{"id":5809,"date":"2025-09-27T06:12:30","date_gmt":"2025-09-27T09:12:30","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/mg\/?p=5809"},"modified":"2025-09-27T06:17:02","modified_gmt":"2025-09-27T09:17:02","slug":"xxvii-jornada-de-carteis-da-ebp-mg-argumento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/mg\/xxvii-jornada-de-carteis-da-ebp-mg-argumento\/","title":{"rendered":"XXVII Jornada de Cart\u00e9is da EBP-MG &#8211; ARGUMENTO"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"color: #993300;\">ARGUMENTO<\/span><\/h3>\n<p>Lacan, em seu Ato de Funda\u00e7\u00e3o, postula que o trabalho de Escola seria o trabalho em cartel.\u00a0 Pautado por essa baliza, no in\u00edcio do funcionamento da Escola, a dissolu\u00e7\u00e3o de um cartel implicava na permuta\u00e7\u00e3o dos seus membros para outros cart\u00e9is. Contudo, nas Escolas da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, o trabalho \u00e9 mobilizado por uma diversidade de atividades, sendo o cartel uma delas. Algu\u00e9m pode se colocar a trabalho na Escola sem estar a trabalho em cartel, assim como as inst\u00e2ncias de dire\u00e7\u00e3o e funcionamento sustentam a permuta\u00e7\u00e3o como princ\u00edpio regulador, fora do \u00e2mbito dos cart\u00e9is. Se podemos dizer que a dissolu\u00e7\u00e3o de um cartel se descolou do princ\u00edpio da permuta\u00e7\u00e3o, como situar a dissolu\u00e7\u00e3o na atualidade do trabalho de Escola?<\/p>\n<p>A dissolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um conceito central do campo da f\u00edsica, designando um processo no qual um soluto se dispersa em um solvente para formar, ent\u00e3o, uma solu\u00e7\u00e3o. Por sua vez, no campo da qu\u00edmica, a dissolu\u00e7\u00e3o pode referir-se, por exemplo, a casos em que uma rea\u00e7\u00e3o qu\u00edmica ocorre. Ou seja, quando a a\u00e7\u00e3o do solvente no soluto produz uma nova subst\u00e2ncia. Apenas nessas condi\u00e7\u00f5es pode-se dizer que houve um fen\u00f4meno qu\u00edmico.<\/p>\n<p>Lacan faz um uso particular desse significante ao propor a dissolu\u00e7\u00e3o como solu\u00e7\u00e3o para um problema de Escola. Com a dissolu\u00e7\u00e3o, ele visa a dispers\u00e3o dos efeitos de grupo para, logo em seguida, convocar a forma\u00e7\u00e3o de novos cart\u00e9is, dispositivo que abriga em seu pr\u00f3prio funcionamento a dissolu\u00e7\u00e3o. Nesse contexto, Miller pontua que a dissolu\u00e7\u00e3o havia come\u00e7ado \u201ch\u00e1 muito tempo\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, desde quando a presen\u00e7a de Lacan se fez notar no meio psicanal\u00edtico. A partir dessa leitura, questionamos: a dissolu\u00e7\u00e3o estaria em jogo desde o come\u00e7o de um cartel? Como a dissolu\u00e7\u00e3o se coloca como uma solu\u00e7\u00e3o? E quanto ao ato de dissolver um cartel, trata-se de um encargo exclusivo do Mais-Um?<\/p>\n<p>Para pensar a estrutura l\u00f3gica implicada no ato de uma dissolu\u00e7\u00e3o, destacamos sua rela\u00e7\u00e3o com ao menos tr\u00eas elementos do processo: o tempo, a crise e o produto.<\/p>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o entre dissolu\u00e7\u00e3o e tempo nos impulsiona a questionar: quando um cartel se dissolve? Se Lacan diz que seria \u201cao final pr\u00e9-fixado de um ano, no m\u00e1ximo dois\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, isso abriria um intervalo de tempo indeterminado, em que algo pode se precipitar.<\/p>\n<p>Contudo, verificamos que, na Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais, a maior parte dos cart\u00e9is se encerra no momento em que se completam dois anos de funcionamento. Esse <em>automaton<\/em> excluiria a dimens\u00e3o interpretativa da dissolu\u00e7\u00e3o? Poder\u00edamos considerar que h\u00e1 uma temporalidade l\u00f3gica para o fim de um cartel, tal como se estabelece para formalizar o final de uma an\u00e1lise?<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre crise e dissolu\u00e7\u00e3o, partimos da hip\u00f3tese de que o cartel comporta a crise como fator de estrutura. A etimologia da palavra \u201ccrise\u201d remete a um momento cr\u00edtico, quando algo oscila e uma decis\u00e3o se imp\u00f5e. Na perspectiva da psican\u00e1lise, poder\u00edamos dizer que uma crise \u00e9 o real desencadeado, imposs\u00edvel de dominar. Miller denomina a crise como \u201co equivalente, na civiliza\u00e7\u00e3o, \u00e0queles furac\u00f5es com que a natureza vem periodicamente lembrar \u00e0 esp\u00e9cie humana sua precariedade, sua debilidade fundamental\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. No contexto de nossa investiga\u00e7\u00e3o: a dissolu\u00e7\u00e3o de um cartel \u00e9 sempre efeito de uma crise? Poder\u00edamos abordar a crise como o que, na qu\u00edmica, faz fun\u00e7\u00e3o de catalisador, ou seja, elemento que acelera a dissolu\u00e7\u00e3o, sem ser dissolvido no processo. E o mais importante: de que maneira as crises de trabalho e a pr\u00f3pria dissolu\u00e7\u00e3o podem produzir efeitos de forma\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Por fim, quanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre dissolu\u00e7\u00e3o e produto, poder\u00edamos dizer que h\u00e1 algo de insol\u00favel no dispositivo do cartel? Como nos ensina a qu\u00edmica, um precipitado \u00e9 um s\u00f3lido que se forma dentro de uma solu\u00e7\u00e3o, a partir da mistura de reagentes, e cuja caracter\u00edstica principal \u00e9 sua insolubilidade. Trata-se daquilo que se assenta ap\u00f3s o acontecimento \u201cdissolu\u00e7\u00e3o\u201d e que nos reenvia ao que resta. Lacan nos d\u00e1 a f\u00f3rmula: \u201c<em>H\u00e1-um<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Podemos pensar o produto de um cartel como o precipitado dessa \u201cdiz-solu\u00e7\u00e3o\u201d? Um produto, cuja heterogeneidade convoca uma enuncia\u00e7\u00e3o, um depositado da experi\u00eancia<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> que permite relan\u00e7ar ao trabalho?<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Miller, J-A. (1981) \u201cCinq minutes\u201d. Paris: Acte de l\u2019ECF, Actes du Forum, p.6.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> LACAN, J. (1980\/ 2010). D\u2019\u00c9colage. <em>Manual de cart\u00e9is<\/em>. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais, Scriptum, p. 14.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Miller, J-A. (2008). La crise financi\u00e8re vue par Jacques-Alain Miller. Entrevista concedida \u00e0 revista Marianne, Paris.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Lacan, J. (1971-72\/2012). <em>O Semin\u00e1rio, livro 19: \u2026 ou pior<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, p. 151.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Alberti, C. (2011). \u201cLacan homme de revues\u201d. <em>La Cause freudienne<\/em>, <em>79<\/em>, 83-87. Dispon\u00edvel em: <u>https:\/\/shs.cairn.info\/revue-la-cause-freudienne-2011-3-page-83?lang=fr<\/u><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Neste texto, Alberti refere-se aos <em>Escritos<\/em> de Lacan, dizendo que eles \u201cse dedicam a articular <em>aquilo que se deposita da experi\u00eancia<\/em>\u201d (p. 84, grifos nossos, no original: \u00ab ce qui se d\u00e9pose de l\u2019exp\u00e9rience \u00bb).<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ARGUMENTO Lacan, em seu Ato de Funda\u00e7\u00e3o, postula que o trabalho de Escola seria o trabalho em cartel.\u00a0 Pautado por essa baliza, no in\u00edcio do funcionamento da Escola, a dissolu\u00e7\u00e3o de um cartel implicava na permuta\u00e7\u00e3o dos seus membros para outros cart\u00e9is. 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