\u00e1 seu equil\u00edbrio numa amplia\u00e7\u00e3o cada vez mais dura dos processos de segrega\u00e7\u00e3o\u00bb.3\u00a0E na \u00abAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a\u00bb, ele justifica o n\u00f3 entre posi\u00e7\u00e3o do analista e movimento da civiliza\u00e7\u00e3o: \u00abComo responderemos, n\u00f3s, os psicanalistas: a segrega\u00e7\u00e3o trazida \u00e0 ordem do dia por uma subvers\u00e3o sem precedentes\u00bb.4<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">De fato, a l\u00f3gica pela qual Lacan constr\u00f3i qualquer conjunto humano que seja, opera uma tor\u00e7\u00e3o na<i>Psicologia de Grupo<\/i>\u00a0freudiana. Em 1921, depois de ter formulado a segunda t\u00f3pica que organiza a realidade ps\u00edquica, Freud retoma a quest\u00e3o do destino pulsional a partir do tipo de identifica\u00e7\u00e3o que rege de maneira determinante a vida ps\u00edquica: \u00abE em completa oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica costumeira, n\u00e3o escolherei, como nosso ponto de partida, uma forma\u00e7\u00e3o de grupo relativamente simples, mas come\u00e7arei por grupos altamente organizados, permanentes e artificiais. Os mais interessantes exemplos de tais estruturas s\u00e3o as Igrejas \u2013 a comunidade dos crentes \u2013 e os ex\u00e9rcitos\u2026 Teremos de considerar se os grupos com l\u00edderes talvez n\u00e3o sejam os mais primitivos e\u00a0completos, se nos outros uma id\u00e9ia, uma abstra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode tomar o lugar do l\u00edder (estado de coisas para o qual os grupos religiosos, com seu chefe invis\u00edvel, constituem etapa transit\u00f3ria) e se uma tend\u00eancia comum, um desejo, em que certo n\u00famero de pessoas tenha uma parte, n\u00e3o poder\u00e1, da mesma maneira, servir de suced\u00e2neo. (\u2026) o \u00f3dio contra uma determinada pessoa ou institui\u00e7\u00e3o poderia funcionar da mesma maneira unificadora\u00bb.5\u00a0Para Freud, o \u00f3dio e a rejei\u00e7\u00e3o racista se unem, por\u00e9m permanecem conectados ao l\u00edder que toma o lugar do pai ou, mais precisamente, do assassinato do pai. O ilimitado da exig\u00eancia permanece no grupo e o estabelecimento do la\u00e7o social \u00e9 fundamentado no assentamento pulsional da identifica\u00e7\u00e3o. O grupo est\u00e1vel comp\u00f5e nele mesmo o mesmo princ\u00edpio de ilimita\u00e7\u00e3o produzido pela multid\u00e3o prim\u00e1ria. Assim Freud p\u00f4de dar conta do ex\u00e9rcito como multid\u00e3o organizada e do poder de matan\u00e7a selvagem que a acompanha. O \u00f3dio comum pode unificar a multid\u00e3o, ligada a uma identifica\u00e7\u00e3o segregada ao l\u00edder.<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\"><\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">Para construir a l\u00f3gica do la\u00e7o social, Lacan n\u00e3o avan\u00e7a a partir da identifica\u00e7\u00e3o ao l\u00edder, mas a uma primeira rejei\u00e7\u00e3o pulsional. O seu tempo l\u00f3gico chega a propor para toda forma\u00e7\u00e3o humana tr\u00eas tempos segundo os quais se articulam o Sujeito e o Outro social:<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">1) Um homem sabe que n\u00e3o \u00e9 um homem;<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">2) Os homens se reconhecem entre si;<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">3) Eu afirmo ser um homem, com medo de ser convencido pelos homens de n\u00e3o ser um homem.<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">Esses tempos de identifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o partem de um saber sobre o que seria ser um homem e depois de um processo de identifica\u00e7\u00e3o, mas essa l\u00f3gica parte do que\u00a0<b>n\u00e3o \u00e9<\/b>\u00a0um homem \u2013 Um homem sabe o que n\u00e3o \u00e9 um homem. Isso n\u00e3o diz nada sobre o que \u00e9 um homem. Depois, os homens se reconhecem entre si por\u00a0<i>serem<\/i>homens: n\u00e3o sabem o que fazem, mas se reconhecem entre si. Enfim, eu afirmo ser um homem. L\u00e1 vai toda a quest\u00e3o da afirma\u00e7\u00e3o ou da decis\u00e3o ligada \u00e0 fun\u00e7\u00e3o da precipita\u00e7\u00e3o, a fun\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia \u2015 do medo de\u00a0<i>ser<\/i>convencido pelos homens de n\u00e3o ser um homem.6<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\"><\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">Essa l\u00f3gica coletiva \u00e9 fundada na amea\u00e7a de uma rejei\u00e7\u00e3o primordial, uma forma de racismo: um homem sabe o que n\u00e3o \u00e9 um homem. E \u00e9 uma quest\u00e3o de gozo. N\u00e3o \u00e9 homem aquele que rejeito como tendo um gozo distinto do meu. \u00abMovimento que d\u00e1 a forma l\u00f3gica de toda assimila\u00e7\u00e3o \u00abhumana\u00bb, enquanto precisamente ela se coloca como assimiladora de uma barb\u00e1rie e, portanto, reserva a determina\u00e7\u00e3o essencial do \u00abEu\u00bb\u2026\u00bb7.<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\"><\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">Quando Lacan escreveu esse texto, a barb\u00e1rie nazista estava pr\u00f3xima. Come\u00e7ou por considerar o Judeu como aquele que n\u00e3o goza como o Ariano: um homem n\u00e3o \u00e9 um homem porque n\u00e3o goza como eu. Ao contr\u00e1rio, pode-se sublinhar que, nessa l\u00f3gica, se os homens n\u00e3o sabem qual \u00e9 a natureza do gozo deles, os homens sabem o que \u00e9 a barb\u00e1rie. A partir de l\u00e1, os homens se reconhecem entre si, e n\u00e3o sabem bem como. E depois, subjetivamente, e um por um, eu me precipito. Afirmo ser um homem, com medo de ser denunciado como n\u00e3o sendo um homem. Essa l\u00f3gica coletiva se enovela em conjunto, a partir de uma aus\u00eancia de defini\u00e7\u00e3o do\u00a0<i>ser-um-homem,\u00a0<\/i>o\u00a0<i>Eu<\/i>\u00a0que se afirma e o conjunto dos homens, curtocircuitando o l\u00edder.<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\"><\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">Essa forma l\u00f3gica prosseguir\u00e1 ao longo da obra de Lacan. Ser\u00e1 complicada pela teoria do desejo e pela teoria do gozo, mas vai funcionar, inclusive na l\u00f3gica do passe. A l\u00f3gica de constitui\u00e7\u00e3o da coletividade psicanal\u00edtica ser\u00e1 abordada segundo a mesma l\u00f3gica anti-identificat\u00f3ria, ou mais precisamente, de identifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o-segregativas, como as chamou Jacques-Alain Miller em sua \u00abTeoria de Torino\u00bb8.<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\"><\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">1) \u2015 Um psicanalista sabe o que n\u00e3o \u00e9 um psicanalista \u2013 isso n\u00e3o diz em nada que o psicanalista saiba o que \u00e9 um psicanalista.<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">2) \u2015 Os psicanalistas se reconhecem entre si por serem psicanalistas \u2013 \u00e9 o que se pede na experi\u00eancia do passe, que um cartel reconhe\u00e7a: \u2015 esse da\u00ed, \u00ab\u00e9 dos nossos\u00bb.<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">3) \u2015 Para se apresentar ao passe, o sujeito, ele, deve afirmar, decidir ser psicanalista e se arriscar em n\u00e3o convencer os outros de que ele \u00e9 psicanalista.9<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\"><\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">Se Lacan insistiu nessa dimens\u00e3o do racismo na \u00abProposi\u00e7\u00e3o\u2026\u00bb, \u00e9 para sublinhar que todo conjunto humano comporta em seu fundo um gozo deslocado, um n\u00e3o-saber fundamental sobre o gozo, que corresponderia a uma identifica\u00e7\u00e3o. O psicanalista \u00e9 simplesmente aquele que deve sab\u00ea-lo para constituir a comunidade daqueles que se reconhecem como psicanalistas.<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\"><\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">O gozo maligno em jogo no discurso racista \u00e9 desconhecimento dessa l\u00f3gica. Ela est\u00e1 no fundamento de todo la\u00e7o social. O crime fundador n\u00e3o \u00e9 o assassinato do pai, mas a vontade de assassinato daquele que encarna o gozo que eu rejeito. Portanto, sempre o antiracismo \u00e9 a reinventar para seguir as novas formas do objeto do racismo, se deformando \u00e0 medida dos remanejamentos das forma\u00e7\u00f5es sociais. No entanto, nossa hist\u00f3ria p\u00f5e especialmente em relevo, nas varia\u00e7\u00f5es do racismo, o lugar central do antisemitismo, ao mesmo tempo precursor e horizonte. Retomarei a an\u00e1lise da nova forma do que vem a\u00ed para n\u00f3s, feita por Bernard-Henri L\u00e9vy: \u00abO antisemitismo tem uma hist\u00f3ria. Tomou, no decorrer das \u00e9pocas, formas diferentes, mas correspondendo, cada vez, ao que o esp\u00edrito do tempo podia ou queria entender. E eu acredito que, por raz\u00f5es cujo detalhe \u00e9 imposs\u00edvel entrar aqui, o \u00fanico antisemitismo apto a \u00abfuncionar\u00bb hoje, o \u00fanico capaz de abusar e de mobilizar, como o fez em outras \u00e9pocas, um grande n\u00famero de mulheres e homens, \u00e9 aquele que saberia enovelar o triplo fio do antisionismo (os judeus sustentando um \u00abIsra\u00ebl assassino\u00bb), do negacionismo (um povo sem escr\u00fapulos capaz, para chegar a seus fins, de inventar ou instrumentalizar o mart\u00edrio dos seus) e da concorr\u00eancia das v\u00edtimas (a mem\u00f3ria da Shoah funcionando como a tela que esconderia os outros massacres do planeta). E ent\u00e3o, Dieudonn\u00e9 estava a ponto de operar a conjun\u00e7\u00e3o desses tr\u00eas fios\u00bb.10\u00a0A surpreendente resposta que lhe dirige Nicolas Bedos abre uma outra quest\u00e3o sobre o estatuto do c\u00f4mico no est\u00f4mago de nossa civiliza\u00e7\u00e3o do individualismo de massa democr\u00e1tico. N\u00e3o basta ali\u00e1s p\u00f4r em jogo o est\u00f4mago, talvez precisem todas as v\u00edsceras para se fazer escutar. Consequ\u00eancia inesperada: a televis\u00e3o torna-se uma m\u00eddia cada vez menos\u00a0<i>soft\u00a0<\/i>e todos se aproximam da viol\u00eancia da internet.<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\"><\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\">\n<hr \/>\n<\/div>\n<div class=\"ecxMsoNormal\"><\/div>\n<h5 class=\"ecxMsoNormal\">\u00a0\u00a01Miller J.-A., \u00ab As profecias de Lacan \u00bb, LePoint.fr, 18 de agosto de 2013.<\/h5>\n<h5 class=\"ecxMsoNormal\">\u00a0\u00a02Lacan J, \u00abTelevis\u00e3o\u00bb [1973],\u00a0<i>Outros Escritos<\/i>, Zahar, Rio de Janeiro, 2002, p. 534.<\/h5>\n<h5 class=\"ecxMsoNormal\">\u00a0\u00a03Lacan J., \u00abProposi\u00e7\u00e3o de 9 outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola\u00bb,\u00a0<i>Outros Escritos<\/i>,\u00a0<i>op. cit<\/i>., p. 263.<\/h5>\n<h5 class=\"ecxMsoNormal\">\u00a0\u00a04<i>Ibid<\/i>., p. 361.<\/h5>\n<h5 class=\"ecxMsoNormal\">\u00a0\u00a05Freud S., \u00abPsicologia de Grupo e An\u00e1lise do Ego\u00bb,\u00a0<i>Obras completas<\/i>, XVIII, Rio de Janeiro, Imago, 1969, p. 127.<\/h5>\n<h5 class=\"ecxMsoNormal\">\u00a0\u00a06Lacan J., \u00abO tempo l\u00f3gico e a asser\u00e7\u00e3o de certeza antecipada\u00bb [1945],\u00a0<i>\u00c9crits<\/i>, Seuil, 1966, p. 213.<\/h5>\n<h5 class=\"ecxMsoNormal\">\u00a0\u00a07Lacan J., \u00abO tempo l\u00f3gico e a asser\u00e7\u00e3o de certeza antecipada\u00bb [1945],\u00a0<i>\u00c9crits, op. cit\u00a0<\/i>., p. 213.<\/h5>\n<h5 class=\"ecxMsoNormal\">\u00a0\u00a08Miller J.-A., \u00abTeoria de Torino\u00bb, Interven\u00e7\u00e3o no I\u00ba Congresso cient\u00edfico de la Scuola lacaniana di Psicoanalisi (em forma\u00e7\u00e3o), o 21 de maio de 2000, cujo tema era \u00abAs patologias das leis e das normas \u00bb, dispon\u00edvel no site da \u00c9cole de la Cause freudienne.<\/h5>\n<h5 class=\"ecxMsoNormal\">\u00a0\u00a09Laurent \u00c9., \u00ab Os paradoxos da identifica\u00e7\u00e3o \u00bb, aulas de 1993 na Section Clinique, o 1o dezembro de 1993, in\u00e9dito.<\/h5>\n<h5 class=\"ecxMsoNormal\">\u00a0\u00a010\u00a0L\u00e9vy B.-H., \u00abPara acabar (provisoriamente?) com a quest\u00e3o Dieudonn\u00e9\u00bb,\u00a0<i>Le Point<\/i>, 16 de janeiro de 2014, dispon\u00edvel na internet.<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O racismo 2.0 por \u00c9ric Laurent Os recentes debates que t\u00eam lugar em torno&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[],"class_list":["post-5660291","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos-de-orientacao-eixo-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5660291","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5660291"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5660291\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5660292,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5660291\/revisions\/5660292"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5660291"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5660291"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5660291"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}