{"id":5660277,"date":"2022-08-16T16:29:00","date_gmt":"2022-08-16T19:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/?p=5660277"},"modified":"2022-08-16T16:30:43","modified_gmt":"2022-08-16T19:30:43","slug":"familia-holofrase","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/2022\/08\/16\/familia-holofrase\/","title":{"rendered":"Fam\u00edlia Hol\u00f3frase"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"color: #333333;\">Fam\u00edlia Hol\u00f3frase<em><sup>1<\/sup><\/em><\/span><\/h3>\n<p>Boa tarde, agrade\u00e7o a Andrea Eul\u00e1lio o convite para participar das atividades do N\u00facleo Perer\u00ea e acompanhar de forma mais pr\u00f3xima a pesquisa que realiza. Um N\u00facleo muito trabalhador, do qual frequentemente temos textos na Folha dos N\u00facleos.<\/p>\n<p>Andrea me prop\u00f4s trabalhar o sintagma <em>Fam\u00edlia Hol\u00f3frase\u00a0<\/em>que \u00e9 retomado por Daniel Roy no texto que nos serve de orienta\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa pesquisa neste momento.<\/p>\n<p>Nosso tema de trabalho atual \u00e9 <em>Sobre a Sexua\u00e7\u00e3o: a crian\u00e7a e seus pais<\/em>. Se come\u00e7amos com o tema da Diferen\u00e7a sexual e dele nos deslocamos para nos aprofundarmos na pesquisa sobre a sexua\u00e7\u00e3o nas crian\u00e7as, tem sua raz\u00e3o de ser. Inicialmente, no tema da Diferen\u00e7a sexual, foi necess\u00e1rio realizar um primeiro movimento para n\u00e3o confundir diversidade sexual com diferen\u00e7a sexual, no campo da crian\u00e7a no discurso anal\u00edtico. Pelo menos n\u00e3o considera-los como equivalentes. Tamb\u00e9m foi fundamental separar Diferen\u00e7a e Sexual como tendo estatutos diferentes. O termo <em>diferen\u00e7a<\/em>, como j\u00e1 falei em outro momento, remete ao registro do simb\u00f3lico, da linguagem. \u00c9 no discurso que se estabelece a diferen\u00e7a. E o <em>sexual <\/em>da ordem do traum\u00e1tico, do real. Do que faz furo, do trou-matisme. Em outras palavras, destacar essa articula\u00e7\u00e3o sempre problem\u00e1tica entre a linguagem e o corpo. Implica como isso que \u00e9 da ordem do singular, do real, do corpo, do gozo, pode chegar a se inscrever em um dizer, em um discurso, em um sintoma ou em uma fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde este lugar, a formula\u00e7\u00e3o de Lacan com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexua\u00e7\u00e3o se torna um orientador importante, pois vai al\u00e9m da identifica\u00e7\u00e3o sexual, situa como a crian\u00e7a inventa seus modos de tratar o impacto da l\u00edngua sobre o corpo, com os recursos que tem dispon\u00edveis, e o que do regime do encontro faz fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica.<\/p>\n<p>Como apontou recentemente Jesus Santiago: \u201cse a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual remete \u00e0 ancoragem do sexual no vazio irredut\u00edvel do gozo pulsional, e se o significante tampouco \u00e9 capaz de tratar esse vazio, permanece, para n\u00f3s, a quest\u00e3o sobre o recurso aos conectores e grampos dispon\u00edveis \u00e0 pragm\u00e1tica anal\u00edtica\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Nesse sentido, a sexua\u00e7\u00e3o torna-se um campo conceitual f\u00e9rtil para o trabalho cotidiano do analista com os sintomas que envolvem o real do gozo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a orienta\u00e7\u00e3o que a proposta de Lacan sobre a Sexua\u00e7\u00e3o nos permite ter, nos aprofunda na cl\u00ednica com a crian\u00e7a e seus pais. Mas a quem chamamos de pais? A quem a crian\u00e7a situa como seus pais? Podemos dizer, isso n\u00e3o est\u00e1 dado de entrada de forma t\u00e3o clara.<\/p>\n<p><strong>A crian\u00e7a e seus pais: a fam\u00edlia hol\u00f3frase <\/strong><\/p>\n<p>Como \u00e9 uma pesquisa em andamento, \u00e9 desej\u00e1vel que tenha esse valor. Vou trazer algumas notas com rela\u00e7\u00e3o a este tema. Um tema no qual \u00e9 importante ir avan\u00e7ando.<\/p>\n<p>A ideia da fam\u00edlia hol\u00f3frase parte desse lugar; n\u00e3o se sabe muito bem o que \u00e9 pai, m\u00e3e. J\u00e1 Brousse no texto sobre o <em>Buraco Negro da diferen\u00e7a sexual<\/em>, o tinha indicado com o termo parentalidade. Daniel Roy retoma o sintagma \u201cFam\u00edlia hol\u00f3frase\u201d, n\u00e3o \u00e9 a hol\u00f3frase da crian\u00e7a, \u00e9 a fam\u00edlia mesma como hol\u00f3frase. Ele a toma da conferencia de \u00c9ric Laurent de 1991 <em>Institui\u00e7\u00e3o da fantasia, fantasias da institui\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n<p>Ao que se refere \u00c9ric Laurent ao fazer esta afirma\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Laurent se dirige aos analistas que tiveram a tend\u00eancia a pensar a fam\u00edlia como reduzida ao pai e a m\u00e3e. Ele v\u00ea nisso um problema. O que vai destacar \u00e9 o car\u00e1ter opaco da fam\u00edlia. Isto \u00e9, se hoje o que n\u00e3o fica t\u00e3o evidente \u00e9 quem \u00e9 o pai e m\u00e3e, h\u00e1 um problema em reduzi-la a pai e m\u00e3e. Dar por suposto isso \u00e9 muito problem\u00e1tico.<\/p>\n<p>Eric Laurent faz uma afirma\u00e7\u00e3o um tanto taxativa: \u201c<em>A fam\u00edlia moderna \u00e9 uma hol\u00f3frase<\/em>.\u201d Com esta afirma\u00e7\u00e3o lhe interessa destacar o car\u00e1ter \u201cextremadamente opaco e misterioso\u201d do que se chama fam\u00edlia. E \u00e9 a esse ponto de opacidade onde deve se dirigir nosso olhar, situar o que est\u00e1 em jogo.<\/p>\n<p>Sabemos que Lacan usa o termo hol\u00f3frase em diferentes momentos de seu ensino. No Semin\u00e1rio 1, com rela\u00e7\u00e3o a um questionamento sobre a origem da linguagem, no semin\u00e1rio 6, sobre a fun\u00e7\u00e3o da hol\u00f3frase, e semin\u00e1rio 11 sobre a quest\u00e3o do n\u00e3o intervalo entre os significantes para que eles operem. Lacan diz que:<\/p>\n<p><em>\u201cquando n\u00e3o h\u00e1 intervalo entre S1 e S2, quando a primeira dupla de significantes se solidifica, se hol\u00f3fraseia, temos uma s\u00e9rie de casos \u2013 ainda que, em cada um, o sujeito n\u00e3o ocupe o mesmo lugar\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n<p>Laurent aponta este \u00faltimo quando situa que Lacan se referiu \u00e0 hol\u00f3frase na psicose do Um sozinho, do FPS e da debilidade mental. Mas ele retorna a ideia de hol\u00f3frase do fen\u00f4meno isolado pelos linguistas como Guillaume, linguista e fil\u00f3logo franc\u00eas, que consiste em que todas as fun\u00e7\u00f5es sint\u00e1ticas podem ser encarnadas em uma palavra s\u00f3.<\/p>\n<p>Alexandre Stevens<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> trabalha detalhadamente a quest\u00e3o da hol\u00f3frase e nos d\u00e1 alguns elementos para pensar. H\u00e1 as l\u00ednguas holofr\u00e1sicas: por aglutina\u00e7\u00e3o ou por incorpora\u00e7\u00e3o. A aglutina\u00e7\u00e3o se refere \u00e0 estrutura das palavras, nas quais os prefixos e sufixos se ligam \u00e0 raiz para formar novos termos, lexicalizados muito complexos. O pr\u00f3prio Stevens nos d\u00e1 um exemplo: a palavra francesa: <em>injustifiable <\/em>\u2013 aglutina prefixos e sufixos de forma complexa, e eles s\u00f3 podem ser apreendidos, separados, pelo uso do h\u00edfen: in-just-if-i-able. O h\u00edfen introduz a separa\u00e7\u00e3o e destaca os elementos em jogo e sua articula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobre as l\u00ednguas holofr\u00e1sicas por incorpora\u00e7\u00e3o, se refere \u00e0 estrutura da frase na qual as fun\u00e7\u00f5es gramaticais e sem\u00e2nticas se condensam. O exemplo que o pr\u00f3prio Stevens d\u00e1 \u00e9 recolhido do trabalho de Von Humbolt a partir de sua viagem ao Brasil. Ele recolhe a palavra <em>Tuba <\/em>que pode indicar <em>seu pai<\/em>, <em>ele tem um pai <\/em>ou para <em>pai <\/em>no geral.<\/p>\n<p>\u00c9 a esta segunda via que Laurent retoma de Guillaume, mas a ideia de aglutina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m transmite a ideia de elementos n\u00e3o separados, articulados em uma palavra s\u00f3. Elementos que s\u00f3 podem ser situados com o uso do h\u00edfen.<\/p>\n<p>Entendo que Laurent faz esta proposta para sustentar que de fato a crian\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 sozinha. Que se vira com os elementos que tem em jogo e depende deles as modalidades de que algo possa se instituir, inscrever. Por isso ele vai dizer: n\u00e3o h\u00e1 crian\u00e7a sem institui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 crian\u00e7a sozinha, apesar de que se deseje como um ideal do capitalismo.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia neste sentido \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o, e h\u00e1 que estar atento a se n\u00e3o h\u00e1 uma idealiza\u00e7\u00e3o de suas formas. Por isso, vai recolher como orientador os elementos em jogo em <em>Nota sobre a crian\u00e7a<\/em>. Dando um lugar cuidadoso \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o, \u00e0 falta em jogo e ao nome. Situa, neste ponto, a fam\u00edlia em sua fun\u00e7\u00e3o de humanizar a lei do desejo; em outras palavras, que possa encarnar ou n\u00e3o um modo de tratamento efetivo do gozo. Por isso, vai de Nota ao semin\u00e1rio 22.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se trata de ler a fam\u00edlia a partir do real do gozo em jogo e de abrir um espa\u00e7o para o irredut\u00edvel do desejo. N\u00e3o o gozo reabsorv\u00edvel no grupo familiar. Quando ele situa a perspectiva da fam\u00edlia hol\u00f3frase, a situa como <strong>a condensa\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es complexas em um s\u00f3 elemento<\/strong>, sem espa\u00e7o para a \u201cparticularidade residual\u201d como ele diz.<\/p>\n<p>Por isso, a fam\u00edlia hol\u00f3frase implica que n\u00e3o h\u00e1 intervalos; os significantes pai e m\u00e3e, e crian\u00e7a n\u00e3o operam em sua fun\u00e7\u00e3o. Se retomamos um dos esquemas que Roy prop\u00f5e, ele situa justamente como dois c\u00edrculos. Em um, os significantes pai-m\u00e3e, e no outro crian\u00e7a. Na interse\u00e7\u00e3o o desejo, o vazio, o tra\u00e7o de uni\u00e3o-separa\u00e7\u00e3o que o sintoma vem alojar. Desde a\u00ed acompanho a afirma\u00e7\u00e3o de Laurent no final do seu texto: \u201ca fam\u00edlia propriamente falando s\u00f3 \u00e9 digna e respeit\u00e1vel se pode ser um lugar onde cada um possa encontrar um espa\u00e7o para sua <em>particularidade residual<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 desde a\u00ed que Roy o retoma? <\/strong><\/p>\n<p>Roy, assim como Laurent situa que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o claro o que \u00e9 fam\u00edlia. E ele vai retomar que &#8220;fam\u00edlia&#8221; n\u00e3o \u00e9 mais um significante dado de antem\u00e3o como inscrito no simb\u00f3lico, seja por filia\u00e7\u00e3o ou por alian\u00e7a. N\u00e3o que n\u00e3o exista, mas que n\u00e3o \u00e9 um significante dado de antem\u00e3o. N\u00e3o porque h\u00e1 adultos e crian\u00e7as, quer dizer que h\u00e1 fam\u00edlia no sentido que nos interessa.<\/p>\n<p>Mas o que destaca \u00e9 que h\u00e1 que ver o que faz inscri\u00e7\u00e3o. Por isso, \u00e9 interessante que vai situar outro esquema. Dois c\u00edrculos entre-cruzados. De um lado dois falasseres, do outro a crian\u00e7a, e no meio o que se imprime, o que se inscreve. Como se esse fosse o desafio ao qual precisamos estar atentos.<\/p>\n<p>Esta inscri\u00e7\u00e3o \u00e9 a parte que retorna a cada um dos <em>falasseres<\/em>, na medida em que eles fazem &#8211; ou n\u00e3o &#8211; existir a fun\u00e7\u00e3o significante da fam\u00edlia. Roy leva a suas \u00faltimas consequ\u00eancias a proposta de Laurent, partindo da opacidade. N\u00e3o s\u00f3 situar a fun\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o partir da opacidade por estrutura e de um gozo que se fixa.<\/p>\n<p>Neste ponto posso situar: se Laurent partiu da fam\u00edlia moderna, Roy traz a fam\u00edlia p\u00f3s- moderna, marcada por essa inconsist\u00eancia da inscri\u00e7\u00e3o. Eles s\u00e3o dois <em>falasseres <\/em>que fazem funcionar ou n\u00e3o o significante fam\u00edlia. Mas a fun\u00e7\u00e3o de gozo vem em primeiro plano.<\/p>\n<p>Laurent situava a problem\u00e1tica da idealiza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, dentre elas a fam\u00edlia. Inclusive a fam\u00edlia que basta a si mesma, a fam\u00edlia do um sozinho como um empuxo do discurso capitalista. Roy introduz a ideia de que \u00e9 justamente pela via da inconsist\u00eancia da fam\u00edlia p\u00f3s-moderna que penetram os discursos de ajuda aos pais, outra forma de idealiza\u00e7\u00e3o, de como deveriam ser um padre, uma madre e por tanto tamb\u00e9m para as crian\u00e7as. Gosto como ele o diz: \u00e9 por essa inconsist\u00eancia que os discursos de ajuda penetram, se precipitam (s\u2019engouffrent). \u00c9 mais sutil, n\u00e3o se imp\u00f5em, se apressam em entrar, entrando como sem op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 dali que decanta o sintagma \u201cCrian\u00e7a perfeita\u201d versus \u201ccrian\u00e7a terr\u00edvel\u201d. A oposi\u00e7\u00e3o excludente do lugar da crian\u00e7a falo e a crian\u00e7a objeto, ser de gozo. Mas sabemos, com Lacan e, especialmente, a partir do seu \u00faltimo ensino, a import\u00e2ncia desse lugar da crian\u00e7a marcada por um modo de gozo. A sexua\u00e7\u00e3o tem no seu seio esta quest\u00e3o.<\/p>\n<p>E isto reverbera no homem e na mulher, quando eles se tornam pais: \u201cEssa divis\u00e3o marca uma mulher ou um homem quando eles se tornam &#8220;pai&#8221; ou &#8220;m\u00e3e&#8221;. Ela vem \u201cexasperar\u201d em cada um deles, a tens\u00e3o entre a mais-valia que conta com o acesso a esses significantes mestres e o efeito de castra\u00e7\u00e3o que, por sua vez, \u00e9 registrado como perda, n\u00e3o como falta\u201d.<\/p>\n<p>Essa divis\u00e3o precisa ser tomada em um \u201cdizer singular\u201d, isso que \u00e9 sentido como insuport\u00e1vel e \u201cprojetado sobre a crian\u00e7a que assume os tra\u00e7os de um ser enganador e cuja presen\u00e7a custa tempo, energia, dinheiro etc.\u201d<\/p>\n<p>Neste sentido, n\u00e3o h\u00e1 lugar para um intervalo. Ser tomada, quando poss\u00edvel, em um \u201cdizer singular\u201d j\u00e1 a situa como causa de desejo e resto de gozo.<\/p>\n<p>Desde a\u00ed, entendo, Roy prop\u00f5e o h\u00edfen no t\u00edtulo de \u201cPais exasperados-crian\u00e7as terr\u00edveis\u201d para introduzir esse tra\u00e7o de uni\u00e3o-separa\u00e7\u00e3o que possibilite o sintoma e a abertura ao inconsciente a partir do qual se opera. Que tome em conta o mal-entendido que Lacan situa do qual nascemos. Nascemos mal-entendidos.<\/p>\n<p>Assim, se radicaliza: a fam\u00edlia j\u00e1 \u00e9 um modo de tratamento do gozo dos corpos falantes presentes, que n\u00e3o responde a nenhum ideal, mas que \u00e9, antes, da ordem de uma &#8220;religi\u00e3o privada&#8221;. Tamb\u00e9m quero destacar este termo que Roy nos oferece, pois me parece um verdadeiro orientador. Pensar a fam\u00edlia, a l\u00edngua que fala, como religi\u00e3o privada marca a posi\u00e7\u00e3o do analista. Trata-se de uma l\u00edngua estranha. Como diz Roy, da qual ignoramos tudo quando encontramos pais e filhos e da qual temos tudo a aprender sobre as regras que ali se aplicam, os ritos que ali se celebram, os pequenos deuses que ali reinam.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante, nesta via, pensar que cada um na fam\u00edlia fala uma l\u00edngua, e constitui uma \u201creligi\u00e3o privada\u201d como uma institui\u00e7\u00e3o. Mas, fundamentalmente, temos que aprender a l\u00edngua que ali \u00e9 falada, sua gram\u00e1tica, seu vocabul\u00e1rio, marcado pelas algaravias do mal-entendido.<\/p>\n<p>Roy coloca aqui a posi\u00e7\u00e3o do analista como mais pr\u00f3xima da crian\u00e7a, buscando decifrar os enigmas, dar conta do valor de gozo das palavras, dos atos e dos objetos que circulam, e dar a cada um a parte que lhe cabe. \u00c9 algo que se diz rapidamente, mas \u00e9 o nosso desafio a cada sess\u00e3o. E o interessante \u00e9 que neste ponto Roy introduz a fam\u00edlia hol\u00f3frase. Trata-se de descompactar &#8220;a fam\u00edlia hol\u00f3frase\u201d sem uma grade de avalia\u00e7\u00e3o ou um modelo ideal.<\/p>\n<p>Ali ele nos d\u00e1 outra orienta\u00e7\u00e3o. Implica abrir espa\u00e7o, mas tamb\u00e9m poder ler a l\u00edngua que \u00e9 falada. Poder extrair os significantes particularizados que se transmitem na l\u00edngua falada nesse tal grupo familiar. O trabalho de decifrar os enigmas em jogo nessa l\u00edngua e do gozo que se cifrou.<\/p>\n<p><strong>Vinheta <\/strong><\/p>\n<p>Estela Solano<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> tem um caso que nos permite pensar esta ideia da fam\u00edlia hol\u00f3frase proposta por Laurent. Uma fam\u00edlia onde, no pr\u00f3prio trabalho com a crian\u00e7a a quest\u00e3o do intervalo \u00e9 problem\u00e1tico.<\/p>\n<p>E de uma forma muito linda e cuidadosa situa como foi poss\u00edvel operar, visando abrir um intervalo e cifrar a l\u00edngua que ali se fala, marcado pelas algaravias do mal-entendido do qual se nasce. Tanto para a crian\u00e7a como para os pais. O caso tem muitos detalhes, mas s\u00f3 vou situar at\u00e9 esse ponto.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio \u00e9 um menino de 7 anos que chegou a ela porque tem uma fala confusa, e escreve de forma invertida. Um menino muito angustiado que se mexe o tempo todo e n\u00e3o suporta os sil\u00eancios.<\/p>\n<p>\u00c9 um menino que desenha e conta hist\u00f3rias inintelig\u00edveis com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte, doen\u00e7as e cat\u00e1strofes. Em certo momento, no in\u00edcio do tratamento, tenta escrever seu nome, mas n\u00e3o consegue e fica muito angustiado. E pergunta para a analista: ser\u00e1 a minha irm\u00e3 que est\u00e1 falando? A irm\u00e3 estava fora da sala. Diante disso, Estela responde que n\u00e3o \u00e9 a irm\u00e3 que est\u00e1 com ela, \u00e9 ele, e que ele tinha tentado escrever o seu nome. Ele acrescenta que foi a irm\u00e3 que o ensinou a falar. Ele tem um irm\u00e3o adolescente e uma irm\u00e3 mais nova, de 6 anos. Ele pergunta para a analista a idade dele e tenta escrever a idade. Por\u00e9m, escreve de forma invertida o n\u00famero 13. Ent\u00e3o, ela lhe prop\u00f5e escrever o n\u00famero 13 certinho e lhe indica que o n\u00famero 13 \u00e9 o resultado de uma soma. Da idade dele e da idade da irm\u00e3, 6 + 7 = 13.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em jogo ali? Seu lugar na fratria, seu lugar junto \u00e0 sua irm\u00e3 e, mais particularmente, seu lugar em rela\u00e7\u00e3o ao desejo da m\u00e3e. Estela indica que 6+7 vale para ele como um. Para Ant\u00f4nio, o intervalo entre 1 e 2 foi anulado. Ent\u00e3o, h\u00e1 apenas um que conta, em espelho. A proposta de uma escrita por parte da analista \u00e9 a aposta de introduzir uma outra escrita n + 1. \u00c9 a forma de encontrar os meios simb\u00f3licos a fim de chegar a uma constru\u00e7\u00e3o l\u00f3gica que permita encontrar o lugar que ele tem como menino, diferente da irm\u00e3.<\/p>\n<p>Depois deste momento come\u00e7a o per\u00edodo das hist\u00f3rias de terror, hist\u00f3rias de morte. E traz uma caixa de gizes, mas em franc\u00eas \u00e9 <em>craies<\/em>. O menino \u00e9 de origem espanhola e tinha vivido em v\u00e1rios pa\u00edses. A analista lhe indica que o nome na caixa indica um anagrama da palavra espanhola <em>raices <\/em>(ra\u00edzes). Ele responde que vai contar uma hist\u00f3ria que vem de seus av\u00f3s, e acrescenta \u201ceu te garanto que \u00e9 uma hist\u00f3ria de terror e voc\u00ea vai ficar com muito medo\u201d&#8230;\u201ceu sempre conto hist\u00f3rias assim, \u00e9 mais forte do que eu, n\u00e3o posso me impedir de pensar em coisas horr\u00edveis, \u00e0s vezes eu conto na minha cabe\u00e7a para evitar as ideias horr\u00edveis. Antes de dormir tenho ideias horr\u00edveis que me d\u00e3o muito medo e n\u00e3o me deixam dormir. Eu penso, penso e quanto mais penso mais o sono n\u00e3o vem\u201d. Com sutileza Estela indica que ali est\u00e1 a chave do seu sintoma. Ele sofre de pensamento ao ponto de impedi-lo de dormir e uma forma de tratar algo. E os temas s\u00e3o entorno do que Freud nos ensinou com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 neurose obsessiva, da paternidade, da vida e da morte.<\/p>\n<p>Uma das hist\u00f3rias de terror \u00e9: tinha um homem indo de taxi. O homem sai do taxi e sofre um acidente. O homem morre. Ele tinha 5 filhos. \u201cN\u00f3s somos 5: minha m\u00e3e, meu pai, meu irm\u00e3o, minha irm\u00e3 e eu. Depois todos morrem. \u00c9 um filme de terror, as crian\u00e7as que chegarem depois v\u00e3o ficar com muito medo\u201d. \u00c9 a hist\u00f3ria de terror, e nela a crian\u00e7a d\u00e1 a pista da morte, da morte de um homem por um acidente. Estela sabia, a partir das entrevistas com a m\u00e3e dessa morte que fazia parte da hist\u00f3ria familiar. Uma morte inscrita nas ra\u00edzes da crian\u00e7a. Mas, o interessante \u00e9 que, como ela nos apresenta o caso, \u00e9 da morte tal como se apresentou no relato da crian\u00e7a entanto <em>falasser<\/em>. Essa morte do homem \u00e9 ao mesmo tempo senten\u00e7a de morte para todos aqueles que vem da linhagem para os descendentes. Como a crian\u00e7a relata: \u201cele tem 5 filhos\u201d e anuncia \u201cmeu pai, minha m\u00e3e, meu irm\u00e3o, minha irm\u00e3 e eu\u201d. H\u00e1 alguma coisa que n\u00e3o vai bem por ali, n\u00e3o h\u00e1 intervalo, coloca os filhos e os pais na mesma categoria de filhos do homem que morreu. Quer dizer, para essa crian\u00e7a, a possibilidade de ordenar lugares, espa\u00e7os, gera\u00e7\u00f5es lhe traz dificuldades.<\/p>\n<p>E suas hist\u00f3rias indicam que a morte est\u00e1 no comando. Que depois da introdu\u00e7\u00e3o da morte n\u00e3o h\u00e1 mais nada.<\/p>\n<p>\u00c9 pela via do mal-entendido, do equ\u00edvoco da l\u00edngua que impacta o corpo, que a quest\u00e3o da morte se mostra articulada ao desejo da m\u00e3e e ao do casal parental. Neste sentido, posso situar, nos interessam palavras que deixaram no corpo um vest\u00edgio de afeto, determinando um modo singular de gozo. O sintoma atrav\u00e9s da sua interpreta\u00e7\u00e3o interv\u00e9m no circuito de repeti\u00e7\u00e3o que o impacto da l\u00edngua materna tra\u00e7ou sobre o corpo.<\/p>\n<p>Volto a Ant\u00f4nio. Ele \u00e9 uma crian\u00e7a que fala em espanhol e em franc\u00eas e em determinado momento fala em espanhol em uma de suas hist\u00f3rias que o <em>amo <\/em>(o senhor) est\u00e1 morto. E a vaca chora a morte do amo. O amo \u00e9 um <em>mago <\/em>(m\u00e1gico). Ele fala do amo, do amor da vaca pelo seu amo, que em franc\u00eas ressoa com <em>la mort<\/em>. O amor e a morte s\u00e3o homof\u00f3nicos. Assim como amor e <em>amo <\/em>(senhor). Isso est\u00e1 encadeado em sua hist\u00f3ria e configura os dados estruturais presentes antes da sua vinda ao mundo. O pai da m\u00e3e de Ant\u00f4nio ficou doente de c\u00e2ncer de estomago. Estela ressalta o <em>mago <\/em>do estomago. Por causa da doen\u00e7a do pai, a m\u00e3e se dedica a ele durante um ano at\u00e9 a sua morte. Ela diz que se o pai tivesse vivido mais tempo, ela teria morrido de esgotamento, pois chegou ao ponto de n\u00e3o comer como ele. Quando o pai morre, a filha fica gr\u00e1vida. Diante disso ela diz: \u201cFoi um acidente\u201d&#8230; \u201cN\u00e3o pude separar a tristeza pela morte do pai e a alegria de ter outro filho\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Deixo at\u00e9 aqui o caso, mas me parece interessante situar o valor de hol\u00f3frase do desejo- gozo, ali onde n\u00e3o se introduziu o h\u00edfen. O trabalho de Ant\u00f4nio visa esse decifrar seu lugar como causa do desejo e resto de um gozo. N\u00e3o corrigir uma hist\u00f3ria, mas que a partir das hist\u00f3rias que ele traz, dar um espa\u00e7o para um <em>dizer singular<\/em>, para sua <em>particularidade residual<\/em>.<\/p>\n<p>Termino com uma refer\u00eancia a um trabalho de Patricia Bozquin-Caroz<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, que a Cristina Drummond me indicou, e que me parece muito importante: Ela diz que, de fato, quando se fala da m\u00e3e numa psican\u00e1lise ou de quem a substituiu, de certa forma, faz dela irrealista, faz dela um significante que a anula na sua realidade quotidiana como m\u00e3e. Para o analista, assume o valor de um s\u00edmbolo &#8211; um s\u00edmbolo de amor, de desejo, de \u00f3dio, de deixar ir&#8230; Para Lacan, afastar a psican\u00e1lise da biografia consiste, em \u00faltima an\u00e1lise, em dar todo o alcance ao valor das palavras, aos significantes na medida em que determinam lugares ou fun\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m na medida em que afetam o corpo. A aten\u00e7\u00e3o do psicanalista, com Lacan, concentra-se no lugar que um sujeito ocupou no desejo da sua m\u00e3e, mas tamb\u00e9m nas palavras que lhe foram ditas ou que lhe foram esquecidas e que o afetaram.<\/p>\n<p>Parece que esta afirma\u00e7\u00e3o vem a dar mais peso ao que Roy formulou como os significantes particularizados que se transmitem na l\u00edngua falada nesse tal grupo familiar. Trata-se de dar todo seu alcance ao valor das palavras, aos significantes na medida que determinam fun\u00e7\u00f5es ou lugares, mas que afetam o corpo no trabalho com a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Nohem\u00ed Brown<\/h5>\n<h5>01 de setembro 2021<\/h5>\n<hr \/>\n<h5><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Texto apresentado em 01\/09\/21, por ocasi\u00e3o da atividade do N\u00facleo Perer\u00ea (MG), cedido pela autora, a quem agradecemos gentilmente, para publica\u00e7\u00e3o dos textos de Orienta\u00e7\u00e3o da II Jornada da EBP-Se\u00e7\u00e3o Nordeste.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> SANTIAGO, J<em>. in prensa<\/em><\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LAURENT, \u00c9. Instituci\u00f3n del fantasma, fantasmas de la instituci\u00f3n. In<em>: Hay un final de an\u00e1lisis con ni\u00f1os<\/em>. Buenos Aires: Colecci\u00f3n Diva, 1999, pp. 187-203.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J. Semin\u00e1rio, libro 11: Os quatro conceitos fundamentais: Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2008, p. 229.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> STEVENS, A. La hol\u00f3frase, entre psicosis y psicosom\u00e1tica. In : <em>Ornicar?, revue du Champ freudien<\/em>, no 42, juillet-septembre 1987, pp. 45-79.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> SOLANO, E. A atualidade cl\u00ednica do sintoma na neurose infantil. In: Murta, A. et al. Org. Incid\u00eancias da psican\u00e1lise na cidade. Vit\u00f3ria: EDUFES, 2004. Pp. 24-37.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Bozquin-Caroz, P. <em>Holophrases contemporaines: \u00catre m\u00e8re, et vouloir un enfant<\/em>. Dispon\u00edvel em : https:\/\/www.pipol10.eu\/2021\/06\/28\/holophrases contemporaines-etre-mere-et-vouloir-un-enfant- patricia-b-caroz\/<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fam\u00edlia Hol\u00f3frase1 Boa tarde, agrade\u00e7o a Andrea Eul\u00e1lio o convite para participar das atividades&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[139],"tags":[],"class_list":["post-5660277","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos-de-orientacao-eixo-1"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5660277","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5660277"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5660277\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5660281,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5660277\/revisions\/5660281"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5660277"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5660277"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5660277"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}