{"id":5660286,"date":"2022-08-16T18:38:16","date_gmt":"2022-08-16T21:38:16","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/?p=5660286"},"modified":"2022-08-16T18:40:08","modified_gmt":"2022-08-16T21:40:08","slug":"5660286","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/2022\/08\/16\/5660286\/","title":{"rendered":"A crian\u00e7a entre a mulher e a m\u00e3e"},"content":{"rendered":"<h3><strong>A<\/strong> <strong>crian\u00e7<\/strong><strong>a<\/strong> <strong>entr<\/strong><strong>e<\/strong> <strong>a<\/strong> <strong>mulhe<\/strong><strong>r<\/strong> <strong>e<\/strong> <strong>a<\/strong> <strong>m\u00e3e<\/strong>1<\/h3>\n<h5><em>JACQUES-ALAIN<\/em> <em>MILLE<\/em><em>R<\/em><\/h5>\n<p>Escolhido por Fran\u00e7ois Ansermet em uma lista em que eu desdobrava uma variedade diante dele, a partir de uma de suas sugest\u00f5es, no decurso de uma entrevista, mais uma2\u00a0que seu entusiasmo sabe suscitar, o t\u00edtulo deste Col\u00f3quio justifica-se no <em>Semin\u00e1rio<\/em> <em>4<\/em> de Lacan, cujo t\u00edtulo se destaca na sequ\u00eancia dos ditos semin\u00e1rios, j\u00e1 que, parece-me, \u00e9 o \u00fanico a enunciar um conceito, a rela\u00e7\u00e3o de objeto, retirada de um conjunto de doutrinas dos alunos de Freud, que se pode designar como a \u201cVulgata p\u00f3s-freudiana\u201d, e uma express\u00e3o que \u00e9, de maneira formal, recusada por Lacan, apesar de ele fazer dela o t\u00edtulo do <em>Semin\u00e1rio<\/em>.<\/p>\n<p>Contudo o t\u00edtulo desse Col\u00f3quio diz respeito, fundamentalmente, \u00e0 demonstra\u00e7\u00e3o que Lacan persegue em seu <em>Semin\u00e1rio.<\/em> Essa demonstra\u00e7\u00e3o &#8211; o centro da demonstra\u00e7\u00e3o de Lacan &#8211; \u00e9 a de que o objeto s\u00f3 encontra seu justo lugar na psican\u00e1lise ao dispor-se \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de castra\u00e7\u00e3o. E \u00e9 essa dimens\u00e3o que \u00e9 desconhecida tanto na Vulgata p\u00f3s-freudiana como na observa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, por exemplo, no registro das intera\u00e7\u00f5es m\u00e3e\/crian\u00e7a, que \u00e9 muito praticada, creio, atualmente, em Lausanne.<\/p>\n<p>Assim, a demonstra\u00e7\u00e3o de Lacan compreende, sucessivamente, tr\u00eas tempos, desdobra-se em tr\u00eas escans\u00f5es no <em>Semin\u00e1rio<\/em>. A demonstra\u00e7\u00e3o de que o objeto s\u00f3 encontra seu justo lugar ao dispor-se \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de castra\u00e7\u00e3o, passa, inicialmente, pela homossexualidade feminina, em que as consequ\u00eancias do inc\u00f4modo da decep\u00e7\u00e3o, devido \u00e0 falta do dom paterno no objeto crian\u00e7a, como substituto da falta f\u00e1lica, podem at\u00e9 levar o sujeito a fazer da mulher o objeto eletivo de um amor com o qual censura o pai. Esta \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o de Lacan: o amor da jovem homossexual pela mulher \u00e9 um amor com o qual ela censura o pai, \u00e9 um amor que mostra ao pai como se pode, como se deveria amar uma mulher.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, portanto, a homossexualidade feminina; em segundo, a pervers\u00e3o masculina, na qual o objeto fetiche \u00e9 apresentado debatendo-se sobre a tela que vela o falo que falta \u00e0 mulher.<\/p>\n<p>Terceiro tempo da demonstra\u00e7\u00e3o de Lacan, a fobia infantil \u00e9 ilustrada pelo caso <em>princeps<\/em> de Freud, o caso do pequeno Hans. Sobre esse terceiro tempo da demonstra\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, convergem os dois primeiros: a substitui\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a ao falo, evidenciada na psicog\u00eanese freudiana da homossexualidade feminina, e a identifica\u00e7\u00e3o do menino ao objeto imagin\u00e1rio do desejo feminino.<\/p>\n<p>A meu ver, a li\u00e7\u00e3o do <em>Semin\u00e1rio<\/em> <em>4<\/em> \u00e9 a de que aquilo que permanece desconhecido, quando se concentra a aten\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e\/crian\u00e7a &#8211; concebida de uma forma dual, rec\u00edproca, se assim o desejarem, como se a m\u00e3e e a crian\u00e7a estivessem fechadas numa esfera -, n\u00e3o \u00e9 somente a fun\u00e7\u00e3o do pai. Sabe-se que Lacan contribuiu muito mais do que seria necess\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao pai. \u00c9ric Laurent e eu estivemos na Tavistock Clinic, h\u00e1 uns dez anos atr\u00e1s, e acolheram-nos dizendo: \u201cAh! os lacanianos. Voc\u00eas v\u00e3o nos falar do pai\u201d; e apresentaram-nos como \u201caqueles que iam falar do pai\u201d.<\/p>\n<p>Ora, penso que a li\u00e7\u00e3o do <em>Semin\u00e1rio<\/em> \u00e9 a de que aquilo que permanece desconhecido, quando se atenta na rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e\/crian\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 somente a fun\u00e7\u00e3o do pai, cuja incid\u00eancia sobre o desejo da m\u00e3e \u00e9, sem d\u00favida, necess\u00e1ria para permitir ao sujeito um acesso normativo \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o sexual. \u00c9, tamb\u00e9m, o fato de a m\u00e3e n\u00e3o ser \u201csuficientemente boa\u201d &#8211; retomando a express\u00e3o de Winnicott &#8211; quando apenas veicula a autoridade do Nome-do-Pai. \u00c9 preciso, ainda, que a crian\u00e7a n\u00e3o sature, para a m\u00e3e, a falta em que se apoia o seu desejo. O que isso quer dizer? Que a m\u00e3e s\u00f3 \u00e9 suficientemente boa se n\u00e3o o \u00e9 em demasia, se os cuidados que ela dispensa \u00e0 crian\u00e7a n\u00e3o a desviam de desejar enquanto mulher. Quer dizer &#8211; empregando os termos utilizados por Lacan em seu escrito \u201cA significa\u00e7\u00e3o do falo\u201d3\u00a0&#8211; que a fun\u00e7\u00e3o do pai n\u00e3o \u00e9 suficiente; \u00e9 preciso, ainda, que a m\u00e3e n\u00e3o esteja dissuadida de encontrar o significante de seu desejo no corpo de um homem.<\/p>\n<p>A met\u00e1fora paterna, com a qual Lacan transcreveu o \u00c9dipo freudiano, n\u00e3o significa somente que o Nome-do-Pai deve reprimir o desejo da m\u00e3e, submetendo-a ao cabresto da lei.<\/p>\n<p>A met\u00e1fora paterna remete, a meu ver, a uma divis\u00e3o do desejo a qual imp\u00f5e, nessa ordem do desejo, que o objeto crian\u00e7a n\u00e3o seja tudo para o sujeito materno. Quer dizer que h\u00e1 uma condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o-todo, que o objeto crian\u00e7a n\u00e3o deve ser tudo para o sujeito materno, mas que o desejo da m\u00e3e deve se dirigir para um homem e ser atra\u00eddo por ele. Portanto isso exige que o pai seja, tamb\u00e9m, um homem.<\/p>\n<p>Da mesma maneira, n\u00e3o hesitarei em parodiar a r\u00e9plica imortal do <em>Tartuffe<\/em>, de Moli\u00e8re, voltando-me para o sujeito da enuncia\u00e7\u00e3o hip\u00f3crita, que se esconde no anonimato de um \u201calgu\u00e9m\u201d, e devolverei a esse sujeito da enuncia\u00e7\u00e3o hip\u00f3crita sua marca pessoal, dizendo: \u201cPara ser m\u00e3e, n\u00e3o deixo de ser mulher\u201d.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 uma divis\u00e3o do desejo que, levada ao extremo, justifica o ato de Medeia, um ato pr\u00f3prio para ilustrar, certamente pelo horror, que o amor materno n\u00e3o se sustenta na rever\u00eancia pura \u00e0 lei do desejo, ou que s\u00f3 se sustenta nele se uma mulher, enquanto m\u00e3e, permanecer, para um homem, a causa de seu desejo. Nesse caso, portanto, quando Jas\u00e3o vai embora, Medeia deixa de estar nessa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso quer dizer que a \u00eanfase dada ao valor de substituto f\u00e1lico da crian\u00e7a &#8211; ao seu valor de <em>Ersatz<\/em>, como diz Freud &#8211; se perde quando promove, de maneira unilateral, \u00a0fun\u00e7\u00e3o de preenchimento da crian\u00e7a e faz esquecer que esta crian\u00e7a n\u00e3o deixa de dividir, no sujeito feminino que est\u00e1 tendo acesso \u00e0 fun\u00e7\u00e3o materna, a m\u00e3e e a mulher; a crian\u00e7a divide, no sujeito feminino, a m\u00e3e e a mulher.<\/p>\n<p>O objeto crian\u00e7a n\u00e3o somente preenche, como tamb\u00e9m divide, e digamos que \u00e9 isso que o t\u00edtulo deste col\u00f3quio ressalta. \u00c9 essencial que ele divida. Como j\u00e1 se assinalou, \u00e9 fundamental que a m\u00e3e deseje outras coisas al\u00e9m dele. Se o objeto crian\u00e7a n\u00e3o divide, ou ele sucumbe como dejeto do par genitor, ou, ent\u00e3o, entra com a m\u00e3e numa rela\u00e7\u00e3o dual que o alicia &#8211; para empregar o termo de Lacan &#8211; o alicia com fantasia paterna.<\/p>\n<p>H\u00e1, assim, uma divis\u00e3o bastante simples: a crian\u00e7a preenche ou a crian\u00e7a divide. As consequ\u00eancias cl\u00ednicas dessa divis\u00e3o s\u00e3o patentes. \u00c9 por isso que, como j\u00e1 lembramos, nas \u201cNotas a Jenny Aubry\u201d4, Lacan divide cuidadosamente a sintomatologia infantil segundo sua emerg\u00eancia a partir do par familiar ou de sua inscri\u00e7\u00e3o, de maneira prevalente, na rela\u00e7\u00e3o dual m\u00e3e\/crian\u00e7a. Tal como Lacan o apresenta, h\u00e1 dois grandes tipos de sintomas: os que dizem respeito, verdadeiramente, ao par familiar e os que se at\u00eam, antes de tudo, \u00e0 rela\u00e7\u00e3o dual da crian\u00e7a e da m\u00e3e.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o sintoma da crian\u00e7a \u00e9 mais complexo caso resulte do par familiar, caso traduza a articula\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica desse par familiar. No entanto, por isso mesmo, ele tamb\u00e9m \u00e9 mais sens\u00edvel \u00e0 dial\u00e9tica que a interven\u00e7\u00e3o do analista pode introduzir no caso. Quando o sintoma da crian\u00e7a diz respeito \u00e0 vincula\u00e7\u00e3o do par pai\/m\u00e3e, ele j\u00e1 est\u00e1 articulado \u00e0 met\u00e1fora paterna, plenamente articulado \u00e0 met\u00e1fora paterna, plenamente envolvido nas substitui\u00e7\u00f5es e, portanto, as interven\u00e7\u00f5es do analista podem prolongar o circuito e fazer com que essas substitui\u00e7\u00f5es prossigam.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, ao contr\u00e1rio, o sintoma da crian\u00e7a \u00e9 bem mais simples se ele diz respeito, essencialmente, \u00e0 fantasia da m\u00e3e; mas, nesse caso, ele tamb\u00e9m \u00e9 maci\u00e7o e, no limite, apresenta-se como um real indiferente ao esfor\u00e7o para mobiliz\u00e1-lo pelo simb\u00f3lico, pois, ent\u00e3o recisamente, n\u00e3o se tem a articula\u00e7\u00e3o do caso precedente. E quando o sintoma \u00e9, assim, maci\u00e7o, l\u00ea-se nele, sem dificuldade, o que \u00e9 o caso do desejo do pr\u00f3prio sujeito.<\/p>\n<p>Lacan toma, a prop\u00f3sito, o exemplo do sintoma som\u00e1tico nessas duas notas. Alexandre Stevens lembrou-me que eu tinha evocado esse texto no semin\u00e1rio da D.E.A., e devo dizer que \u00e9 necess\u00e1rio, realmente, que eu o republique, pois as duas notas&#8230; s\u00e3o uma s\u00f3. Quando Jenny Aubry, de quem sa\u00fado a lembran\u00e7a, me trouxe esses pap\u00e9is, eram dois pap\u00e9is&#8230; N\u00e3o belas folhas bem escritas, eram peda\u00e7os de papel que Lacan havia rasgado. Ela os trouxe para mim e disse: \u201cEle deu-me esses dois pap\u00e9is\u201d. Talvez eu tenha ficado um pouco sugestionado; olhei e estudei aquilo como duas notas. \u00c9 evidente que se trata de um \u00fanico texto e que, efetivamente, o texto come\u00e7a na nota dois e prossegue no texto da nota um. \u00c9 um \u00fanico texto, que tem sua coer\u00eancia.<\/p>\n<p>O sintoma som\u00e1tico \u00e9, portanto, o exemplo de Lacan, que mostra, primeiramente, que o sintoma som\u00e1tico da crian\u00e7a alimenta, na m\u00e3e neur\u00f3tica, o motivo da culpabilidade; que a perversidade, pela qual o seu desejo pode estar marcado, se traduz na fetichiza\u00e7\u00e3o do sintoma infantil; e, em terceiro lugar, que, nos casos de psicose da m\u00e3e se v\u00ea o sintoma som\u00e1tico da crian\u00e7a encarnar sua foraclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu dizia: \u201cOu a crian\u00e7a preenche, ou a crian\u00e7a divide\u201d. Quanto mais a crian\u00e7a preenche a m\u00e3e, mais ela a ang\u00fastia, de acordo com a f\u00f3rmula segundo a qual \u00e9 a falta da falta que angustia. A m\u00e3e angustiada \u00e9, inicialmente, aquela que n\u00e3o deseja, ou deseja pouco, ou mal, enquanto mulher.<\/p>\n<p>Nega-se a pervers\u00e3o \u00e0s mulheres porque a cl\u00ednica reserva para os homens a possibilidade de alienar seu desejo ou encarnar a causa desse desejo em um objeto fetiche. Isso, por\u00e9m, significa n\u00e3o ver que a pervers\u00e3o \u00e9, de certa forma, normal do lado mulher e \u00e9 aquilo que se chama de amor materno que pode chegar at\u00e9 a fetichiza\u00e7\u00e3o do objeto infantil. Ele conforma-se \u00e0 estrutura que a crian\u00e7a, como objeto do amor, s\u00f3 demanda se exercer a fun\u00e7\u00e3o de velar o nada, que \u00e9, cito, \u201co falo enquanto ele falta \u00e0 mulher\u201d.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, a crian\u00e7a, mesmo fetichizada, distingue-se do objeto pequeno <em>a<\/em> da fantasia pelo fato de ela ser animada, enquanto o objeto pequeno <em>a<\/em> da fantasia \u00e9, por excel\u00eancia, inanimado. Contudo a express\u00e3o \u201cmarionete da m\u00e3e\u201d, que faz a <em>ladainha<\/em> de uma mulher neur\u00f3tica em an\u00e1lise, essa express\u00e3o &#8211; \u201cmarionete da m\u00e3e\u201d &#8211; mostra bem em que sentido a anima\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a \u00e9 compat\u00edvel com sua fetichiza\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 por ter sido uma esp\u00e9cie de crian\u00e7a fetiche para sua m\u00e3e que essa mulher sofre, ainda, muitos anos mais tarde.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, se \u00e9 um fetiche, \u00e9 um fetiche normal, e a rela\u00e7\u00e3o do amor materno, se \u00e9 marcada de ilus\u00f5es que, naturalmente, servem de motivo de deboche para os mais chegados, distingue-se por uma estabilidade inteiramente marcada por vacila\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias da pervers\u00e3o propriamente dita. A crian\u00e7a, no entanto, s\u00f3 \u00e9 o \u201cfetiche normal\u201d, entre aspas, como eu disse, se o desejo materno se inscreve na sua norma masculina, que n\u00e3o \u00e9 distinta&#8230; Para que ele seja um fetiche normal, \u00e9 preciso, ainda, que o desejo materno responda \u00e0 sua norma masculina, que n\u00e3o \u00e9 diferente da estrutura pr\u00f3pria \u00e0 sexua\u00e7\u00e3o feminina, que Lacan designou como o n\u00e3o-todo. O fetiche \u00e9 normal apenas quando a crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 tudo para o desejo da m\u00e3e.<\/p>\n<p>Bastaria fazer-se refer\u00eancia \u00e0 estrutura de s\u00e9rie que engendra o n\u00e3o-todo para compreender-se a raz\u00e3o fundamentalmente que d\u00e1 \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de filho \u00fanico aquilo que eu chamaria de seu car\u00e1ter aleat\u00f3rio ou dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Moderemos\u00a0\u00a0\u00a0 isso,\u00a0\u00a0\u00a0 por\u00e9m,\u00a0\u00a0\u00a0 dizendo\u00a0\u00a0\u00a0 que\u00a0\u00a0\u00a0 acontece, frequentemente, que a unicidade do filho \u00fanico \u00e9 apenas aparente e que o pai se qualifica para o t\u00edtulo de filho da esposa.<\/p>\n<p>Entretanto essa posi\u00e7\u00e3o de filho \u00fanico \u00e9, talvez, menos problem\u00e1tica do que aquela de ser, no seio de uma fraternidade numerosa, o \u00fanico filho que \u00e9 objeto da afei\u00e7\u00e3o materna. As devasta\u00e7\u00f5es subjetivas que podem decorrer dessa dile\u00e7\u00e3o materna exclusiva sobre uma crian\u00e7a repercutem muito mais do que a neglig\u00eancia da mulher que trabalha, que alguns pol\u00edticos, na Fran\u00e7a e em outros lugares, dizem ser uma grave amea\u00e7a para a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Quanto ao caso da mulher ad\u00faltera \u00e9, de regra, sobre o filho homem que reflete o sintoma do par familiar, enquanto, como pude observar, para a menina, isso \u00e9 bem mais leve de carregar.<\/p>\n<p>Para terminar, um breve retorno ao <em>Semin\u00e1rio<\/em> <em>4<\/em>. Lacan come\u00e7ou a captar a posi\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a situando-a em rela\u00e7\u00e3o ao falo, que ele ainda qualifica de objeto nesse <em>Semin\u00e1rio<\/em>, antes de tom\u00e1-lo como o significante do desejo. Nada interdita: tudo convida, ao contr\u00e1rio, a transcrever a equival\u00eancia freudiana da crian\u00e7a e do falo em termos de met\u00e1fora. (Eu abrevio) A met\u00e1fora infantil, como se pode cham\u00e1-la, pode inscrever-se como a consequ\u00eancia da met\u00e1fora paterna. E v\u00ea-se bem o quanto ela amea\u00e7a, primeiro, fazer sumir do mapa o desejo do falo no lado mulher e, segundo, fixar o sujeito a uma identifica\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, a ponto de Lacan ter podido fazer do desejo de ser o falo a f\u00f3rmula constante do desejo neur\u00f3tico.<\/p>\n<p>O que \u00e9 preciso dizer, em consequ\u00eancia, \u00e9 que a met\u00e1fora infantil do falo, ou seja, o fato de que a crian\u00e7a seja o equivalente do falo, ou que o desejo, o <em>Wunsch<\/em> de um filho, o <em>Wunsch<\/em> de p\u00eanis, diz Freud, pode ser satisfeito pela substitui\u00e7\u00e3o do desejo de um filho. O que \u00e9 preciso dizer \u00e9 que a met\u00e1fora infantil do falo s\u00f3 \u00e9 bem sucedida ao falhar. Ela s\u00f3 \u00e9 bem sucedida se n\u00e3o fixa o sujeito \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o f\u00e1lica e se, ao contr\u00e1rio, lhe d\u00e1 acesso \u00e0 significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, na modalidade da castra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, o que torna necess\u00e1rio que seja preservado o n\u00e3o-todo do desejo feminino. O Nome-do-Pai e o respeito pelo Nome-do-Pai n\u00e3o bastam; \u00e9 preciso, ainda, que seja resguardado o n\u00e3o-todo do desejo feminino e que, portanto, a met\u00e1fora infantil n\u00e3o recalque, na m\u00e3e, seu ser mulher. \u00c9 sobre esse ponto que \u00e9 preciso, com Lacan, completar Lacan.<\/p>\n<p>No seu c\u00e9lebre artigo \u201cA significa\u00e7\u00e3o do falo\u201d5, em que transcreve os estudos de Freud sobre a vida amorosa, Lacan atribui \u00e0 fun\u00e7\u00e3o masculina a diverg\u00eancia entre o amor e o desejo e, ao lado mulher, a converg\u00eancia do amor com o desejo. No entanto, ele assinala, igualmente, que a converg\u00eancia feminina \u00e9 compat\u00edvel com um desdobramento do objeto, um desdobramento do ser homem, que ela afasta da sua posi\u00e7\u00e3o de fal\u00f3foro, suscitando ou exigindo seu amor, o que implica, como efeito, fazer o homem faltar, exigir que ele d\u00ea alguma coisa que n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o completar, aqui, essa constru\u00e7\u00e3o de Lacan acrescentando, que a diverg\u00eancia&#8230; Acrescentando, no que seria a converg\u00eancia do desejo feminino, em que Lacan admite, contudo, uma esp\u00e9cie de desdobramento interno \u00e0 posi\u00e7\u00e3o do homem&#8230; Como n\u00e3o acrescentar a diverg\u00eancia que, precisamente, o amor do homem nela introduz quando ele se op\u00f5e \u00e0 intrus\u00e3o da crian\u00e7a no par conjugal? A diverg\u00eancia do desejo feminino sobre a crian\u00e7a. Portanto, \u00e9 preciso completar o que Lacan diz em \u201cA significa\u00e7\u00e3o do falo\u201d, pela considera\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a que introduz, que torna presente, uma diverg\u00eancia flagrante do desejo feminino.<\/p>\n<p>Essa diverg\u00eancia do desejo feminino sobre a crian\u00e7a \u00e9, nesse caso, motivo de ang\u00fastia para o pai, desta vez, segundo a outra f\u00f3rmula da ang\u00fastia, que relaciona o inc\u00f4modo da ang\u00fastia \u00e0 emerg\u00eancia do desejo do Outro como enigma do ser. Nessa circunst\u00e2ncia, portanto, \u00e9 o nascimento da crian\u00e7a que provoca o retorno de ang\u00fastia ao pai: \u201cQue quer ela ent\u00e3o? Quem sou eu, pois, para ela?\u201d. Um homem, eu diria, s\u00f3 se torna pai se aceitar o n\u00e3o-todo que constitui a estrutura do desejo feminino.<\/p>\n<p>Quer dizer, nesse sentido, que a fun\u00e7\u00e3o viril apenas se realiza na paternidade quando essa paternidade significa um consentimento para que essa outra seja outra, ou seja, desejo fora de si mesmo.<\/p>\n<p>A falsa paternidade, a paternidade patog\u00eanica &#8211; observamo-la no pai do presidente Schreber &#8211; a falsa paternidade \u00e9 aquela que v\u00ea o sujeito identificar-se ao Nome-do-Pai como universal do pai, para tentar constituir-se o vetor de um desejo an\u00f4nimo, para encarnar o absoluto e o abstrato da ordem.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o feliz da paternidade \u00e9 ao contr\u00e1rio, a de realizar uma media\u00e7\u00e3o entre as exig\u00eancias abstratas da ordem, o desejo an\u00f4nimo do discurso universal, de um lado, e o que decorre, para a crian\u00e7a, do particular do desejo da m\u00e3e. \u00c9 o que Lacan chegou a nomear com uma express\u00e3o que tentei, sem conseguir, at\u00e9 o presente, apreender exatamente, mas, que, agora, penso ter conseguido: \u00e9 o que ocorreu a Lacan chamar de \u201chumanizar o desejo\u201d. Ele dizia que \u00e9 preciso que o pai humanize o desejo, e creio ter compreendido e desenvolvido o que quer dizer essa express\u00e3o, cujo peso me parece evidente.<\/p>\n<p>Na impossibilidade de admitir o particular do desejo no outro sexo, o pai destr\u00f3i, na crian\u00e7a, o sujeito sob o outro do saber. Da\u00ed, o pai, o falso pai, pressiona essa crian\u00e7a, cada vez mais, a encontrar ref\u00fagio na fantasia materna, a fantasia de uma m\u00e3e negada como mulher.<\/p>\n<p>Concluo. Pude verificar, ontem, que o que se retinha das interven\u00e7\u00f5es apresentadas permanecia numa impress\u00e3o global, em que sobrenadavam um ou dois enunciados naufragados. Bem, era uma impress\u00e3o de coquetel, e os amigos com quem falei n\u00e3o me desmentir\u00e3o. Que quero ent\u00e3o, que se retenha da minha exposi\u00e7\u00e3o? Que \u00e9 bom que o desejo seja dividido, que o objeto n\u00e3o seja \u00fanico, que s\u00f3 se celebrem os olhos de Elsa para que eles n\u00e3o os vejam tramar, \u00e0 parte, com os jovens rapazes, que s\u00f3 se faz de um homem um deus para castr\u00e1-lo melhor e que isso n\u00e3o \u00e9 amar como seria conveniente.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, que o desejo n\u00e3o saberia ser an\u00f4nimo, nem universal, nem puro, nem saberia ser o desejo de \u201calgu\u00e9m\u201d, nem o de um deus, nem o do povo, se o assunto deve ser transmitido atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es. Que o desejo do analista, igualmente, por mais normatizado que seja, n\u00e3o saberia ser um desejo an\u00f4nimo, universal e puro. Obrigado.<\/p>\n<p><em>Lausanne,<\/em> <em>2<\/em> <em>de<\/em> <em>junho<\/em> <em>de<\/em> <em>1996.<\/em> <em>Segue<\/em> <em>uma<\/em> <em>interven\u00e7\u00e3o<\/em> <em>de <\/em><em>Leslie<\/em> <em>Pons<\/em>, <em>que<\/em> <em>n\u00e3o<\/em> <em>foi<\/em> <em>transcrita<\/em>, <em>e<\/em> <em>a<\/em> <em>Discuss\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><strong>Discuss\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<p><em>Fran\u00e7ois<\/em> <em>Ansermet:<\/em> Bem. Muito rapidamente, eu queria colocar uma quest\u00e3o a Jacques-Alain Miller a respeito de sua exposi\u00e7\u00e3o centrada no fato de que a crian\u00e7a preenche e divide. Na realidade eu estou me perguntando, ao ouvi-lo, nesse desenvolvimento, o que acaba por fazer que o objeto n\u00e3o seja \u00fanico, que o desejo n\u00e3o seja universal, que o desejo seja dividido, que a m\u00e3e n\u00e3o seja a m\u00e3e ideal, pois \u00e9 ela, justamente, que causa problema. O pai ideal? Todas essas figuras ideais? O que o leva, portanto, a fazer da crian\u00e7a um n\u00e3o-todo para o desejo da m\u00e3e e a assumir essa posi\u00e7\u00e3o, essa quest\u00e3o, esse desenvolvimento sobre a crian\u00e7a que preenche e divide? Eu estou me perguntando, finalmente, se isso n\u00e3o levaria a se considerar que seria poss\u00edvel atribuir \u00e0 crian\u00e7a uma certa fun\u00e7\u00e3o paterna, em todo o caso, \u00e0 ocorr\u00eancia inesperada de uma crian\u00e7a na hist\u00f3ria de um homem e de uma mulher? Ali\u00e1s, isso seria uma maneira de revisitar a frase do poeta rom\u00e2ntico ingl\u00eas Wordsworth, citada por Freud e retomada por Lacan no <em>Semin\u00e1rio<\/em> <em>17<\/em> e, mesmo, em muitos outros momentos: \u201cA crian\u00e7a \u00e9 o pai do homem\u201d. Ent\u00e3o, o que voc\u00ea pensa dessa quest\u00e3o e, fundamentalmente, dessa fun\u00e7\u00e3o paterna? \u00c9 assim que se pode compreender, tamb\u00e9m, a maneira como voc\u00ea desenvolve a met\u00e1fora infantil do falo, que s\u00f3 tem sucesso ao fracassar?<\/p>\n<p>Encontra-se, pois, nesse fracasso, uma certa fun\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>paterna?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma segunda observa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea disse que \u201cum homem s\u00f3 se<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>torna pai se aceitar o n\u00e3o-todo do desejo feminino\u201d. Isso<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>leva, efetivamente, ao \u00c9dipo, e eu gostaria de lhe propor<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>uma quest\u00e3o sobre ele. Como dizia Lacan, no Semin\u00e1rio \u201cA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>l\u00f3gica da fantasia\u201d: \u201cO navio de \u00c9dipo mant\u00e9m-se flutuando<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>sobre um oceano de gozo feminino\u201d. Foi Marie-Jean Sauret,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>com quem trabalho num cartel, que &#8211; a prop\u00f3sito deste<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>col\u00f3quio, e eu lhe retribuo, j\u00e1 que ele n\u00e3o p\u00f4de vir, mas,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>enfim, discutimos a respeito &#8211; me enviou esta cita\u00e7\u00e3o de<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan. Cito: \u201cQue oceano de gozo feminino &#8211; eu o pergunto -n\u00e3o foi preciso para que o navio de \u00c9dipo flutuasse sem afundar, at\u00e9 que a peste veio lhe mostrar, finalmente, de que era feito o mar de sua felicidade?\u201d. Da\u00ed, uma quest\u00e3o sobre o \u00c9dipo, em rela\u00e7\u00e3o ao que foi discutido[&#8230;]. Eu mesmo fazia refer\u00eancia a seu texto \u201cAl\u00e9m do \u00c9dipo\u201d, em que voc\u00ea, a partir do texto de Lacan \u201cA significa\u00e7\u00e3o do falo\u201d -ele parece dar-se conta do primado do falo sem refer\u00eancia ao \u00c9dipo -, se prop\u00f5e a quest\u00e3o de saber se a castra\u00e7\u00e3o procede do pai ou da pr\u00f3pria linguagem. Ap\u00f3s essa exposi\u00e7\u00e3o que voc\u00ea fez, ela procede da divis\u00e3o entre a crian\u00e7a que preenche e a crian\u00e7a que divide? Da pr\u00f3pria crian\u00e7a? Da crian\u00e7a como fun\u00e7\u00e3o paterna?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Jacques-Alain<\/em> <em>Miller:<\/em> Sim, bem rapidamente. Com efeito,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>desta vez, apresentei a crian\u00e7a como introduzindo uma<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>barra, introduzindo a divis\u00e3o, separando &#8211; se posso assim dizer! Estamos entre n\u00f3s. Voc\u00ea traduz isso, condensa-o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>dizendo \u201cfun\u00e7\u00e3o paterna da crian\u00e7a\u201d e jogando com o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>equ\u00edvoco da f\u00f3rmula \u201ca crian\u00e7a \u00e9 o pai do homem\u201d. Eu o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>aceito de bom grado. \u00c9 uma maneira de concentrar essas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>diferentes fun\u00e7\u00f5es. Evidentemente, \u00e9 um pouco provocante<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>dizer \u201cfun\u00e7\u00e3o paterna da crian\u00e7a\u201d; mas por que n\u00e3o? De<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>in\u00edcio, poder-se-ia afirmar que \u00e9 justamente ela que faz o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>pai e a m\u00e3e. Com efeito, ela tem o papel de&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eventualmente ela os separa. Enfim, ela os une, de um lado,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>e os separa, de outro; ela divide cada um, portanto. Muito<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>bem, tentemos fazer funcionar sua f\u00f3rmula; mas isso me<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>conv\u00e9m inteiramente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Observa\u00e7\u00f5es<\/em> <em>de<\/em> <em>Ansermet<\/em> <em>a<\/em> <em>Leslie<\/em> <em>Pons<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Jacques-Alain<\/em> <em>Miller:<\/em> Sim, eu gostaria de fazer uma<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>observa\u00e7\u00e3o sobre a exposi\u00e7\u00e3o de Leslie Pons, a de que, em<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>um dado momento, seria necess\u00e1rio repetir exatamente sua<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>f\u00f3rmula; mas, enfim, voc\u00ea evoca um gozo do qual se fala<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>pouco na psican\u00e1lise, que \u00e9 um pouco o gozo da crian\u00e7a nos bra\u00e7os da m\u00e3e e, mesmo, nos cavalos-de-pau, o gozo nos cavalos-de-pau do carrossel. Ent\u00e3o, eu gostaria de dizer alguma coisa sobre esses dois&#8230;, sobre o que voc\u00ea distingue a\u00ed. Voc\u00ea sabe, quanto o gozo nos bra\u00e7os da m\u00e3e, que \u00e9 preciso ver em que idade se observa isso. Tive, por\u00e9m, a oportunidade de observ\u00e1-lo de perto nestes \u00faltimos tempos. Penso ent\u00e3o, que o gozo nos bra\u00e7os da m\u00e3e n\u00e3o \u00e9, necessariamente, da ordem do contentamento, porque tal fato pode provocar, nos bra\u00e7os da m\u00e3e, uma f\u00faria&#8230; Vejamos, por exemplo, um epis\u00f3dio em que, verdadeiramente, h\u00e1 contentamento. Num dado momento, dirijo-me a um par formado pela m\u00e3e e a crian\u00e7a, para a menininha; esta, que dois meses antes, s\u00f3 queria passar de bra\u00e7o em bra\u00e7o, agora, ao contr\u00e1rio, com um sorriso, esconde um pouco o rosto no ombro, na clav\u00edcula da m\u00e3e, com um pequeno sorriso. E, depois, isso se repete durante todo um tempo. Assim sendo, constato, inicialmente, que esse procedimento obedece a um movimento de altern\u00e2ncia, que \u00e9, na verdade, a estrutura do <em>fort-da<\/em>, que est\u00e1 presente e \u00e9 uma estrutura perfeitamente articulada. Isso, com certeza, j\u00e1 \u00e9 uma aprendizagem; n\u00e3o se pode dizer aprendizagem da linguagem, mas j\u00e1 \u00e9 a forma principal de apari\u00e7\u00e3o e desapari\u00e7\u00e3o. E chego a suspeitar &#8211; como vim para c\u00e1, n\u00e3o pude terminar minhas observa\u00e7\u00f5es &#8211; que esteja mesmo muito ligado \u00e0 diferen\u00e7a sexual, quer dizer, \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de que essa reten\u00e7\u00e3o ocorre n\u00e3o somente com a m\u00e3e, mas tamb\u00e9m com a av\u00f3, enquanto o av\u00f4 \u00e9 colocado do outro lado. Portanto seria necess\u00e1rio observar o que se passa com o pai ou com outros&#8230;, com amigos, para saber se \u00e9 de fato, uma op\u00e7\u00e3o por aquelas que se ocupam dos cuidados materno-infantis.<\/p>\n<p>Vejo nisso, pois, ao mesmo tempo, uma altern\u00e2ncia significante, no m\u00ednimo um esbo\u00e7o de diferencia\u00e7\u00e3o dos sexos, e isso muito bem articulado. Esse \u00e9 o primeiro ponto.<\/p>\n<p>Agora, o segundo ponto concerne ao gozo nos cavalos-de-pau do carrossel. Eu mesmo tenho lembran\u00e7as disso. Gostei muito dos cavalos-de-pau e lembro-me, com efeito, em que consistia essa brincadeira. Mont\u00e1vamos nos cavalinhos-de-pau e, num dado momento, enquanto rod\u00e1vamos, pequenos an\u00e9is redondos ca\u00edam; com um bast\u00e3ozinho que nos davam dever\u00edamos, ao passar, fisgar o anel e conserv\u00e1-lo. Em seguida, um segundo anel ca\u00eda, e assim por diante. Bom, n\u00e3o vou desenvolver isso!<\/p>\n<p><em>Leslie<\/em> <em>Pons:<\/em> S\u00f3 uma palavrinha a respeito de seu \u00faltimo exemplo. Eu diria que, nesse momento em que se deve introduzir anel &#8211; com efeito, voc\u00ea n\u00e3o fala isso, mas eu compreendi bem -, isso significa que existia o aleat\u00f3rio, ou seja, que n\u00e3o dava certo todas as vezes. No entanto n\u00e3o \u00e9 desse movimento que eu falava e, sim, do movimento repetitivo.<\/p>\n<p><em>Jacques-Alain<\/em> <em>Miller:<\/em> Existem, tamb\u00e9m, os manejos ou cavalos-de-pau sem essa brincadeira, mas eu os achava muito menos interessantes.<\/p>\n<p><em>Pergunta<\/em> <em>da<\/em> <em>plateia:<\/em><\/p>\n<p>Miller, voc\u00ea fala de humanizar o desejo. Ser\u00e1 que entendi bem que voc\u00ea op\u00f5e essa humaniza\u00e7\u00e3o \u00e0 universalidade e \u00e0 idealidade?<\/p>\n<p><em>Jacques-Alain<\/em> <em>Miller:<\/em><\/p>\n<p>Lacan emprega a express\u00e3o \u201chumanizar o desejo\u201d num texto sobre Gide, se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria (\u201cFaltou a palavra que humaniza o desejo\u201d). \u00c9, sem d\u00favida, uma linguagem que Lacan n\u00e3o emprega mais nos anos seguintes, porque ele n\u00e3o tem mais este vocabul\u00e1rio. Na realidade, por\u00e9m, dei-lhe um certo peso, procurando um pouco a significa\u00e7\u00e3o que se poderia dar a essa express\u00e3o. E pareceu-me, como lhes dizia esta manh\u00e3, que se poderia dar a ela a seguinte significa\u00e7\u00e3o, relativamente satisfat\u00f3ria: fundamentalmente, o pai tem uma fun\u00e7\u00e3o de media\u00e7\u00e3o entre aquilo que, digamos, \u00e9 o desejo an\u00f4nimo da cultura &#8211; O que isso quer de n\u00f3s? Isso que se quer transmitir? Por exemplo, o saber. H\u00e1, nesse caso, a press\u00e3o de um Outro an\u00f4nimo que, quando cai de uma s\u00f3 vez ou sem media\u00e7\u00e3o sobre um sujeito, ou o esmaga, ou o faz fugir, chegando mesmo a lev\u00e1-lo a&#8230; E se o pai se identifica com essas exig\u00eancias an\u00f4nimas da cultura, pode-se dizer, eu proporia, que a crian\u00e7a se refugia, consequentemente, na fantasia da m\u00e3e, ou se v\u00ea esmagada por esse peso.<\/p>\n<p>E que a fun\u00e7\u00e3o feliz da paternidade \u00e9 a de particularizar esse universal. \u00c9 a de se permitir que se escolha, que se tome e que se deixe, que se mantenha dist\u00e2ncia&#8230; e que isso se particularize. \u00c9 a de possibilitar que isso se particularize. Como o presidente acabou de dizer, fui sint\u00e9tico e por isso, n\u00e3o pude apresentar todas as nuances e varia\u00e7\u00f5es. Penso que, com efeito, o universal nu e cru \u00e9 inteiramente alienante: aliena a verdade sempre particular do sujeito. Ao mesmo tempo, n\u00e3o se pode viver no particular; por isso h\u00e1 uma manobra&#8230; \u00c9 sum\u00e1rio utilizar os conceitos de universal e particular, mas eles s\u00e3o, de algum modo, conceitos que, todo mundo pode compreender, via uma forma\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, e, numa apresenta\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, \u00e9 o mais c\u00f4modo&#8230; \u00c9 por isso que os empreguei, e, tamb\u00e9m, porque n\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil elaborar outros.<\/p>\n<h6>Texto traduzido por Cristiana P. de Mattos, Cristina Vidigal, In\u00eas Seabra e Suzana Barroso.<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: Ana Lydia B. Santiago.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6>1\u00a0T\u00edtulo do Col\u00f3quio organizado, nos dias 01 e 02 de junho de 1996, em Lausanne, pelo Grupo de Estudos de Genebra. Traduzido ao portugu\u00eas e publicado originalmente no Brasil In: <em>Op\u00e7\u00e3o<\/em> <em>Lacaniana<\/em> <em>\u2013<\/em> <em>Revista<\/em> <em>Brasileira<\/em> <em>Internacional<\/em> <em>de<\/em> <em>Psican\u00e1lise<\/em>, n\u00ba 21. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es E\u00f3lia.<\/h6>\n<h6>2\u00a0N.T.: \u00c9 poss\u00edvel que J.-A. Miller esteja fazendo refer\u00eancia \u00e0 entrevista realizada por F. Ansermet sobre o Semin\u00e1rio -\u201cJacques-Alain Miller conversa sobre o Semin\u00e1rio com Fran\u00e7ois Ansermet\u201d -, publicado pela Navarin. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_6\/Entrevista_sobre_ o_seminario.pdf&gt;.<\/h6>\n<h6>3\u00a0LACAN, J. (1998\/1958). \u201cA significa\u00e7\u00e3o do falo. <em>D<\/em><em>i<\/em><em>e<\/em> <em>B<\/em><em>e<\/em><em>d<\/em><em>eu<\/em><em>t<\/em><em>u<\/em><em>n<\/em><em>g<\/em> <em>des<\/em> <em>Phallus<\/em>\u201d. In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.<\/h6>\n<h6>4\u00a0IDEM. (1969\/abr. 1998). \u201cDuas notas sobre a crian\u00e7a\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o<\/em> <em>Lacaniana<\/em> <em>\u2013<\/em> <em>Revista<\/em> <em>Brasileira<\/em> <em>Internacional<\/em> <em>de<\/em> <em>Psican\u00e1lise<\/em>, n\u00ba 21. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es E\u00f3lia.<\/h6>\n<h6>5\u00a0IDEM. (1998\/1958). \u201cA significa\u00e7\u00e3o do falo. <em>Di<\/em><em>e<\/em> <em>B<\/em><em>e<\/em><em>d<\/em><em>e<\/em><em>ut<\/em><em>u<\/em><em>n<\/em><em>g<\/em> <em>d<\/em><em>e<\/em><em>s<\/em> <em>Phallus<\/em>\u201d. Op. cit.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crian\u00e7a entre a mulher e a m\u00e3e1 JACQUES-ALAIN MILLER Escolhido por Fran\u00e7ois Ansermet&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[139],"tags":[],"class_list":["post-5660286","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos-de-orientacao-eixo-1"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5660286","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5660286"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5660286\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5660288,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5660286\/revisions\/5660288"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5660286"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5660286"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5660286"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}