{"id":5660289,"date":"2022-08-16T18:41:42","date_gmt":"2022-08-16T21:41:42","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/?p=5660289"},"modified":"2022-08-16T18:41:42","modified_gmt":"2022-08-16T21:41:42","slug":"o-discurso-capitalista-e-o-impossivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/2022\/08\/16\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/","title":{"rendered":"O discurso capitalista e o imposs\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p>O discurso capitalista e o imposs\u00edvel<\/p>\n<h5><em>Fabi\u00e1n Fajnwaks<br \/>\nPsicanalista, AME, membro da Escola de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana ( EOL) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise<br \/>\n<\/em><\/h5>\n<p>Tomarei o discurso capitalista como variante do discurso do Mestre. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o haja discurso do Mestre. Este faz um retorno, nos \u00faltimos tempos, na demanda, por exemplo, de um retorno \u00e0 soberan\u00eda das na\u00e7\u00f5es, na Europa, com o Brexit; a ascens\u00e3o dos l\u00edderes neoconservadores, como Trump, Bolsonaro no Brasil, e um personagem como \u00c9ric Zemmour aqui na Fran\u00e7a \u2013 mas trata-se de l\u00edderes sint\u00e9ticos, dir\u00edamos, inclusive, de semblantes, j\u00e1 que sua pot\u00eancia se encontra emoldurada pelo verdadeiro Mestre que hoje s\u00e3o os mercados. O Mestre manda de maneira limitada, tentando regular hoje os efeitos do fluxo cont\u00ednuo de capital nas finan\u00e7as e nos mercados, mas tamb\u00e9m o fluxo de popula\u00e7\u00f5es de emigrantes, o fluxo de votos. Isso tamb\u00e9m quer dizer tentando governar em um mundo no qual tudo flui agora, fluxo que n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o o do gozo, ali onde o que Lacan chamou \u201cdiscurso capitalista\u201d n\u00e3o \u00e9 mais do que um circuito que, diferentemente dos outros quatro discursos que est\u00e3o sendo apresentados nesta Jornada da Se\u00e7\u00e3o Bahia, n\u00e3o apresenta uma impossibilidade, quer dizer, um freio ao gozo. Ou seja, n\u00e3o \u00e9 um verdadeiro discurso, estritamente falando, nos termos de Lacan, j\u00e1 que o que define um discurso, cada um deles, \u00e9 constituir-se como barreira ao gozo.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o h\u00e1 impossibilidade, tampouco h\u00e1 corte, nem perda no discurso do capitalista. Se h\u00e1 falta, \u00e9 uma falta instrumentalizada para oferecer objetos que n\u00e3o cobrem, ainda que parcialmente, a falta do sujeito. Constatamos que \u00e9 mais um\u00a0<em>continuum<\/em>\u00a0de gozo gerado pela circula\u00e7\u00e3o entre os quatro termos que estruturam o discurso. S<sub>1<\/sub>\u00a0e S<sub>2<\/sub>\u00a0n\u00e3o aparecem separados, onde haja um sujeito que possa se deduzir, como por exemplo no discurso do inconsciente \u2013 outro dos nomes que Lacan d\u00e1 ao discurso do Mestre \u2013, do reenvio de um significante ao outro. Os dois significantes que constituem a estrutura m\u00ednima para que haja um discurso, S<sub>1<\/sub>\u00a0e S<sub>2<\/sub>, aparecem holofraseados, soldados, formando parte do circuito mais geral a que se agrega o la\u00e7o do sujeito barrado ao objeto (<em>a<\/em>), o que d\u00e1 sua formaliza\u00e7\u00e3o ao fantasma fundamental e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do sujeito, a partir desse fantasma, nesse circuito. Essa solidifica\u00e7\u00e3o, esse congelamento, \u00e9 o que d\u00e1 o estilo de debilidade mental do sujeito nesse discurso: lembremos que n\u00e3o temos muita op\u00e7\u00e3o entre a debilidade mental e a loucura, como assinalava Lacan.<\/p>\n<p>Os zumbis, que aparecem no in\u00edcio desse magn\u00edfico\u00a0<em>teaser<\/em>\u00a0que abre esta Jornada e esta confer\u00eancia, e que agrade\u00e7o a Marcela Antelo, evocavam essa dimens\u00e3o de debilidade mental presente no sujeito, t\u00e3o contempor\u00e2nea, que o cinema, por exemplo, o \u00faltimo cinema americano, vem explorando nos \u00faltimos anos. N\u00e3o se trata tanto da presen\u00e7a da mortifica\u00e7\u00e3o que o significante introduz no sujeito \u2013 um fato de estrutura \u2013, mas do redobramento dessa mortifica\u00e7\u00e3o nos mortos-vivos que s\u00e3o os zumbis, que s\u00e3o os sujeitos contempor\u00e2neos, justamente por essa dimens\u00e3o de debilidade mental que produz a solidifica\u00e7\u00e3o do S<sub>1<\/sub>\u00a0e do S<sub>2<\/sub>, e certamente a foraclus\u00e3o do sujeito que justamente essa rela\u00e7\u00e3o produz.<\/p>\n<p>A debilidade aqui \u00e9 de estrutura: \u00e9 o pr\u00f3prio discurso que estrutura um sujeito que n\u00e3o necessita falar para aceder a algo, a uma parte de seu ser, que acredita encontrar no objeto que vem complementar sua falta em ser ao n\u00edvel do seu fantasma fundamental, outorgando-lhe por a\u00ed algo de seu gozo, mas certamente nada de sua verdade.<\/p>\n<p>Existe, poder\u00edamos dizer, no discurso do capitalista um uso de S<sub>1<\/sub>\u00a0e S<sub>2<\/sub>\u00a0separados, mas em nenhum caso no la\u00e7o que conhecemos como produzindo um sujeito no intervalo entre ambos, o que nos permite apontar que essa produ\u00e7\u00e3o de hol\u00f3frases gera, ent\u00e3o, uma foraclus\u00e3o do sujeito. O S<sub>1<\/sub>\u00a0pode ser instrumentalizado para designar comunidades identit\u00e1rias, o que d\u00e1 a a\u00e7\u00e3o na contemporaneidade \u00e0s\u00a0<em>identity politics<\/em>, pol\u00edticas identit\u00e1rias, no social, nas quais se busca fazer reconhecer uma especificidade segregada, ou ainda autossegregada, que busca ser reconhecida como tal. \u00c9 isso o que as comunidades de gozo buscam hoje fazer valer, colocando na frente delas um S<sub>1<\/sub>\u00a0que recobre, muitas vezes \u2013 n\u00e3o sempre, mas muitas vezes \u2013, um modo de gozo particular:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">S<sub>1<br \/>\n_________<\/sub><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(<em>a<\/em>)<\/p>\n<p>Elas reconhecem aqui o valor da ins\u00edgnia, elucidado por Jacques-Alain Miller de maneira magistral, em seu magn\u00edfico curso\u00a0<em>Ce qui fait insigne<\/em><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. As comunidades LGBTQIR+, porque novas siglas se acrescentam cada dia, como sabem, nesse enxame de significantes-mestres funcionam desse modo. As reivindica\u00e7\u00f5es<em>\u00a0woke<\/em>\u00a0tamb\u00e9m se inscrevem nesse registro, no qual o que se refor\u00e7a \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o do sujeito a um S<sub>1<\/sub>\u00a0identit\u00e1rio que exige ser reconhecido como v\u00edtima. N\u00e3o estou dizendo que n\u00e3o haja v\u00edtimas, mas que o que nos interessa aqui \u00e9 acima de tudo o uso que se faz do S<sub>1<\/sub>\u00a0no social. Tamb\u00e9m encontramos uma instrumentaliza\u00e7\u00e3o que se faz do S<sub>1<\/sub>\u00a0no mercado, pelo mercado, sob a forma, por exemplo, dos produtos \u00e9tnicos, destinados a uma comunidade em particular, juntamente com a linguagem publicit\u00e1ria que tamb\u00e9m manipula a linguagem, reduzindo-a justamente ao seu car\u00e1ter instrumental.<\/p>\n<p>Do lado do uso do S<sub>2<\/sub>, temos o chamado saber cient\u00edfico, muitas vezes produzido por um discurso universit\u00e1rio que aporta sua legitima\u00e7\u00e3o aos fen\u00f4menos da segrega\u00e7\u00e3o que t\u00eam lugar com o apoio da ci\u00eancia dentro do pr\u00f3prio discurso capitalista. Como voc\u00eas sabem, esse saber universit\u00e1rio, no lugar do agente nesse discurso, se apresenta amputado do significante-mestre que lhe d\u00e1 sua consist\u00eancia \u2013 o significante-mestre passa ao lugar da verdade no discurso universit\u00e1rio, como devem estar trabalhando \u2013, o que fez Lacan dizer no seu semin\u00e1rio\u00a0<em>De um discuso que n\u00e3o fosse semblante<\/em>\u00a0que \u201cO que \u00e9 real \u00e9 aquilo que faz furo nesse semblante, nesse semblante articulado que \u00e9 o discurso cient\u00edfico\u201d<a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, desde que falte nesse discurso o significante-mestre que funciona ali como um real que o saber no discurso universit\u00e1rio escamoteia.<\/p>\n<p>As diferentes crises (econ\u00f4micas, sociais, pol\u00edticas e clim\u00e1ticas) est\u00e3o inclusive inscritas nesse retorno do real, que deve ser distinguido em cada caso, cada real, frente ao recha\u00e7o pelos estudos cient\u00edficos que, na forma de um saber acumulado sob um modo cada vez mais estat\u00edstico, quantitativo, \u00e9 incapaz de prever qualquer uma dessas crises que temos conhecido ultimamente no Ocidente.<\/p>\n<p>Os\u00a0<em>gadgets<\/em>\u00a0v\u00eam para complementar esse saber, e \u00e9 ali que interv\u00e9m a linha que vai no discurso do capitalista do sujeito ao objeto, uma vez que a adi\u00e7\u00e3o a cada um dos m\u00faltiplos\u00a0<em>gadgets<\/em>\u00a0existentes no universo encontra seu fundamento no fantasma de cada um dos seres falantes, quando esse fantasma existe.<\/p>\n<p>As tecnoci\u00eancias prop\u00f5em tudo o que \u00e9 necess\u00e1rio para extrair essa verdade do ser falante, sem palavras. Ali \u00e9 onde interv\u00eam o scanner e as promessas do c\u00e9rebro considerado como um sujeito suposto ao saber, como \u00c9ric Laurent dizia divertidamente, h\u00e1 alguns anos, com a fascina\u00e7\u00e3o que exerce, hoje, a imagem, algo que tamb\u00e9m estava presente no formid\u00e1vel\u00a0<em>teaser<\/em>\u00a0do come\u00e7o.<\/p>\n<p>Por esse motivo, por essa fascina\u00e7\u00e3o, os seres falantes podem ser liberados da necessidade de ter que passar pelo desfiladeiro do significante e pela palavra para aceder ao objeto de seus desejos. A debilidade mental tamb\u00e9m consiste em acreditar que o saber dos seres falantes poderia se acumular em\u00a0<em>Big Data<\/em>\u00a0sob a forma de dados criptografados em linguagem bin\u00e1ria e que o\u00a0<em>trans-humanismo<\/em>\u00a0viria a consagrar essa passagem do saber a uma escrita algor\u00edtmica, que seria delineada em um neo-Grande Outro de s\u00edntese, um grande Outro sem equ\u00edvocos, j\u00e1 que o cifrado algor\u00edtmico n\u00e3o conhece erros, ou acidentes, exceto no caso de algoritmos usados no\u00a0<em>deep-learning<\/em>, os algoritmos que podem aprender. Ou que sonham, j\u00e1 que tamb\u00e9m nos falam de algoritmos que podem sonhar.<\/p>\n<p><strong>Cl\u00ednica<\/strong><\/p>\n<p>Passemos brevemente \u00e0s consequ\u00eancias cl\u00ednicas dessa produ\u00e7\u00e3o do mais-de-gozar pelo discurso capitalista. Poder\u00edamos evocar aqui, no lado das neuroses, a acentua\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o do que Lacan chamava, no semin\u00e1rio sobre Joyce<a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, de histerias r\u00edgidas. Histerias sem pai, sem que justamente o la\u00e7o entre S<sub>1<\/sub>-S<sub>2<\/sub>\u00a0se recorte em um sintoma para articular um desejo. Trata-se do n\u00f3 r\u00edgido, um n\u00f3 sem um quarto n\u00f3, que sustenta a neurose hist\u00e9rica, determinando-se assim do lado de uma articula\u00e7\u00e3o de gozo, mais do que como uma verdadeira quest\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao seu desejo. A determina\u00e7\u00e3o meton\u00edmica, como um desejo metamorfoseado em gozo, n\u00e3o encontra j\u00e1 um significante para se fixar como met\u00e1fora, no n\u00edvel de seus sintomas, uma vez que n\u00e3o apresenta sintomas que n\u00e3o seja a pr\u00f3pria defla\u00e7\u00e3o do desejo, deprimido, deflacionado, murcho, e que \u00e0s vezes, um \u00fanico encontro com o analista consegue reacender, mais al\u00e9m de um significante em particular que permite interpretar a posi\u00e7\u00e3o do sujeito.<\/p>\n<p>Podemos evocar aqui um livro muito bonito de Philippe Sollers, escritor franc\u00eas e amigo de Lacan. Ele conta em seu belo livro sobre a amizade que teve com Roland Barthes o quanto o pr\u00f3prio encontro com Barthes, muitas veces, lhe bastava no dia para acender seu desejo<a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Talvez pud\u00e9ssemos aplicar a mesma rea\u00e7\u00e3o no encontro do sujeito de histeria r\u00edgida com o analista.<\/p>\n<p>H\u00e1 um aumento no n\u00famero de sujeitos que se apresentam no lugar de dejeto, em que o discurso melanc\u00f3lico de autoreprimenda e culpabilidade n\u00e3o acompanha necessariamente essa posi\u00e7\u00e3o. Podemos verificar que o desmantelamento de institui\u00e7\u00f5es que permitiram que esses sujeitos encontrassem, no passado, um lugar de inscri\u00e7\u00e3o no social, na forma de um Outro que os abrigava e lhes dava um mais de exist\u00eancia, produz essa dejetiza\u00e7\u00e3o crescente em muitos sujeitos. Sujeitos que encontramos em institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, centros de tratamentos m\u00e9dico-psicol\u00f3gicos, centros de tratamento de depend\u00eancias, e os\u00a0<em>Centre psychanalytique de consultations et de traitement<\/em>\u00a0(CPCT), onde eles existem. Certamente, a queda da ordem simb\u00f3lica tem contribu\u00eddo para essa dejetiza\u00e7\u00e3o progressiva, assim como a perda de sustento do Estado a essas institui\u00e7\u00f5es; ali onde o Estado ainda est\u00e1 presente, j\u00e1 n\u00e3o se sabe por quanto tempo permanecer\u00e1. Sen\u00e3o \u00e9 na err\u00e2ncia, nas ruas das grandes ciudades, onde encontramos esses sujeitos, no metr\u00f4, jogados ao seu destino e vendo acentuado seu status de identifica\u00e7\u00e3o ao objeto (<em>a<\/em>). Fato que as drogas de diferentes tipos e o \u00e1lcool v\u00eam refor\u00e7ar esse estatuto, o que \u00e0s vezes permite que eles se encontrem com institui\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias e que encontrem a psican\u00e1lise ali onde ainda h\u00e1 analistas. Certamente, o pr\u00f3prio sujeito encontra este lugar de objeto dejeto, e ainda que seja necess\u00e1ria certa estrutura ps\u00edquica para faz\u00ea-lo, n\u00e3o se pode negligenciar que \u00e9 o pr\u00f3prio discurso que o empurra a ocupar esse lugar de dejeto, ali onde todo individuo \u00e9 \u201cum prolet\u00e1rio, j\u00e1 que n\u00e3o tem com que fazer la\u00e7o social\u201d, como j\u00e1 anunciava Lacan em sua confer\u00eancia \u201cA terceira\u201d.<\/p>\n<p>M\u00f4nica Hage lembrava justamente que cada discurso \u00e9 uma maneira de fazer la\u00e7o social em torno a um imposs\u00edvel, e o que \u00e9 novo no discurso capitalista \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 la\u00e7o social. O la\u00e7o social se dissolve pela presen\u00e7a disto que todos os discursos excluem: a impossibilidade, presente e gerada pelo pr\u00f3prio discurso capitalista.<\/p>\n<p>O \u00faltimo objeto a ser consumido \u00e9 o pr\u00f3prio sujeito, por essa circula\u00e7\u00e3o nos lugares do discurso capitalista. \u201cO ser humano n\u00e3o \u00e9 uma mercadoria\u201d, protestam os alterglobalistas, justamente porque podem facilmente, e \u00e0s vezes muito rapidamente, encontrar-se nesse lugar por um fato que faz ao discurso capitalista, em sua renova\u00e7\u00e3o pelo neoliberalismo, que p\u00f5e o sujeito como sendo o \u00fanico respons\u00e1vel pela possibilidade ocasional de se franquear uma via.<\/p>\n<p><strong>Excesso \u2013 saciedade<\/strong><\/p>\n<p>Nesta cl\u00ednica que nos p\u00f5e em face aos fen\u00f4menos nos quais n\u00e3o prevalecem nem o ponto de estofo, nem a met\u00e1fora, mas sim arranjos inst\u00e1veis com a livre circula\u00e7\u00e3o de gozo, onde as adi\u00e7\u00f5es de diversos tipos s\u00e3o como o paradigma das manifesta\u00e7\u00f5es de gozo sem a \u201cenvoltura formal\u201d, lembremos aqui do termo que Lacan usava para falar do sintoma. Nos confrontamos com um par que situa o problema entre dois polos \u2013 o do excesso e o da saciedade, e o par da falta e a priva\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma cl\u00ednica do mais ou do menos, j\u00e1 que o gozo n\u00e3o encontra outra limita\u00e7\u00e3o sen\u00e3o, quantitativamente, n\u00e3o tendo mais a media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que permite o significante para encontrar um semblante.<\/p>\n<p><strong>As manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas das neuroses<\/strong><\/p>\n<p>As mesmas manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas da neurose, que ainda seguem existindo, ultrapassam o estrito marco do significante para acentuar a dimens\u00e3o do empuxo ao gozo que o Supereu ordena. Nelas, particularmente em algumas formas de histeria nas quais o registro do sintoma n\u00e3o \u00e9 o que est\u00e1 posto em primeiro lugar, o que aparece \u00e9 uma deriva do gozo que mascara a dimens\u00e3o do desejo, que contin\u00faa a estar presente, mas, em segundo lugar, um desejo ao qual o sujeito renuncia, evita ou acentua, em uma \u00eanfase que \u00e0s vezes se transforma em hipomania, na qual se p\u00f5e em evid\u00eancia um estado de leve euforia, uma esp\u00e9cie de torrente de pensamentos, sem corte e sem verdadeira articula\u00e7\u00e3o, uma verborragia excessiva e uma esp\u00e9cie de autoestima ou grandiosidade excessivas que viram uma esp\u00e9cie de restitui\u00e7\u00e3o narcisista por parte do sujeito frente a falha do ponto de estofo poder articular um semblante para o gozo.<\/p>\n<p>Certamente, nesse ponto podemos evocar os chamados transtornos de d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se localizam nesse registro, em que o sujeito, especialmente as crian\u00e7as, para as quais o DSM nas suas distintas vers\u00f5es, sobretudo as \u00faltimas, reconheceu esses sintomas, est\u00e1 em uma posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o direta ao fantasma materno, sem a media\u00e7\u00e3o paterna que permite apaziguar as coisas. Seu corpo da crian\u00e7a fetichizado, \u201csaturando a falta da m\u00e3e\u201d, como escreveu Lacan em \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d, traduz essa posi\u00e7\u00e3o de tomada direta do gozo da m\u00e3e sobre a crian\u00e7a. \u201cO pai em fuga\u201d, ou o pai presente, mas degradado no discurso da m\u00e3e, por ser um homem ca\u00eddo, sem desejo, \u201cum pai que n\u00e3o assombra\u201d, (<em>\u00e9-pater<\/em>) como o equivocava Lacan. S\u00e3o figuras contempor\u00e2neas que acentuam essa posi\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a situada em rela\u00e7\u00e3o direta com o fantasma da m\u00e3e, na posi\u00e7\u00e3o de objeto de gozo e j\u00e1 n\u00e3o de desejo, do lugar f\u00e1lico do desejo.<\/p>\n<p>Observemos que nessas posi\u00e7\u00f5es \u00e9 um mais-de-gozar que est\u00e1 em jogo, e a quest\u00e3o \u00e9: como trat\u00e1-lo? \u00c9 aqui onde o excesso pode esgotar-se por si mesmo, pelo t\u00e9dio ou pela satura\u00e7\u00e3o. Por levar o sintoma ao paroxismo de esgotar-se no circuito do seu gozo, o sujeito pode encontrar uma inven\u00e7\u00e3o, algo novo que lhe permita abandonar a posi\u00e7\u00e3o de gozo em que se encontra. Por esgotamento, por satura\u00e7\u00e3o, por saciedade, como outras fun\u00e7\u00f5es nas quais o gozo est\u00e1 em jogo. Quando Miller falava anos atr\u00e1s em fazer jud\u00f4 com o sintoma, acho que ele estava falando de algo assim: vencer o sintoma levando-o ao paroxismo, quase o seu ponto final, para produzir algo novo, buscando venc\u00ea-lo com sua pr\u00f3pria for\u00e7a. \u00c9 nesse paroxismo que pode aparecer um buraco, uma falta, que o continuo do gozo neste discurso recobre. A quest\u00e3o \u00e9 poder encontrar o buraco, a falta, a linha de fuga que o gozo vem cobrir. Podemos evocar aqui as pr\u00f3prias terapias comportamentais que se inscrevem neste movimento tamb\u00e9m buscando levar o sintoma ao excesso, ao cansa\u00e7o, refor\u00e7ando-o, mas justamente, o problema dessas terapias que utilizam o mesmo mecanismo de levar o gozo ao fastio mas produzindo mais do mesmo daquilo que se trata de evacuar.<\/p>\n<p>O saber da poeta, da grande Clarice Lispector, nos indica algo disso quando nos fala de produzir a falta, o furo, quando nos conta como encontrou a via da inexpressividade:<\/p>\n<blockquote>[\u2026] como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o n\u00famero um e o n\u00famero dois, de como vi a linha de mist\u00e9rio e fogo, e que \u00e9 linha sub-rept\u00edcia. Entre duas notas de m\u00fasica existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois gr\u00e3os de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espa\u00e7o, existe um sentir que \u00e9 entre o sentir \u2013 nos interst\u00edcios da mat\u00e9ria primordial est\u00e1 a linha de mist\u00e9rio e fogo que \u00e9 a respira\u00e7\u00e3o do mundo, e a respira\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do mundo \u00e9 aquilo que ouvimos e chamamos de sil\u00eancio<a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Saber encontrar a linha sub-rept\u00edcia ent\u00e3o. Abrir um intervalo a\u00ed onde h\u00e1 um continuo. Poder encontrar esse espa\u00e7o, esse buraco, que venha a perfurar o cont\u00ednuo do gozo.<\/p>\n<p>A fluidez \u00e9 um significante-mestre desse fluxo de gozo que n\u00e3o encontra ponto de estofo, mas apenas nomea\u00e7\u00f5es e enodamentos. A fluidez em seu cont\u00ednuo, sem cortes, sem escans\u00e3o significante, evoca a cl\u00ednica continu\u00edsta de Lacan, e poder\u00edamos adiantar que seu \u00faltimo ensino est\u00e1 bem situado para responder aos fen\u00f4menos que essa cl\u00ednica nos apresenta. A fluidez de g\u00eanero, certamente, que os sujeitos trans colocam em evid\u00eancia, e distingo nesse n\u00edvel os sujeitos transg\u00eaneros dos transexuais, mas tamb\u00e9m a fluidez que outros sujeitos \u201ctrans\u201d, como os transesp\u00e9cies, que buscam hibridizar-se com esp\u00e9cies animais, ou o pr\u00f3prio del\u00edrio de trans-humanismo, a ideia da transmiss\u00e3o de todo o saber humano ao\u00a0<em>Big Data<\/em>, num futuro pr\u00f3ximo, s\u00e3o nomes dessa fluidez do gozo que atestamos no discurso que examinamos, onde n\u00e3o h\u00e1 freio \u00e0 impossibilidade, de onde saem esses \u201cfantasmas in\u00e9ditos\u201d como Lacan disse em \u201cTelevis\u00e3o\u201d, evocando: \u201cNo desatino de nosso gozo, s\u00f3 h\u00e1 Outro para situ\u00e1-lo, mas na medida em que estamos separados dele\u201d<a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. J\u00e1 estamos nesta \u00e9poca que Lacan vaticinava em 1974.<\/p>\n<p>Localizo o sujeito transg\u00eanero como aquele que tenta encontrar um arranjo com um gozo liberado da borda f\u00e1lica, que lhe dava uma borda a esse gozo \u201cn\u00e3o-todo\u201d, como Lacan localizava at\u00e9 o semin\u00e1rio\u00a0<em>Mais, ainda.<\/em>\u00a0Como afirma Jacques-Alain Miller em\u00a0<em>O Ser e o Um<\/em>, o gozo feminino \u00e9 \u201co gozo como tal\u201d, e a sua extens\u00e3o mais al\u00e9m do n\u00e3o-todo a que a borda f\u00e1lica o deixava acantonado em\u00a0<em>Mais, ainda<\/em>, leva a nomea\u00e7\u00f5es de tipo RSI e enodamentos que podem ser abordados a partir da l\u00f3gica borromeana, presente no \u00faltimo ensino de Lacan. At\u00e9 o limite da interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica a que os sujeitos transexuais procedem, podemos deixar a possibilidade aos sujeitos que vivem sua rela\u00e7\u00e3o com seu corpo e com o gozo, na possibilidade de encontrar o arranjo que lhes convenha com esse real. Recordemos aqui que Lacan dizia, em 9 de abril de 1974, que \u201c[\u2026] o ser sexual s\u00f3 se autoriza por si mesmo e por alguns outros\u201d<a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, como, por exemplo, o registro civil, sem saber at\u00e9 que ponto a autoriza\u00e7\u00e3o do registro civil seria necess\u00e1ria para proceder a uma mudan\u00e7a de g\u00eanero para aqueles que n\u00e3o vivem de acordo com seu pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m o gozo em falta ou ainda, como muitos sujeitos o praticam, uma priva\u00e7\u00e3o de gozo, para subtrair o mais-de-gozar presente como excesso na civiliza\u00e7\u00e3o atual. Uma subtra\u00e7\u00e3o de gozo pode ser uma forma de subtrair-se ao excesso de gozo que reina hoje na civiliza\u00e7\u00e3o, um pouco ao modo como o faz a anor\u00e9xica, que, frente a um excesso de gozo, subtrai-se ela mesma, ao pre\u00e7o do sacrif\u00edcio de seu corpo sexuado, para quitar um pouco de gozo ao que ela experimenta como algo em excesso. A quest\u00e3o aqui, acredito, \u00a0\u00e9 como subtrair um mais-de-gozar sem cair na priva\u00e7\u00e3o, ou em uma diet\u00e9tica do gozo, quando este j\u00e1 n\u00e3o encontra a media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que permite limit\u00e1-lo. O analista\u00a0<em>descarita<\/em>\u00a0(<em>d\u00e9charite<\/em>) o gozo, Neologismo de Lacan, evocando o santo em \u201cTelevis\u00e3o\u201d, ao contr\u00e1rio do rico, que o acumula. Somente assim se pode sair desse circuito: colocando o pst, a peste, como Lacan enuncia em Mil\u00e3o em 1974 onde mais fala do discurso capitalista, atrav\u00e9s desse funcionamento, para bloque\u00e1-lo. A peste freudiana.<\/p>\n<p><strong>O capitalismo e o amor<\/strong><\/p>\n<p>O capitalismo \u201c[\u2026] deixa de lado o que chamaremos simplesmente, de coisas do amor\u201d, diz-nos Lacan em \u201cEstou falando com as paredes\u201d<a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Ele n\u00e3o quer saber nada no sentido da\u00a0<em>Verwerfung<\/em>. \u00c0 sua maneira, e como o discurso do Mestre, do qual \u00e9 uma variante, quer que as coisas continuem funcionando. O amor como encontro contingente vem bloquear esse funcionamento, abrindo um intervalo para o sujeito no continuo de gozo que circula entre os quatro termos. Os amantes se subtraem do circuito, abrindo espa\u00e7o para outra coisa que n\u00e3o serve ao circuito em jogo.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria psican\u00e1lise com a transfer\u00eancia, esse novo amor que ela inventou, sem ser o reverso desse discurso, que n\u00e3o tem reverso justamente porque circula em c\u00edrculo, vem como que para abrir uma brecha nesse circuito, abrindo, como no encontro amoroso, um espa\u00e7o para Outra coisa que racha, fissura, escande o gozo, dando lugar ao sujeito ali onde esse circuito o foraclui.<\/p>\n<p>Dizer que o capitalismo foraclui as coisas do amor significa que, em sua avers\u00e3o \u00e0 perda ele produz algo que, por exemplo, uma soci\u00f3loga, Eva Illouz chamou de \u201cn\u00e3o amor\u201d (<em>Unloving<\/em>). Em um livro muito interessante, afim do tema que nos interessa, \u2014a pesar de n\u00e3o abordar a foraclus\u00e3o do amor que Lacan menciona, \u2014 chamado\u00a0<em>La fin de l\u2019amour<\/em><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, o n\u00e3o amor, ou desamor, est\u00e1 ao servi\u00e7o de n\u00e3o perder, n\u00e3o amar para n\u00e3o sofrer a perda. Em continuidade com o \u201camor l\u00edquido\u201d de Z. Bauman, as rela\u00e7\u00f5es onde o fim est\u00e1 como programado, uma esp\u00e9cie de demanda de amor prevenida, no eco de algo como a \u201cobsolesc\u00eancia programada\u201d dos objetos tecnol\u00f3gicos \u2014 essa programa\u00e7\u00e3o que faz com que os telefones celulares e computadores que nos empurram a consumir sejam obsoletos em pouco tempo.<\/p>\n<p>O recha\u00e7o por iniciar um relacionamento amoroso, tamb\u00e9m existem os n\u00e3o-sexo, \u2014as comunidades no-sex, jovens de trinta anos que recusam qualquer rela\u00e7\u00e3o sexual \u2014 anor\u00e9xicos do amor. Tamb\u00e9m h\u00e1 a passagem meton\u00edmica de um relacionamento a outro, que Bauman j\u00e1 havia desenvolvido, que introduz um mercado de rela\u00e7\u00f5es sexuais, n\u00e3o apenas um mercado libidinal, mas todo um com\u00e9rcio em torno do amor que a soci\u00f3loga Illouz remonta aos anos 1940 em Hollywood e \u00e0s com\u00e9dias de\u00a0<em>recasamento<\/em>, como j\u00e1 havia estudado Stanley Cavell<a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>\u00a0em seu conhecido e divertido livro, \u2014comentado por Eric Laurent no curso de Miller.<\/p>\n<p>Assim acontece um condicionamento que d\u00e1 um formato de como deveriam ser as hist\u00f3rias de amor, um pouco \u00e0 maneira da proposta da pornografia hoje, um formato de como as rela\u00e7\u00f5es sexuais deveriam ser. O ambiente rom\u00e2ntico, a disponibilidade dos amantes e toda uma bateria de objetos que deveriam fazer parte da atmosfera do encontro amoroso, com o acr\u00e9scimo de especialistas em casos amorosos que interv\u00eam quando algo n\u00e3o funciona,\u00a0<em>coachs<\/em>\u00a0ou conselheiros amorosos, sex\u00f3logos: hoje existe todo um mercado constru\u00eddo em torno do amor e seus sintomas. Isso sem falar dos\u00a0<em>sites<\/em>\u00a0de encontro que foram criados, verificando que o la\u00e7o social hoje est\u00e1 estruturado em torno das redes sociais, o pr\u00f3prio la\u00e7o social \u00e9 a rede social sendo que no capitalismo n\u00e3o h\u00e1 la\u00e7o. O capitalismo dissolve o la\u00e7o social, atomiza-o: vimos isso com o congelamento de S<sub>1<\/sub>\u00a0e S<sub>2<\/sub>, onde o que se verifica \u00e9 um isolamento progressivo, em um movimento que conduz a uma esquizofreniza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o, parcial, fragmentada, j\u00e1\u00a0 sem Outro.<\/p>\n<p>Illouz fala de rela\u00e7\u00f5es negativas, em que o n\u00e3o-amor e o fim programado da rela\u00e7\u00e3o procuram introduzir a falta ali onde o pr\u00f3prio encontro se encontra saturado pelo gozo. Eu a cito: \u201cA sexualidade e o amor constituem hoje o terreno perfeito para reproduzir o capitalismo de consumo e estimular a aptid\u00e3o \u00e0 autonomia e a independ\u00eancia exigidas e praticadas em todos os lugares\u201d<a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p>Entrar, comprometer-se com uma rela\u00e7\u00e3o amorosa, implica, certamente, uma ren\u00fancia \u00e0 autonomia, e um efeito, digamos, de castra\u00e7\u00e3o, de falta, que n\u00e3o condiz muito com o discurso que enaltece a autonomia e os \u201c<em>self made men and women<\/em>\u201c. Observemos que este \u00e9 o mesmo efeito de falta que evocamos h\u00e1 pouco, sobre como a an\u00e1lise pode cortar o continuo do gozo, introduzindo uma nota musical entre duas, um gr\u00e3o de areia entre dois, ou outra cifra entre 1 e 2, para voltar \u00e0 maravilhosa Clarice. Nessa perspectiva, entrar em an\u00e1lise e comprometer-se com uma rela\u00e7\u00e3o amorosa implica, muitas vezes, em ambos os casos, uma ren\u00fancia ao gozo. Ceder o gozo ao qual o sujeito se apegava para condescender a outra coisa, Outra coisa que indica o lugar do desejo. Nesse caso, verifica-se amplamente o aforismo de Lacan no Semin\u00e1rio 10, \u201co amor permite ao gozo condescender ao desejo\u201d<a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. Em ambos os casos, temos uma cess\u00e3o do gozo, o que nos permite lan\u00e7ar luz sobre a proposi\u00e7\u00e3o de Lacan sobre o santo que \u201c<em>descarita<\/em>\u201d o gozo: ele n\u00e3o faz caridade, mas sim desperdi\u00e7a o gozo, fazendo-se o pr\u00f3prio dejeto, o que permite que seja tomado, como o analista, fazendo semblante do objeto (<em>a<\/em>), de ser tomado como causa pelo desejo de um sujeito. O santo, como o analista, \u00e9 o desperd\u00edcio do gozo, este segundo, tendo se desprendido de seu la\u00e7o fantasm\u00e1tico com o objeto (<em>a<\/em>), pode, somente a partir da\u00ed, encarnar esse objeto para outros, o que indica, para o Lacan de \u201cTelevis\u00e3o\u201d, que a sa\u00edda do discurso capitalista serpa por essa via, o que n\u00e3o ser\u00e1 um progresso se \u00e9 apenas para alguns. Ele n\u00e3o prop\u00f5e ent\u00e3o a cria\u00e7\u00e3o de um partido pol\u00edtico de analistas, para o \u201cdescaritamento do gozo\u201d: essa a\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser coletivizada, exceto por meio de uma an\u00e1lise um por um. Lacan n\u00e3o acredita, neste ponto, em um progresso, pois essa via \u00e9 limitada. Mas, vamos sublinhar, deixa aberta uma sa\u00edda, onde n\u00e3o \u00e9 tanto o amor, mas a rela\u00e7\u00e3o com o gozo o que permite atravessar o que se apresenta como um horizonte intranspon\u00edvel devido \u00e0 sua estrutura cont\u00ednua, sem cortes.<\/p>\n<p>Lacan afirma enigmaticamente naquela confer\u00eancia em Mil\u00e3o, em 1974, que o discurso capitalista, se consome a si pr\u00f3prio e que est\u00e1 destinado \u00e0 sua destrui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o fala de \u201cregula\u00e7\u00e3o\u201d, nem de distribuir melhor as riquezas, pois, como j\u00e1 sabem, n\u00e3o acreditava na \u201cjusti\u00e7a distributiva\u201d. Mas ao fazer do capitalismo um discurso, permite deslocar a quest\u00e3o da perspectiva econ\u00f4mica \u2013 n\u00e3o sabemos para onde ir\u00edamos se o capitalismo fosse destruido, se surgisse um sistema econ\u00f4mico pior, por exemplo, embora seja dif\u00edcil ao mesmo tempo imaginar algo pior \u2013 \u00e0 estrutura do discurso, e por a\u00ed, vislumbrar uma sa\u00edda mais f\u00e1cil, talvez, do que as muitas tentativas atuais dos economistas em teorizar mecanismos que permitam uma distribui\u00e7\u00e3o mais justa da riqueza.<\/p>\n<p>Lacan acreditava pouco no progresso e se perguntava se a psican\u00e1lise n\u00e3o seria um sintoma que, como muitos outros sintomas, se extinguiria, se a Ci\u00eancia, c\u00famplice \u00edntima do discurso capitalista, conseguisse varrer o real da superf\u00edcie do universo. Se essa \u00e9 uma pretens\u00e3o da Ci\u00eancia, \u00e9 menos certo que ter\u00e1 sucesso, que conseguir\u00e1 eliminar \u201ca linha sub-rept\u00edcia\u201d que Clarice apontava, embora se possa crer no contr\u00e1rio, e embora ela pretenda faz\u00ea-lo acreditar. Talvez, para al\u00e9m da pr\u00f3pria pr\u00e1tica anal\u00edtica, que, marginalizada nas institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e nas universidades se encontra cada vez mais isolada, tal vez seja o discurso do analista que sobreviva ao discurso da avalia\u00e7\u00e3o, da performance e, hoje, o da extens\u00e3o a cada vez mais dom\u00ednios da vida, \u00e0 digitaliza\u00e7\u00e3o do saber, em seu cifrado algoritmo. Se \u201cantes da psican\u00e1lise, o discurso do Inconsciente se estendia no amor\u201d, como afirma Lacan; se a psican\u00e1lise como pr\u00e1tica viesse a limitar-se, marginalizando-se, o Inconsciente talvez encontre outros lugares para se manifestar.<\/p>\n<p>Talvez o discurso do analista se desloque para outros lugares: vemos esse fen\u00f4meno na Literatura, por exemplo, onde a palavra escrita d\u00e1 a ler, \u00e0s vezes, com os bons escritores, um sujeito, o que nos prende \u00e0 leitura, nos encantando. A fic\u00e7\u00e3o vem envolver o real, declinando-o, articulando-o, tal como o faz a palavra de um analisante em uma an\u00e1lise, e ainda depois nos testemunhos de passe dos AE da escola. O que ali se escreve do gozo nos interessa porque testemunha da maneira como um ser falante ou um escritor se arranja com sua parte de gozo inassimil\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cDa minha parte, cogito loucamente para que haja novos santos assim\u201d<a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>, disse Lacan em \u201cTelevis\u00e3o\u201d: seguindo seu ensino, tentamos estar \u00e0 altura de fazer a psican\u00e1lise existir para contrabalan\u00e7ar os efeitos funestos da foraclus\u00e3o do sujeito do discurso do capitalismo e da ci\u00eancia. Por quanto tempo ainda? Enquanto pudermos: o lema de Antonio Gramsci, que podemos fazer nosso, permanece crucialmente atual \u2013 pessimismo das estruturas, otimismo da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h5>Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0<em>Milena Nadier<\/em>\u00a0(Associada IPB)<br \/>\nRevis\u00e3o:\u00a0<em>Marcela Antelo<\/em><\/h5>\n<hr \/>\n<h5>Confer\u00eancia pronunciada durante a XXV Jornada da Se\u00e7\u00e3o Bahia da EBP e XXI Jornada do IPB, em 17 novembro de 2021. Agradecemos ao autor pela am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o.<\/h5>\n<hr \/>\n<h5><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0MILLER, Jacques-Alain.\u00a0<em>Los signos del goce<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 1998.<\/h5>\n<h5><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0LACAN, Jacques.\u00a0<em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 18:\u00a0<em>De um discurso que n\u00e3o fosse semblante<\/em>. (1970-1971) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009. p. 27.<\/h5>\n<h5><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0LACAN, J.\u00a0<em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 23:\u00a0<em>O sinthoma<\/em>. (1975-1976) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 102.<\/h5>\n<h5><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0SOLLERS, P.\u00a0<em>L\u2019amiti\u00e9 de Roland Barthes<\/em>. Paris: Gallimard, 2015. (Fiction et Cie.)<\/h5>\n<h5><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>\u00a0LISPECTOR, Clarice.\u00a0<em>A paix\u00e3o segundo G. H.<\/em>\u00a0Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964. p. 98.<\/h5>\n<h5><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>\u00a0LACAN, Jacques. Televis\u00e3o. (1973) In: LACAN, Jacques.\u00a0<em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 533.<\/h5>\n<h5><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>\u00a0LACAN, Jacques.\u00a0<em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 21:\u00a0<em>Os n\u00e3o-tolos erram<\/em>. (1973-1974) Aula do 9 de abril de 1974.\u00a0 (In\u00e9dito)<\/h5>\n<h5><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a>\u00a0LACAN, Jacques.\u00a0<em>Estou falando com as paredes<\/em>: conversas na Capela de Sainte-Anne. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2011. p. 88.<\/h5>\n<h5><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a>\u00a0ILLOUZ, Eva.\u00a0<em>La fin de l\u2019amour. Enqu\u00eate sur un d\u00e9sarroi contemporain<\/em>. Paris: Seuil, 2020.<\/h5>\n<h5><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a>\u00a0CAVELL, Stanley.\u00a0<em>La comedia de la felicidad<\/em>: la comedia de enredo matrimonial en Hollywood. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 1999.<\/h5>\n<h5><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a>\u00a0ILLOUZ, 2020,\u00a0<em>op. cit<\/em>., p. 319.<\/h5>\n<h5><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a>\u00a0LACAN, Jacques.\u00a0<em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 10:\u00a0<em>A ang\u00fastia<\/em>. (1962-1963) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. p. 197.<\/h5>\n<h5><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a>\u00a0LACAN, 1973\/2003,\u00a0<em>op. cit<\/em>., p. 519.<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O discurso capitalista e o imposs\u00edvel Fabi\u00e1n Fajnwaks Psicanalista, AME, membro da Escola de&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[],"class_list":["post-5660289","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos-de-orientacao-eixo-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5660289","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5660289"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5660289\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5660290,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5660289\/revisions\/5660290"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5660289"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5660289"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5660289"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}